Encerrar ciclos faz parte de viver,
esquecer é mais difícil:
de tudo o que foi,
algo permanece.
Autor :BeatriceM 2026-08-02
Imagem:Marta Bevacqua
Aqui estão as minhas escolhas do que considero melhor em Poesia,Prosa Poética e Fotografia. Domingo é dia de trabalhos de minha autoria.
Encerrar ciclos faz parte de viver,
esquecer é mais difícil:
de tudo o que foi,
algo permanece.
Autor :BeatriceM 2026-08-02
Imagem:Marta Bevacqua
Ninguém saberá da secura de nossos olhos
da dureza de nossa boca ninguém saberá
do fio das unhas da dor no dente
do sangue guardado no fundo da gaveta
ninguém adivinhará os jardins atrás do muro fechado
ninguém quebrará o ferro do portão
ninguém violentará o secreto
ninguém te tocará profundamente
ninguém te saberá
ninguém.
Por isso olhamos as nuvens
sentados ao vento que não sopra
enquanto os balanços rangem
os rádios cantam
e a rua intocável como um quadro
pintado por outro.
Por isso olhamos em volta
e o que se passa além de nossa (uma palavra ilegível)
não nos soluciona
(ninguém sabe
ninguém saberá).
O caule quebrado do girassol
o livro de Toynbee sobre os degraus
a caneta riscando o papel
as nuvens
a tarde
a rua
o medo.
O sentir, por vezes,
tantas vezes,
não é partilhado.
Por vezes,
é apenas um sincronismo
de olhares
que não foram vividos.
Autor : BeatriceM 2026-07-26
Imagem :Anna O.
somos os que a morte reconduz
à rapidez das lágrimas, ao ritmo brutal
de uma festa que nada antecedeu:
hiato que a mão utilizou para guiar
a dor pelo trilho da suspeita; somos
os que a morte reconhece como a sua memória,
um rasto que procura a presa e a encontra
no homem que se embrenha por caminhos
dissimulado no seu próprio esquecimento
Por toda a parte espectros
Do mapa percorrido em cinco e quarenta
Prolongados anos
A cidade encontra
O espectro do que eu fui
Saído dos horrores da adolescência
Filtra obscuramente
O meu imo
Que não conheço
Vem
[irreconhecível
Ao meu encontro
Tacteamo-nos no escuro
Apaixonadamente
O amor é cego
Mas só ele permite
Realmente ver
Acho que o tempo escasseia,
diluindo-se em dias.
Não sei quantos ainda me serão dados.
Não conseguirei relatar o que desperdicei sem saber,
nem descrever o que ficou por dizer,
nem o que disse sem pensar — e sem querer.
Talvez ainda me sobre tempo
para, numa qualquer casualidade,
numa curva do destino,
ainda te conseguir encontrar
e levar comigo, em memória crua,
a tua presença, que ainda
predomina em mim.
É triste
o espectáculo do amor
apodrecendo aos poucos,
na fruteira
as maçãs que te trouxe
têm agora a pele seca e enrugada.
Autor : Luís Filipe Parrado
in Entre a Carne e o Osso, 2012
O pior ainda são os dias em que toda
a escrita é despropositada e incómoda.
A mão que ousa o verso é lenta e trémula,
prolongando o tédio sobre a página.
Tudo é branco em redor como uma duna
ou uma doença subterrânea. Aquele que escreve
está inclinado sobre a água ou sobre a
noite e nenhuma fala lhe ascende à boca.
Tece-se o não dizer com ínfimas agulhas
e se houvesse uma arca para guardá-lo
seria larga e brilhante como uma casa.
Havia de morar nela a solidão dos grandes
dias cinzentos e dentro dela
uma pequena pedra polida e esguia.
Já não te deitas na minha cama
paradoxalmente, o sono também não
a minha cama é apenas cama
metamorfoseada nos contornos invisíveis
de corpos unidos
de um tempo que ficou no pretérito.
Autor : BeatriceM 2026-07-12
Imagem:Rosie Hardy
16
De neve nada sei, de sol também,
de milhares de sossegos acordados,
da subida do teu rosto atrás dos ombros,
da mão ardente, da vista da sacada
nada sei.
Ponho palavras como coisas feitas:
só entre elas, enquanto jogam, leves,
seu rodado sem cor nem qualidades,
minha ciência existe, e já não minha,
ou só tão minha como tua e delas,
ar entre os dedos, sumo de verdades.
De amar não me canso…
Mesmo entristecida,
perdido o cansaço
vou vivendo a vida!
Choros e sorrisos
não matam saudade
nem amores perdidos
nem a felicidade …
Saboreio a vida
do modo que posso,
ou a mordo, gulosa,
doce , saborosa,
ou a esqueço
vencida…
Mas de amar,
não me canso!
Disse-te: uma casa.
Não falávamos há meses e isto
foi tudo o que te soube dizer:
uma casa, tenho uma casa.
Arrumei primeiro os discos, depois os filmes,
só então os livros, as loiças.
Como quem se abrigasse da chuva,
pendurei os primeiros quadros.
Quatro: estrada, mar, mulher, coração.
Começou a chover quando me perguntaste
se te convidava para jantar.
Era desnecessariamente Julho
e dentro de casa chovia tanto.
Disse-to, confesso, sem esperança
- apenas porque uma casa
é muito grande para guardar na boca.
Uma ave uma só ave
ponto negro em rosto
de turquesas apuradas
vagueia sem nota
de regresso ou despedida
Na brisa saboreia-se
o sal que tempera a tarde
ao de leve estremecem
copas de pinheiros
carvalhos e figueiras solitárias
um estertor como espasmo
doce tão doce
E uma passada surda
na gravilha batida
dá um ritmo que se perde
no próprio ritmo de tudo
Na curva da estrada deserta
um gato deita-se ao vazio
como lentos os amantes
morrem nos braços do amor
Há em tudo isto
um fascínio absoluto
que não necessita de nome
para cintilar ínclito
no coração do silêncio
Autor : Pedro Belo Clara
Fusun Urkun