quarta-feira, 19 de janeiro de 2022

Notícia do que corre

 

Ela perguntou:
se a vida me correr mal
dás-me abrigo?
Ele respondeu:
se a vida te correr mal
abrigar-te-ei.
E morreram
na esperança
de que a vida corresse mal.

Autor :Maria José Meireles
Imagem Cristina Coral

terça-feira, 18 de janeiro de 2022

Recado


 Estou aqui como se te procurasse
a fingir que não sei aonde estás
queria tanto falar-te e se falasse
dizer as coisas que não sou capaz.

Dizer, eu sei lá, que te perdi
por não saber achar-te à minha beira
e na casa deserta então morri
com a luz do teu sorriso à cabeceira.

Queria tanto falar-te e não consigo
explicar o que se sofre, o que se sente
e perguntar como ao teu retrato digo
se queres casar comigo novamente…

Autor : António Lobo Antunes
In:Letrinhas de Cantigas

domingo, 16 de janeiro de 2022

O teu corpo

O teu corpo é um cais,
onde aporto,
no final de cada viagem,
onde me prendo,
e também me perco,

como,
no voo dos pássaros,
quando ao entardecer,
se abrigam no ninho.
 
Autor : BeatriceM  2022-01-16
Imagem : António Macedo

sábado, 15 de janeiro de 2022

Labirinto ou Procura Iniciática

Natalia Drepina (@yourschizophrenia)

Tudo é labirinto e forma inútil
Vã glória e beleza efémera. 

Beijo a beijo, flor a flor,
Vão chegar os dias transparentes.
O ardor da casa pedra a pedra
Os degraus da sapiência transmutável
Com que os bosques guardam
As falas de antiquíssimos anéis.
 
Virão; estou convencido, novas melodias,
O silêncio cantado na pausa da escrita.
Novos rostos, novas mãos para afagar
O brilho das estrelas num inextinguível amor
Partilhado, na forma mais pura do voo,
No olhar mais cristalino de etérea profundidade.

Na noite a luz dos espelhos definem-te os contornos.
Mas, só as palavras sussurradas incendeiam a pele
E fazem da nascente o sortilégio de todos os desígnios. 

Autor : Joaquim Monteiro, in “À Janela do Teu Corpo”, página 102

sexta-feira, 14 de janeiro de 2022

Nômade


Decorei meu nome
para andar no sem rumo
dos abismos.

Observei os ventos
que se cruzavam
em desvios sonâmbulos
que estilhaçavam
os espelhos.

Vi as sereias chamando os marujos
nas praias bravas
que se desdobravam
e engoliam navios.

Percebi as sombras nos muros
das noites insones.

Fui cúmplice do brilho das estrelas
e do silêncio deslumbrado
das manhãs de verão.

Autor _ Solange Firmino
In “Geometria do abismo”

quinta-feira, 13 de janeiro de 2022

Penso em ti

Os amantes pensam-se. Cada um
pensa que pensa muito mais no outro
que o outro nele. Estão centrados
no seu ofício pensante e não notam
os fios invisíveis com que o medo
vai enredando as suas reflexões
e matando o amor. Só o esquecimento
poderia resgatá-los dessa dúvida,
mas não estão dispostos a esquecer-se.

Autor : Luis Alberto de Cuenca

quarta-feira, 12 de janeiro de 2022

...

Fizeram do poeta uma estátua
parada na orla de uma cidade
que não é Itabira
fizeram do poeta uma pedra
parada numa rua
que não é um caminho
fizeram do poeta um ser calado
como sempre fora
e sozinho
agora repouso metamórfico
metálico
de partículas filosóficas do ar
que o rodeia
ele não ri nem de soslaio
antes odeia.
 
Autor : Ana Peluso

terça-feira, 11 de janeiro de 2022

Estou olhando os frutos repousados

 

Estou olhando os frutos repousados
e as pequenas sombras alongadas
sobre a mesa de madeira e pedra.
A brisa entra por uma porta antiga.
Uma pétala branca cai de uma flor branca.
Sou, mais do que sou, estou
na perfeição das coisas que me envolvem.
Repouso na sinuosa exactidão.

Autor : António Ramos Rosa 
In A Rosa Esquerda
Imagem Alexei Antonov

domingo, 9 de janeiro de 2022

Sem despedidas

Quando tiveres que ir
espera que eu adormeça
sai de mansinho
e deixa tudo como está
para que
quando alvorecer
e o sol entrar pela janela
eu possa ver
sobre o pó da cómoda
as tuas impressões digitais
e lembrar-me das tuas mãos
quando me tecem carinhos.

 Autor : BeatriceM 2022-01-09
Imagem :Tina Spratt

sábado, 8 de janeiro de 2022

Este é um dos Lugares


Este é um dos lugares (ou parte alguma?)
que nunca esperei ocupar ou ver sequer;
alheio em tudo, igual a tantos outros
que breves soube e de que nada guardo.
Um só espaço em verdade me pertence,
- meu berço, meu texto, meu legado:
a casa que é a mãe e viverá
enquanto eu não abdique do seu sangue.
Lá estou e serei: sou as paredes,
a escuridão que a procura e adormece,
sublimando-a tanto como a luz,
trave do seu lar frio e seu apelo,
pelas janelas vendadas defendida.
Batei à porta, chamai do seu jardim
devastado até não me ser senão lembrança:
lá dentro, responderei, embora aqui,
desde sempre à espera de ninguém.

Autor : José Bento, in 'Silabário'
Imagem : Ragne Sigmund

sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

o que fica da memória é um olho a piscar


o que fica da memória é um olho a piscar

o que fica da memória
gene que sobrevive ao tempo
momento único de uma década
sem testemunhas
certa frase entrecortada
perdura
gesto sobreposto em camadas de tempo
o buraco funerário do coelho
em fuga
um chapéu de bom feltro
a mão de setenta e seis anos nele pousada
alisa
a quilha hábil
moldada pelo século XIX

o que fica da memória
sobrevive
a doenças e quedas
entrou por algum poro da mente
ali ficou reclinado
acorda sob a luz de uma palavra
ergue-se à vibração de uma árvore interior

estava ali desde sempre
e nós em paz porque existia
silencioso
atento
era um ramo pousado no ombro do tempo
agitou-se
estendeu um braço de dentro do braço
amiba bocejante
um pseudo-braço
para sobrevivência instantânea

o que resta da memória é um pseudópode
vindo da periferia obscura
brilha como a múmia no museu deserto
do bairro degradado
depois volta a sair pela esquerda baixa
deixando atrás de si a memória desta memória
a reverberar
até se diluir em pó brilhante
lento
caindo a pique
na água cada vez mais escura dos dias

Autor : Rosa Oliveira
Imagem :annegien Schilling 

quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

Paisagem Citadina


A pele por fulgurantes
instantes muitas vezes abre-se até onde
seria impensável que exercesse
com tão grande rigor o seu domínio.

Não temos então dela senão rápidas
visões, onde os reclames
do coração se cruzam, solitários
e agrestes, reflectidos

por trás nos ossos empedrados.
Em certas posições vêem-se as cordas
do nosso espírito esticadas num terraço.

A roupa dói-nos porque, embora
nos cubra a pele, é dentro
do espírito que estão os tecidos amarrados.

Autor : Luís Miguel Nava, in 'O Céu Sob as Entranhas'
Imagem :Ilya Kisaradov

quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

Filho das Trevas!

 

 

Vives na sombra da noite,
Á procura do ser perfeito,
Enganas quem vida imortal te pede,
Mas adoras sangue quente,
Numa noite de inverno…

Não sabes o que é o amor,
Mas sabes o que é a dor…

Sentes-te só com o passar dos anos,
Mas por dentro tu és um monstro,
Que com ódio faz gritos,
Para uma dentada de dor!

Amado não foste,
Enquanto mortal eras,
Agora filho das trevas,
Vives para me ver sofrer!!

Autor : Alexandra Santos 15/05/2009
© Todos os direitos reservados
Imagem : Silas Manhood

terça-feira, 4 de janeiro de 2022

Olhamo-nos nos olhos pela internet.


Eu transmito-te este domingo à tarde,
a voz do vizinho através da parede.

Tu transmites-me a distância que existe
depois do que consigo ver pela janela.

Durante a noite mudou a hora e, no entanto,
continuamos no tempo de ontem.

Como é raro este domingo, não podemos
garantir que amanhã seja segunda-feira.

O futuro perdeu-se no calendário, existe
depois do que conseguimos ver pela janela.

O futuro diz alguma coisa através da parede,
mas não entendemos as palavras.

Lavamos as mãos para evitar certas palavras.

E, mesmo assim, neste tempo raro, repara:
tu e eu estamos juntos neste verso.

O poema é como uma casa, tem paredes
e janelas, é habitado pelo presente.

Olhamo-nos nos olhos pela internet,
estamos verdadeiramente aqui.

O poema é como uma casa,
e a casa protege-nos.

Autor : José Luís Peixoto

domingo, 2 de janeiro de 2022

Afinal

 

Afinal
ainda há tempo de agradecer ,
no novo dia a romper,
na vida a renascer,
no amor a acontecer
no novo ano a nascer,
e na esperança a prevalecer.

Autor : BeatriceM 02-01-2022
Imagem : John Hector Alcantar