São uma fusão descontrolada
de emoções que se entranham
desequilibradas, mas robustas
um caos
que desvia o curso de um rio
e o transforma em oceano.
Imagem : Brooke Shaden
Aqui estão as minhas escolhas do que considero melhor em Poesia,Prosa Poética e Fotografia. Domingo é dia de trabalhos de minha autoria.
São uma fusão descontrolada
de emoções que se entranham
desequilibradas, mas robustas
um caos
que desvia o curso de um rio
e o transforma em oceano.
os ventos sopram do mar
aumentam aumentam
da natureza das coisas tudo acaba
nem o tempo passa
Autor : Carlos Nogueira FIno
in a ver
Fundação Calouste GoulbenkianLisboa, 2002, p.17
Um desenho do meu corpo, de repente.
Um trapézio
bambo e desunido, com pontas excrescentes,
uma rosa no fundo das costas
com o gosto do húmus, o mofo das caves
é mais acima a dor
ciática, o lóbulo queimado
por magia ou vingança,
E o gosto por cantigas populares,
o cálice venéreo,
a pronúncia da terra, impúdica,
a língua aberta e desfolhando-se, a escaldar.
O corpo é cheio, já se sabe, de nervos e ressaltos
raramente líricos
cheio da lembrança do negrume e da pobreza,
à garganta espinhosa do sexo,
os pés calcados,
o primeiro milho nos currais da humilhação.
Chega-se muito resumidamente a velho.
A criança espera ao domingo o infalível
osso fluorescente, oferecido com o jornal,
o estupendo osso da mandíbula de um dinossauro
de quem virá a ser, desfeita
a impura impressão de beleza,
um digno contemporâneo.
Os meus demónios
tratam-me pelo nome.
Os meus demónios
são legião e não desertam.
Os meus demónios
obedecem a todas as ordens
e a nenhuma vontade.
Os meus demónios
começaram por ser meus
por afinidade e agora
são parentes de sangue.
Os meus demónios
é que escrevem os poemas.
Com a chegada da manhã as aves sobem muitas vezes
ao meu olhar
Trémulo lanço-me então ás águas em busca do dia
inaugural.
A nudez começa na página onde o corpo cai, o corpo
voa.
A escrita escreve-me
Presencio o fulgor das janelas.
Viro-me de encontro aos vidros do longo corredor
que separam o sol da tarde
dos recantos obscurecidos da primeira sala,
e vejo um recorte nítido,
um tremeluzir de nuvens no horizonte do vidro:
os prédios da frente rigorosamente transpostos
para uma linguagem primitiva
a dois, três traços, como o bisão de Altamira.
Imagens de terraços fronteiriços
e nuvens sobre terraços.
com elas se fazem as tábuas com que calculamos
as dimensões do dia. A pertença a certo ritmo,
a certa frase que da vida inteira
encerra o há muito perseguido.
deixa o tempo fazer o resto
fechar janelas
aplacar os barcos
recolher os víveres
semear a sorte
acender o fogo
esperar a ceia
abre as portas: lê a luz
a sombra, a arte do passarinheiro
com três paus
fazes uma canoa
com quatro tens um verso,
deixa o tempo fazer o resto.
Primeiro te dão uma estrada
Depois tu ganhas a vida
Se não der em nada
Não tinha saída
e o que é a saudade
senão um poço aberto no peito
de onde içamos água de sombra?
na noite escura
as sombras encurralam-me
mas há sempre uma candeia
que rasga o breu
que me acossa
e percebo — com um terror sarcástico —
que, por vezes,
sou a minha própria sombra
num ritmo
que não controlo.

Desconfio dos poetas
que falam muito de luz, das
manhãs e das árvores
na sua obsessão hospedeira
de frutos aves e
folhas. Desconfio dos que cantam
lareiras e vozes mansas, tentando
apaziguar o poema com a sua
indústria de incensos. Eles
encenam como velhos profetas
tardias formas de beleza
extinta – e fazem do verso
um ritual nado-morto
de pequenos afectos,
indiferentes à faca
incandescente que separa
o corpo das palavras
da substância do mundo.
na sofreguidão dos corpos
todas as palavras
são desnecessárias
tento montar um puzzle
com as que não disseste
nem eu disse
é exaustivo —uma charada
onde me enredo
e termino em incertezas.
Escrever é, para mim, tentar desfazer nós, embora o que na realidade acabo sempre por fazer seja embrulhar ainda mais os fios. A própria caligrafia é sufocada.Chuva, são lágrimas do céu
são as tristezas do mundo;
por este mundo tão cão.
Chuva; tristeza no meu olhar
sintoma de solidão
que trago no coração.
Chuva, gosto de ouvi-la cantar
nas janelas do meu
quarto;
são lágrimas a namorar
a saudade que há lá
dentro!