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sexta-feira, 1 de maio de 2015

O vermelho e o trigo




No fundo da terra há sempre
Um húmus insuspeito, uma semente, uma promessa...

Talvez um parto...

Talvez um grito,
Ou uma dor por abrir...

Talvez uma tensão na hora de soltar-se...

Há sempre na noite
Um dia imprevisível, uma esperança calada...

Há sempre uma morte que se faz vida...

Há sempre o vermelho e o trigo...

Sabe-se lá quando pode explodir uma flor...

Autor : heretico
In : http://relogiodependulo.blogspot.pt/

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Como se mágoa fora!...

Ricardo Fernandez Ortega

Desfolho a pétala
Que o vaivém da onda
Nega como se fora
E não fora...

Sorvo o vento
No búzio do tempo
Glória sem eco
Que me devora...

Alinho ternura
No arco sem volta
De qualquer procura...

Denso perfume
Que se acende em lume
Na ilusão de ser…

Ausência rola
Como se mágoa fora
Fingindo não ser...


Autor : Herético 2010-11-14
http://relogiodependulo.blogspot.pt/

domingo, 12 de janeiro de 2014

Vôo de Tejo sem asas



Vôo de Tejo sem asas. Nem de velas.
Nem de partidas. Ou de mil desmedidas
Chegadas...

É de névoa o horizonte em que me despenho...

Ousamos o que sabemos nos passos
Que não damos. E ficamos...

Não mais Pirâmedes
Corroídas. Areias do deserto.
Vento suão de mil enganos.
Não mais Nilos...

Quem de Helena, tróias?!
Quem tece o rosto de Penélope
Em meus dedos?
Que romanos, que glórias?
Que Cervantes? que mistérios?
Que Machados? que Castelas?
Que sêdes de mil anos?

Torrentes de água pura
Nerudas. Índios. Neves de montanhas.
Meu sangue fervendo no gelo das estepes...

Quem me arde nesta dor?
Que sal? Que mar? Que guindastes? Que pimentas?
Que Bandarras? Que poetas?
Que Vieiras?

Camões de luto. Jangadas. Capelas imperfeitas
e Pessoa no proscénio...

não mais heróis
não mais ilhas
nem míticas profecias...

E no entanto este Povo
Este olhar desamparado que queima em cada gesto

E este fado. E este fardo...

domingo, 18 de setembro de 2011

Palavra inóspita

Talvez o caos seja apenas a rosácea

Antes do fogo que os dedos tecem no cinzel
E a pedra a absurda permanência da forma
Em si fechada...


Talvez a poalha do tempo fecunde novas cidades
E as ínfimas coisas se ordenem e expludam
Como corolas em delírios de cristal...


Talvez a vontade dos homens seja excesso
E rasgue as veias das galáxias
E o surdo rugir do mundo inunde a consciência
Dos escravos...


Talvez a Palavra seja inóspita
E os hinos sejam derrocada das muralhas...
.
Autor : Heretico  http://relogiodependulo.blogspot.com/
Foto: Paddinka

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Poema Furtivo


Desdobra-se a tela
E o rosto
São os semicerrados olhos...
.
E água o gesto puro
Das linhas
Decifradas...


(A cor. Não desejo
Ainda…)
Os tons breves e o silêncio


Que apenas os gestos
Gritam.


E a pele abrindo-se…


(A sede.
Não ainda
Arde...)

Desnuda-se o olhar
Lento.
Amacia-se o corpo…

(Cor e gesto
Ainda... )
E o fogo agora

Entrelaçando-se na forma
Adivinhada…

Volátil espera
De lume e água.
Furtivo sonho...


Caligrafia do Desejo...

.
Foto: konradkkk

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Tempo de Vésperas...



busco antigos sinais e exorcizo o tempo
e as entranhas da palavra que soltam o grito
e a noite com seu manto estrelado...

calam-se os nomes que soletro!...

bem sei que o galo canta noutro ritmo
que (me) dizem diurno - apenas adornos coloridos
e um céu estranho...

a alvorada não lhe pertence
nem decifra as cores
nem a mágica poção
nem o cálice
que erguemos...

deixo assim que o tempo vadio
traga o regresso - que em delírio expio!
e recolho as vestes
para em esperança nua
beber a hora (in)certa!