quinta-feira, 26 de maio de 2022

Sitiados

Esta cidade é a última cidade...
Os muros derruídos estão cercados:
Os canhões troam através dos mapas.

Nossa imagem, revelada pelas montras,
Passeia pelas ruas de mãos dadas...
Somos a última trincheira valiosa.

Unidos, trituramos os assaltos
E renovamos o cristal da esperança.

Os ruídos emolduram-te o sorriso,
Pura mensagem, prenhe de um futuro
Isolado de poeiras e de lágrimas.

Autor : Egipto Gonçalves
Imagem : Richard Davis

quarta-feira, 25 de maio de 2022

Fiz um conto para me embalar

 

Fiz com as fadas uma aliança.
A deste conto nunca contar.
Mas como ainda sou criança
Quero a mim própria embalar.

Estavam na praia três donzelas
Como três laranjas num pomar.
Nenhuma sabia para qual delas
Cantava o príncipe do mar.

Rosas fatais, as três donzelas
A mão de espuma as desfolhou.
Nenhum soube para qual delas
O príncipe do mar cantou.

Autor : Natália Correia
Imagem : Sherree Valentine Dains

terça-feira, 24 de maio de 2022

Vivi nesta casa muitos anos

 

Agora mudaram já de certo a fechadura
e as pequenas coisas que fazem uma casa.
As chaves já não as trago
ao lado dos meus gestos.

Mudaram os móveis
deitaram fora as cortinas
e as paredes
trazem agora um calendário novo.

Uma casa é sempre
caliça cheiros alianças.
Eu avanço sobre o silêncio de
ainda esperar por ti.

Autor : João Miguel Fernandes Jorge
Imagem : Andrew Wyeth

domingo, 22 de maio de 2022

Entardecer

 

Se eu soubesse decifrar,
as curvas na linha do tempo,
acredita que estaria contigo,
na outra margem,
a olhar o rio,
que se confunde com o mar.

Mas eu não sei o que não preciso saber,
nem procuro,
o que o destino levou.

Apenas fico aquém a olhar,
o horizonte,
e a desfazer ilusões que se desmoronam,
ao entardecer.

Beatrice 2022.05-21
Imagem : Viktoria Haack

sábado, 21 de maio de 2022

Ergo uma rosa

 

Ergo uma rosa, e tudo se ilumina
Como a lua não faz nem o sol pode:
Cobra de luz ardente e enroscada
Ou ventos de cabelos que sacode.
Ergo uma rosa, e grito a quantas aves
O céu pontua de ninhos e de cantos,
Bato no chão a ordem que decide
A união dos demos e dos santos.
Ergo uma rosa, um corpo e um destino
Contra o frio da noite que se atreve,
E da seiva da rosa e do meu sangue
Construo perenidade em vida breve.
Ergo uma rosa, e deixo, e abandono
Quanto me doi de mágoas e assombros.
Ergo uma rosa, sim, e ouço a vida
Neste cantar das aves nos meus ombros.

Autor : José Saramago
Imagem : Andrea Kiss

sexta-feira, 20 de maio de 2022

Mulheres à Beira-Mar

 

Confundido os seus cabelos com os cabelos
do vento, têm o corpo feliz de ser tão seu e
tão denso em plena liberdade.

Lançam os braços pela praia fora e a brancura
dos seus pulsos penetra nas espumas.

Passam aves de asas agudas e a curva dos seus
olhos prolonga o interminável rastro no céu
branco.

Com a boca colada ao horizonte aspiram longa
mente a virgindade de um mundo que nasceu.

O extremo dos seus dedos toca o cimo de
delícia e vertigem onde o ar acaba e começa.

E aos seus ombros cola-se uma alga, feliz de
ser tão verde.

Autor : Sophia de Mello Breyner Andresen
Imagem: David Talley

quinta-feira, 19 de maio de 2022

Os Poetas

 

Nunca os vistes
Sentados nos cafés que há na cidade,
Um livro aberto sobre a mesa e tristes,
Incógnitos, sem oiro e sem idade?

Com magros dedos, coroando a fronte,
Sugerem o nostálgico sentido
De quem rasgasse um pouco de horizonte
Proibido...

Fingem de reis da Terra e do Oceano
(E filhos são legítimos do vício!)
Tudo o que neles nos pareça humano
É fogo de artifício.

Por vezes, fecham-lhes as portas
— Ódio que a nada se resume —
Voltam, depois, a horas mortas,
Sem um queixume.

E mostram sempre novos laivos
De poesia em seu olhar...

Adolescentes! Afastai-vos
Quando algum deles vos fitar!

Autor : Pedro Homem de Mello,
 in "O Rapaz da Camisola Verde"

quarta-feira, 18 de maio de 2022

Casulo


Abrem-se para o mundo
na rara manhã
ainda intactas
asas em suspenso

((vão devagar))

na quietude ausente
das nuvens que passam
um anjo nasce

Autor : Solange Firmino
In Quando a dor acabar

terça-feira, 17 de maio de 2022

O Silêncio

 
Pego num pedaço de silêncio. Parto-o ao meio,
e vejo saírem de dentro dele as palavras que
ficaram por dizer. Umas, meto-as num frasco
com o álcool da memória, para que se
transformem num licor de remorso; outras,
guardo-as na cabeça para as dizer, um dia,
a quem me perguntar o que significam.
Mas o silêncio de onde as palavras saíram
volta a espalhar-se sobre elas. Bebo o licor
do remorso; e tiro da cabeça as outras palavras
que lá ficaram, até o ruído desaparecer, e só
o silêncio ficar, inteiro, sem nada por dentro.

Autor: Nuno Júdice
 In A Matéria do Poema

domingo, 15 de maio de 2022

Até sempre meu amor

Eu volto amanhã,
e depois de amanha à porta do futuro,
e entro no local onde fomos felizes.

Todos os dias eu tomo a mesma coisa,
os funcionários já nem perguntam,
colocam na mesa onde me sento (sempre a mesma)
um café forte, e um sumo de laranja.

Tu não bebias café
Não gostavas

Mas eu imagino que um dia entras,
para beberes o sumo de laranja,
que todos os dias eu bebo por ti.

Até sempre meu amor!
 
Autor : BeatriceM 2022-05-14
Imagem :Tina Spratt

sábado, 14 de maio de 2022

depois das 7

Depois das 7
as montras são mais íntimas

A vergonha de não comprar
não existe
e a tristeza de não ter
é só nossa

E a luz torna mais belo
e mais útil
cada objecto

Autor : António Reis, in 'Poemas Quotidianos'

sexta-feira, 13 de maio de 2022

 

Diz só o silêncio
um gesto
um beijo
que as palavras
estão nuas de sentido
envoltas no burel
dos sonhos.

Autor : Maria Helena Ventura
In Quando o Silêncio Falar
Imagem : Magdalena Lutek

quinta-feira, 12 de maio de 2022

Renascimento

Quando tudo te parece perdido
escuta a vida
o silêncio da vida murmurando —
poderei sorver minha seiva
sob o áspero pó das ruínas

Autor : José Paulo Moreira da Fonseca
Imagem : Mira Nedyalkova

quarta-feira, 11 de maio de 2022

peito

Todos querem saber se os meus
lábios ainda estão cheios dos teus
beijos, se as minhas mãos se abrem
ainda para as tuas nos passeios de

verão. Mil olhos me perguntam se
este corpo que vêem agora assim
amarrotado continua a receber-te

na cama, antes do sono, quando o
pano azul-escuro da noite cai sobre
o mundo e o vento leva as estrelas
para longe de casa. Não lhes conto:

o que há no meu peito é entre nós.
-
Autor : Maria do Rosário Pedreira
O Meu Corpo Humano
Editor: Quetzal Editores Edição: abril de 2022
Imagem : Omar Ortiz

terça-feira, 10 de maio de 2022

Epílogo


 

Acendo um círio terminado o ciclo
da rosa rotativa ao rés do rosto:
ilumino a expressão do que, profundo,
intento, à luz rufa do crepúsculo:
apenas o diário dum recluso
em liberdade na prisão do mundo.

Autor : António Barahona
Imagem : Olga Domanova

domingo, 8 de maio de 2022

que importa?


que importa?
se o meu coraçao, ainda
te quer dar amor,
na forma de uma flor..

Autor : BeatriceM 30-04-2014
Imagem :Andrea Kiss

sexta-feira, 6 de maio de 2022

Anda menina

Vai, menina, fecha os olhos .
Solta os cabelos.
Joga a vida.
Como quem não tem o que perder.
Como quem aposta.
Como quem brinca . Vai, menina
Molha os pés na poça . Mergulha no que te dá vontade.
Abraça o que te faz sorrir .Sonha .
Não espere. Promessas vão e vem.
Planos se desfazem.
Regras, você dita. Palavras o vento leva
Distância só existe para quem quer.
Sonhos se realizam, Ou não.
Os olhos se fecham, um dia ,para sempre.
Sabia?
E o que importa
só você sabe, menina .

Autor : Caio Fernando Abreu
Imagem : Monika Luniak

quinta-feira, 5 de maio de 2022

um olhar


um olhar a partir do esgoto
pode ser uma visão do mundo

a rebelião consiste em olhar uma rosa
até pulverizar os olhos

Autor : Alejandra Pizarnik
em 30 Poemas,tradução e selecção de Inês Dias e Manuel de Freitas, Lisboa: Língua Morta, 1ª edição, 2011, p. 22.

terça-feira, 3 de maio de 2022

(...)

(...) desculpa
o que te queria dizer talvez não fosse isto
a solidão turva-se-me de lágrimas
e nas pálpebras tremem visões do meu delírio
olho as fotografias de antigos desertos
corpos coerentes que fomos
bocas de papel amarelecido
onde a sede nunca encontrou a sua água
e às vezes ainda tenho sede de ti.

Autor :Al Berto
Imagem: Vinicus Vieira

domingo, 1 de maio de 2022

os dias acontecem

os dias acontecem,
por vezes céleres demais
por vezes desleixados também
(tenho uma lágrima que não cai)
tenho uma saudade que não se esvai
tenho nada e por vezes o nada é tanto
é excessivo para mim
tenho esta obsessão por fronteiras
por mares e barcos que não velejam
que se fazem ao porto
e nunca abalam
tenho um olhar que engendro nos dias
e nas noites
tenho indefinidamente
as vigílias
que nunca se destroem
e tenho os dias
que circulam (ainda) em mim.
.
Autor :BeatriceMar 21-04-2013
Imagem : Nikolay Tikhomirov

    quinta-feira, 28 de abril de 2022

    A avidez da morte

    Quem nos contará
    o que o morto sabia
    mas não disse?

    Quem há-de escrever as cartas
    que o morto não escreveu?

    Qual de nós poderá lembrar-se
    de quem só o morto ainda tinha lembrança?

    Quem amará a mulher que apenas o morto amava?

    Quem há-de medir o vazio,
    a herança de silêncio
    que a Morte nos deixou?

    Autor : José Paulo Moreira da Fonseca,
    in 'O Tempo e a Sorte'

    quarta-feira, 27 de abril de 2022

    Não esqueças o meu nome

     

    Um nome é uma eternidade mesmo no silêncio,
    quando as aves não regressam à árvore e a noite se fecha.
    Digo o teu nome, uma sílaba, e uma cascata de luz consubstancia a verdade.
    Sal de lume, se te chamo, mais alto que os voos, o teu nome.

    Autor : Maria Isabel Fidalgo
    in “Não esqueças o meu nome”, Poética Edições.
    Imagem : Annegien Schilling

    terça-feira, 26 de abril de 2022

    O dia da liberdade

     

    Este dia é um canteiro
    e veleiros lá ao largo
    navegando a todo o pano.
    E assim se lembra outro dia febril
    que em tempos mudou a história
    numa madrugada de Abril,
    quando os meninos de hoje
    ainda não tinham nascido
    e a nossa liberdade
    era um fruto prometido,
    tantas vezes proibido,
    que tinha o sabor secreto
    da esperança e do afecto
    e dos amigos todos juntos
    debaixo do mesmo tecto.


    Autor : José Jorge Letria

    domingo, 24 de abril de 2022

    Hoje sobra-me tempo

    Já estamos em Abril, eu nem me apercebi
    A hora mudou, esqueci-me de mudar os relógios
    É hora de ir embora, arrumo as coisas que estão em desalinho na secretária
    Sinto que já foram todos embora
    só eu ainda permaneço neste prédio
    vazio e inóspito

    Lá fora a tarde está enevoada
    Ao longe sinto ecos de uma música
    Que parece chamar-me
    Estugo o passo e sigo pela rua
    Vou ao encontro dela
    Vem de um piano bar

    Entro

    É ainda cedo e está pouca gente
    O pianista de costas para mim
    Toca num tom alheado sem me ver
    Peço algo e fico ali a queimar tempo

    Tempo
    Tudo reclama dele, eu, hoje sobra-me
    Tempo

    Faz anos que partiste
    E depois eu já não sei que faço do tempo
    Este, que me resta!

    Eu sei que em casa me espera a gata
    E uma cama vazia
    .
    Autor : BeatriceMar 2014-04-06

    sábado, 23 de abril de 2022

    Aos Poetas

     que faremos poetas aos cravos
    roxos e libertos de maresia?que faremos às pernas do dia
    que faremos maduramente em cachos?

    que faremos é pôr as mãos no lume
    viver é ter figueiras de abandono no quintal
    morrer é balizar o sol com perfume.

    Que faremos poetas antes do render
    das botas ao chafariz dos versos?
    que faremos a estes calhaus dispersos
    – ilhas de carne e osso com a lava a escorrer?

    cantar é desfolhar as rosas da garganta
    gritar é ter nas veias a raiva dos fortes?
    amar é sempre um medo que se canta.

    a nada nos obriga a posição dos mortos?

    Autor : Álamo Oliveira
    (in 14 Poetas de Aqui e de Agora. Angra do Heroísmo, 1974)


    sexta-feira, 22 de abril de 2022

    Poesia engarrafada

    Se a morte é certa que seja dia
    Que seja poesia
    Que seja grande
    Que seja par-ti-da
    Não de ida
    Mas de mil pe-da-ços de volta
    E na volta
    Que eu seja flor
    Que eu seja sorte
    Sor-ti-da
    Ah!
    Que eu seja Vida.

    Autor : Adriana Magalhães 11 de dezembro de 2015 

    quinta-feira, 21 de abril de 2022

    Um Dia Não Muito Perto Não Muito Longe

    Às vezes sabes sinto-me farto
    por tudo isto ser sempre assim
    Um dia não muito longe não muito perto
    um dia muito normal um dia quotidiano
    um dia não é que eu pareça lá muito hirto
    entrarás no quarto e chamarás por mim
    e digo-te já que tenho pena de não responder
    de não sair do meu ar vagamente absorto
    farei um esforço parece mas nada a fazer
    hás-de dizer que pareço morto
    que disparate dizias tu que houve um surto
    não sabes de quê não muito perto
    e eu sem nada pra te dizer
    um pouco farto não muito hirto e vagamente absorto
    não muito perto desse tal surto
    queres tu ver que hei-de estar morto?

    Autor : Ruy Belo
    Imagem : Christiane Vleugels

    quarta-feira, 20 de abril de 2022

    O avô disse ao gato

     
    O poema não é uma asa-delta com um poema
    não se levanta voo com um poema somos bem capazes
    de nem ir a lado nenhum.

    O poema é apenas uma forma delicada
    de um homem se despenhar
    sobre os destroços de um outro homem.

    Autor : Catarina Nunes de Almeida
    In O dom da palavra (com desenhos de João Concha), não (edições), Lisboa, 2016.
    Imagem Lindsey Kurtusch

    terça-feira, 19 de abril de 2022

    Canção à Ausente

    Para te amar ensaiei os meus lábios...
    Deixei de pronunciar palavras duras.
    Para te amar ensaiei os meus lábios!

    Para tocar-te ensaiei os meus dedos...
    Banhei-os na água límpida das fontes.
    Para tocar-te ensaiei os meus dedos!

    Para te ouvir ensaiei meus ouvidos!
    Pus-me a escutar as vozes do silêncio...
    Para te ouvir ensaiei meus ouvidos!

    E a vida foi passando, foi passando...
    E, à força de esperar a tua vinda,
    De cada braço fiz mudo cipreste.

    A vida foi passando, foi passando...
    E nunca mais vieste!

    Autor : Pedro Homem de Mello, in "Segredo"
    Imagem : Mónia Merlo

    domingo, 17 de abril de 2022

    Ruas

     

    Ando por ruas e acho-as aparentadas
    umas com as outras, no entanto
    eu sei que são todas desiguais.

    Gosto de encontrar ruas novas,
    para perscrutar,
    e por vezes acho que as conheço,
    mas sei que nunca por ali caminhei.

    As ruas para mim são enigmáticas,
    e cheias de curiosidade,
    que me levam a um mundo,
    que construo só para mim,
    e que ninguém pode entender.

    Autor : BeatriceM 2022-04-16
    Imagem : Silena Lambertini

    sábado, 16 de abril de 2022

    Fui Sabendo de Mim

    Fui sabendo de mim
    por aquilo que perdia

    pedaços que saíram de mim
    com o mistério de serem poucos
    e valerem só quando os perdia

    fui ficando
    por umbrais
    aquém do passo
    que nunca ousei

    eu vi
    a árvore morta
    e soube que mentia

    Autor : Mia Couto, 
    in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"
    Imagem : Taylor Rayburn

    sexta-feira, 15 de abril de 2022

    Árvore fantasma

     

    A árvore vã
    segura o abandono
    da estação

    ela nunca escolhe
    mas não arreda pé
    de sua substância
    ferida na seiva

    desmancha-se
    na sua profundidade
    esperando atrair
    os pássaros dementes
    perdidos de seus ventos

    Autor : Solange Firmino
    No livro “Quando a dor acabar”, da @caravanagrupoeditora

    quinta-feira, 14 de abril de 2022

    Poema da Utopia


    A noite caiu sem manchas e sem culpa.
    Os homens tiraram as máscaras de bons actores.
    Findou o espectáculo. Tudo o mais é arrabalde.
    No alto, a utópica lua, vela comigo
    e sonha inutilmente com a verdade das coisas.

    - Noite! Deixa-nos também dormir...

    Autor : Fernando Namora
    Imagem : Taylor Rayburn

    quarta-feira, 13 de abril de 2022

    ...

     

    nenhuma montanha repõe o silêncio
    que legaste às aves
    a aridez das serranias revela    isso sim
    o deserto dos teus lábios
    a rarefação do teu sentir
    afastas-me  

                          que importa
    deixo o vento levar a forte carapaça do teu existir
    pois o mar malgrado o vaivém inconstante das ondas
    mantém-se fiel à tua sede

    © Margarida Afonso Henriques (a publicar)
    Imagem : Olga Domanova

    terça-feira, 12 de abril de 2022

    ...

    Também eu trago a saudade
    nos sentidos

    se dissesse que não
    era mentira

    Também eu perdi um cão
    casas
    rios

    Mas hoje
    tenho mulher
    amigos
    e uma saudade mais real
    é que me inspira

    Autor : António Reis, 
    in 'Novos Poemas Quotidianos'
    Imagem : Maria Magdalena Oosthuizen

    domingo, 10 de abril de 2022

    ...


    o brado do vento,
    infestou a praça,
    com um eco seco.

    só as árvores amedrontadas
    permaneceram de pé.

    calada e receosa, entrei em casa,
    com o meu sonho oculto,
    nas algibeiras do vestido,
    para não se perder.

    Autor : BeatriceM 10-04-2022
    Imagem : Joan Carol

    sábado, 9 de abril de 2022

    A sombra sou eu


     A minha sombra sou eu,
    ela não me segue,
    eu estou na minha sombra
    e não vou em mim.

    Sombra de mim que recebo luz,
    sombra atrelada ao que eu nasci,
    distância imutável de minha sombra a mim,
    toco-me e não me atinjo,
    só sei dó que seria
    se de minha sombra chegasse a mim.

    Passa-se tudo em seguir-me
    e finjo que sou eu que sigo,
    finjo que sou eu que vou
    e que não me persigo.

    Faço por confundir a minha sombra comigo:
    estou sempre às portas da vida,
    sempre lá, sempre às portas de mim!

    Autor : José de Almada Negreiros

    sexta-feira, 8 de abril de 2022

    Do dever

     
    O fardo da montanha é quase tocar o céu
    o fardo da nuvem é durar pouco
    mesmo quando acaba a chuva

    certos encargos são estranhos
    pois o fardo da caverna é não conter vento
    e o fardo do vento é ser abafado
    em espaços muitas vezes minúsculos

    o fardo humano é um tormento
    pois não sabe se busca por Deus
    ou se Deus o habita

    Autor : Solange Firmino
    In “Quando a dor acabar”
    Imagem : Katharina Jung

    quinta-feira, 7 de abril de 2022

    Recomece

    Quando a vida bater forte
    e sua alma sangrar,
    quando esse mundo pesado
    lhe ferir, lhe esmagar...
    É hora do recomeço.
    Recomece a LUTAR.

    Quando tudo for escuro
    e nada iluminar,
    quando tudo for incerto
    e você só duvidar...
    É hora do recomeço.
    Recomece a ACREDITAR.

    Quando a estrada for longa
    e seu corpo fraquejar,
    quando não houver caminho
    nem um lugar pra chegar...
    É hora do recomeço.
    Recomece a CAMINHAR.

    Autor :  Bráulio Bessa
    imagem Leszek Paradowski

    quarta-feira, 6 de abril de 2022

    A cabeça é que paga

     


    Silêncio
    Ela pediu
    Silêncio
    ao rádio do carro,
    aos pais, aos irmãos,
    aos chefes, aos amigos.

    Só a cabeça
    não respeitou o seu pedido.

    Autor : Filipa Leal
    (in A Cidade Líquida e Outras Texturas,

    terça-feira, 5 de abril de 2022

    Não é a tua mão


    Não é a tua mão
    filha

    que eu levo
    na minha mão

    é uma raiz
    que eu planto
    em mim mesmo

    Autor  : António Reis, 
    in 'Novos Poemas Quotidianos'

    domingo, 3 de abril de 2022

    Momentos Efémeros


    Os pingos de chuva encharcam a alvorada,
    e a cidade, respira apática ao momento,
    efémero.

    Amarroto bem no fundo do meu peito,
    esta solidão que ninguém quer,
    nem eu.

    Levanto a cortina,
    e por entre os pingos ,
    eu sou, e só, apenas um vulto.

    Autor :BeatriceM 16-03-2014

    sábado, 2 de abril de 2022

    Trova do Mês de Abril

     

    Foram dias foram anos a esperar por um só dia.
    Alegrias. Desenganos. Foi o tempo que doía
    Com seus riscos e seus danos. Foi a noite e foi o dia
    Na esperança de um só dia.

    Foram batalhas perdidas. Foram derrotas vitórias.
    Foi a vida (foram vidas). Foi a História (foram histórias)
    Mil encontros despedidas. Foram vidas (foi a vida)
    Por um só dia vivida.

    Foi o tempo que passava como nunca se passasse.
    E uma flauta que cantava como se a noite rasgasse
    Toda a vida e uma palavra: liberdade que vivia
    Na esperança de um só dia.

    Musa minha vem dizer o que nunca então disse
    Esse morrer de viver por um dia em que se visse
    um só dia e então morrer. Musa minha que tecias
    um só dia dos teus dias.

    Vem dizer o puro exemplo dos que nunca se cansaram
    musa minha onde contemplo os dias que se passaram
    sem nunca passar o tempo. Nesse tempo em que daria
    a vida por um só dia.

    Já muitas águas correram já muitos rios secaram
    batalhas que se perderam batalhas que se ganharam.
    Só os dias morreram em que era tão curta a vida
    Por um só dia vivida.

    E as quatros estações rolaram com seus ritmos e seus ritos.
    Ventos do Norte levaram festas jogos brincos ditos.
    E as chamas não se apagaram. Que na ideia a lenha ardia
    Toda a vida por um dia.

    Fogos-fátuos cinza fria. Musa minha que cantavas
    A canção que se vestia com bandeiras nas palavras:
    Armas que o tempo tecia. Minha vida toda a vida
    Por um só dia vivida.

    Autor : Manuel Alegre
    Imagem : Piedade Araújo Sol

    sexta-feira, 1 de abril de 2022

    A rosa branca

     


    Isto é a terra?
    Então não sou daqui
    Quem és tu na janela acesa,
    agora à sombra
    das folhas trêmulas do viburno?
    Podes sobreviver onde não vou durar
    Além do próximo verão?
    A noite inteira os galhos esguios da árvore
    movem-se e sussurram à janela iluminada.

    Explica a minha vida,
    tu que não fazes sinal algum,
    embora eu chame por ti na noite:
    não sou como tu, tenho apenas
    meu corpo como voz; não posso
    desaparecer no silêncio —
    E na manhã fria
    sobre a superfície escura da terra
    vagueiam ecos da minha voz,
    brancura que firme se consome em escuridão
    como se finalmente fizesses um sinal
    para me convencer de que também
    não pudeste sobreviver aqui
    ou para me mostrar que não és
    a luz que chamei
    mas o breu atrás dela.

    Autor : Louise Glück — tradução de Maria Lúcia Milléo Martins
    Imagem : Alexei Antonov

    quinta-feira, 31 de março de 2022

    Variação

     

    Depois da morte que realidade
    é a de termos existido? Há

    porventura um passado para a morte?
    O que é ter existido quando o real

    se moveu para o mundo seu contrário?
    Vive ainda a linguagem

    quando os órgãos da fala que produzem
    o canto se perderam e os lábios

    vivem só na memória de por eles
    passarem as palavras?

    Autor : Gastão Cruz
    In Existência, Assírio & Alvim, 2017
    Imagem  Taylor Rayburn