domingo, 20 de junho de 2021

A lágrima

 


A lágrima que viste
não era lágrima
foi um erro de óptica.

Esquece
foi um cisco trazido
pelo vento.

Ou quiçá
apenas um acidente de percurso
que por vezes acontece.


(nunca me irás ver chorar.
jamais!)


Autor : BeatriceM 2021-06-19
Imagem : Marta Bevacqua

sábado, 19 de junho de 2021

A Demora

 


O amor nos condena:
demoras
mesmo quando chegas antes.
Porque não é no tempo que eu te espero.

Espero-te antes de haver vida
e és tu quem faz nascer os dias.

Quando chegas
já não sou senão saudade
e as flores
tombam-me dos braços
para dar cor ao chão em que te ergues.

Perdido o lugar
em que te aguardo,
só me resta água no lábio
para aplacar a tua sede.

Envelhecida a palavra,
tomo a lua por minha boca
e a noite, já sem voz
se vai despindo em ti.

O teu vestido tomba
e é uma nuvem.
O teu corpo se deita no meu,
um rio se vai aguando até ser mar.

Autor : Mia Couto, in " idades cidades divindades
Imagem : Kristina Makeeva

sexta-feira, 18 de junho de 2021

Em todos os jardins

 

Em todos os jardins hei-de florir,
Em todos beberei a lua cheia,
Quando enfim no meu fim eu possuir
Todas as praias onde o mar ondeia.

Um dia serei eu o mar e a areia,
A tudo quanto existe me hei-de unir,
E o meu sangue arrasta em cada veia
Esse abraço que um dia se há-de abrir.

Então receberei no meu desejo
Todo o fogo que habita na floresta
Conhecido por mim como num beijo.

Então serei o ritmo das paisagens,
A secreta abundância dessa festa
Que eu via prometida nas imagens.

Autor : Sophia de Mello Breyner
Imagem : Kindra Nikole

quinta-feira, 17 de junho de 2021

Agora não te escrevo


Agora, não te escrevo nada.
Fecho todas as páginas deste livro onde
não voltarás.
Fecho todas as cancelas que um dia abriste,
numa estação de palavras ternas.

Agora, não te abro a porta deste quarto com
jarras sem água,
com alucinantes paredes sem luz.

Digo apenas que ainda conheço os teus passos,
o teu vulto que empalidece sobre as quatro luas,
digo ao ver os anéis de âmbar e
prata
é como se nos teus dedos sem febre tudo se
parecesse ao terror das águias aprisionadas.

Não cantas,
não moves os lábios,
não me falas junto às fontes,
não te ergues como o sol que ainda bate
neste rosto inclinado, pouco a pouco mais
triste, a olhar para longe.
A alma, oh,
a alma vive na floresta branca, ao lado do anjo.

Emudeceste,
E no teu silêncio de pedra emudeceram as
paisagens do céu.
Nunca mais foi Verão.

Ainda me lembro dos cães que nunca vias
e não tinham nome,
e eram como se pensassem, como se amassem,
e, por amor perdidos,
procurassem as algas que secavam.

Assim é a minha vida.
Hoje, só os desertos me conhecem. Nada mais.

Autor : José Agostinho Baptista
In Esta voz é quase o vento

quarta-feira, 16 de junho de 2021

Despertar

 

 

É preciso transgredir a distração da flor em gestação,
tocá-la infinitamente,
sorver-lhe o perfume,
soprar a gota de orvalho pousada em cada cor,
inventar um arco-íris
pelas arestas do vento,
abrir caminhos para a primavera.

A sombra se faz luz,
o inverno se desfolha.
Como se existisse um tempo das estações,
a primavera dá sinais,
despida das névoas,
como se fosse a primeira vez.

Autor : Solange Firmino

terça-feira, 15 de junho de 2021

Para ti


Para ti sou segredo,
que esteve:
em muitos sonhos,
em muitos braços,
em muitos corações.

Sou
Ilusão,
Utopia,
Miragem,
que viaja em tempos
eternos
de eternos amores,
de variado sabor
que partem a alma
e sustentam a dor.

Sou
o suspiro
que te devolve
a esperança,
quando te sentes
perdida e de alma
dilacerada.
….
Mas tu,
para mim,
és muito mais.
És tudo,
pois sem ti,
não sou nada.

Autor : Silvestre Raposo
Imagem : Andre Kohn

domingo, 13 de junho de 2021

Contradição

Muitas vezes desejou que ele fosse o outro,
o outro que sulcava as ondas do mar,
em cima de uma prancha de surf,
com o sol a escorrer por entre os dedos esguios.

Muitas vezes te beijou com os olhos fechados,
pensando que beijava o outro,
o outro que lhe sabia encaminhar beijos,
com o olhar cor de avelã,
não com a boca.

Muitas vezes olhava os teus olhos,
e via os olhos do outro,
que lhe sabia sorrir com o olhar,
estático no seu, disfarçadamente.

Muitas vezes desejou que fosses o outro,
e tantas, tantas vezes, desejou,
que o outro fosses tu,
e que tu fosses o outro.

Autor : BeatriceM 2021-06-13
Imagem: Sarah Fecteau

sábado, 12 de junho de 2021

Diplomacia



Evite vocabulário
truculento

seja doce
cordial

a melhor arma
contra o inimigo
é a educação.

Autor : Rui Esteves

sexta-feira, 11 de junho de 2021

Um dia quando eu morrer

  


Um dia quando eu morrer
isto é um dia quando eu estiver debaixo da terra
não quero que me vão levar flores
mas que as vão lá buscar
Gostava que por cima da minha cova não pusessem
laje nenhuma
só terra por mim estrumada
e aí plantassem as flores que amei em vida
açucenas rosas Palminhas de Santa Teresa (ditas Frésias)
ervilhas-de-cheiro goivos cravos jasmins
tudo flores com perfume
que é a alma das plantas
Sempre gostei mais de dar do que de receber
por isso ficarei feliz se forem à minha beira
buscar flores
os que me quiserem bem
Que as levem para casa e as ponham numa jarrinha com água
à cabeceira ou em cima da mesa de escrever
ou de comer
onde possam sentir minha presença viva
e trocar comigo olhares e sorrisos
e quem sabe talvez palavras
essas as mais importantes que em vida
nos não soubemos dizer

Autor : Teresa Rita Lopes

quinta-feira, 10 de junho de 2021

se

se partisses este verão
deixando desabitado
quem à tua semelhança
interior se construiu

por que poros respiraria ainda
tua pele de granito
por que artérias
se conduziria o sangue antigo
até ao cerne deste coração
de ameias e vento coroado?

aqui me tens portanto e como tu
também estou cercado
de silêncio de memórias

e de incêndios...

Autor : António Gil
Foto :Parvana 

quarta-feira, 9 de junho de 2021

Sala Provisória

    

Nunca se sabe
quando estamos num lugar
pela última vez. Numa casa
que vai ser demolida, numa sala
provisória que vai encerrar, num velho
café que mudará de ramo, como
página virada jamais reaberta, como
canção demasiado gasta, como
abraço tornado irrepetível, numa
porta a que não voltaremos.

Autor :Inês Lourenço 
Imagem : Magdalena Russocka 

terça-feira, 8 de junho de 2021

O Livro Fechado



Quebrada a vara, fechei o livro
e não será por incúria ou descuido
que algumas páginas se reabram
e os mesmos fantasmas me visitem.
Fechei o livro, Senhor, fechei-o,

mas os mortos e a sua memória,
os vivos e sua presença podem mais
que o álcool de todos os esquecimentos.
Abjurado, recusei-o e cumpro,
na gangrena do corpo que me coube,

em lugar que lhe não compete,
o dia a dia de um destino tolerado.
Na raça de estranhos em que mudei,
é entre estranhos da mesma raça
que, dissimulado e obediente, o sofro.

Aventureiro, ou não, servidor apenas
de qualquer missão remota ao sol poente,
em amanuense me tornei do horizonte
severo e restrito que me não pertence,
lavrador vergado sobre solo alheio

onde não cai, nem vinga, desmobilizada,
a sombra elíptica do guerreiro.
Fechei o livro, calei todas as vozes,
contas de longe cobradas em nada.
Fale, somente, o silêncio que lhes sucede.

Autor : Rui Knopfli, in "O Corpo de Atena"

domingo, 6 de junho de 2021

outros tempos


outros tempos - nasceram
sem mágoas
apenas memórias ficaram
na retina dos meus olhos
e nas minhas mãos
por vezes ainda acaricio
os teu corpo de querubim
e ainda navego no mar
dos teus olhos
e
no veludo dos teus cabelos
ainda sei - de mim
mas já nada sei de nós.
.
Autor:BeatriceM 03-04-2011
Imagem : Jovana Rikalo

sábado, 5 de junho de 2021

SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN

 

Tenho uma praia branca
de areia doce
na cabeça.
Raramente me esqueço
do mar e acordo sempre
com um cavalo amarelo correndo
sobre as ondas mansas
em direcção ao infinito
com um peixe preso na boca.
Nesses dias deito-me e imagino
montanhas à distância dos horizontes
vestidas com os verdes dos quotidianos
e as flores dos altares
e depois recolho-me ao sal
das bibliotecas fechadas.

Autor : José António Gonçalves
(in «Aventura na Casa dos Livros», Col. Cadernos Ilha, Nº. 10, 2000)

sexta-feira, 4 de junho de 2021

Fio de Olhar

E aquele olhar seguiu-me.
Era curto o caminho, um corredor, uma porta.
Olhar curioso.
Vale uma parábola?
Uma mulher andando, um homem olhando.
Mais nada?
Mais nada.

E lá ficou o corredor e a porta.
E a mulher...
Sou eu.
Não valia mais que um olhar, embora curioso e
gracioso.
O homem...
Lá está, estará, interrogativo a olhar uma e outra
que passam.

Aquele olhar, aquele olhar!
Queria-o... como uma coisa que se agarra e que
se possui.
Mas para quê e como?
Fio de olhar, pura curiosidade.
Não é disparate lembrá-lo e tê-lo até notado?
.
 Autor : Irene Lisboa Volume I, Poesia I: um dia e outro dia.../ outono havias de vir. Lisboa: Editorial Presença, 1991, p 304 (Organização: Profª Paula Morão).
Imagem : Xénia Lau