sexta-feira, 1 de março de 2024

Prece


Senhor, que és o céu e a terra, e que és a vida e a morte! O sol és tu e a lua és tu e o vento és tu! Tu és os nossos corpos e as nossas almas e o nosso amor és tu também. Onde nada está tu habitas e onde tudo estás — (o teu templo) — eis o teu corpo.


Dá-me alma para te servir e alma para te amar. Dá-me vista para te ver sempre no céu e na terra, ouvidos para te ouvir no vento e no mar, e mãos para trabalhar em teu nome.

Torna-me puro como a água e alto como o céu. Que não haja lama nas estradas dos meus pensamentos nem folhas mortas nas lagoas dos meus propósitos. Faz com que eu saiba amar os outros como irmãos e servir-te como a um pai.

[…)

Minha vida seja digna da tua presença. Meu corpo seja digno da terra, tua cama. Minha alma possa aparecer diante de ti como um filho que volta ao lar.

Torna-me grande como o Sol, para que eu te possa adorar em mim; e torna-me puro como a lua, para que eu te possa rezar em mim; e torna-me claro como o dia para que eu te possa ver sempre em mim e rezar-te e adorar-te.

Senhor, protege-me e ampara-me. Dá-me que eu me sinta teu. Senhor, livra-me de mim.

Autor:Fernando Pessoa.Prosa Íntima e de Autoconhecimento.

quinta-feira, 29 de fevereiro de 2024

Disponibilidade para gostar




Gosto
de veladas juras de amor
gosto
quando te transformas numa rosa
gosto
mesmo que nada disto seja verdade.

Autor :Luís Rodrigues-
https://brancasnuvensnegras.blogspot.com/
Imagem : Kamil Vojnar

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2024

Ode do homem de rua



trazia uma pulseira branca de plástico
a imitar uma promessa
de asilo azul
ou um número gasto
um poema a emagrecer.

dormia à entrada de uma porta estranha
de sono ébrio coração esquecido
ou barba por fazer e a vida a dar horas.

só o medo não me fez tocar na mão
a segurar um abandono de fio de prata
e contar-lhe as feridas com os beijos possíveis.

(um coração esquecido de si é fácil de esquecer),
mas quando a rua grita e aflige com a náusea
das flores que nunca cobrirão os sete palmos de terra
é impossível anoitecer como homem igual.

e lembrar-me que o corpo é todo o mesmo
e triste assim.

a polícia veio
pôs uma sirene no lugar do estranho.
a porta fechada
nas frestas nenhuma respiração
quis sentir o perfume doído.

lembrar-me que o corpo é todo o mesmo
e triste assim
quando não há o que vestir
e não se tem mais dentes para amar ninguém
nem fome de casas.

Autor : Ana Salomé

terça-feira, 27 de fevereiro de 2024

Sorrisos

Em laços de sorrisos
Desabotoei-me de preconceitos
E abri a vontade feérica
Como porta sedenta de receber.
A noite deitou-se ao meu lado
Fiz amor com a lua
E o sol ciumento trancou-me o sentir.
Louco ...
Percebi que o mundo escreve-se em olhares
E as palavras morrem à nascença
Depois de ditas...mesmo sorridentes!

Autor : José Luís Outono
Cadernos ao Acaso - 2010
Imagem : Alberto Dros

domingo, 25 de fevereiro de 2024

Ilusão

Vou estudar o enigma dos pássaros
Abrir os braços e suave me tornar
Para com eles ter direito a voar

Autor :BeatriceM 2024-02-23
Imagem : Gina Vasquez

sábado, 24 de fevereiro de 2024

Colina



Foi razão de colina
Justo aquela
Hoje tão oca
Mas tão bonita
Nos seus vários tons de verde

Estará lá
Sempre alta
Para quem quer encurtar
A distância até o céu

Num vertiginoso
Gole de gravidade
O mundo para
Nada mais se torna
Tornando-se o próprio nada

Autor : André Rosa

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2024

Desterro

 

A minha vida
é um desterro sem retorno.
Não teve casa
minha errante infância perdida,
não tem terra
meu desterro.
A minha vida navegou
em barco de nostalgia.
Vivi à margem do mar
olhando o horizonte:
tornava minha casa ignorada
um dia pensava em zarpar,
e a pressentida viagem
me deixou em outro porto de partida.
É o amor, acaso,
o meu último cais?
Oh braços que me fizeram prisioneira,
sem me dar abrigo…
Também quis escapar
do cruel abraço.
Oh braços fugitivos,
que em vão buscaram minhas mãos…
Incessante fuga
e anseio incessante
o amor não é porto seguro.
Já não há terra prometida
para a minha esperança.

Autor : Alaíde Foppa
Imagem : Erik Johansson

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2024

...


À maçã
não lhe perguntes
quem é.

Outra forma
não há
de lhe reconhecer
o sabor

Autor : Albano Martins

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2024

Ser e não ser

Entre mim e os livros na estante,
no espaço ocupado pela luz,
dão-se transformações
a que assisto quieta e calada.

Depois de olhar o ar,
cada palavra reflecte
o lugar invisível de onde veio o poema
ou o silêncio que passou pela casa.

A alma não escolhe a estação
nem prevê o detalhe do infinito.

Reparo com espanto infante
nos vestígios deste ritual,
os livros que não li
sabem de mim
e não dormem nunca.

Autor : Marta Chaves,
IN Avalanche

terça-feira, 20 de fevereiro de 2024

Escreve-se


Escreve-se contra a vida, tu dizes.
Respondo que a métrica é a vida,
que às sombras sobram mapas, raízes.
Que aí, nesse chão, caem rima e dúvida.

São frutos de morte e dor indelével
o que essa voz dissonante persegue.
São vaga-lumes de tinta ilegível
sobre campos de hierático sangue.

Escreve-se contra a vida, tu dizes.
Eu recolho-me, fio o meu casulo,
abasteço-me de sonhos vorazes,

anoto a ambição negativa, a rosa
escurecida que é do crepúsculo
a cinza e a frágil arte rumorosa.

Autor :Luís Quintais,
In Ângulo Morto

domingo, 18 de fevereiro de 2024

Oh!Noite!

Oh! Noite!
A minha cama é o teu refúgio,
que me abraça o corpo frio.

Algures noutro País,
alguém procurará o refúgio noutra cama,
e noutro corpo.

Amanhã, será outro dia.
e a esperança desabrocha, quando o dia despontar.
invadindo o meu quarto com raios de aurora.

Beatrice M 2024-02-18
Imagem : Monia Merlo

sábado, 17 de fevereiro de 2024

Sombras


Não estavas quando cheguei a casa.
Nem eu estava quando chegaste junto a mim.
Não estávamos em casa quando jantámos juntos.
Quando me falaste não estava.
Nem estavas quando eu te respondi.
Não estiveste ao meu lado
quando te deitaste junto a mim
e eu senti o toque do teu corpo ausente.
Fomos sombras.
Sombras de gente, nada mais.
Não estivemos nem aqui nem ali.
Nem tu comigo,
nem eu contigo.
Solitários sem voz
eu, tu...
fomos apenas sombras de nós

Autor : João Morgado
IN: Para Ti
Imagem : Karen Hollingsworth

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2024

Diz-me

Lyubomir Sergeev


Diz-me.
Que o mundo enlouqueceu.
E que afinal,
todos os sonhos são possíveis.
É só preciso querer.
Voar.
E tocar a luz dos loucos,
dos que caminham à procura.
Da verdadeira essência,
que vive na luz de quem se interroga.
Para saber.
De si e dos outros.

Autor : Ana de Melo

terça-feira, 13 de fevereiro de 2024

Noturno

A febre atrai o canto de um pássaro andrógino
e abre caminhos para um prazer insaciável
que se ramifica e cruza o corpo da terra.
Oh, a navegação infrutífera ao redor das ilhas
onde as mulheres oferecem ao viajante
o equilíbrio fresco de seus seios
e uma extensão de terror nos quadris!
A pele pálida e macia do dia
cai como a casca de um fruto infame.
A febre atrai o canto dos esgotos
onde a água atropela os desperdícios.

Autor : Alvaro Mutis
Imagem :Mary Parker

domingo, 11 de fevereiro de 2024

Dádiva

Não sei que fazer, hoje que a chuva cai sem cessar,
não sei se me agarre a um pingo, e vou pela rua,
a encharcar os sapatos para sentir o molhado.

Talvez oiça a voz da minha mãe,
“Tem cuidado com as poças, não molhes os pés que ficas doente”
talvez a minha mãe seja o meu anjo da guarda.

Talvez seja mais sensato ficar aqui quieta,
a ouvir o som da chuva desabando,
e agradecer a dádiva da chuva a cair sobre as sementeiras.

Autor : Beatrice M 2024-02-11