terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

é como acordar


mas aquilo que flúi quando acordas,
aquilo que te liga os dias donde vens
aos dias a que queres chegar,
aquela abundância de razão e de consciência
que te dá sentido à vida...

esse movimento está ausente
e sentes-te como um fumo.

qualquer coisa te pode esmagar,
qualquer gesto te pode transportar
a um chão que não existe,
a um caminho
que os teus passos não sabem percorrer.

e as tuas mãos ficam húmidas desse delírio.
e os olhos caem-te aflitos no lugar da doçura ausente.

e ficas sem gritar,
ergues-te sobre esse dia que chega
e tudo é maior do que possas ter para te agarrar.
e deixas-te ir, etéreo como um fumo…

podia ser esse o minuto da loucura.
podia ser esse o momento de abraçar a luz
e estalar docemente numa noite qualquer.

como uma fenda de fogo,
como um punhal de lume
que enfim te rasgasse o mundo.

autor : gil t. sousa
imagem : Brooke Golihtly

domingo, 1 de fevereiro de 2026

Sou

Sou esta presença suspensa
num mundo que me habita
mas não me reconhece

sem rumo absoluto,
estrangeira da minha própria pátria,
perdida numa terra apenas habitável

desconheço a raiz que me sustém
e estes sentimentos
que o destino rasgou

— ou talvez o simples acaso —
deixados a céu aberto
sem explicação

mas sei que sei
por onde sigo,
mesmo que o caminho me desminta,

mesmo que o certo
não seja sempre o que escolho,
eu sigo… porque ainda sou.

Autor : BeatriceM 2026-01-31
Imagem : Brooke Shaden

sábado, 31 de janeiro de 2026

Meu País Desgraçado

Almada Negreiros


Meu país desgraçado!…
E no entanto há Sol a cada canto
e não há Mar tão lindo noutro lado.
Nem há Céu mais alegre do que o nosso,
nem pássaros, nem águas…

Meu país desgraçado!…
Porque fatal engano?
Que malévolos crimes
teus direitos de berço violaram?

Meu Povo
de cabeça pendida, mãos caídas,
de olhos sem fé
— busca, dentro de ti, fora de ti, aonde
a causa da miséria se te esconde.

E em nome dos direitos
que te deram a terra, o Sol, o Mar,
fere-a sem dó
com o lume do teu antigo olhar.

Alevanta-te, Povo!
Ah!, visses tu, nos olhos das mulheres,
a calada censura
que te reclama filhos mais robustos!

Povo anémico e triste,
meu Pedro Sem sem forças, sem haveres!
— olha a censura muda das mulheres!
Vai-te de novo ao Mar!
Reganha tuas barcas, tuas forças
e o direito de amar e fecundar
as que só por Amor te não desprezam!

Autor : Sebastião da Gama
in 'Cabo da Boa Esperança'

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

é sempre a mmesma curva


é sempre a mesma curva
cega, neste troço de pedra lascada,
não há como escapar
às primeiras chuvas
ao piso escorregadio dos olhos,
despiste, falésia mortal,
o coração não entende
sinais vermelhos.

autor : renata correia botelho 
(in Revista Telhados de Vidro nº 2, p. 39, Averno, Lisboa, Maio 2004
Imagem : Pinterest

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

DIA A DIA AMANTE DO POETA

Josep Moncada

É o dia a dia amante do poeta

um rosto contra todas as pátrias
num arco de versos no deserto do século

uma cratera aberta no silêncio
para engolir todo o pranto da terra
até o homem ficar nu

ouro sobre azul sobre a morte
definitivamente

É o dia a dia amante do poeta

as letras do seu nome
pronunciadas no abismo
enquanto um povo inteiro desaparecido em beleza
sob a asa do mistério

canta na sua boca

e um oceano e outro oceano
amanhece contra o coração

toda a saliva do amor

como uma serpente
sorrindo num vendaval de estandartes brancos
desfraldados a teus pés

caligrafia de aves sobre o precipício
antes do relâmpago
na neve devagar
até explodir nos lábios

Autor : António José Forte
*Poemas do livro “Un couteau entre les dents”,

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Risco


a cicatriz é um risco
do puído que ficou
um traço que foi escrito
com o visgo que jorrou
uma linha que lateja
não o vigor do vertido
mas algo que ali sobeja
do que já foi esquecido

Autor : Vera Lúcia de Oliveira

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Evasões


Oiço a tua voz
enlouquecida de palavras
dentro das quatro
paredes da minha pele.

A voz que foge
as palavras que caem
a pele que já não é minha.

Vestígios de uma
evasão a dois.

Autor : António Barroso Cruz
Imagem : Michal Zahonacky

domingo, 25 de janeiro de 2026

Barco de Sonhos


Escrevi todos os meus sonhos
numa página imaculada
onde o silêncio ainda respirava
e dela fiz um barco
leve como um gesto de esperança

mas, sendo apenas papel,
desfez-se ao primeiro embate do mundo,
fragilizado pela coragem
de querer existir

e, no breve naufrágio,
não foi só o barco que se perdeu:
afundaram-se também
todos os meus sonhos

e o que restou de mim
ficou à deriva, até hoje.

Autor:BeatriceM 2026-01-24
Imagem : Achraf Baznanis

sábado, 24 de janeiro de 2026

...

Eu escondia
debaixo de um baú antigo
no celeiro velho da fazenda
meus rascunhos
dos poemas
que eu iria
escrever um dia
quando os recolhi
cheirava a mofo envelhecido
mas vivi.

Autor : AA
In Albino Alves Facebook do Autor
Imagem : Manuel Archain

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Noutro lugar do vento



Até posso corar se te disser que todas as noites,
quando me afundo na cama,
abraço-me como se fosses tu a abraçar-me.
Peço-me de empréstimo.
Enquanto os teus braços estão aí,
noutro lugar do vento 

Autor : Ana Salomé
Autor : Alex Stoddard

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Soubeste abrir a porta


Soubeste abrir a porta
que dá para o sucesso
para o longínquo
para um lugar
onde mesmo em deserto
o amor nasceu
onde o leito dum rio
traça a directriz
capaz de o conduzir até ao mar

Autor : António Salvado
Imagem : Pinteres

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Eternamente

Enquanto nos teus olhos encontrar
O verde das searas
A imensidão do mar
E essa explosão de estrelas
que brilha no luar.
.
Enquanto o sol brincar no teu sorriso
E o dia amanhecer
Doce, brilhante e quente
.
Enquanto tudo isso acontecer
Eu vou viver…
Eternamente!

Autor : Isaura Moreira
Imagem : Michal Maciak

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Mais do que do outro

 


Mais do que do outro o meu reino é deste mundo
mundo de desencontros marcados «slogans» que violam
os espaços aéreos de países castos
e se dissipam além dos limites naturais
um laivo incendiando as espirais do rasto
Mais do que do outro o meu reino é deste mundo
mas de uma província de incerta geologia
com uma história sem crónicas ou reis absolutos
a única a que a constituição se refere numa clave de sol
onde os cidadãos de todos os burgos
pulam à rua das mãos estendidas de deus
dessa nenhuma anexação polui a virgindade civil.

Autor : Sebastião Alba
Imagem :Pinterest

domingo, 18 de janeiro de 2026

O Anel


O anel que me ofereceste
descansa, discreto,
no cimo de livros antigos
da estante de madeira.

Às vezes olho-o
e sei que não lhe posso tocar.
Talvez ainda me sirva no dedo,
mas já não o arrisco.

Permanece lá,
esquecido e só,
como fiquei eu,
tentando remendar
o que nunca chegou a ser. 

Autor:BeatriceM 2026-01-17
Imagem : Alejandra Salido

sábado, 17 de janeiro de 2026

O que me faz escrever este poema

Lis Costa

O que me faz escrever este poema
não são as coisas: terra céu astros.
A saber: estendo a mão: e
o mundo reconhece-a encontra a

memória onde repousa e se transforma.
Pequena questão de valor cósmico. Insisto:
elo que liga bruma e fumo
felicidade de imagens nome inamistoso.

Não sonho palavra sonho barco.
Imóvel aprendo a não esquecer:
aspecto mineral do corpo
um destino de mica qualquer coisa
que não cessa de bater.

Autor : João Miguel Fernandes Jorge
in "Vinte e Nove Poemas"

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

O Tempo

Johan Messely

O tempo tem aspectos misteriosos:
Um ano passa a toda a velocidade,
E um minuto, se estamos ansiosos
Parece, às vezes, uma eternidade.

Um dia ou é veloz ou pachorrento
-depende do que está a contecer-
O tempo de estudar, pode ser lento.
O tempo de brincar, passa a correr.

E aquela terrível arrelia
Que até te fez chorar, por ser tão má,
deixa passar o tempo. Por magia,
Quando olhamos para trás, já lá não está.

Autor : Rosa Lobato Faria

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

...

 

Por que pairas?
Por que insistes?
Por que pairas se deixaste
que te prendessem terrenas
falsas tranquilidades?
Por que negaste o que eras -
nuvem íntegra, real,
sobre as mentiras do mundo?
Às vezes cantas em tudo.
Mas é tão triste e tão tarde.
Meu amor, porque vieste?
Nunca tivera sabido
como se nasce e se morre
de repente ao mesmo tempo
para sempre, ó arrastada
humana deusa frustrada
água irmã da minha sede
luz de toda a claridade
que só em ti neste mundo
para mim era verdade.

Autor : Alberto de Lacerda
Autor : Carlos Alberto Portugal Correia de Lacerda
in 366 poemas que falam de amor, uma antologia organizada por Vasco Graça Moura, Quetzal Editores
Imagem : Martin Stranka

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

A saudade

a saudade não é da ordem do tempo

mas sim do espaço
não se trata de querer
rever revisitar reencontrar
(reiteração de verbos
num infinitivo infinito)
mas de algo da equipe do corpo
seu acervo de cheiro e ruído
seu buquê de seiva e voz
a saudade é da ordem do espaço
vago e é sempre hoje
e é hoje sempre
nesse seu breu
escavado
sabe-se como
debaixo das barbas do sol

Autor : Adriana Lisboa.
Imagem : TJ -Drysdale

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

CORPO

em cima do que foi olhado
pela poesia

estendo o meu luando

empresto o meu corpo ao chão
e adormeço.

Autor : Ndalu de Almeida, mais conhecido como Ondjaki
Imagem : Pinterest

domingo, 11 de janeiro de 2026

Desconsolo


À espera da viagem
que se perde no almejar,
pelas estações corridas
uma após outra —
o mapa velado revisto,
já sem esperança 

Autor:BeatriceM 2026-01-10
Imagem : TJ.Drysdale

sábado, 10 de janeiro de 2026

Amo-te Assim


Amo-te assim
Com o amor dos condenados,
O desespero dos náufragos,
A lucidez dos suicidas;
Moro em tua liberdade,
Sonho em teu mar selvagem,
Desperto em tua vida.
Amo-te assim
Com a tristeza dos cegos
E a doçura do crepúsculo
Na hora azul que se perde
Entre o que sou e o que fui.
Amo-te assim
Em cada último minuto
Que rola sobre as pétalas
De tua essência,
E morre em minha carne.

Autor : Paulo Bonfim
Imagem : Paolo Barzmar

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

a tristeza

 

Ninguém conhece melhor a tristeza
do que eu. Não uma melancolia
branda de algodão doce, nem a chamada
no sangue de uma janela, nem as veias
com o mar inteiro lá dentro
e os ossos ainda tão fundo

A tristeza como
uma crosta de mármore colada à pele
e sobre as pálpebras o cinzel dos passos
que não quiseram esquecer
que já não me seguem
batendo sempre.

Autor : Inês Dia
 In situ
Imagem : Mira Nedyalkova

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Envelhecer

 É bom envelhecer!

Sentir cair o tempo,
magro fio de areia,
numa ampulheta inexistente!

Passam casais jovens
abraçados!…

As árvores
balançam novos ramos!…

E o fio de areia
a cair, a cair, a cair…

Autor : Saúl Dias
Imagem :Pinterest

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Não há Vagas

 

as mulheres e as construções
envelhecem antes do mundo

embolorecem em véus de chuvas
a toldar-lhes os desgostos:

suas fachadas sujas
desbotam-se
desgraçam-se
sujeitas ao mesmo sol
de muitas vidas

as raivas das mulheres
são nódoas em lençóis rotos
expostos na vertigem dos varais

as mulheres-edifício
abrigam moradores
demais

Autor : Anna Clara de Vitto
Imagem : Pinterest

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Se vai tentar siga em frente

Se vai tentar
siga em frente.

Senão, nem comece!
isso pode significar perder namoradas
esposas, família, trabalho…e talvez a cabeça.

Pode significar ficar sem comer por dias,
Pode significar congelar em um parque,
Pode significar cadeia,
Pode significar caçoadas, desolação…

A desolação é o presente
O resto é uma prova de sua paciência,
do quanto realmente quis fazer
E farei, apesar do menosprezo
E será melhor que qualquer coisa que possa imaginar.

Se vai tentar,
Vá em frente.
Não há outro sentimento como este
Ficará sozinho com os Deuses
E as noites serão quentes
Levará a vida com um sorriso perfeito
É a única coisa que vale a pena.

Autor : Charles Bukowski
Imagem : Pinterest