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quarta-feira, 2 de março de 2022

As casas vieram de noite


As casas vieram de noite
De manhã são casas
À noite estendem os braços para o alto
fumegam vão partir

Fecham os olhos
percorrem grandes distâncias
como nuvens ou navios

As casas fluem de noite
sob a maré dos rios

São altamente mais dóceis
que as crianças
Dentro do estuque se fecham
pensativas

Tentam falar bem claro
no silêncio
com sua voz de telhas inclinadas

Autor  Luiza Neto Jorge

quarta-feira, 2 de outubro de 2019

Acordar na Rua do Mundo

madrugada, passos soltos de gente que saiu
com destino certo e sem destino aos tombos
no meu quarto cai o som depois
a luz. ninguém sabe o que vai
por esse mundo. que dia é hoje?
soa o sino sólido as horas. os pombos
alisam as penas, no meu quarto cai o pó.

um cano rebentou junto ao passeio.
um pombo morto foi na enxurrada
junto com as folhas dum jornal já lido.
impera o declive
um carro foi-se abaixo
portas duplas fecham
no ovo do sono a nossa gema.

sirenes e buzinas, ainda ninguém via satélite
sabe ao certo o que aconteceu, estragou-se o alarme
da joalharia, os lençóis na corda
abanam os prédios, pombos debicam

o azul dos azulejos, assoma à janela
quem acordou. o alarme não pára o sangue
desavém-se. não veio via satélite a querida imagem o vídeo
não gravou

e duma varanda um pingo cai
de um vaso salpicando o fato do bancário

Autor: Luiza Neto Jorge, in 'A Lume'
Imagem : paolo barzman

quarta-feira, 18 de setembro de 2019

“O Poema ensina a cair”



O poema ensina a cair
sobre os vários solos
desde perder o chão repentino sob os pés
como se perde os sentidos numa
queda de amor, ao encontro
do cabo onde a terra abate e
a fecunda ausência excede

até à queda vinda
da lenta volúpia de cair,
quando a face atinge o solo
numa curva delgada e subtil
uma vénia a ninguém de especial
ou especialmente a nós numa homenagem
póstuma.

Autor : Luiza Neto Jorge
Imagem : Igor Morski

sexta-feira, 28 de junho de 2019

Epitáfio

Brooke Shadenn.
.
Querida vida.
Pobre pó.
Tão pó a pó.
Após, a pó.

Autor : Luiza Neto Jorge
em Poesia, Lisboa: Assírio & Alvim, 2ª edição, 2001, p. 288.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Encantatória

Lora Zombie

Custa é saber
como se invoca o ser
que assiste à escrita,
como se afina a má-
quina que a dita,
como no cárcere
nu se evita,
emparedado, a lá-
grima soltar.

Custa é saber
como se emenda morte,
ou se a desvia,
como a tecla certa arreda
do branco suporte
a porcaria.

Autor :-Luiza Neto Jorge
em revista Colóquio|Letras, número 78, Março de 1984, p. 77.



sexta-feira, 3 de agosto de 2018

Epitáfio

Foto:Marcela Bolivar

Querida vida.
Pobre pó.
Tão pó a pó.
Após, a pó.

Autor : Luiza Neto Jorge
em Poesia, Lisboa: Assírio & Alvim, 2ª edição, 2001, p. 288.

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

O poema ensina a cair

Diggie Vitt

O poema ensina a cair
sobre os vários solos
desde perder o chão repentino sob os pés
como se perde os sentidos numa
queda de amor, ao encontro
do cabo onde a terra abate e
a fecunda ausência excede
até à queda vinda
da lenta volúptia de cair,
quando a face atinge o solo
numa curva delgada subtil
uma vénia a ninguém de especial
ou especialmente a nós uma homenagem
póstuma.

Autor : Luiza Neto Jorge

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Venho de dentro, abriu-se a porta ...

Karen Hollingsworth

Venho de dentro, abriu-se a porta:
nem todas as horas do dia e da noite
me darão para olhar de nascente
a poente e pelo meio as ilhas.

Há um jogo de relâmpagos sobre o mundo
de só imaginá-la a luz fulmina-me,
na outra face ainda é sombra

Banhos de sol
nas primeiras areias da manhã
Mansidões na pele e do labirinto só
a convulsa circunvolução do corpo.

Autor : Luísa Neto Jorge
In A Lume - Poesia