na noite escura
as sombras encurralam-me
mas há sempre uma candeia
que rasga o breu
que me acossa
e percebo — com um terror sarcástico —
que, por vezes,
sou a minha própria sombra
num ritmo
que não controlo.
Imagem : Janelle Pietrzak
Aqui estão as minhas escolhas do que considero melhor em Poesia,Prosa Poética e Fotografia. Domingo é dia de trabalhos de minha autoria.
na noite escura
as sombras encurralam-me
mas há sempre uma candeia
que rasga o breu
que me acossa
e percebo — com um terror sarcástico —
que, por vezes,
sou a minha própria sombra
num ritmo
que não controlo.

Desconfio dos poetas
que falam muito de luz, das
manhãs e das árvores
na sua obsessão hospedeira
de frutos aves e
folhas. Desconfio dos que cantam
lareiras e vozes mansas, tentando
apaziguar o poema com a sua
indústria de incensos. Eles
encenam como velhos profetas
tardias formas de beleza
extinta – e fazem do verso
um ritual nado-morto
de pequenos afectos,
indiferentes à faca
incandescente que separa
o corpo das palavras
da substância do mundo.
na sofreguidão dos corpos
todas as palavras
são desnecessárias
tento montar um puzzle
com as que não disseste
nem eu disse
é exaustivo —uma charada
onde me enredo
e termino em incertezas.
Escrever é, para mim, tentar desfazer nós, embora o que na realidade acabo sempre por fazer seja embrulhar ainda mais os fios. A própria caligrafia é sufocada.Chuva, são lágrimas do céu
são as tristezas do mundo;
por este mundo tão cão.
Chuva; tristeza no meu olhar
sintoma de solidão
que trago no coração.
Chuva, gosto de ouvi-la cantar
nas janelas do meu
quarto;
são lágrimas a namorar
a saudade que há lá
dentro!
A sede seca-me a boca
no deserto da cama vazia.
A partilha é vontade
de preencher o lugar,
enquanto o sono não chega.
Fica o sonho,
deitado a meu lado.
a ilha ao fundo. funda saudade
que emerge do horizonte.
azulíneos. os gestos do pincel
sedimentam as águas
de míticas inquietações.
ninguém sabe que peixes
habitam no mar.
se há nevoeiro dom sebastião não vem.
o céu. único infinito que passa
pela janela da casa de janville.
no peitoril. os calos dos cotovelos do silêncio.
A poesia é um cais
onde o poeta sempre aporta
e disfarça em palavras
o que não ousa dizer
nem fazer.