domingo, 1 de agosto de 2021

é apenas saudade

não existe vestígios de mágoa
nem tão pouco culpas
(ou simplesmente desapego)

é saudade
das reminiscências envelhecidas
(de (outro) tempo só nosso)

saudade irrefreável da nossa paixão
da união e partilha dos corpos
(na noite e no dia)

acredito.
acredita!
(é apenas saudade.)

Autor : BeatriceM 2021-08-01
Imagem: Liu Yuan-Shou

sábado, 31 de julho de 2021

O amor é

 

O amor é uma flor
prestes a nascer

uma semente
enterrada
no centro
da terra

O amor é o primeiro
raio de sol
que rompe a manhã

o primeiro gotejar
leve sobre o mar
numa manhã de agosto

o amor é uma palavra
um gesto
uma promessa

o amor é possível
inadiável
evidente
sempre renovado

o amor
abre-se como a flor
é uma planta
que não morre

a morte
não mata
o amor

Autor : Rui Prates Esteves
Imagem : Kristina Makeeva

sexta-feira, 30 de julho de 2021

Arte Poética


Gostaria de começar com uma pergunta
ou então com o simples facto
das rosas que daqui se vêem
entrarem no poema.
O que é então o poema?
um tecido de orifícios por onde entra o corpo
sentado à mesa e o modo
como as rosas me espreitam da janela?
Lá fora um jardineiro trabalha,
uma criança corre, uma gota de orvalho
acaba de evaporar-se e a humidade do ar
não entra no poema.
Amanhã estará murcha aquela rosa:
poderá escolher o epitáfio, a mão que a sepulte
e depois entrar num canteiro do poema,
enquanto um botão abre em verso livre
lá fora onde pulsa o rumor do dia.
O que são as rosas dentro e fora
do poema? Onde estou eu no verso em que
a criança se atirou ao chão cansada de correr?
E são horas do almoço do jardineiro!
Como se fosse indiferente a gota de orvalho
ter ou não entrado no poema!

 
Autor : Rosa Alice Branco
in "Soletrar o Dia. Obra Poética", 2002
Imagem : Slevin Aaron

quinta-feira, 29 de julho de 2021

Diálogo

 

Levarás
pela mão
o menino
até ao rio. Dir-lhe-ás
que a água é cega
e surda. Muda,
não. Que o digam
os peixes, que em silêncio
com ela sustentam
seu diálogo
líquido, de líquidas
sílabas
de submersas
vogais.

Autor : Albano Martins, in "Castália e Outros Poemas"
Imagem : Victor Bauer

quarta-feira, 28 de julho de 2021

Álbum


Dobro a roupa
em monte
os doze meses inteiros,
e tento juntar, incapaz,
duas peças com sentido.
As que ficam,
isoladas
sem uso provável,
escondo-as dentro de páginas brancas:
entre cada uma
papel vegetal quase transparente
e cantos antigos de colar fotografias.

Em dez anos encontro
um herbário inesperado:
folhas perenes e secas,
as meias cerzidas, únicas,
são exemplos raros destes dias
quase extintos.

Autor : Margarida Ferra

terça-feira, 27 de julho de 2021

Eu, aqui, sempre

 


Eu sempre estive aqui, no meu lugar,
olhando-me de frente, sem negar-me.
Se a minha condição é ser e estar,
que seja, sem receio nem alarme.

Nos astros que lucilam infinitos,
mitigo a minha sede de ansiedade!
Nos medos que exorcizo, vários ritos
à luz que me encandeia divindade.

Nas horas das esperas, tão paradas
procuro antecipar as horas frias
que orvalham de suor as madrugadas
e enrugam de incertezas outros dias.

Em mim, sem desencontros nem ardis,
hei-de encontrar-me, como sempre quis.

Autor: José Augusto de Carvalho
in... Da humana condição
Imagem : Christopher Ryan MeKenney's

domingo, 25 de julho de 2021

As sombras

 

No asfalto as sombras cruzam-se comigo,
são sempre pardacentas como o breu da noite,
nunca sei o que escondem.
Mas na minha ingenuidade,
sempre tive receio delas.
 
Autor : BeatriceM 2021-07-23
Imagem : Mariesol Fummy

sábado, 24 de julho de 2021

Um Lugar ao sol

Não te ofereço poemas de vitória:
os meus versos só falam do que existe.
Não contarei a esperança:
só a força que contra tudo subsiste.

Não teço os meus poemas de futuro:
corto-os nesta carne que somos.
Se vives de sonhar
eu vivo de viver ─ e é mais duro!

Autor :Adolfo Casais Monteiro 

sexta-feira, 23 de julho de 2021

Os milagres acontecem



Os milagres acontecem
a horas incertas
e nunca estou em casa
quando o carteiro passa.

Hoje, abriu a primeira flor
e eu disse é um sinal.

Olho em volta: estou só
trago esta sombra comigo.

Autor : Ana Paula Inácio
Imagem : Kyli Sparre

quinta-feira, 22 de julho de 2021

Porto Santo, Verão de 1973


oiço a música forjada e quente do sol e do mar
embravecido, num cântico azul, sem manhãs, nem
pureza, nem casas. os barcos, brancos e vermelhos
brilham e baloiçam, baloiçam e brilham afogados
pela água fria e irritada. as palavras flamejam
e soltam-me gritos amorfanhados enquanto as construo
na areia da praia em chama, onde o mar despeja
a sua ira da cor do céu. a hora, esta hora, é aquela
do beijo, da fervura, da comida, do sono, ou então
a do amor. é um castelo, uma cara, no chão molhado
o tempo. uma mão. cinco dedos num esconderijo profundo
do gesto, do vómito sem cor nem corpo. é o sol e as
formigas, o vento e a música procurando um porto, um
cais, ou um navio, um braço queimado correndo a pele
e o suor do sonho. oiço as vozes, a música, e congemino
um silêncio cavalgando o ruído enquanto o calor cai
nos olhos, devorando a carne e o pensamento. ao meu
pé, algumas crianças jogam lama no meio-dia e procuram
a mãe. encontram-na na água morna do porto, perdida
e embrenhada na alma dum santo sem auréola, primitivo,
no coração dum homem só e húmido, embriagado, dizendo
versos com as rimas colorindo as pálpebras inchadas.
e toda a gente fala, ao mesmo tempo. a tarde desprende-me
o lugar da mão assustada. e ela, solta, é o rosto fornicado
da esperança, a água bebida com sal, bebida com sol, sem
saber a nada. é uma carta, um diário, ou um postal. é o
porto santo moldado na pedra negra, escavada ao alcance
da música e do poema. sem loucura, nem amor.

Autor : José António Gonçalves
(in «Vinte Textos Para Falar de Mim», Col. Cadernos Ilha, Nº. 1, 1988)

quarta-feira, 21 de julho de 2021

La Cathédrale engloutie

Deste lado da vida
são sete horas (vestidas
de preto, vermelho e medo)
da manhã de outro dia.
Mas a janela fechada dá
para a noite ancorada
de leve sobre as esperanças
azedas da cidade.

Conto um rio preso num poço,
dois comboios afogados na pressa,
meia dúzia de faróis
acesos em prédios
cuja felicidade parece sempre
proporcional à distância.

O vinil negro continua a rodar,
atiça os seus pássaros enferrujados
contra a lua atada
a uma das chaminés.
E a luz que nunca chega
traz as últimas notícias da guerrilha,
expõe o plástico roto nas armas
dos nossos heróis de ontem.

Abandono as saudades
pelos telhados, com
as patas embaciadas, os olhos
magros. Saio.
Recomeço a fazer horas
para novos sonhos.

Autor :  Inês Dias

terça-feira, 20 de julho de 2021

Horário do Fim


morre-se nada
quando chega a vez
.
é só um solavanco
na estrada por onde já não vamos
.
morre-se tudo
quando não é o justo momento
.
e não é nunca
esse momento
.
Autor : Mia Couto, in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"
Imagem : Kyle Thompson

domingo, 18 de julho de 2021

Foste com os anjos

 

Foste com os anjos no invisível caminho,
a fazer a tua derradeira jornada,
e na casa o silêncio ficou imbuído,
como fungos,
e a tua ausência como uma calamidade,
incontornável e irrevogável.

Dizem que estás no outro lado
no paraíso celestial.

Tanto tempo se passou,mas o teu nome,
ainda tem ressonância ,
em todos nós,
e no silêncio insuportável da casa.

Autor : BeatriceM 2021-07-17

sábado, 17 de julho de 2021

Quem fala

quem fala
não sou eu
é o outro o que me expulsou
da concha do meu sol

É ele que caminha nos meus passos
e eu olho-o e esqueço-o
Quem pode suportar em reflexo?
Quem pode viver contra o seu duplo?

Eu digo eu ainda
mas sou eu que declino
sou eu que caio
com a ferida do sol que ele me arrancou

Autor : António Ramos Rosa
Imagem : Jordi Puig

sexta-feira, 16 de julho de 2021

Beijo a Beijo

 



E de novo a armadilha dos abraços.
E de novo o enredo das delícias.
O rouco da garganta, os pés descalços
a pele alucinada de carícias.
As preces, os segredos, as risadas
no altar esplendoroso das ofertas.
De novo beijo a beijo as madrugadas
de novo seio a seio as descobertas.
Alcandorada no teu corpo imenso
teço um colar de gritos e silêncios
a ecoar no som dos precipícios.
E tudo o que me dás eu te devolvo.
E fazemos de novo, sempre novo
o amor total dos deuses e dos bichos.

Autor : Rosa Lobato Faria