Ecos de Poesia e Literatura
Aqui estão as minhas escolhas do que considero melhor em Poesia,Prosa Poética e Fotografia. Domingo é dia de trabalhos de minha autoria.
sábado, 3 de outubro de 2026
Infância
sexta-feira, 2 de outubro de 2026
há...
há várias maneiras de começar o dia
quando acordo fumo um cigarro
coso silêncios à pele
num quarto inteiro de palavras vazias
que se repetem como rituais
durante semanas ensaiei regressos
apesar das paredes vazias
não deixo de fingir que não estou só
In, Mulher ilustrada, 2013
Imagem : Pinterest
quinta-feira, 1 de outubro de 2026
O maior Poema
quarta-feira, 30 de setembro de 2026
Mas
O amor é lindo mas
são horas de fechar o bar,
são horas de te salvar um pouco, miúda,
de te levar daqui para bem perto da felicidade,
de retribuir todas as tuas esperas
com o melhor sorriso e uma Lisboa
que amanheça a céu aberto
num pernilongo vagar traçado,
dois cafés e só um copo de água,
um oásis no deserto das próximas manhãs,
de te salvar um pouco, de riscar os templos,
de prolongar a música além do minuto final,
de te mostrar a faixa escondida.
Imagem : Katia Chausheva
terça-feira, 29 de setembro de 2026
A vida de um Livro
domingo, 27 de setembro de 2026
Sentimento
São uma fusão descontrolada
de emoções que se entranham
desequilibradas, mas robustas
um caos
que desvia o curso de um rio
e o transforma em oceano.
Imagem : Brooke Shaden
sábado, 26 de setembro de 2026
Os ventos sopram do mar
os ventos sopram do mar
aumentam aumentam
da natureza das coisas tudo acaba
nem o tempo passa
Autor : Carlos Nogueira FIno
in a ver
Fundação Calouste GoulbenkianLisboa, 2002, p.17
sexta-feira, 25 de setembro de 2026
Um desenho do meu corpo,
Um desenho do meu corpo, de repente.
Um trapézio
bambo e desunido, com pontas excrescentes,
uma rosa no fundo das costas
com o gosto do húmus, o mofo das caves
é mais acima a dor
ciática, o lóbulo queimado
por magia ou vingança,
E o gosto por cantigas populares,
o cálice venéreo,
a pronúncia da terra, impúdica,
a língua aberta e desfolhando-se, a escaldar.
O corpo é cheio, já se sabe, de nervos e ressaltos
raramente líricos
cheio da lembrança do negrume e da pobreza,
à garganta espinhosa do sexo,
os pés calcados,
o primeiro milho nos currais da humilhação.
Chega-se muito resumidamente a velho.
A criança espera ao domingo o infalível
osso fluorescente, oferecido com o jornal,
o estupendo osso da mandíbula de um dinossauro
de quem virá a ser, desfeita
a impura impressão de beleza,
um digno contemporâneo.
De Tão bela como qualquer rapaz, Língua Morta, 2017
Imagem : Anna O.
quinta-feira, 24 de setembro de 2026
Os meus demónios
Os meus demónios
tratam-me pelo nome.
Os meus demónios
são legião e não desertam.
Os meus demónios
obedecem a todas as ordens
e a nenhuma vontade.
Os meus demónios
começaram por ser meus
por afinidade e agora
são parentes de sangue.
Os meus demónios
é que escrevem os poemas.
Imagem :Paolo Barzman
quarta-feira, 23 de setembro de 2026
Crepúsculo de Setembro em Cacela
estivesse dizendo o último
adeus a alguém
Imagem : Yume
terça-feira, 22 de setembro de 2026
Dove
Com a chegada da manhã as aves sobem muitas vezes
ao meu olhar
Trémulo lanço-me então ás águas em busca do dia
inaugural.
A nudez começa na página onde o corpo cai, o corpo
voa.
A escrita escreve-me
domingo, 20 de setembro de 2026
Um abraço
sábado, 19 de setembro de 2026
Tábuas
Presencio o fulgor das janelas.
Viro-me de encontro aos vidros do longo corredor
que separam o sol da tarde
dos recantos obscurecidos da primeira sala,
e vejo um recorte nítido,
um tremeluzir de nuvens no horizonte do vidro:
os prédios da frente rigorosamente transpostos
para uma linguagem primitiva
a dois, três traços, como o bisão de Altamira.
Imagens de terraços fronteiriços
e nuvens sobre terraços.
com elas se fazem as tábuas com que calculamos
as dimensões do dia. A pertença a certo ritmo,
a certa frase que da vida inteira
encerra o há muito perseguido.
Imagem : Julie Waroquier
sexta-feira, 18 de setembro de 2026
Deixa o Tempo
deixa o tempo fazer o resto
fechar janelas
aplacar os barcos
recolher os víveres
semear a sorte
acender o fogo
esperar a ceia
abre as portas: lê a luz
a sombra, a arte do passarinheiro
com três paus
fazes uma canoa
com quatro tens um verso,
deixa o tempo fazer o resto.
Imagem : Alex Benetel
quinta-feira, 17 de setembro de 2026
Mundo Cruel
Primeiro te dão uma estrada
Depois tu ganhas a vida
Se não der em nada
Não tinha saída
Imagem : Pinterest
quarta-feira, 16 de setembro de 2026
Quase de nada místico
terça-feira, 15 de setembro de 2026
Saudade Definida
e o que é a saudade
senão um poço aberto no peito
de onde içamos água de sombra?
Imagem : Cig Harvey
domingo, 13 de setembro de 2026
Perdida na sombra
na noite escura
as sombras encurralam-me
mas há sempre uma candeia
que rasga o breu
que me acossa
e percebo — com um terror sarcástico —
que, por vezes,
sou a minha própria sombra
num ritmo
que não controlo.
Imagem : Janelle Pietrzak
sábado, 12 de setembro de 2026
Compasso para elegia
sexta-feira, 11 de setembro de 2026
Esta manhã encontrei o teu nome

quinta-feira, 10 de setembro de 2026
quisera
quarta-feira, 9 de setembro de 2026
QUEBRA-LUZ
Desconfio dos poetas
que falam muito de luz, das
manhãs e das árvores
na sua obsessão hospedeira
de frutos aves e
folhas. Desconfio dos que cantam
lareiras e vozes mansas, tentando
apaziguar o poema com a sua
indústria de incensos. Eles
encenam como velhos profetas
tardias formas de beleza
extinta – e fazem do verso
um ritual nado-morto
de pequenos afectos,
indiferentes à faca
incandescente que separa
o corpo das palavras
da substância do mundo.
In De Logros Consentidos, &etc, 2005
Imagem : Pinterest
terça-feira, 8 de setembro de 2026
princípios
domingo, 6 de setembro de 2026
Incertezas
na sofreguidão dos corpos
todas as palavras
são desnecessárias
tento montar um puzzle
com as que não disseste
nem eu disse
é exaustivo —uma charada
onde me enredo
e termino em incertezas.
Imagem :Michal Maciak
sábado, 5 de setembro de 2026
os nós da escrita
Escrever é, para mim, tentar desfazer nós, embora o que na realidade acabo sempre por fazer seja embrulhar ainda mais os fios. A própria caligrafia é sufocada.Há, todavia, um momento em que as palavras são cuspidas, saem em borbotões, e o sangue e a saliva impregnam o sentido. É impossível separá-los.
Por trás talvez não haja mesmo nada. São palavras que não estão ginasticadas, que secam e encarquilham como folhas por que a seiva já não passe.
Oprimem toda a página, através da qual deixa de ser possível respirar. Tapam-lhe os poros. A própria chuva que neles caia não se escoa.




















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