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sexta-feira, 11 de outubro de 2024

A rosa branca

Isto é a terra?
Então não sou daqui
Quem és tu na janela acesa,
agora à sombra
das folhas trêmulas do viburno?
Podes sobreviver onde não vou durar
Além do próximo verão?
A noite inteira os galhos esguios da árvore
movem-se e sussurram à janela iluminada.

Explica a minha vida,
tu que não fazes sinal algum,
embora eu chame por ti na noite:
não sou como tu, tenho apenas
meu corpo como voz; não posso
desaparecer no silêncio —
E na manhã fria
sobre a superfície escura da terra
vagueiam ecos da minha voz,
brancura que firme se consome em escuridão
como se finalmente fizesses um sinal
para me convencer de que também
não pudeste sobreviver aqui
ou para me mostrar que não és
a luz que chamei
mas o breu atrás dela.

Autor : Louise Glück — tradução de Maria Lúcia Milléo Martins
Imagem : Alexei Antonov

sexta-feira, 29 de julho de 2022

Flores Silvestres


 O que estão dizendo? Que querem
vida eterna? Seus pensamentos são mesmo
tão arrebatadores assim? Com certeza
não olham para nós, não nos ouvem,
em sua pele mancha de sol, pó
de botões-de-ouro: estou falando
com vocês, vocês que olham fixamente
por entre os talos de grama alta agitando
o pequeno guizo — Ó alma! alma! Basta
olhar para dentro? Desdém
pela humanidade é uma coisa,
mas por que desprezar o vasto campo,
seu olhar elevando-se acima das nítidas cabeças
dos botões-de-ouro silvestres em direção a quê?
Sua pobre ideia de céu: ausência
de mudança. Melhor que a terra? Como
saberiam, se não estão nem
aqui nem lá, eretas entre nós?

Autor :Louise Glück 
tradução de Maria Lúcia Milléo Martins

quarta-feira, 29 de junho de 2022

O lírio prateado

 

As noites ficaram frias de novo, como as noites
de começo de primavera, e quietas de novo.
Será que a conversa te incomoda? Estamos
sozinhos agora; não temos razão para silêncio.
Vês, sobre o jardim — a lua cheia nasce.
Não verei a próxima lua cheia.
Na primavera, quando a lua nascia, significava
que o tempo era infinito. Anêmonas
abriam e fechavam, as sementes
em cachos caíam dos bordos em pálidas lufadas.
Branco sobre branco, a lua nascia sobre o vidoeiro.
E no arco em que a árvore se divide,
folhas dos primeiros narcisos, ao luar
prata-verde-claras.
Juntos, chegamos
perto demais do fim para agora
temermos o fim.
Nessas noites, não estou nem mesmo certa
de que sei o que significa o fim.
E tu, que estiveste com um homem —
depois dos primeiros gritos,
não faz a alegria, como o medo,
barulho algum?

Autor :Louise Glück
tradução de Maria Lúcia Milléo Martins

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2022

Violetas


Porque em nosso mundo
alguma coisa sempre escondida,
pequena e branca,
pequena e o que chamas
pura, não lamentamos
como lamentas, caro
mestre sofredor; tu
não está mais perdido
do que nós, sob
o pilriteiro, o pilriteiro que sustenta
harmônicas bandejas de pérolas: o que
te trouxe entre nós
que te ensinaríamos, embora
ajoelhes e chores,
juntando tuas grandes mãos,
em toda a tua grandeza nada
sabendo da natureza da alma,
que nunca há de morrer: pobre deus triste,
ou nunca tiveste uma
ou nunca perdeste uma.
 .
Louise Glück — tradução de Maria Lúcia Milléo Martins

sexta-feira, 26 de novembro de 2021

O Passado


Débil luz surgindo no céu
de súbito entre
dois galhos de pinheiro, as finas agulhas

recortadas agora sobre a superfície radiosa
e acima disto
o alto céu emplumado –

Cheira o ar. Este é o cheiro do pinheiro branco,
sobretudo intenso quando o vento passa por ele
e o som que faz é igualmente bizarro,
como o som do vento num filme –

Sombras movendo-se. Produzem as cordas
o som costumeiro. O que ouves agora
será o som do rouxinol, chordata,
o pássaro macho a cortejar a fêmea –

As cordas agitam-se. A rede
balouça no vento, bem
amarrada entre dois pinheiros.

Cheira o ar. Este é o cheiro do pinheiro branco.

É a voz da minha mãe que ouves
ou tão-só o som que fazem as árvores
quando o ar passar por elas

pois que som faria
o passar por nada?

Autor : Louise Glück
Imagem :Julian Calverley