Aqui estão as minhas escolhas do que considero melhor em Poesia,Prosa Poética e Fotografia. Domingo é dia de trabalhos de minha autoria.
terça-feira, 11 de novembro de 2008
sábado, 8 de novembro de 2008
As casas
As casas habitadas são belasse parecem ainda uma casa vazia
sem a pretensão de ocupá-las
tornam-se ténues disposições
os sinais da nossa presença:
um livro
a roupa que chegou da lavandaria
por arrumar em cima da cama
o modo como toda a tarde a luz foi
entregue ao seu silêncio
Em certos dias, nem sabemos porquê
sentimo-nos estranhamente perto
daquelas coisas que buscamos muito
e continuam, no entanto, perdidas
dentro da nossa casa.
.
Autor:José Tolentino Mendonça
Autor:José Tolentino Mendonça
foto:Yust
sábado, 1 de novembro de 2008
30
Já a luz se apagou do chão do mundo,deixei de ser mortal a noite inteira;
ofensa grave a minha, que tentei
misturar-me aos duendes na floresta.
De máscara perfeita, e corpo ausente,
a todos enganei, e ninguém nunca
saberia que ainda permaneço
deste lado do tempo onde sou gente.
Não fora o gesto humano de querer-te
como quem, tendo sede, vê na água
o reflexo da mão que a oferece,
seria folha de árvore ou sério gnomo
absorto no silêncio de uma rima
onde a morte cessasse para sempre.
Autor:António Franco Alexandre
In:Duende
Foto:jimij
terça-feira, 28 de outubro de 2008
Quero-te

Quero-te
no secreto segredo de dizer-te
na asa da brisa repousada
no fulgor deste sol
no arrepio da água na levada
no sobressalto da pedra na falésia
no silêncio dos cumes
na claridade das madrugadas brancas
no respirar nocturno das ruelas
no calor do vinho a perfumar a boca
na solidão das mãos
na fímbria do desejo
(quero-te assim
longínquo e doce
terno e ausente)
só posso desejar-te nas palavras.
.
Autor:Maria Aurora Carvalho Homem
Autor:Maria Aurora Carvalho Homem
Foto:Antropina
domingo, 26 de outubro de 2008
Pergunta-me

Pergunta-me
se ainda és o meu fogo
se acendes ainda
o minuto de cinza
se despertas
a ave magoada
que se queda
na árvore do meu sangue
Pergunta-me
se o vento não traz nada
se o vento tudo arrasta
se na quietude do lago
repousaram a fúria
e o tropel de mil cavalos
Pergunta-me
se te voltei a encontrar
de todas as vezes que me detive
junto das pontes enevoadas
e se eras tu
quem eu via
na infinita dispersão do meu ser
se eras tu
que reunias pedaços do meu poema
reconstruindo
a folha rasgada
na minha mão descrente
Qualquer coisa
pergunta-me qualquer coisa
uma tolice
um mistério indecifrável
simplesmente
para que eu saiba
que queres ainda saber
para que mesmo sem te responder
saibas o que te quero dizer
se ainda és o meu fogo
se acendes ainda
o minuto de cinza
se despertas
a ave magoada
que se queda
na árvore do meu sangue
Pergunta-me
se o vento não traz nada
se o vento tudo arrasta
se na quietude do lago
repousaram a fúria
e o tropel de mil cavalos
Pergunta-me
se te voltei a encontrar
de todas as vezes que me detive
junto das pontes enevoadas
e se eras tu
quem eu via
na infinita dispersão do meu ser
se eras tu
que reunias pedaços do meu poema
reconstruindo
a folha rasgada
na minha mão descrente
Qualquer coisa
pergunta-me qualquer coisa
uma tolice
um mistério indecifrável
simplesmente
para que eu saiba
que queres ainda saber
para que mesmo sem te responder
saibas o que te quero dizer
Autor:Mia Couto
Foto:KxxG
sexta-feira, 24 de outubro de 2008
Para ti...

"Tu e não eu, se encarregará da tarefa de destruir tudo o que vivemos, de acordo com a lei do excesso que é a única que compreendes: tudo ou nada, verdade ou mentira, amor ou ódio.
Tu odiar-me-ás e eu nada poderei fazer, senão sofrer o teu ódio em silêncio, sofrê-lo na carne, como açoites, dilacerando o meu corpo que foi teu tantas vezes, como nunca foi de mais ninguém.
Assim vou vivedo sem ti e sem procurar saber de ti. Mas sei de mim, sei do imenso vazio da tua falta, que nada preenche nem faz esquecer."
Tu odiar-me-ás e eu nada poderei fazer, senão sofrer o teu ódio em silêncio, sofrê-lo na carne, como açoites, dilacerando o meu corpo que foi teu tantas vezes, como nunca foi de mais ninguém.
Assim vou vivedo sem ti e sem procurar saber de ti. Mas sei de mim, sei do imenso vazio da tua falta, que nada preenche nem faz esquecer."
.
Autor :Miguel Sousa Tavares, Não te deixarei morrer David Crockett
Autor :Miguel Sousa Tavares, Não te deixarei morrer David Crockett
Foto:_-_Eau_-_
terça-feira, 21 de outubro de 2008
quarta-feira, 15 de outubro de 2008
Se eu nao te amar mais
Se eu não te amar mais meCaia o mar nos ombros
Me caia
Este silêncio pelos ossos dentro
Me cegue os olhos esta sombra
Me cerre
Esta noite num escuro mais profundo
Do que a chuva de ti de mãos tão leves
A figueira do meu sangue se emudeça
De pássaros à espera dos teus passos
De outra voz por sobre a minha
Morta
E as ruas do teu corpo eu desaprenda
Como desaprendi os dedos que em tocam
E se eu não te amar mais me caia a casa
De costa no teu peito como o vento
.
Autor:António Lobo AntunesFoto:Artur77
terça-feira, 14 de outubro de 2008
"
"E de novo acredito que nada do que é importante se perde verdadeiramente. Apenas nos iludimos, julgando ser donos das coisas, dos instantes e dos outros. Comigo caminham todos os mortos que amei, todos os amigos que se afastaram, todos os dias felizes que se apagaram.Não perdi nada, apenas a ilusão de que tudo podia ser meu para sempre..
autor:Miguel Sousa Tavares
segunda-feira, 13 de outubro de 2008
As palavras em trânsito

Resvalas neste sopro.
Sabes
que tens o olhar ferido
desde sempre, que o incêndio
das palavras em trânsito celebra
prescritas sílabas, ancorados
ritos, desprevenidos
equinócios.
Dantes, havia um mar crispado
na fissura dos lábios.
Hoje, apenas
algumas gotas de sal.
.Autor:Albano Martins
in:O Mesmo Nome(1996)
Foto:Natália Strag
domingo, 12 de outubro de 2008
Poema da despedida
Não saberei nuncadizer adeus
Afinal,
só os mortos sabem morrer
Resta ainda tudo,
só nós não podemos ser
Talvez o amor,
neste tempo,
seja ainda cedo
Não é este sossego
que eu queria,
este exílio de tudo,
esta solidão de todos
Agora
não resta de mim
o que seja meu
e quando tento
o magro invento de um sonho
todo o inferno me vem à boca
Nenhuma palavra
alcança o mundo, eu sei
Ainda assim,
escrevo
.
Autor:Mia Couto
Foto: BoroG
sábado, 11 de outubro de 2008
A Casa Quieta

"Quero acreditar que já não estarias em casa por alturas em que cheguei mas não sei dizer. A verdade é que não te procurei. Mais uma vez. Penso que fiz as coisas do costume, penso hoje quando penso nisso que fiz as coisas do costume, terei deixado o sobretudo ao acaso, abri o frigorífico fechei abri uma outra vez, sem saber bem o que procuro, acontece-me quase sempre. As coisas do costume. Vagueei sem saber bem, o sobretudo caído alguém há-de arrumar, tu tratas disso. Do frigorífico abro fecho abro outra vez, quero pouco, não sei que quero, deixei de beber prometi-te acho que te prometi, não sei que beba."
Autor:-Rodrigo Guedes de Carvalho
Excerto :A Casa Quieta
Foto:Mabar
sexta-feira, 10 de outubro de 2008
sentei-me
terça-feira, 7 de outubro de 2008
são
São duas e tal da madrugada e tenho medoTu já não estás comigo.
Hoje deito-me só.
Levanto-me só
Quero dormir não consigo, sinto a falta de ti na distância do meu abraço.
Tu sabes que gosto de te sentir.
Descansar a minha mão em ti
Beijar-te pela madrugada enquanto dormes sorrindo.
Olhar-te
Tu sabes e já não estás.
E sinto frio o teu lado da cama
E sinto esta cama tão grande sem ti.
E tu não estás!
E eu amo-te.
É mais forte que eu.
Este sentir amordaçado…
.
Autor: joão marinheiro
Foto:Paulo César http://www.paulocesar.eu/ - paulo cesar
segunda-feira, 6 de outubro de 2008
...
domingo, 5 de outubro de 2008
Nas minhas mãos...
Nas minhas mãosDeslizo no teu corpo...
As minhas mãos trémulas.
Percorro as linhas
De uma escultura perfeita,
E no suor da tua pele
Perco o medo de sentir.
Um momento único
De cada segundo que passa!
Nos meus dedos
Levo a inocência,
De um amor banido
Que se oculta,
Na textura do prazer
O estado natural do inconsciente.
Deslizo no teu corpo...
As minhas mãos pertencentes
Das sensações deslumbrantes,
Que a minha boca cala
Num beijo único.
Dois corpos despidos
Que se enaltecem de formosura
Nas minhas mãos...
.
Autor: Conceição Bernardino
Em "Alma Poética"
Página 19
Autor: Conceição Bernardino
Em "Alma Poética"
Página 19
Foto:Konradluczenczyk
.
.
sábado, 4 de outubro de 2008
Noite
Eu vivonos bairros escuros do mundo
sem luz nem vida.
Vou pelas ruas
às apalpadelas
encostado aos meus informes sonhos
tropeçando na escravidão
ao meu desejo de ser.
São bairros de escravos
mundos de miséria
bairros escuros.
Onde as vontades se diluíram
e os homens se confundiram
com as coisas.
Ando aos trambolhões
pelas ruas sem luz
desconhecidas
pejadas de mística e terror
de braço dado com fantasmas.
Também a noite é escura.
Autor:Agostinho Neto
Foto: bornslippy
domingo, 28 de setembro de 2008
Perdão
Peço perdão à vida,
Por não saber viver.
Peço perdão ao amor,
Por amar sem querer.
Peço perdão ao mundo,
Por não saber nele viver.
Peço perdão aos Deuses,
Por não saber lhes compreender.
Peço perdão à vida,
Por ter vontade de morrer.
Peço perdão a tudo,
Por nada ser.
Peço perdão,
E só perdão,
Por ser um tolo,
E nada na vida entender.
Autor:Átila Siqueira.http://atilasiqueira.blogspot.com/
Foto:Paulo Madeira
Paulo Madeira - www.paulomadeira.net
sábado, 27 de setembro de 2008
Lençois de Algas
Na água que acaricia
Teu corpo
Que te inunda e permanece
Por breves instantes
Em ritmos cadenciados
Sonho-te
Nas areias derramadas
Cálidas como
Este amor pagão
Cheio de sal e mar
Sonho-te
Neste golpear de horizontes
Em que me arrebato
Em barcos de papel
Onde navego nos ósculos
Carregados de doçura
Sonho-te
Meu segredo
Camuflado numa melodia
Tão intangível
Tão perfeita e completa
Que ninguém a conseguirá tocar
Sonho-te
Entorpeço
Tombo
Soergo-me
E adormeço
Para voltar a sonhar-te....
.
Autor:© Piedade Araújo Sol
Poiesis
Volume XV-Editora Minerva
Pág.195
Foto:amku
sexta-feira, 26 de setembro de 2008
quarta-feira, 17 de setembro de 2008
Memória

é de ti que eu falo
hoje
quando todos os pássaros emigram do Outono
para as cidades destruídas
quando os olhos marítimos de conhecerem as margens
do sul se fecham devagar
é de ti que eu falo.
Lembras-te?
era Janeiro e eu vinha do norte.
a casa vermelha tinha janelas azuis e à volta
um tempo de vinhas e canções longínquas.
estávamos sós.
Lembras-te?
então o pai atravessava o cais
a paravam os estios da ilha
o ventos do atlântico queimavam os lábios
e le dizia:
cesce filho corre filho
pra onde irei para onde?
e ele dizia:
aí há barcos barcos
ehavia barcos barcos.
Lembras-te?
Autor :José Agostinho Baptista
Desde lado onde - 1976
Foto:Miara Jakub
domingo, 7 de setembro de 2008
a casa onde às vezes regresso
a casa onde ás vezes regresso é tão distanteda que deixei pela manhã
no mundo
a água tomou o lugar de tudo
reúno baldes, estes vasos guardados
mas chove sem parar há muitos
.
durmo no mar, durmo ao lado de meu pai
uma viagem se deu
entre as mãos e o furor
uma viagem se deu: a noite abate-se fechada
sobre o corpo
uma viagem se deu
entre as mãos e o furor
uma viagem se deu: a noite abate-se fechada
sobre o corpo
.
tivesse ainda tempo e entregava-te
o coração
o coração
.
Autor:José Tolentino Mendonça
Foto:Stefers
Foto:Stefers
sexta-feira, 5 de setembro de 2008
sem nome
Eu a esperar-te. O tempo a passar lento. Demoramos. As mesas vazias. O café vazio. Eu a esperar-te. Eu a imaginar-te. Tu a chegares. Tu a chegares. Tu a caminhares. Tu a sorrires. Tu a murmurares. Desculpa – estou atrasada! O tempo a começar a andar. Tu a ficares próxima. Eu a admirar-te. Tu a sorrires. Espécie de sol na minha vida. Eu a olhar-te. O tempo a andar mais depressa. Eu a querer-te. Tu nem por isso. O sol nos teus olhos. Eu a querer apanhar o sol. Tu quase a partires. O tempo a correr. Tu a saíres pela porta. Eu parado. O tempo que voa agora. Foste embora de novo. Eu a tropeçar na saudade. O sol a esconder-se. Eu a descer a rua ao contrário. Tu para norte. Eu para sul. Eu a querer-te. Tu nem por isso. Eu num café numa cidade qualquer. Uma mesa qualquer. Uma chávena vazia. A mesa vazia. Eu vazio. Um vazio imenso. Um silêncio imenso. Eu vazio de ti. Eu a esperar-te de novo. O tempo a passar lento outra vez. Eu a perder a vez. O sol a ir também. A noite em mim. O silêncio que chega. Eu a esperar-te ainda. A não dizer que te amo. O amor adiado. Eu a querer-te. Tu nem por isso..
Autor:João marinheiro 02/08/08
Autor:João marinheiro 02/08/08
Foto:Wilktors
segunda-feira, 1 de setembro de 2008
ah, sobre ausência escrevi isso:
a distância não te separa nem a ausência
nem o silêncio
porque me mandas estrelas
sóis de outros sistemas
e beijos azuis molhados
porque sinto tuas gotas de orvalho
como se de repente
me transformasse
sem amarílis, orquídea, miosótis
ou em qualquer flor
que exale aroma
também azul(não sei nome de flor azul)porque me recrias dos cincos elementos
presentes em tuas palavra
se carregando um sexto sentido
já te pressinto em mim
homem azul.
homem azul.
(foi escrito para um poeta)
Autor:Pavitra
http://metamorfraseando.blogspot.com/Autor:Pavitra
Foto:J.P.Sousa
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