terça-feira, 5 de julho de 2022

Nostalgia

 


A pequena flor
só que além nasceu
sonhou ser maior:
nada lhe valeu...

Na cova esquecida,
sol que desejou
não a bafejou,
bastarda da vida...

E era flor ou gente?
Esquecida imperfeita
numa dor silente
ali jaz desfeita!

Autor : António Salvado
Imagem : Magdalena Lutek

domingo, 3 de julho de 2022

Perduro


Perduro
No presente
Sem me inquietar com o futuro

Não busco percursos
Nem atalhos
Já não me auxiliam
As descobertas serão outras

Mas sei
Lembrar o passado
Sem nele permanecer

Fico a olhar o hoje
E amanhã
Logo se vê.

Autor : BeatriceM 2022-07-02
Imagem : Rachel Neville

sábado, 2 de julho de 2022

Desfecho


Não tenho mais palavras.
Gastei-as a negar-te…
(Só a negar-te eu pude combater
O terror de te ver
Em toda a parte.)

Fosse qual fosse o chão da caminhada
Era certa a meu lado

A divina presença impertinente
Do teu vulto calado
E paciente…

E lutei, como luta um solitário
Quando alguém lhe perturba a solidão.
Fechado num ouriço de recusas,
Soltei a voz, arma que tua não usas,
Sempre silencioso na agressão.

Mas o tempo moeu na sua mó
O joio amargo do que te dizia…
Agora somos dois obstinados,
Mudos e malogrados,
Que apenas vão a par na teimosia.

Autor : Miguel Torga
 In câmara ardente 1962
Imagem : David Talley

sexta-feira, 1 de julho de 2022

apenas aquela estória

Hoje o dia foi longo,
ainda agora nasceu,
talvez seja apenas aquela história
que nunca me contaste ao adormecer
e as risadas que dei quando
a escrevi, precocemente,
nas linhas das nossas mãos.

Nesse momento
de pensamento desalinhado
e um saco à tiracolo
a história nasceu
como uma borboleta, ainda larva desajeitada,
a rodopiar no papel imaginário
onde o dia se perdeu.

Hoje é um dia longo,
já não volto a nascer,
mas ainda espero
que aquela história que nunca me contaste
perdure escrita no sorriso
de uma criança qualquer,
e que as gargalhadas se espalhem
onde o dia já não nasce
.
Autor : Conceição Bernardino
 In - "abreviaturas"
Imagem : Annegien Schilling

quinta-feira, 30 de junho de 2022

Lâmpada no coração do fogo


 Procuras frios animais no caminho das águas.
Um relógio na cadência da noite. Uma linguagem
no firmamento das palavras.
Desfazes nas mãos a orografia do pânico.
Uma sugestão musical, quase.

Autor : José Laurindo Leal de Góis 

quarta-feira, 29 de junho de 2022

O lírio prateado

 

As noites ficaram frias de novo, como as noites
de começo de primavera, e quietas de novo.
Será que a conversa te incomoda? Estamos
sozinhos agora; não temos razão para silêncio.
Vês, sobre o jardim — a lua cheia nasce.
Não verei a próxima lua cheia.
Na primavera, quando a lua nascia, significava
que o tempo era infinito. Anêmonas
abriam e fechavam, as sementes
em cachos caíam dos bordos em pálidas lufadas.
Branco sobre branco, a lua nascia sobre o vidoeiro.
E no arco em que a árvore se divide,
folhas dos primeiros narcisos, ao luar
prata-verde-claras.
Juntos, chegamos
perto demais do fim para agora
temermos o fim.
Nessas noites, não estou nem mesmo certa
de que sei o que significa o fim.
E tu, que estiveste com um homem —
depois dos primeiros gritos,
não faz a alegria, como o medo,
barulho algum?

Autor :Louise Glück
tradução de Maria Lúcia Milléo Martins

terça-feira, 28 de junho de 2022

Nasceste


Nasceste do outro lado,
onde o sol nunca destruiu os negros signos
da escuridão,
onde o terror do pai,
o distraído olhar da mãe,
o silêncio dos irmãos, faz crescer em ti as
imperecíveis flores da amargura.

Foste sempre
a equívoca imagem dos espelhos: um sorriso
era uma lágrima.
À tua volta estava escrito:
o amor é uma espada de fogo, às vezes mata.

Navegaste turvos oceanos cujas vagas alterosas,
nunca antes vistas,
batiam no teu assombro.
Atravessaste os ares, muito perto do céu,
mas nunca viste as altas mansões de Deus.
Eras apenas o anjo,
aquela que nunca pôde deixar as estâncias do
sono.
Entregaste, sem saber, os segredos do teu corpo,
tão predisposto à imolação.
Choraste tantas vezes,
em quartos de persianas descidas, que a morte
habitava,
sem fazer ruído.

Hoje,
não dizes nada.
Levas sobre os ombros um xaile de magoada renda.
Vestes quase sempre de negro.
Vais e vens,
ao longo dos labirintos onde em cada esquina
espreita o tigre.

Não sabes o que fazer com as mãos frias,
povoadas de angustiantes anéis.
Não bordas o livro das tuas horas,
e o dedal das avós dementes caiu sempre no
chão.

A chuva caiu sempre nos teus dias,
e caminhaste pelas ruas, à deriva, cabisbaixa,
como se pedisses perdão.
Ninguém te ouviu,
pois não havia palavras debruçadas da tua
boca.
Era sempre Inverno.

E quando ele chegou,
o filho pródigo de uma ilha,
parecia que enfim poderias cantar nos jardins da
paixão, na elevação das chamas.

Mas não.
Assassinaste sempre a ternura que ele ainda
guardava no devassado cofre da sua idade.
Suicidaste-te.

José Agostinho Baptista
'Esta voz é quase o vento'
Assírio & Alvim, 2004
Imagem : Angelo Bonini

domingo, 26 de junho de 2022

...


ninguém precisa ver as minhas lágrimas, são espontâneas e derrapam
desgovernadas como um rio sem foz
assim,como a minha tristeza, a raiva a aflição
a dor mesmo que exposta é e será sempre anónima...

Autor : BeatriceM 25-06-2017
Imagem :Katharina Jung

sábado, 25 de junho de 2022

TRIESTE

 

Nesse verão nenhum de nós buscava terra firme
parecia-nos caminhar há séculos sobre as águas
Donde viemos nós? Como chegámos a esta luz
austríaca sobre as colinas
ao fumo lento no anfiteatro do golfo
à ordem aleatória do tempo?

Talvez nos caiba viver por cidades estranhas
em casas que esconderão sempre o seu medo
e a sua glória
sós diante dos céus
sem a certeza culminante

Vemos a tarde perder-se na direcção do molhe
o mundo é aquilo que nos separa do mundo

Autor : José Tolentino Mendonça
Resumo: A Poesia em 2009 [de O Viajante sem Sono], Assírio & Alvim, Lisboa, 2010.

sexta-feira, 24 de junho de 2022

Préstimo

Um gato não serve realmente
para nada, vão quase seis séculos
desde o tempo das caravelas
onde embarcou com os marítimos para
extermínio dos roedores que
infestavam o porão das naus. Agora
só o dorso oferece às carícias
ou ao regaço o peso
do pequeno corpo, ronronando
a grata beleza de existir.

Autor : Inês Lourenço
Imagem : Ildiko Neer

quinta-feira, 23 de junho de 2022

Um Campo Batido pela Brisa

A tua nudez inquieta-me.

Há dias em que a tua nudez
é como um barco subitamente entrado pela barra.
Como um temporal. Ou como
certas palavras ainda não inventadas,
certas posições na guitarra
que o tocador não conhecia.

A tua nudez inquieta-me. Abre o meu corpo
para um lado misterioso e frágil.
Distende o meu corpo. Depois encurta-o e tira-lhe
contorno, peso. Destrói o meu corpo.
A tua nudez é uma violência
suave, um campo batido pela brisa
no mês de Janeiro quando sobem as flores
pelo ventre da terra fecundada.

Eu desgraço-me, escrevo, faço coisas
com o vocabulário da tua nudez.
Tenho «um pensamento despido»;
maturação; altas combustões.
De mão dada contigo entro por mim dentro
como em outros tempos na piscina
os leprosos cheios de esperança.
E às vezes sucede que a tua nudez é um foguete
que lanço com mão tremente desastrada
para rebentar e encher a minha carne
de transparência.

Sete dias ao longo da semana,
trinta dias enquanto dura um mês
eu ando corajoso e sem disfarce,
ilumindo, certo, harmonioso.
E outras vezes sucede que estou: inquieto.
Frágil.
Violentado.

Para que eu me construa de novo
a tua nudez bascula-me os alicerces.

Autor : Fernando Assis Pacheco
in “A Musa Irregular”
Imagem:Vicente Romero Redondo

quarta-feira, 22 de junho de 2022

O Pássaro da Esperança

Atravessas-me a alma
como uma seta
feliz de sentires-me o coração
e fico acesa,
acesa para o amor,
para a nostalgia
de alados tempos antigos.
Acende-me, o teu canto
que todo o meu tempo enobrece
e vibra,fiel, de quem é livre
e terno.

Contigo percorro
os mais doces lugares da Terra,
as mãos do sol
saídas do luar de Junho

Para iluminar os sonhadores
e repintar-te de verde
como as árvores,
onde uma fêmea leal
te espera
para um concerto a dois.

Se outros vierem
que cantem também.

Todos ( humanos e bichos)
somos necessários
a um mágico cantar de sonho.
E ao amor e sempre ao amor
que nos ilumina a vida
e transforma o mundo.

Autor :Fátima Pitta Dionísio Funchal,20 de Junho de 2020
Imagem : Omar Ortiz

terça-feira, 21 de junho de 2022

Como um livro


Como um
livro
Folheei o
teu corpo como um livro
à procura da tua alma : encontrei-a no índice.
.
Autor:Albano Martins
Foto:Martim Dimitrov

domingo, 19 de junho de 2022

Se...



Se te disserem que eu te esqueci
admite e sorri com a leveza da brisa. 

Há amores que permanecem para sempre
mesmo que sejam apenas e só migalhas na memória.

Eu nunca  te esqueci ...

Apenas segui em frente,
com a resiliência a fazer-me companhia.

O resto só nós sabemos ...

 Autor : Beatrice 2022-06-11
Imagem Arthur Elgort

sábado, 18 de junho de 2022

Estigma

Trini Schultz

Filhos dum deus selvagem e secreto
E cobertos de lama, caminhamos
Por cidades,
Por nuvens
E desertos.
Ao vento semeamos o que os homens não querem.
Ao vento arremessamos as verdades que doem
E as palavras que ferem.
Da noite que nos gera, e nós amamos,
Só os astros trazemos.
A treva ficou onde
Todos guardamos a certeza oculta
Do que nós não dizemos,
Mas que somos.

Autor : José Carlos Ary dos Santos