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sábado, 18 de abril de 2026

...

sem caneta nem teclado
de modo mais que perfeito
o mútuo caminho, perfeito
desaguara-nos lado a lado
e os versos que então fluíam
do espaço que era comum
eram o que os dedos de um
na pele do outro escreviam
e nesse onírico contexto
longe e perto, pareceria
que escrevendo em parceria
e de mãos dadas, o texto
o poema então irrompia
na língua viva do tacto
escrito na pele com o tato
do contacto que o escrevia

Autor : António Gil
Imagem : Pnterest

quinta-feira, 19 de março de 2026

Algo ficou por dizer

 

E por isso os dedos da inquietação
tangem ainda as cordas invisíveis
de uma harpa inexistente
Algo ficou por dizer
O próprio coração pesa
como pedra suspensa
na frágil corda da aorta
Algo ficou por dizer
(a respiração à beira do sufoco
sempre que a palavra se desfaz
e desfeita se faz nada,
e nada-morta, totalmente morta)
Algo ficou por dizer
De uma dessas vigílias tinge-me
o padrão da toalha de mesa
os amigos de ocasião
que chegavam e partiam
ao ritmo do esvaziar de garrafas de grappa
Algo ficou por dizer
E um brilho com reflexos de carmim
fundeando no mesmo cálice
que para sempre ficará por beber
até ao fundo.

Autor : António Gil
Imagem:  Victor Bauer 

quinta-feira, 10 de junho de 2021

se

se partisses este verão
deixando desabitado
quem à tua semelhança
interior se construiu

por que poros respiraria ainda
tua pele de granito
por que artérias
se conduziria o sangue antigo
até ao cerne deste coração
de ameias e vento coroado?

aqui me tens portanto e como tu
também estou cercado
de silêncio de memórias

e de incêndios...

Autor : António Gil
Foto :Parvana 

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

..



Andre Kohn

…E minhas rugas são ruas
e minhas ruas
são rias ou rios de risos
de crianças ao luar
correndo felizes, descalças e nuas
com suas estrelas acabadas
de roubar…

Autor : António Gil
in Obra ao Rubro (Lua de Marfim, 2012)

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

O silêncio em relevo

Brooke Shaden

O silêncio em relevo
nos versos em que me teço
é a corda em que tropeço
enleado no que escrevo
e a voz que me enleia
entretecida hesita
entre os sentidos da escrita
e os da voz que a permeia
e nesse intervalo denso
entre o andar e o cair
já nem logro distinguir
entre o que sinto e o que penso
_

Autor : António Gil