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quinta-feira, 6 de agosto de 2020

crisálida


dissolver o cansaço na aspirina o açúcar a angústia
a lembrança no sono o tropeço os falhanços, ligar
com cimento, construir

chorar de vez em quando às escuras para a febre descer

polir palavras com escova colocá-las com pinça
no interior, derramá-las num jarro sem vinho sobre o papel,
deixar secar, recortar, recompor, calar gritos, escrever

sonhar os poemas que não se escreve, escrever os poemas que não.
podar as plantas nos filhos, mostrar os frutos, o caroço,
o saco do lixo, a hora de ponta, suor. depois lavar. levar
o peito à rua, receber os outros, perdê-los, trocá-los,
devolver este par de mãos àquele mar, afogar em esforço
a carótida torcida do tempo, parar sempre noutra esquina,
fugir à vertigem com o prazer das alturas, perder,

permanecer sentado até à dor nos ossos, cronometrar paciências,
aprender na lentidão a única saída,
rápida

e envelhecer.
acreditar?

Autor:Manuel Cintra
Imagem: Ali Jardine

quinta-feira, 16 de julho de 2020

talvez



talvez te encontre um dia
tarde, de noite, demais, 
rodeado de livros e de rugas
escritas uma a uma sangue a sangue. 

talvez eu chore, talvez tu.
seja qual for, terá valido a pena 
de pato, ainda plantada
na asa ou já gasta de escrever. 

virei nu.
hei-de atirar-ta 
à cara essa nudez
que trago sempre no fundo 
e me tem saído
caro. 

caro com um beijo.
à cara como um beijo 
depois.

Autor Manuel Cintra
in Bicho de Sede, Lisboa, Ulmeiro, col. Imagem do Corpo nº 31, 1986: 9, 28, 33 e 34.

quinta-feira, 25 de junho de 2020

POEMA INÚTIL:


Claro que não. Nada disto encoraja ninguém.
O silêncio, que às vezes era sinónimo de paz,
aguarda agora outros sons, escondido na violência.


A pessoa que passa na rua pela pessoa, faz por não existir.
Se calhar tinha expressão de linho, e agora está uma estopa.

Os minutos mudaram de sangue. Já não conseguem circular.
As veias parecem cheias de um líquido que o futuro talvez mate.
Há canções,por todo o lado, à beira de morrer.


E perante isso, alguns morrem daquela outra coisa já prevista.
E outros, pela primeira vez, se sentem solidários e com desejos
de loucura, por terem sido sempre tão normais.


Agora a única hipótese é olhar para a prosa como se fosse poesia, olhar
para a vida como se fosse música possível
e ainda totalmente por compor.

Muitos pensam no passado. Quando ainda não havia presente.
Quando um beijo não era ainda extra-terrestre.
Quando gritar ainda não chamava a atenção.
Quando a infecção ainda não fazia floreados no chão.

Somos tão frágeis como um beijo por dar, na palma da mão.

Autor : MANUEL CINTRA. 2 de Abril de 2020
Imagem : Istvan Sandorf