quarta-feira, 30 de setembro de 2020

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O amor nunca morre de morte natural.

Ele morre porque nós não sabemos como renovar a sua fonte.
Morre de cegueira e dos erros e das traições.
Morre de doença e das feridas.
Morre de exaustão, das devastações,
da falta de brilho...

Autor : Anaïs Nin
Imagem Jenna Martim

terça-feira, 29 de setembro de 2020

.

Já foram puras estas mãos
Já tive ternas intenções
Busquei amor por toda a parte
Só encontrei desilusões

E quando em mim já nada resta
Que valha a pena aproveitar
Vens tu mulher também vencida
Com o teu amor p’ra me salvar

E assim desamparados os dois vamos seguindo
E a noite nossos vultos encobrindo
Vivemos sem vontade no tempo baloiçando
E o tempo nossas vidas vai queimando

Autor : Vasco de Lima Couto
Imagem : Bree Rivers

domingo, 27 de setembro de 2020

O acordar

Acordei com a impressão de ouvir uma voz
e sei que foi ilusão
o corpo repousado, recusou levantar-se
e ficou a relembrar outras vidas que se cruzaram
com a minha
.
De olhos semicerrados
e em fracções de segundos
aromas incendiaram o quarto
e levaram-me a instantes de deleite
sentimento e alvoroço
a moldaram-me o acordar
 .
Saltei da cama apressada
E fui dançar o dia.
 .
Autor: BeatriceM 26-08-2012
Imagem : Sorin Jurcurt

sábado, 26 de setembro de 2020

Aqui


Aqui o inferno mata as profissões
Que têm acesso ao ar.
Diz-se que deus se absteve
De criar servidores para os condenados
Ao tédio.
Morre-se no emprego
Com a garganta apertada por uma mão
Sem ossos.
Aqui os anos crescem pouco ou nada.
Os dias e dias secam na raiz.
Não há horas felizes.
O sol sempre se deu bem com gente como esta
Que salpica de chuva os seus pequenos
Afazeres
Para ficar em casa.
Gente com plenos poderes
Para desmanchar a festa que se alonga
Para lá da cabeça.
Diz um: eu sou o sábio de domingo.
Agora não me ocupo de dias úteis, de remendos d’alma,
De fragilidades.
Esperem por mim mas só depois
Da missa.
Diz outro: a ética é grega de nascença
Movemo-nos por números, já sentenciava Pitágoras.
Não cunhamos moeda, não sujamos as mãos
Nos improvisados remos do naufrágio.
O nosso destino é perguntar.
Parece que deus quis que não nascesse a obra.
Nascer que nasça o sol
E é bastante.
Quem pergunta ao sonho pelo homem
De serviço?
Nos campos vicejam novamente as urtigas
São restauros agrícolas,
Exemplos a seguir, ordens vindas de cima,
Ao ouvido,
Na sala dos banquetes.
O mar faz de cão velho e deixa-se ficar
À espera no patamar dos mitos.
Ninguém o suporta
Nem ao seu uivar aos pés
Da história.
Comovidos estamos, com um não sei quê,
Um quanto, um como, uma dor
Que levanta asas
E vai do vale à montanha
Como vão os monges cavaleiros
À televisão.
Aqui a cidade abre-se para lá da noite
E é sempre belo ver a madrugada
A chorar os seus ídolos.
Aqui os que têm coração
Têm desconto.

Autor : Armando Silva Carvalho
Imagem : Nikolay Tikhoirov

sexta-feira, 25 de setembro de 2020

Se tu viesses agora

Se tu viesses agora,

Se entrasses àquela porta
e te viesses sentar
mesmo defronte de mim
nesta cadeira vazia
ocupada de silêncio,

E me dissesses bom dia
boa tarde
ou boa noite
(qualquer coisa aconchegada
a anunciar o regresso),

e me sorrisses depois
num compromisso ternura,

Se o gesto da tua mão
recaísse no meu ombro
a atenuar a distância
entre mim e a tua ausência,

Se me desses a entender
que o erro das nossas vidas
não foi acto consumado
e que nada chega ao fim
sem que seja ultrapassado
pelo querer da decisão,

Se tudo isto acontecesse,

Se por milagre
ou loucura
eu agarrasse a lonjuga
e te fizesse mais perto,

com certeza que morria
ou renascia contigo
nesse preciso momento.

Autor :Manuela Amaral
in ""Tempo de Passagem"
Imagem : Viktoria Haack


quinta-feira, 24 de setembro de 2020

O meu poema teve um esgotamento nervoso.

O meu poema teve um esgotamento nervoso.
Já não suporta mais as palavras.
Diz às palavras: palavras
ide embora,
ide procurar outro poema
onde habitar.

O meu poema tem destas coisas
de vez em quando.
Posso vê-lo: ali distendido
em cama de linho muito branco
sem perspectivas ou desejo

quedando-se num silêncio
pálido
como um poema clorótico.

Pergunto-lhe: posso fazer alguma coisa por ti?
mas apenas me fixa o olhar;
fica a li a fitar-me de olhos vazios
e boca seca.

Autor :  Daniel Jonas
Imagem : Ira Zhuyka Dzhul

quarta-feira, 23 de setembro de 2020

Silêncios da fala

São tantos
os silêncios da fala

De sede
De saliva
De suor

Silêncios de silex
no corpo do silêncio

Silêncios de vento
de mar
e de torpor

De amor

Depois, há as jarras
com rosas de silêncio

Os gemidos
nas camas

As ancas
O sabor

O silêncio que posto
em cima do silêncio
usurpa do silêncio o seu magro labor

Autor : Maria  Teresa Horta
Imagem :laura makabresku

terça-feira, 22 de setembro de 2020

Hoje está a chover

Foto :Logan Zilmer

Hoje está a chover

Não sei ao certo onde é o lugar do outono
mas sinto, onde quer que ele esteja
que também está dentro de mim, 
doce e triste ao mesmo tempo. 
Já sinto frio, 
queimo tudo o que deixaste 
para me aquecer, 
sem ti.

Autor :Luís Rodrigues-
https://brancasnuvensnegras.blogspot.com/

domingo, 20 de setembro de 2020

Detalhes

  Como se ainda estivesses a olhar,
o poente, nos caminhos do sul,
as mãos nas minhas,
e a barreira do silêncio em nós.

As palavras que não dissemos
a lágrima que eu escondi.
O momento em sonho iludido,
e o fim do desejo,
a planar na tarde.
.
Autor : BeatriceM 2013-09-08
Imagem: Viktoria Haack

sábado, 19 de setembro de 2020

Pórtico

Com os meus amigos aprendi que o que dói às aves
Não é o serem atingidas, mas que,
Uma vez atingidas,
O caçador não repare na sua queda

Autor : Daniel Faria
in “A casa dos Ceifeiros”
Imagem : Natália Drepina

sexta-feira, 18 de setembro de 2020

Sinais

Assim corria o tempo 
Nem sol nem chuva 
Bucólico pardacento 
Porém ousado ele apareceu 
Vestindo roupagem festiva 
Desafiou o tempo e a vida 
E no maior deslumbramento 
Coloriu de luz o firmamento 
Quero mesmo acreditar 
Que nos fitamos longamente 
Alma na alma íris com íris 
No mais profundo do olhar 
Depois com perplexidade 
Dei conta que ele estava lá 
Mas só pela metade 
Nunca tinha visto nada assim 
Um arco-íris mutilado 
Que deixou algures metade dos vitrais 
Ali especado a olhar para mim 
Ah como a vida nos mostra os sinais 
Estou tal qual o arco-íris na realidade 
E ele Amigo veio apenas lembrar-me 
Que terei de lutar pela outra metade 

Autor:Alice Queiroz
Imagem :Istvan Sandorfi 

quinta-feira, 17 de setembro de 2020

Intermezzo



Hoje não posso ver ninguém:
sofro pela Humanidade.
Não é por ti.
Nem por ti.
Nem por ti.
Nem por ninguém.
É por alguém.
Alguém que não é ninguém
mas que é toda a Humanidade.

Autor : António Gedeão
Imagem : Andrew Wyeth

quarta-feira, 16 de setembro de 2020

Carta de um náufrago



Com o consentimento da neve
caminharei devagar.

Alguém haverá à espera junto do fogo
e eu, que estarei cega pelo frio,
farei paragens breves
sacudirei o guarda-chuva e começarei de novo.

O único segredo é não sentir-se
imensamente cheio de verdades.
Não aceitar nunca os convites
que o nevoeiro
sugere ao fazer ninho com os seus disfarces
de paisagem feliz, de grandes sonhos.

Alguém haverá que diga, perdeu-se,
alguém sairá a procurar-me,
e levará o calor de uma garrafa
onde poderei mandar-te esta mensagem.

Autor AnaMerino
trad. joaquim manuel magalhães
Imagem : Rosie Hardy

terça-feira, 15 de setembro de 2020

A Palavra


Não sei que é feito delas: as palavras 
para onde fugiram ? recolheram
a que lugar distante… e, sem as ver,
sinto um vazio em mim feito de nada.

À minha beira permanecem sempre
à espera que eu as chame ao meu convívio - 
e ei-las ali silenciosamente 
aguardando de mim o desafio.

E relanço o olhar à minha volta 
e mesmo tu me surges tão diáfana
que já nem sei se tu, tempo sem horas, 
só foste em minha vida vã palavra.

Autor : Antonio Salvado
Imagem: Alex Stoddard

domingo, 13 de setembro de 2020

O tempo (quente)

O tempo (quente)
Entontece-me o corpo
Esvazia-me os sentires (transmuta-me)
Em mulher ave – que sonha um voo (imaginário)
Com asas emprestadas
Que tem poderes inúteis mas sabe
Desenhar arco-íris
Mulher que segura um punhal
E estilhaça sonhos
Que desafia marés e que sonha asas-de-cetim
Com fragmentos de luares

Autor : BeatriceM 2012-09-02
Imagem : Rosie Hardy

sábado, 12 de setembro de 2020

Nocturno Rural



Nem gesto,
nem canção
– sequer um beijo
escondido. 

Tudo é silêncio
e um suave rumor de fonte
perdendo-se na imensidão
das distâncias. 

O ardor do dia
poisa enfim no dorso
da terra dormente. 

Numa janela, exígua,
acende-se breve
uma trémula luz. 

Já a lua se não sente
tão branca e só. 

Autor : Pedro Belo Clara 10 de agosto de 2020 
Imagem: Mina Sarenac

sexta-feira, 11 de setembro de 2020

Por favor


Quando queres alguma coisa
Não te esqueças, meu amor,
De juntar ao teu pedido
As palavras por favor

Vai fazer toda a diferença
Como azeite do vinagre.
Fica tudo mais alegre
Como se fosse um milagre.

Faz acontecer magia
Não te esqueças Por Favor!
Porque toda a cortesia
É uma forma de amor.

Autor : Rosa Lobato Faria
In “ABC das Coisas Mágicas”

quinta-feira, 10 de setembro de 2020

Nuvens


restam as verrugas dos ciclos de mares laborais
nas danças da azáfama esquecida
searas ricas de cantos produtivos de fomes desejadas
sopros de velas que enchiam celeiros abertos
pós de fainas nunca encenadas ou lavores falseados...
até que a mordaça afundou a coragem morena
nos estios de campos respirados e apaziguadores
e as palavras suaram nas prisões talhantes de vidas
em lutos impossíveis de tempos infindáveis...
um dia gritaram-se lezírias de esperanças
nasceram choros em ruas cheias de moagens puras
brindes fugazes de banhos ébrios e causas naturais
as sílabas gaguejaram de novo em sussurros vândalos
onde a fome e o esbulho pagam as dívidas tiranas 

Autor: José Luís Outono - 2016
in Três Mares
Imagem: Tullius Heuer


quarta-feira, 9 de setembro de 2020

O poeta é um guardador

                                         o poeta é um guardador 

guarda a diferença 
guarda da indiferença 

no incerto 
guarda a certeza da voz

Autor : Ana Hatherly 
In "Um Calculador de Improbabilidades" 

terça-feira, 8 de setembro de 2020

....


Já ninguém morre de amor, eu uma vez andei lá perto, estive mesmo quase, era um tempo de humores bem sacudidos, depressões sincopadas, bem graves, minha querida, mas afinal não morri, como se vê, ah, não, passava o tempo a ouvir deus e música de jazz, emagreci bastante, mas safei-me à justa, oh yes, ah, sim, pela noite dentro, minha querida. a gente sopra e não atina, há um aperto no coração, uma tensão no clarinete e tão desgraçado o que senti, mas realmente, mas realmente eu nunca tive jeito, ah, não, eu nunca tive queda para kamikaze, é tudo uma questão de swing, de swing, minha querida, saber sair a tempo, saber sair, é claro, mas saber, e eu não me arrependi, minha querida, ah, não, ah, sim. há ritmos na rua que vêm de casa em casa, ao acender das luzes, uma aqui, outra ali. mas pode ser que o vendaval um qualquer dia venha no lusco-fusco da canção parar à minha casa, o que eu nunca pedi, ah, não, manda calar a gente, minha querida, toda a gente do bairro, e então murmurarei, a ver fugir a escala do clarinete: — morrer ou não morrer, darling, ah, sim. 

Autor : Vasco Graça Moura
 in Antologia dos Sessenta Anos
Imagem : Logan Zilmer

domingo, 6 de setembro de 2020

Hoje


Hoje
Olhei o calendário
É domingo, dia de ir à missa
Mas a cidade está deserta
Diria que despovoada
Mas sei que por detrás das janelas
Existe gente como eu
Fico-me atrás das cortinas
A olhar o vazio
De uma cidade inquieta
E paralisada pelo medo

Autor : BeatriceM 2020-09-06
Imagem : Erin Graboski

sábado, 5 de setembro de 2020

.

Lavo tudo, 
os lençóis, 
a almofada, 
as toalhas, 
os copos
por onde passaste. 
Lavo a boca, 
os cabelos, 
o sexo, 
a minha vida
por onde passaste. 
Só te deixo ficar
na minha memória
por onde passaste. 

Autor :Luís Rodrigues
https://brancasnuvensnegras.blogspot.com/
Imagem :Hossein Zare

sexta-feira, 4 de setembro de 2020

Tenho a saúde doente

Tenho a barriga nos ombros 
e a cabeça no ventre. 

Tenho os pulmões nos ouvidos 
e o coração está na boca. 

Penso com os pés 
com as mãos 

e no meio da confusão 
ando de pernas para o ar. 

Tenho a saúde doente 

por ser poeta 
e ser louca. 

Autor : Manuela Amaral 
In "Tempo de Passagem” 
Imagem: Magdalena Russocka

quinta-feira, 3 de setembro de 2020

podes levar os dias que trouxeste


os pássaros soterraram agosto

e sem lugar um homem cega pela janela

o mar que jura ter tocado com o sangue
podia ter sido o amor se não tivesse vindo


tão directamente da sede

um duplo rosto de enganos e os braços

que saíram desertos
o eco da morte reverbera na pele
com que vejo a tua ausência encher as ruas
um choro de papel cai pela terra
e nunca foi tão tarde ser depois

daqui onde o grito surdo incendeia


a refutação da madrugada

donde o crânio esmaga o coração

um homem corta pela janela
a própria certeza de ter sido

não   é tarde demais para uma manhã


que foi a enterrar em tantas noites

as escadas morreram de sede


a terra caiu em nunca

podes levar os dias que trouxeste

Autor : Pedro Sena-Lino
Imagem: Katerina Plotrikova

quarta-feira, 2 de setembro de 2020

As tuas mãos

Se tu soubesses
 que tudo o que de mais alto
poderás ambicionar,
está ao alcance das tuas mãos.

Se tu soubesses

que a razão máxima
da existência das tuas mãos,
é encontrar outras mãos.

Se tu soubesses

quanta divindade
ganham as tuas mãos,
quando acariciam.

Se tu soubesses

compreender estas verdades
nunca vazias
tuas mãos fecharias.

 Autor : Ana Bela Pita da Silva
In "Fala a Meus Amigos" – Edição da Autora – 1977 – Lisboa
Imagem : Jenna Martin

terça-feira, 1 de setembro de 2020

Carta de Condução


Já tive um carro da cor dos teus olhos. Deixava-o
estacionado à frente de prostíbulos onde alugava
quartos com vista sobre o quintal dos vizinhos, 

Esperava por semáforos, sem saber que esperava
apenas por ti. No auto-rádio, a tua voz cantava
fados demasiado velhos até para a minha mãe. 

A segunda circular era uma manifestação pacífica
de pára-brisas, as palavras de ordem eram simples
porque ainda não sabia que já me tinhas escolhido. 

Quando os outros rapazes folheavam revistas de
carros nas aulas de matemática, eu apenas me
interessava por unicórnios e farmácias abandonadas. 

Agora os meus olhos contam quilómetros nos teus,
procuro papéis entre os papéis do guarda-luvas e
tenho tanto medo que me vendas em segunda mão. 

Autor : José Luís Peixoto
Imagem : Ben Maclean