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terça-feira, 18 de junho de 2024

vamos embebedarmo-nos e fugir para o teu corpo

 


vamos embebedarmo-nos e fugir para o teu corpo
na primavera mentem-se os invernos no eterno verão

levo a adolescência que perdemos dentro à tua boca
vamos subir as árvores um do outro e
meter todos os invernos no corpo eterno verão

vamos absolutos para o nu de Deus
trago nos bolsos tempo para nenhum nós
e vinte mil adiadas erecções

vamos rasgar ruas onde havia mãos
e esconder outonos nos fundos das pernas
caber o segredo que não sabemos nós
a natureza segunda das folhas
e o nome nu de todas as estações

vamos soltar cobras onde havia medo
e matar os dias só duas palavras

mas agora vamos bebermo-nos de ti
e fugir para o corpo bem fora de nós

Autor : Pedro Sena-Lino
Imagem :Tina Sosna 

sábado, 13 de março de 2021

deram-me um espelho onde me queimei


deram-me um espelho onde me queimei
integral e semente
 
atravessava vultos corredores do tempo
mas só a sede me vivia

a criança que corre pelo outono
só deseja a morte
gosto de areia é a memória
vai cegando de coisas irreais
famílias de divisas actos de passagem

um rosto devorado pelas invasões
com a sede a diluir-lhe o corpo
cadáver absoluto nas vizinhanças da
dor que Deus doía

Autor : Pedro Sena-Lino In "deste lado da morte ninguém responde",
Imagem : Brian Oldham

quinta-feira, 3 de setembro de 2020

podes levar os dias que trouxeste


os pássaros soterraram agosto

e sem lugar um homem cega pela janela

o mar que jura ter tocado com o sangue
podia ter sido o amor se não tivesse vindo


tão directamente da sede

um duplo rosto de enganos e os braços

que saíram desertos
o eco da morte reverbera na pele
com que vejo a tua ausência encher as ruas
um choro de papel cai pela terra
e nunca foi tão tarde ser depois

daqui onde o grito surdo incendeia


a refutação da madrugada

donde o crânio esmaga o coração

um homem corta pela janela
a própria certeza de ter sido

não   é tarde demais para uma manhã


que foi a enterrar em tantas noites

as escadas morreram de sede


a terra caiu em nunca

podes levar os dias que trouxeste

Autor : Pedro Sena-Lino
Imagem: Katerina Plotrikova

sábado, 11 de janeiro de 2020

circular de adeus

[circular de adeus]

[dez de janeiro. só o silêncio responde]


não sei se alguma vez viste
crescer a morte sobre um corpo 
é como uma infância
de que se desconhecem os modos 
ou o lento estalar de um vidro 
são como imagens as imagens
partidas esse abandono de partir 
o que em água viram os olhos 

por esse lençol subido de silêncio
sobe nu de tempo um homem 
com mãos devagar de luz 
a morte cresce com ele 
é o seu corpo que poderá ser 
a palavra.

Autor : © Pedro Sena-Lino
Extraído de: deste lado da morte ninguém responde
Quasi, 2005
Imagem : Hossein Zare

terça-feira, 21 de maio de 2019

.

Roberto Liang

A árvore abriu-te os braços e eu despi-te
o verde como se eu fosse a mão do outono
e dei-te o suco branco da inquietude
e amor como palavra fome.
Deixa que o verbo rebente
como tu dentro do eu língua de terra gramática de onda
nascemos da espuma de uma frase

Autor : Pedro Sena-Lino

terça-feira, 20 de junho de 2017

um dia

Victor Bauer Art

um dia a noite há-de dizer-te
como o amor escrevia no meu corpo

lá fora o meu desejo assassina o mundo
a noite não existe porque a deixaste
no movimento de pedra dos meus braços

daqui onde estou quem te era
não se vê nada do amor

Autor:Pedro Sena-Lino
zona de perda livro de albas
objecto cardíaco, 2006


quarta-feira, 12 de agosto de 2015

podes levar os dias que trouxeste

Artem Yankovsky

podes levar os dias que trouxeste
os pássaros soterraram agosto
e sem lugar um homem cega pela janela
o mar que jura ter tocado com o sangue

podia ter sido o amor se não tivesse vindo
tão directamente da sede
um duplo rosto de enganos e os braços
que saíram desertos
o eco da morte reverbera na pele
com que vejo a tua ausência encher as ruas
um choro de papel cai pela terra
e nunca foi tão tarde ser depois

daqui onde o grito surdo incendeia
a refutação da madrugada
donde o crânio esmaga o coração
um homem corta pela janela
a própria certeza de ter sido

não é tarde demais para uma manhã
que foi a enterrar em tantas noites

as escadas morreram de sede
a terra caiu em nunca

podes levar os dias que trouxeste

Autor : Pedro Sena-Lino

terça-feira, 14 de abril de 2015

Chegaste


chegaste donde o medo tecia os meus cabelos
donde os pássaros ardiam a voz
donde só o silêncio se desconhecia
era tão larga a morte
que não se podia ver dos meus olhos

chegaste quando o fim sangrava dos meus braços
a casa soterrou-me dos teus passos
terra de mim todo
chegaste pelo coração de água da noite
quando o mistério escorre em grito pelos telhados
e Deus se desabita

chegaste tão de dentro de mim mesmo
que agora que a morte me nasce na garganta
a noite e o meu rosto são alguém
que eu próprio desconheço

Autor : Pedro Sena-Lino