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sexta-feira, 10 de março de 2023

Amar-te


Amar-te é inventar palavras que ficaram a faltar
em frases choradas, é ler-te o desejo abafado na
profundidade do olhar e adivinhar-te os pecados
intrínsecos numa carne por saciar. É sentir o sabor

dos teus beijos a nuvens de distância e num abraço
decifrar a intensa saudade submersa no tempo.
Amar-te é viver, como minhas, as dores mergulhadas
num peito que é teu, é beber-te as lágrimas do rosto como

se fosse de sede o meu estado. É fazer das minhas
míseras pernas o teu mais ansiado colo e dar-te os
meus ombros como a mais suave das almofadas.
Amar-te. Amar-te é contemplar cada pedaço da tua

pele fundida na minha, é desfazer camas com cheiro
intenso de linho e acariciar a manta que guardou a
nudez da alma. É desenhar poemas com gotas de suor
e neles descansar. Amar-te é tudo isto e ainda,

ler cada vírgula do teu silêncio.

Autor : Carla Pais.
Imagem : Denis Sarazhin

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2023

No íntimo de nada

Não há mundo que lhe caiba na agrura da boca,
nem caminhos que lhe reparem nas solas usadas
que os pés devoraram – são as ruelas acabadas
pelo silêncio dos gestos que lhe dançam nos olhos
a cada anoitecer, são os vultos adormecidos à soleira
das portas vazias que carrega nas palavras que desconhece
tal como as estrelas mortas na escuridão escusam o céu.

Assim é ela – presa naufragada no íntimo do nada. Que seja!

Autor : Carla Pais
Imagem : anna derhanovskaya

sexta-feira, 13 de janeiro de 2023

O som desse adeus



A tua boca ainda ressoa no eco do quarto (são
palavras que ficaram bordadas na pele, perdidas
na bainha dos lençóis que as noites brancas
enxovalharam) como restos de um beijo que perduram nos retratos.

Ficou o teu perfume quando abro o livro de poemas que
deixaste por ler, o mesmo que largaste ao lado do candeeiro
que de tão cansado já não vive. Não há luz que resista ao
desencanto de uma cama, ao suor lavado e à voz morta de um

corpo que emerge do vazio e se ilustra no frio das cinzas.
Não fechaste a porta antes de sair e por momentos achei
que as palavras largadas ao acaso regressariam contigo.
Mas não, escusaste-me ao som desse adeus.

Autor : Carla Pais
Imagem : Zayats Alexey

quarta-feira, 14 de abril de 2021

Desculpa meu amor

 

Fogem-me as palavras que usaria nesta folha para te falar de amo.
 Talvez, no fundo, as palavras nunca tenham
existido, talvez não passem de invenções delicadas que o
amor nos oferece a cada intervalo de silêncio – desculpa

meu amor não ter nascido com o dom de tecer as palavras certas
para construir poemas que te enobreçam a alma,
ou que te aliviem o cansaço dos olhos, pois isso, já outros o fizeram;
os poetas abandonados à leveza das penas que trouxeram ao papel

todas as dores do mundo e mais as nossas. Desculpa meu amor,
mas as palavras teimam em debandar-se e não sei se voltarão depois,
suspeito que o amor não se escreva hoje como outros o escreveram, e,
por assim ser, o gastaram como gastamos nós todas as páginas em branco

que teimosamente desejamos escritas.

Autor  : Carla Pais

sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

Os meus olhos


Guarda, se possível, a cor das paredes do quarto,
as flores desbotadas do tapete,
a lâmpada fundida junto ao teu lugar na cama,
o pó mergulhado na textura das cortinas,
a janela aberta em dias de vento,
o cheiro a alfazema do roupeiro,
os álbuns dentro das gavetas como memórias que
o teu corpo desejou no meu, só não guardes, por favor,
o som daquela porta a bater nas tuas costas,
pois esse, foi o som que guardaram os meus olhos

Autor: Carla Pais
Imagem : Brooke Shaden

quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

Punhados de Palavras


Tenho sempre medo que me faltem punhados de
palavras para te falar de amor, esse sentimento que
se demora no peito. E olho para ti, sei depois que o
silêncio onde se guardam as palavras é sempre a página

que lês nos meus olhos e fico-me – despida de tudo e o tudo
é agora a pele, a capa do livro que tu conheces de cor e afagas,
e folheias ao encontro de mim.

Autor-Carla Pais

segunda-feira, 9 de maio de 2016

Há tardes assim

Danielle Richard

Há tardes assim. Uma ou outra tarde em que
a brisa se solta das teias do tempo e flui serena
nas margens de um rio como quem caminha
devagar. Muito devagar, ao encontro do aconchego

de uns braços – os teus. Um calor que nasce na tua
pele e se propaga nessa brisa como uma folha
que dança nas costas de um vento brando e pousa
depois no leito doce de um açude, que a beija

e acolhe como uma ninfa. Quero ser folha e dançar
no teu peito, ser a brisa solta que te enlaça e sentir
os teus lábios desenharem as linhas do meu corpo – tal
e qual os flancos beijados por um sal doce além-mar.

Autor : Carla Pais