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sábado, 27 de setembro de 2025

Residência


Guardas as estações do sol e as harpas.
Os perfumados símbolos da terra cantam
no primeiro verão do olhar.
As mãos levam-te a vasos de margaridas brancas,
sinuosos e claros oceanos.
Sentas-te à mesa da tribo e repartes o pão.
Um homem que ama nas sombras o fulgor e as essências,
nunca chega tarde aos degraus da alegria, dizes,
o cheiro do vento e do trigo entre os dedos.

Não podes morrer contra o sonho contando as lágrimas,
a face reflectida nos espelhos da alma.

Nunca partas dessa casa onde cresce agora
a voz das crianças, os templos da sua inocência,
as mais bravas e fragrantes ervas do amor.
Queres, eu sei, esse mar, a breve cama dos pombos
quando se abrigam nos rumores.

Não há maior orfandade que chegar à ternura
sem palavras.

Autor : Eduardo Bettencourt Pinto

quinta-feira, 14 de novembro de 2024

Silêncio



Cerca-te como a sombra
de coisas
em forma,
livro fechado
entre o vago pó
do tempo.

Carrega nos braços
a voz da água
e um breve fio
de lume.

Desfolha-se.
Não é outono,
mas traz nos pulsos
a música dos frutos.

E dói
como uma ferida aberta
nos olhos
da melancolia.

Autor : Eduardo Bettencourt Pinto
 Cântico Sobre Uma Gota de Água
Imagem : Anna Heimkreiter

terça-feira, 1 de outubro de 2024

Dança

Procuro no escuro as elevações e o delírio,
mas é a tua voz que me leva
ao fogo.
Atravesso a floresta e o mistério,
o sol mais bravo da noite.
Os teus cabelos ardem
sob a eternidade das minhas mãos.
Uma gaivota grita no silêncio das sombras.
O teu corpo ondula numa viagem
que me leva num barco de água branca
como se em cada setembro
dos teus murmúrios voltasses
com todas as rosas da madrugada
e uma gota de chuva
em cada unha.
Só no fim dos mais violentos relâmpagos
regresso dos teus olhos
nu e inocente como uma criança.

Autor : Eduardo Bettencourt Pinto
Imagem :Richard Calmes

terça-feira, 3 de setembro de 2024

De Setembro

Por ti escrevo o desenho do sol
sobre as macieiras,
o destino da minha sombra
na terra.

Estás longe,
no fulminante calendário
das emoções.

As folhas que pisaste
no último outono
ardem agora,
rutilantes e húmidas,
na tarde vazia.

Cantas na memória
como no primeiro dia,
os dedos cegos como frutos.

Sabes?

O odor dos eucaliptos
é setembro a beijar
a cor dos teus olhos.

Autor : Eduardo Bettencourt Pinto
Imagem : Andrea Hubner

terça-feira, 14 de maio de 2024

Adeus


Chegar ao fim de maio com sal na camisa,
espelhos de água
quebrados junto aos pés;
tudo o que foi o mar, noites nos pátios,
velas, gerânios, cânticos
e barcos crepusculares navegando nos cabelos
de quem te ouvia como se fosses um príncipe.
Tudo fecha-se agora com pesadas chaves,
nos últimos botões da camisa.
Sobre as velhas telhas destas casas
onde os pombos nascem estrangeiros,
ouves a brisa, um frémito de pedra violada
pela irradiação solar.
O silêncio nasce
no momento em que fechas a janela
e o teu olhar se enrola
no último rumor das cortinas.

Autor :Eduardo Bettencourt Pinto
In :Cântico sobre uma gota de água
Imagem : Matt Cherubino

sábado, 25 de novembro de 2023

Ofício

Apagas uma palavra como o vendo árido a pegada.
Sem piedade, limpas do branco o balbucio ténue
como quem arranca do chão a erva daninha.

Fica entre os dedos um cheiro a terra fresca., húmida

e fértil.

Lavrador de música, pegas noutra.
Esperas que nesse passe um barco, os cântaros se encham
de vinho para a festa, ou uma maçã amadureça
nos tristes galhos do inverno.

Nunca sabes: as palavras são bailarinas imprevisíveis,
ou te levam para um campo de águas bravas
ou fogem de ti rindo, por seres tão pobre.

Autor : Eduardo Bettencourt Pinto
Imagem : Karrah Kobus

quinta-feira, 19 de outubro de 2023

Quadro Mediterrâneo

 

Nas altas varandas da tarde os flamingos
eram os dias.
Mulheres de cinza estendiam roupas
em frágeis fios de espuma.

Na orla magma dos templos,
onde se ajoelhavam os mitos,
cantaste o jorrar do vinho,
o entornar de taças sobre os linhos da noite,
acesas estava as lamparinas, os hóspedes
nos degraus de júbilo.

Levantavas das vozes colunas de buganvílias,
ressoar de asa perdendo-se na distância,
tecedeiras olhando o paciente trabalho do verão
nos vasos das janelas
onde os gatos dormiam até ao fim
de setembro.

Chegaste nos cânticos dos trovadores,
no ranger das portas velhas das casas junto ao mar,
nesse homem que ninguém nota, sentado
em ervas de areia, nas pegadas brancas
do vento
e nos secretos presídios
da memória.

Autor : Eduardo Bettencourt Pinto

Nota: EDUARDO BETTENCOURT PINTO, escritor, VANCOUVER, CANADÁ, representa a comunidade açoriana na diáspora. Eduardo Bettencourt Pinto. Nasceu em Gabela, Kwanza Sul, Angola, em 1954. Tem ascendência açoriana pelo lado materno.

terça-feira, 4 de julho de 2023

Estações da idade


Ando descalço sobre o nome da cidade.
Atravesso a rua. Uma sombra caminha ao meu encontro.
Toca-me e desfaz-se como um grito. 
Vim de África há muitos anos e nunca regressei
à idade da minha partida. 
Agora estou num parque, no fim de Novembro,
e o Inverno aproxima-se. 
Sou um homem com a memória de um menino.
Às vezes chove na janela sem fim
dos anos que correram adiante de mim. 
Mas estou aqui, no parque que escurece,
com o meu violino. As folhas dançam,
geladas; o silêncio tem a cor da neve. 
Os sinais da minha respiração crescem entre as árvores
adormecidas.
Mesmo fria a luz canta, húmida.
Como um cão, beija-me as mãos. 
Vou-me embora lentamente. Levo comigo
o teu nome, na minha boca e no meu peito.
Volto-me: os meus pés deixam na terra
o itinerário das aves. 
Amo, murmuro aos ramos quebrados
deste dia enquanto o meu coração
te pede a viagem
de regresso ao poema. 

Autor : Eduardo Bettencourt Pinto (2011-12-01)
Foto : Trey Brafford

terça-feira, 3 de janeiro de 2023

Fim de Festa



Ardem os sinais do coração.
Eis o pátio, deserto e claro
onde adormeceram as palavras que disseste.
Chegam aos olhos e pousam, ressonantes.
Tudo dói, canta e arde
entre os estorninhos das sílabas.
Voltaste sabendo que há palavras
que nunca morrem como serpentes,
puras são, minúsculas conchas
dando à costa da fala
a chama entontecida e fulminante da claridade.
Neste pátio deserto da tua vida
dirás como o velho navegante das estações:
“Dou-me bem com o mundo
na selva do meu silêncio.

Autor : Eduardo Bettencourt Pinto
Imagem : anna derzhanovskaya

sábado, 4 de setembro de 2021

Melancolia

Como se morre diante de uma palavra? Tantas que passaram pelos meus dedos – cardumes, nuvens, revoada de pombos. Areia. Já foram os calções e as sandálias da minha infância. Eu sei: trago-te hoje tão pouco! Mas é impenetrável a neblina dos montes no coração de um homem. O poema nem sempre é o deserto que fulgura diante dos olhos, a tarde de oiro que se levanta em Setembro sobre o cântico da tribo. Às vezes é esta palavra frágil e cansada entre outras palavras e que cega voa em direcção às dunas onde a noite se cala, de tão triste, no fim desta viagem pelo dia.

Autor : Eduardo Bettencourt Pinto
Imagem : Ron Gess

sábado, 22 de maio de 2021

Madrigal rente à Primavera

 

Começo a ouvir o teu nome com o cantar das aves.
Chove na música das primeiras sílabas
e uma abelha voa entre o rumor dos teus cabelos.
Vens de muito longe, do momento em que uma pétala
se abriu sobre o esplendor do mundo.
Tão pura a água que corre entre o silêncio
e o deserto onde a manhã se enche de gritos!
Começo a ouvir-te como se numa terra em chamas
os meus passos fossem as ervas que um dia pisaste
enquanto dançavas de braços abertos
à minha solidão, infinita e glacial.

Autor : Eduardo Bettencout Pinto
Imagem : Brooke Shaden


terça-feira, 22 de dezembro de 2020

Homem consigo próprio


E por uma voz que ainda não escutou
que se levanta do Inverno.
Esperou anos por uma sombra,
um pedaço de terra sem pedras,
uma janela donde pudesse olhar
a inviolável paisagem,
as distantes casa crepusculares, o pó
que derruba no silêncio
a tangível e cintilante melancolia do olvido,
Tomou a sua vida nas mãos, a transparência solar,
fluidez ardente da paixão
Nunca cantou do alto dos palcos da pesporrência
ou entre cintilantes plêiades de comissionistas
da moralidade, 
mas nas derrubadas colunas dos templos,
junto às lágrimas e ao sangue
dos dias
em que morria por tanto amar
um ramo de nespereira quebrado
no olhar duma mulher.
Tem agora postura soturna, alquebrada pelo
reumatismo
uma garça de angústia voa-lhe no coração.
Senta-se no átrio da igreja coçando os joelhos,
cabelos ralos adejando. As verrugas, acentuadas,
são profundas fissuras de mármore.
Alheio, vulnerável, quieto como um álamo,
não se lhe adivinha o andarilho.
Esteve em Nova Iorque, viu ópera,
foi assaltado por um drogado numa galeria
em São Francisco enquanto se concentrava num
[Dalí,
comeu piza olhando, perturbado,
decotes desinibidos numa praça de Paris,
passou em frente à Casa Branca numa demonstra
[ção contra a guerra, bebeu
tequila em esconsos povoados mexicanos
[até se esquecer do próprio nome, amou
tão febrilmente que julgou
pisar de leve a superfície dum paraíso
abstracto. Viveu como um príncipe
deserdado,
e trabalhou num fábrica de sabões tantos anos
Que até a primavera cheirava a sabonete
reformado, ombros caídos, mãos calosas
e deformadas pela solidão,
sentiu no peito o ressoar
da última morte.
Fez as malas, juntou fotografias da sua juventude
em estações de neve, entre amigos e abraçado
a uma irlandesa,
seus pais, vultos cinzentos
na idade da memória.
Mas só ao chegar à ilha,
estonteado e perdido,
compreendeu que a saudade
nunca leva um homem
ao princípio do tempo.

Autor :Eduardo Bettencourt Pinto

terça-feira, 3 de novembro de 2020

Félix

Foto Jenna Martim

Félix tinha dezanove anos quando morreu. Era um velho.

Ao entrar, dei com a fotografia dele na mesa dos obituários. Uma nota, escrita com o abalo de quem sofrera uma perda irreparável, sublinhava a sua rara estirpe. Félix tinha sido uma cintilação. Um anjo sem asas.

Caía a noite. Alguns vultos, dispersos na sala, alimentavam sombras esquálidas.

Bob, com as mãos nos bolsos, passeava numa rua imaginada.

Era uma figura grande. Atravessou a imagem com a placidez de um ser que levita num permanente estado de ausência. Não sabia quem era: O seu próprio nome volteava, sem poiso, num rumor perdido no vazio. Tudo o que porventura tinha na cabeça, eventos, pessoas, lugares, datas, parecia confundi-lo numa desordem permanente. Não falava, balbuciava. A sua memória, fragmentada, voava como uma pomba num palácio desabitado.

Cumprimentei-o. Reparou em mim como se eu fosse um dia de chuva.

Félix, o gato, compreendera estas vidas no fim e amara-as. Conhecia-as pelo rumor da solidão e pelo cheiro da melancolia, sentadas em cadeiras de rodas, as mãos repousadas no inútil mecanismo das horas sem propósito. Então, acudia-as com o calor do seu corpo deixando-se afagar, dormindo com elas, saltando-lhes para o colo.

Durante o dia tomava posse de todos os espaços públicos e privados. Estava em casa. Deixava-se afagar pelas mãos mais sequiosas, mais tristes, trémulas e frágeis. O calor do seu corpo simulava um grande e alto dia de Verão.

Até que ficara órfão dos donos. Ele primeiro. Depois ela.

As empregadas questionaram-se. Que fazer de Félix, agora velho, sozinho, o pelo a perder o fulgor de outrora? Dera tudo o que tinha. Não podia ser preterido como algo inútil à mercê de quem, eventualmente, o adoptasse.

Arranjaram-lhe um cantinho na sala. Puseram a cama, o caixote com areia e o prato. Félix continuou como sempre, meigo, disponível, e a deixar o calor do seu corpo no inverno sem regresso dos anciãos.

Na manhã em que não acordou, o crepúsculo de Novembro caía com as folhas das árvores e iluminava o ar e o chão numa dança doirada. Fechou-se um ciclo.

Félix, o gato, animava agora o colo das estrelas.

Autor :Eduardo Bettencourt Pinto 2015-11-15
Lugar dos Áceres, British Columbia

sábado, 14 de março de 2020

Residência



Guardas as estações do sol e as harpas.
Os perfumados símbolos da terra cantam
no primeiro verão do olhar.
As mãos levam-te a vasos de margaridas brancas,
sinuosos e claros oceanos.
Sentas-te à mesa da tribo e repartes o pão.
Um homem que ama nas sombras o fulgor e as essências,
nunca chega tarde aos degraus da alegria, dizes,
o cheiro do vento e do trigo entre os dedos.

Não podes morrer contra o sonho contando as lágrimas,
a face reflectida nos espelhos da alma.

Nunca partas dessa casa onde cresce agora
a voz das crianças, os templos da sua inocência,
as mais bravas e fragrantes ervas do amor.
Queres, eu sei, esse mar, a breve cama dos pombos
quando se abrigam nos rumores.

Não há maior orfandade que chegar à ternura
sem palavras.

Autor: Eduardo Bettencourt Pinto
Imagem : Viktor Dikanchev

sábado, 21 de janeiro de 2017

...

Mikael Aldo

Um amigo
Há uma casa no olhar
de um amigo.
Nela entramos sacudindo a chuva.
Deixamos no cabide o casaco
fumegando ainda dos incêndios do dia.
Nas fontes e nos jardins
das palavras que trazemos
o amigo ergue o cálice
e o verão
das sementes.
Então abre as janelas das mãos para que cantem
a claridade, a água
e as pontes da sua voz
onde dançam os mais árduos esplendores.

Um amigo somos nós, atravessando o olhar
e os véus de linho sobre o rosto da vida
nas tardes de relâmpago e nos exílios,

onde a ira nómada da cidade arde
como um cego em busca da luz.

Autor : Eduardo Bettencourt Pinto
in da outra margem

terça-feira, 18 de outubro de 2016

Pai



Os meus dias caíram na água
como um naufrágio de folhas secas.
Caminho lentamente para a idade
com que partiste.
Observo um poente antigo por trás
do teu nome; cega-me
o esplendor desse mistério.
Levanta-se uma revoada de pássaros
num horizonte de neblina.
Confio ser esse o tempo que nos separa

.Autor : Eduardo Bettencourt Pinto

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Fragor



E vêm daí as marcas da sombra:
a trança solta ao sol de fevereiro,
uma mão cheia de vento sobre o teu ombro,
e o cão do crepúsculo a correr adiante de nós.
Como um destino,
leva consigo as últimas palavras
antes da noite.

Autor : Eduardo Bettencourt Pinto