Quem me tranquiliza
sobre o que haverá depois
do caminho palmilhado?
Quem me afasta os fantasmas
que me desabrigam à noite?
Quem me hospeda o medo
que me trespassa o corpo todo…
Imagem :Adam Bird
Aqui estão as minhas escolhas do que considero melhor em Poesia,Prosa Poética e Fotografia. Domingo é dia de trabalhos de minha autoria.
Quem me tranquiliza
sobre o que haverá depois
do caminho palmilhado?
Quem me afasta os fantasmas
que me desabrigam à noite?
Quem me hospeda o medo
que me trespassa o corpo todo…
chega de ser livro de poemas
na próxima encadernação
quero fama e romance
Autor : Liria Porto
Imagem :Ashraful Arefin
há dez anos
que o meu braço esquerdo
queima
dez anos
e na verdade
eu não me lembro
qual braço
mas não esqueço:
dez anos
que alfabetizados
meus ouvidos
na tua língua odienta
afasta de mim
essa saliva
infecta
que desfecho:
disseste
que de mim
nada sobraria
nada
nada de festas
nem traço
(larga do meu braços moço
eu peço
e peço
e peço
e me despeço)
nem fração
dez anos
que ando sobrando
escorrendo
pelos dedos pegajosos
das ruas
de miasmas masculinos
de mim sobrou
quase tudo
menos o medo
Escrevo do lado mais invisível das imagens
Na parede de dentro da escrita e penso
Erguer à altura da visão o candeeiro
Branco da palavra com as mãos
Como a paveia atrás do segador
Vejo os pés descalços dos que correm
E escrevo para os que morrem sem nunca terem provado o pão
Grito-lhes: imaginai o que nunca tivestes nas mãos
Correi. Como o segador seguindo o segador
Numa ceifa terrestre, tombando. Digo:
Imaginai
Em tempos destruí, sem pretender,
muito do que tinha
e nem sabia.
Sobrou, numa queda de emoções,
um silêncio
em ruínas surdas.
Catei nos destroços de mim
uma réstia de força
para conseguir reerguer-me
do fundo do abismo emocional.
A essência de outrora
ficou com mazelas incuráveis,
mas, ainda assim, recuperei —
e alguma coisa aprendi.
Cravos de Abril
Para os meninos que queiram recordar
o que não viveram
Tinha um cravo na lapela
tinha outro cravo na mão
pus um cravo na janela
e mais um no coração.
Dei cravos a tanta gente
tanta gente os deu a mim
nesse dia de repente
tudo em volta era um jardim.
Dei um cravo ao soldadinho
outro cravo ao capitão
liberdade pão e vinho
e que viva a revolução.
Cravo em verso cravo em prosa
cravo nosso meu e teu
em Maio que é mês da rosa
choveram cravos do céu.
Muito tempo já passou
no que passou desde então
mas o cravo esse ficou
dentro do meu coração.
Passa o tempo e não demora
no que passou desde então
mas o cravo inda cá mora
dentro do meu coração.
Autor : José Fanha
sem caneta nem teclado
de modo mais que perfeito
o mútuo caminho, perfeito
desaguara-nos lado a lado
e os versos que então fluíam
do espaço que era comum
eram o que os dedos de um
na pele do outro escreviam
e nesse onírico contexto
longe e perto, pareceria
que escrevendo em parceria
e de mãos dadas, o texto
o poema então irrompia
na língua viva do tacto
escrito na pele com o tato
do contacto que o escrevia
Veio um tempo de paz
Veio um tempo de guerra
Os comboios não paravam nas estações
As geografias não coincidiam com os mapas
Os meses eram anos
E os anos eram séculos
Veio um tempo de paz
Veio um tempo de guerra
E os soldados não tinham pátria
E as munições eram do mundo inteiro
Os países alargavam-se nas fronteiras
As geografias não coincidiam com os mapas
O amor, uma saudade uma impossibilidade
Os homens e as mulheres já não choravam
As lágrimas secas de tanta pólvora
E as bocas quietas
Sem palavras
Sem gritos
Sem sons
Porque os dias eram cinzentos
E os segundos já não cabiam nos relógios
Um tempo de paz
Um tempo de guerra
Autor : Cecilia Barreira
Nesse mundo farto de poesias
onde somos uma só a viver
há um proveito sublime e constante
em cada verso que vai nos conter
no desabrochar quando brota o olho em flor
nesse tudo pode florescer
na ventania que baila
que dança
a aura
a alma
num renascer tudo de novo
um recomeço
os recomeços são cheios de ilusões
...aos olhos
de uma flor...
que nasce.
Autor : Paulo Eduardo Campos
In “Na Serenidade dos rios que enlouquecem"
Imagem : Viktoria Haack Photography
A dor dos outros
Está fora da janela.
Entristece-nos
Como um ciclo de chuvas
Mas não nos molha os pés
Nem os cabelos.
Por vezes avistamo-la
Na soturna rua
Que a medo atravessamos.
Ou no café
Onde uma mão se estende.
Vamos então ao armário maior
Buscar o dó, a pena.
E ao porta-moedas
Rebuscar uns trocos.
Alguns de nós
Mas poucos, muito poucos,
Guardaram bagas
Que o tempo lhes ditou.
Verdades que hibernaram
No gelo das idades
E germinaram em caverna escura.
Só esses têm a coragem de ver
Que a dor dos outros
É sempre a nossa dor
Que anda em viagem.
E que, curvada,
Ao peso da bagagem
Nos persegue
E procura.
as tuas mãos, ou a tua pele, ou os teus lábios.
o teu olhar. o teu olhar me lembra sempre que
ou o teu cabelo, ou a maneira exacta como
o teu rosto. o teu rosto. ou o teu corpo que
adormece onde o vento não se esqueceu de
ou cada uma das tuas palavras, palavras,
palavras numa língua de céus impossíveis.