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sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Saudade

Todas as manhãs fecho os olhos,
sempre com a mesma força com que
te adormeço no regaço das madrugadas
cheias de buracos. Escondo de mim
que existes algures porque tenho espinhos
no meu caule. Orgulhos e outras dores
pequenas.

E nem haverá como dizer-te que sonho contigo
Ou que te escrevo poemas, dia sim dia não.

Porque lá fora o caminho é de cardos.
E o meu perdão só dura as breves letras
do teu nome.

Autor : Virgína do Carmo
Imagem : Dorota Górecka

sexta-feira, 18 de julho de 2025

Angústia


Ensaiamos os dias em trapézios
instáveis. Na superfície movediça
de construções humanas em suspensão.
Segurando na fragilidade do equilíbrio
o prumo da justiça.

Sempre que caímos, por mais que tentemos
evitar a vertigem da ordem, todos os factos
se perdem na dispersão dos elementos.

Autor : Virgínia do Carmo 
Imagem : Ravshaniya

quarta-feira, 25 de junho de 2025

Não há lugares seguros


Não estamos a salvo, ainda.
Nem dos desfazeres do mundo,
nem dos atrasos da paciência.
Não há lugares seguros onde guardar
equívocos. Nem âncoras que bastem
ao arrasto da solidão.

Não estamos ainda em terra. Não há
farol nem costa. E somos frágeis demais
para tanto mar. Para tanto abismo.
Para tanto.

Não estamos a salvo, ainda.
Nem das coisas inevitáveis.
Nem das coisas sérias e óbvias.

Não há lugares seguros neste mundo.

Autor : Virgínia do Carmo
Imagem : Brooke Shaden

sexta-feira, 16 de maio de 2025

Peso

Tão cheias as mãos de pedras
e de lama, de ruas sem saída,
de linhas que não são nem casas,
nem caminhos, nem janela,
nem telhado, nem paredes.

Tão cheias as mãos de destinos
confusos que não se perdoam, que
se magoam nos declives imperfeitos
dos corações sem margens. Tão cheias
as mãos de pedras e de lama. De asas
sem corpo onde fechar a dor.

E o peso. O peso dessa angústia
sem braços.

O peso.

Autor : Virgínia do Carmo
Imagem : Anka Zhuravleva

quarta-feira, 16 de abril de 2025

Luto


Que farei agora com as dores tépidas
que me consomem os ossos do entendimento?

Que farei com tantos gritos atirados
ao esquecimento agora que a garganta é
um crivo deformado e a voz uma depressão
incómoda na sequência dos significados?

As esperas inacabadas, os equívocos das mãos
abertas para nada, que farei eu com elas?

Porque não escrevi todos os poemas quando
o mundo era ainda um lugar belo e perfeito,
quando o meu coração era ainda inteiro
e virgem, quando tinha ainda os olhos limpos
de tanto mal?

Que farei agora com as cinzas do meu peito?
Onde vou eu sepultar as alegrias mortas?

Autor : Virgínia do Carmo
Imagem : Anka Zhuravleva

sexta-feira, 14 de março de 2025

Tortura

 

São de vidro as pétalas que me rebentam
na boca. Não há grito ou palavra que não
se rasgue quando o mundo me chega aos lábios.
até o silêncio sangra quando o pensamento
me atravessa a língua para chegar ao coração.

Um dia o meu íntimo será feito apenas
de poemas esgaçados.

Autor : Virgínia do Carmo
Imagem : Daniela Haubertová

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2025

Palavras graves

Tão difícil colocar a voz no chão e andar.
Descer às sílabas simples das coisas, à plana
brancura dos significados claros. Crescem as
razões do peito que não quer ser casa, crescem
loucas, inventadas à pressa na pressa
da fala: tecto danificado, paredes frágeis,
buracos no soalho. Palavras, nada
mais. Palavras graves e provas inúteis.
Um dicionário de obstáculos a cobrir-se
de pó na parte mais funda da vida.

Autor : Virgínia do Carmo
Imagem : Brooke Shaden

sexta-feira, 17 de novembro de 2023

Vesti-me de vento


Vesti-me de vento
Para ser
Sopro
Roçando-te
Os lábios

E espalhada
Nos teus dedos
Fui brisa
Precisa
E rasa

Devolvi-me ao chão
Mas sei que sou
Ainda
Um tempo

Teu

- Urgente -

- Aflito -

Em que sublevado
O desejo
Se delonga

- Infinito -

Autor : Virgínia do Carmo
in... Sou, e sinto - Temas Originais
Imagem :Shelby Robinson 

sexta-feira, 13 de outubro de 2023

Dor



Não há forma de abrir o peito e reparar o coração.
Podes rasgar a carne, limpar e repor as artérias certas
no seu lugar, consertar o rasgo, suturar a pele. Mas o
peito ficou por abrir e não há bisturi que o perfure.

O corpo é um lugar que podes adormecer para
dissecar. Mas o peito não. O peito é uma pedra dura
que nada mais recebe em si que os resíduos de vida
que se lhe assimilam por aglutinação natural da dor.

E não há diafragma que to separe do resto de ti.

Autor : Virgínia do Carmo
in Relevos(Poética Edições, 2014)
Imagem : Korinne Bisig

quarta-feira, 31 de maio de 2023

Ausência


À sombra da tua ausência
Repouso os meus olhos
Fechados, inertes
Vagueiam por mim
Procurando destroços
Em que despertes,
De repente…

Sei-te ausente,
- Mesmo…
Sei que não posso
esperar-te
- De todo…
Mas este vício
De aguardar-te
Prende-me como lama,
Lodo
Atrofiante, espesso…

E como nódoa
Entranhada
Permaneces como gesso
Colado à parede
Do meu afecto
Qual vinagre
Na minha sede
Qual erro
De tudo
Quanto em mim
Está certo…

Autor: de Virgínia do Carmo
Imagem Anna Heiumkreiter

quarta-feira, 19 de abril de 2023

Só

  

Não há desespero algum neste estar só. Se permaneço imóvel é porque o silêncio é mais simples do que a voz de alguém. Na fala dos outros há sempre a rouquidão das coisas. O gemido latente das mãos a quererem mais. E no chão fora de mim há estilhaços onde corro o risco de ferir os pés. Corações que se partiram contra as manhãs de vidro dos sonhos.

Aqui estou a salvo. Neste estar só onde é impossível enlouquecer. Onde não há janelas que me atirem tempestadas. Nem sol que me arda no peito.

Autor : Virgínia do Carmo in Relevos
Imagem : Agnieszka Lorek

sexta-feira, 27 de agosto de 2021

Esperança



Manhãs e poentes atravessam os meus
olhos e os horizontes permanecem à distância
de um sopro infinito. Há veios de ternura no
tecido baço das folhas, mas a palma das minhas
mãos é um trilho desfeito pela tempestade
que me levou o tecto e me deixou para ser ruína.
E agora sou uma casa abandonada. Tão frágeis
as paredes do coração, que tremem. Tão finas
que transparece tudo o que já passou.
A minha alma é um poema verde manchado
de sangue rompendo as fissuras envenenadas
das minhas paredes doídas.
E não sei porquê, resisto de pé.
À espera de ser ruína.
Ou outra sombra qualquer.

Autor : Virgínia do Carmo

quarta-feira, 30 de junho de 2021

Quase desisiti



Quase desisti
De germinar

Na infância
Do meu corpo
Intocado
Quase me esqueci
De florescer

... Quase não fui...

... Quase não quis...

Mas eis que em mim
Caiu
A água dos teus olhos

E na ressonância do teu nome
Me refiz

Autor:Virginia do Carmo
imagem : Jovana Rikalo

sexta-feira, 28 de maio de 2021

Madrugadas


Sarças
Nas vésperas
Do meu sangue

E da ressurreição
Dos rios
Soprados
Ao fogo
Voam lâminas
Paridas
De dias
Bastardos

... Eis que me cegam,
As madrugada

Autor : Virginia do Carmo
Imagem : Joan Carol

sexta-feira, 2 de outubro de 2020

........


Tão cheias as mãos de pedras
e de lama, de ruas sem saída,
de linhas que não são nem casas,
nem caminhos, nem janela,
nem telhado, nem paredes. 
Tão cheias as mãos de destinos
confusos que não se perdoam, que
se magoam nos declives imperfeitos
dos corações sem margens. Tão cheias
as mãos de pedras e de lama. De asas
sem corpo onde fechar a dor. 
E o peso. O peso dessa angústia
sem braços.
O peso. 

Autor : Virgínia do Carmo
Imagem :Sabrina de Vries

sexta-feira, 28 de agosto de 2020

Palavras graves

Tão difícil colocar a voz no chão e andar.
Descer às sílabas simples das coisas, à plana
brancura dos significados claros. Crescem as
razões do peito que não quer ser casa, crescem
loucas, inventadas à pressa na pressa
da fala: tecto danificado, paredes frágeis,
buracos no soalho. Palavras, nada
mais. Palavras graves e provas inúteis.
Um dicionário de obstáculos a cobrir-se
de pó na parte mais funda da vida.

Autor : Virgínia do Carmo
Imagem: Willie Kers

sexta-feira, 7 de agosto de 2020

Angústia


Ensaiamos os dias em trapézios
instáveis. Na superfície movediça
de construções humanas em suspensão.
Segurando na fragilidade do equilíbrio
o prumo da justiça.
Sempre que caímos, por mais que tentemos
evitar a vertigem da ordem, todos os factos
se perdem na dispersão dos elementos.

Autor : Virgínia do Carmo
Imagem : Jenna Martin

quarta-feira, 1 de julho de 2020

Não há lugares seguros


Não estamos a salvo, ainda.
Nem dos desfazeres do mundo,
nem dos atrasos da paciência.
Não há lugares seguros onde guardar
equívocos. Nem âncoras que bastem
ao arrasto da solidão.
Não estamos ainda em terra. Não há
farol nem costa. E somos frágeis demais
para tanto mar. Para tanto abismo.
Para tanto.

Não estamos a salvo, ainda.
Nem das coisas inevitáveis.
Nem das coisas sérias e óbvias.
Não há lugares seguros neste mundo.

Autor : Virgínia do Carmo

quarta-feira, 3 de junho de 2020

Tortura


São de vidro as pétalas que me rebentam
na boca. Não há grito ou palavra que não
se rasgue quando o mundo me chega aos lábios.
Até o silêncio sangra quando o pensamento
me atravessa a língua para chegar ao coração.
Um dia o meu íntimo será feito apenas
de poemas esgaçados.

Autor : Virgínia do Carmo 
Imagem : Katerina Plotnikova

sexta-feira, 15 de maio de 2020

Luto



Que farei agora com as dores tépidas
que me consomem os ossos do entendimento? 

Que farei com tantos gritos atirados
ao esquecimento agora que a garganta é
um crivo deformado e a voz uma depressão
incómoda na sequência dos significados? 

As esperas inacabadas, os equívocos das mãos
abertas para nada, que farei eu com elas? 

Porque não escrevi todos os poemas quando
o mundo era ainda um lugar belo e perfeito,
quando o meu coração era ainda inteiro
e virgem, quando tinha ainda os olhos limpos
de tanto mal? 

Que farei agora com as cinzas do meu peito?
Onde vou eu sepultar as alegrias mortas? 

Autor : Virgínia do Carmo