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sexta-feira, 25 de outubro de 2024

Amor vs Paixão

 

Para mim
o amor
fica-me justo.

Eu só visto
a paixão
de corpo inteiro.

Autor  : Maria Teresa Horta
Imagem : Karrah Kobus

sexta-feira, 7 de outubro de 2022

Cortina


Peço-te que feches
a cortina
e à sua sombra já estremeço nua.

Vens-me cobrir o frio
com o teu calor
e à nossa roda já tudo flutua.

Autor : Maria Teresa Horta

quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

Espanto

Saber que te perdi 
é mais que 
isto 

é mais que este 
sabor 
contraditório 

é mais que todo o espaço 

é mais que agora 

é mais do que o 
teu corpo 
já retido 

e lento é este espanto 
e tão parecido 
com aquele prazer breve 
antigo 
que o rasto dos teus dentes 
não desprende 

ainda mais que dor 
ou suicídio 

saber que te perdi 
é mais que isto 

ainda mais que ferida 
mais que morte 

Autor : Maria Teresa Horta 
Imagem : Mikeilla Borgia

quarta-feira, 23 de setembro de 2020

Silêncios da fala

São tantos
os silêncios da fala

De sede
De saliva
De suor

Silêncios de silex
no corpo do silêncio

Silêncios de vento
de mar
e de torpor

De amor

Depois, há as jarras
com rosas de silêncio

Os gemidos
nas camas

As ancas
O sabor

O silêncio que posto
em cima do silêncio
usurpa do silêncio o seu magro labor

Autor : Maria  Teresa Horta
Imagem :laura makabresku

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

Fulgor

Tacteio à minha
volta
e é só fulgor

Tento deslumbrar
o sol que cega

Demoro-me demasiado
no calor

Para a minha sede
nenhuma água chega 

Autor : Maria Teresa Horta
Imagem:Mira Needyalkova

sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

Segredo

Não contes do meu
vestido
que tiro pela cabeça

nem que corro os
cortinados
para uma sombra mais espessa

Deixa que feche o
anel
em redor do teu pescoço

com as minhas longas
pernas
e a sombra do meu poço.

Não contes do meu
novelo
nem da roca de fiar

nem o que faço
com eles
a fim de te ouvir gritar

Autor : Maria Teresa Horta
Imagem : Marius Markowski

quarta-feira, 29 de agosto de 2018

Poema sobre a recusa

Como é possível perder-te
sem nunca te ter achado
nem na polpa dos meus dedos
se ter formado o afago
sem termos sido a cidade
nem termos rasgado pedras
sem descobrirmos a cor
nem o interior da erva.
.
Como é possível perder-te
sem nunca te ter achado
minha raiva de ternura
meu ódio de conhecer-te
minha alegria profunda.
.

Autor:Maria Teresa Horta
Foto:Paulo Madeira

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Partir

Não sei
se te deixei partir

Mas num segundo
já não estás na minha mão
nem à minha frente no papel

Ficando eu sem saber
quem eras
quando te encontrei

Se o retrato que de ti
tracei te é fiel

Ou se de tanto te inventar
eu te perdi, por entre
as florestas das histórias

Penumbras dos palácios
Pensamentos, poesias e diários
Oceanos e ventos

Pois nem sequer
percebo se por mim
te afastei ou te larguei

Se obstinada fugiste
ou te esqueci
Se a Torre onde te pus é de Babel

E dela partirás
para viver a única
paixão da tua vida

Não, nem sequer sei
qual foi o meu olhar
pousado em ti

Se com ele te espiei
te persegui
E no espelho onde te vias

Eu te olhei

Autor : Maria Teresa Horta

in Poemas para Leonor, Dom Quixote, 2012, p. 138-9

quarta-feira, 15 de março de 2017

Um outro tanto

Metin Demiralay

Não sei como consigo
amar-te tanto
se querer-te assim na minha fantasia
é amar-te em mim
e não saber já quando
de querer-te mais eu vou morrer um dia
perseguir a paixão até ao fim é pouco
exijo tudo até perder-me
enquanto, e de um jeito tal que desconhecia
poder amar-te ainda
um outro tanto

Autor : Maria Teresa Horta

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

...

Leah Johnston

Tu acendes a chama
do meu corpo
pões a lenha ao fundo
em sítio seco
.
Procuras no desejo
o ponto certo
e convocas aí
o lume certo
.
Se a madeira demora
a ganhar fogo
tomas-me as pernas
e deitas lento o vinho
.
Riscas os fósforos todos
e depois
é mais um incêndio
que adivinho

Autor : Maria Teresa Horta
in Só de Amor(Quetzal,1999)

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Morrer de Amor

steve hanks
Morrer de amor
ao pé da tua boca

Desfalecer
à pele
do sorriso

Sufocar
de prazer
com o teu corpo

Trocar tudo por ti
se for preciso

Autor : Maria Teresa Horta
in “Destino”

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Egoísmo



Que me importa
amor
que seja dia
ou que seja noite iluminada

Que me importa
amor
que seja a chuva
ou um novelo de paz a madrugada

Que me importa
amor
que seja o vento
ou a flor o fogo mais aceso

Que me importa
amor
que seja a raiva

Que me importa
amor
que seja o medo


Autor : Maria Teresa Horta

sábado, 4 de dezembro de 2010

A voz


Da tua voz
o corpo
o tempo já vencido

os dedos que me
vogam
nos cabelos

e os lábios que me
roçam pela boca
nesta mansa tontura
em nunca tê-los...

Meu amor
que quartos na memória
não ocupamos nós
se não partimos...

Mas porque assim te invento
e já te troco as horas
vou passando dos teus braços
que não sei
para o vácuo em que me deixas
se demoras
nesta mansa certeza que não vens

Autor:Maria Teresa Horta
Foto:Petrus olhares com

terça-feira, 6 de outubro de 2009

As nossas madrugadas


As nossas madrugadas

Desperta-me de noite
o teu desejo
na vaga dos teus dedos
com que vergas
o sono em que me deito

pois suspeitas

que com ele me visto e me
defendo

É raiva
então ciume
a tua boca

é dor e não
queixume
a tua espada

é rede a tua língua
em sua teia

é vício as palavras
com que falas

E tomas-me de foça
não o sendo
e deixo que o meu ventre
se trespasse

E queres-me de amor
e dás-me o tempo

a trégua
a entrega
e o disfarce

E lembras os meus ombros
docemente
na dobra do lenços que desfazes
na pressa de teres o que só sentes
e possuires de mim o que não sabes

Despertas-me de noite
com o teu corpo

tiras-me do sono
onde resvalo

e eu pouco a pouco
vou repelindo a noite

e tu dentro de mim
vais descobrindo vales.


Autor:Maria Teresa Horta
Foto:Asieek