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sexta-feira, 4 de agosto de 2023

O medo

 

imaginamos sinais de orvalho nas manhãs que emergem
das noites mais quentes e secas
do estio da nossa alma
antecipamos caminhos largos e floridos
nas placas cimentadas do chão
onde nos pregamos aos pés
e pedimos ao sol que trespasse
as densas nuvens do nosso inverno
interno

a cada tempo queremos um outro tempo
em cada espaço suspiramos por outro espaço
e nas mãos de hoje vemos apenas
a saudade dos toques de ontem
a ânsia pelos gestos de amanhã
e as marcas dos momentos que não vimos passar

fechamos as janelas ao medo como se ele tivesse saído
para passear os cães que nos guardam as portas

na recusa de vermos que moramos numa casa
feita de pele
sem portas nem janelas
inalamos o ar rarefeito no conforto aveludado de todas as coisas
exteriores a nós
e exteriores ao nosso medo

mas o medo é um gato preto e manso
que se deita no nosso ombro esquerdo
à espera de um afago
para se poder cumprir

e quando o medo se cumpre
o medo
não mete medo algum

temos por baixo da pele uma vida feita de instantes
ausências esperas
dores angústias
risos prazeres
instantes de corpo de alma

e de afagos
ao nosso medo preto
no olhar branco do nosso gato
manso

Autor : Rosário Ferreira Alves
imagem : Rob Woodcox

quarta-feira, 5 de julho de 2023

As Asas dos filhos


quando antecipamos o voo
antes de terminado o tempo
da aprendizagem das asas
a euforia pela nova liberdade
pode ser amortecida
pela ira dos ventos contrários

se cedo nos atiramos ao mundo
cedo o mundo se atira a nós
e o cansaço acaba por chegar
antes do tempo do descanso

um cansaço tamanho
que nem encontramos memória
do caminho até ele

e cedo
-demasiado cedo-
a vontade de recolher as asas e enrolar o corpo
nos novelos com que fizemos
o derradeiro ninho

um ninho seguro e redentor
feito de abraços maternais
e colos a segurar voos
que não se querem apressados

sabemos que não conseguimos preparar o coração
para os voos dos nossos filhos
porque também eles nos são colo e abraços
e guardam a nossa alma à superfície da pele
onde sentem o ar que lhes faz crescer as asas

é imenso o esforço imensa a ternura
incondicional o amor
com que inventamos planos de voo
planos de sorrisos
planos de ausência de dor

não temos garantias e isso é
totalmente irrelevante
porque os filhos são promessas do universo
e nele se vão cumprir
nós somos apenas grandes braços
que se desdobram em mãos de amparo

um dia partem
como nós partimos
e ainda assim vão ficar
como nós ficámos

só os filhos são capazes de ir
e ao mesmo tempo

ficar

Autor : Rosário Ferreira Alves
in lunaris, Poética Edições 2016
Imagem : Duong Quoc Dinh

domingo, 24 de abril de 2016

a eclosão das manhãs

Eric Zener

houve uma noite
em que todas as manhãs eclodiram

a lua dançou as quatro fases
o mar subiu e desceu um peito arfante de marés
as árvores despiram-se vestiram-se e floriram
e a terra rodopiou pelo tempo inexistente

e eu
não saí do meu lugar
recolhida encolhida numa concha
sem saída
reclinei-me na janela das ilusões
a ver passar os sonhos
como se fossem rebanhos em transumância

e
se agora digo que houve uma noite
é para não ter de contar
as noites todas
até aqui

Autor : Rosário Ferreira Alves