Dentro dos livros
marcas de quando os lemos.
Bilhetes de cinema,
autocarro, apontamentos
com demasiadas
abreviaturas, folhas
que dizem «não esquecer»
e foram esquecidas.
Nesta tarde li este verso.
O romance na página 89.
Agrupar os eventos
por contiguidade, remissão,
a data muito precisa
destes acasos
mais importantes
que a biografia.
Autor : Pedro Mexia
Ecos de Poesia e Literatura
Aqui estão as minhas escolhas do que considero melhor em Poesia,Prosa Poética e Fotografia. Domingo é dia de trabalhos de minha autoria.
sábado, 7 de novembro de 2026
Dentro dos Livros
sexta-feira, 6 de novembro de 2026
Escrevo o que ainda não conheço
Escrevo o que ainda não conheço
nomes de ruas pássaros árvores
monólogos de quem ainda te fala alto
é a minha voz ou a tua?
lá fora a chuva confunde-se com gestos
falamos do tempo, ponte entre o silêncio e o nada
ouve, quando não fores capaz de falar, toca-me
Imagem : Shelby Robinson
quinta-feira, 5 de novembro de 2026
Velhice
Uma lágrima nua
Despida de laços e afeto…
Não tem calor…é crua!
Corre veloz…
Sem abrigo nem teto
É deixada a sós!
Uma lágrima tua…
tem gosto salgado de solidão
tem o reflexo da luz da lua
e um eclipse no coração.
Agora, escura é essa rua
onde tanta gente…já viveu!
Hoje, somente, tua alma flutua
o que em ti vive…já morreu!
A idade não recua…
E és uma carente criança
que, às vezes, amua!
Teu corpo não atua…
Envelheceu com a esperança
e a dor...não apazigua!
Enrugada pele crua
minha será a tua rua!
Como será a de todos nós
quando vos deixamos sós!
Imagem : Denise Kwong
quarta-feira, 4 de novembro de 2026
Sonilóquio
terça-feira, 3 de novembro de 2026
Os Leitores
domingo, 1 de novembro de 2026
Compasso de espera
sábado, 31 de outubro de 2026
O Uivo
sexta-feira, 30 de outubro de 2026
Amnésia
Posso pedir, em vão, a luz de mil estrelas:
penas obtenho este desenho pardo
que a lâmpada de vinte e cinco velas
estende no meu quarto.
Posso pedir, em vão, a melodia, a cor
e uma satisfação imediata e firme:
(a lúbrica face do despertador
é quem me prende e oprime).
E peço, em vão, uma palavra exata,
uma fórmula sonora que resuma
este desespero de não esperar nada,
esta esperança real em coisa alguma.
E nada consigo, por muito que peça!
E tamanha ambição de nada vale!
Que eu fui deusa e tive uma amnésia,
esqueci quem era e acordei mortal.
Imagem : Brooke Shaden
quinta-feira, 29 de outubro de 2026
Intensidades 1
é um pequeno animal
desprevenido, uma teia
que se desfia
pouco a pouco. Guardo
silêncio
para que possam ouvi-lo
desfazer-se.
Imagem : Pinterest
quarta-feira, 28 de outubro de 2026
O Mar da Memória
Acarinho cada vez mais essas palavras
que se dizem ou diziam na minha terra
e as pessoas da minha cidade nem conhecem de nome
Fecho os olhos
abandono-me
deixo-as vir
ao de cima de mim
como uma onda
Dão à costa do fundo do mar da memória
Oiço-as na voz da minha Mãe
Autor : Teresa Rita Lopes
terça-feira, 27 de outubro de 2026
Fico Sempre
fico sempre
preso
ao
teu
desenho
esquivo
in nem o tempo passa
Lisboa, Setembro, 2015, p. 9
Imagem : Andrzej Gaurlczyk
domingo, 25 de outubro de 2026
Pensamento
sábado, 24 de outubro de 2026
Postal Ilustrado
Uma figura de mulher encaminha-se para a floresta.
Vai devagar. Desce a longa avenida de ventos que
rudemente lhe estilhaçam os ouvidos.
Quis adivinhar o seu rosto. Descrever as cores
do vestido que lhe estreitava o corpo, o movimento
dos braços para a frente, o ruído dos passos lentos
sobre as amarelecidas folhas. Mas ela é cada vez mais
um ponto que se afasta. Uma vontade perdida
para o dobrar das árvores à sua passagem.
Quando a mulher entrar na floresta
tudo se suspenderá. A solidão da paisagem
será a minha solidão.
Os meus olhos serão os olhos da paisagem.
Imagem : Patty Maher
sexta-feira, 23 de outubro de 2026
Desarticulação
quinta-feira, 22 de outubro de 2026
Barcos, livros, bicicletas
in Criatura nº 4, 2009
Imagem :Ildiko Neer
quarta-feira, 21 de outubro de 2026
Loucuras
E tu tão longe
e tão dentro de mim, tão invasivo.
E esta chuva
que ameaça dissolver toda a terra
e tornar tudo mar, o meu pesadelo.
E de repente todas as distâncias
se tornam infinitas,
como se só o louco mais malvado
as pudesse ter concebido.
Imagem : Alessio Trerotoli
terça-feira, 20 de outubro de 2026
Escrevo-te a sentir tudo isto...
nos sais de prata da fotografia
poderia erguer-me como o castanheiro dos contos
sussurrados junto ao fogo e deambular trémulo com as aves
ou acompanhar a sulfurica borboleta revelando-se
na saliva dos lábios
poderia imitar aquele pastor
ou confundir-me com o sonho de cidade
que a pouco e pouco
morde a sua imobilidade.....
-
...habito neste país de água por engano
são-me necessárias imagens , radiografias de ossos
rostos desfocados
mãos sobre corpos impressos no papel e nos espelhos
repara.....
nada mais possuo
a não ser este recado que hoje segue manchado
de finos bagos de romã repara....
como o coração de papel amareleceu no esquecimento
de te amar.....
domingo, 18 de outubro de 2026
sábado, 17 de outubro de 2026
UM LIVRO ME LEVA PELA MÃO
folheio, devagar, as páginas de um livro:
ondas pálidas e cardumes de letras negras
flutuam-me entre as mãos.
escuto o sussurro de poemas antigos,
deslizando sob os meus dedos,
na mútua carícia de quem troca o lume.
entre a capa e a contracapa,
versos e rimas murmuram, palavras
cálidas como uma mulher entreaberta.
e toda a noite o livro me leva pela mão,
em cada página, a ferida do amor
e o oceano de um branco quase azul.
é madrugada. fecho o livro.
tranquilas vozes adormecem-me
— e, no sono de um verso, naufrago.
Imagem : Rosana Zanetti
sexta-feira, 16 de outubro de 2026
Sete anos me aguardam...
sobre o muro, é apenas uma figura transitória. Tu vais
ficando, um livro abandonado no melhor
do enredo, aberto para sempre sobre a cama. Eu
sento-me à janela onde houve uma vez uma figueira.
E fico. Aguardo provavelmente a tua voz no silêncio
demorado dos quartos ao entardecer. E também adormeço,
se não for a memória do ruído ensurdecedor dos
espelhos, rebentando pela casa em mil pequenos cacos
incertos. Sete anos
para reler uma história demasiado conhecida ou
folhear um livro branco até ao fim. O gato já
desapareceu. Digo que escolhe, como tu, outra
cama para desafiar a lua. Eu não, eu eu fico.
quinta-feira, 15 de outubro de 2026
Canção Erótica
quarta-feira, 14 de outubro de 2026
ARTE POÉTICA
O poeta disse: a inspiração
não existe. De há muito, as musas
ficaram desempregadas. E desvendou
algum método de trabalho
à parca assistência, altivo e contemporâneo,
enquanto lá fora o mar e as altas palmeiras
resistindo ao tráfego do fim da tarde,
pouco se interessavam
pela carpintaria dos versos.
Autor : Inês Lourenço
De Um Quarto com Cidades ao Fundo, Quasi Edições, 2000








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