A sede seca-me a boca
no deserto da cama vazia.
A partilha é vontade
de preencher o lugar,
enquanto o sono não chega.
Fica o sonho,
deitado a meu lado.
Imagem : karen Hollingsworth
Aqui estão as minhas escolhas do que considero melhor em Poesia,Prosa Poética e Fotografia. Domingo é dia de trabalhos de minha autoria.
A sede seca-me a boca
no deserto da cama vazia.
A partilha é vontade
de preencher o lugar,
enquanto o sono não chega.
Fica o sonho,
deitado a meu lado.
a ilha ao fundo. funda saudade
que emerge do horizonte.
azulíneos. os gestos do pincel
sedimentam as águas
de míticas inquietações.
ninguém sabe que peixes
habitam no mar.
se há nevoeiro dom sebastião não vem.
o céu. único infinito que passa
pela janela da casa de janville.
no peitoril. os calos dos cotovelos do silêncio.
A poesia é um cais
onde o poeta sempre aporta
e disfarça em palavras
o que não ousa dizer
nem fazer.
Há mulheres que com lisura se lavam, contornando
ao de leve pequenas ilhas no corpo. Aspiram odores antigos,
cerram os olhos como se por acaso
se perdessem em memórias do lado de lá da pele.
Com lágrimas limpas se expiam nas reentrâncias, conchas
seladas para sempre onde guardam velado o sal das marés.
Nasce nelas um prenúncio de noite. A linfa do corpo
é etérea como o perfume antigo da ternura.
Encerrar ciclos faz parte de viver,
esquecer é mais difícil:
de tudo o que foi,
algo permanece.
Autor :BeatriceM 2026-08-02
Imagem:Marta Bevacqua
Ninguém saberá da secura de nossos olhos
da dureza de nossa boca ninguém saberá
do fio das unhas da dor no dente
do sangue guardado no fundo da gaveta
ninguém adivinhará os jardins atrás do muro fechado
ninguém quebrará o ferro do portão
ninguém violentará o secreto
ninguém te tocará profundamente
ninguém te saberá
ninguém.
Por isso olhamos as nuvens
sentados ao vento que não sopra
enquanto os balanços rangem
os rádios cantam
e a rua intocável como um quadro
pintado por outro.
Por isso olhamos em volta
e o que se passa além de nossa (uma palavra ilegível)
não nos soluciona
(ninguém sabe
ninguém saberá).
O caule quebrado do girassol
o livro de Toynbee sobre os degraus
a caneta riscando o papel
as nuvens
a tarde
a rua
o medo.
O sentir, por vezes,
tantas vezes,
não é partilhado.
Por vezes,
é apenas um sincronismo
de olhares
que não foram vividos.
Autor : BeatriceM 2026-07-26
Imagem :Anna O.