quarta-feira, 20 de outubro de 2021

nao

não receies os meus medos invisíveis
aqueles que não adormecem
nem na orla dos teus abraços,
tantos que não entendo como ainda
me mantêm acordada no pó da noite,
mas sabes,
a minha boca é o ninho dos pássaros.
não tem sombras pois é pelas tuas asas
que espero em plena luz.


Autor : Lília Tavares
In Evocação das Àguas
Imagem : Mikael Aldo

terça-feira, 19 de outubro de 2021

Uma leitura pública num café de Punta Umbría


Quando leio um poema em voz alta
sinto que as pessoas me olham
como se esperassem uma revelação.
Como se estivessem à espera dos milagres.
E hoje, finalmente, quase cedo à
tentação de explicar os mecanismos
dos milagres. Por exemplo:
eu posso fazer gelo escrevendo apenas
a palavra «gelo». E isso mesmo
faria neste momento
se não temesse que os mais distraídos
usassem o gelos nos copos
altos do gin tónico.

Autor : José Carlos Barros

domingo, 17 de outubro de 2021

Ansiedade

 

Abalei para a rua à procura de nós
a ansiedade cura-se com a ansiedade.

Ando na areia e meus pés sentem o frio do mar
as ondas sinuosas propagam-se e
cessam em o frio gélido da águas salinas mas, eu já nada sinto
ansiosa e descrente.

Eu só consigo abraçar o fogo
que deixaste em mim.

BeatriceM 2021-10-17
Imagem : Rachel Baran

terça-feira, 12 de outubro de 2021

uma nova guerra

e pensar que, depois de desaparecer,
haverá mais dias para os outros, outros dias,
outras noites.
cães a passear, árvores oscilando
ao vento.

não deixarei muita coisa.
algo que ler, talvez.

um rebelde na estrada
devastada.

Paris às escuras.

Autor : Charles Bukowski
Imagem : Ron di Scenza

domingo, 10 de outubro de 2021

Partilha

Não me perguntes quem sou
Não te importes saber de mim
Nem de ti – quando estás aqui
Não te importes saber dos outros
Nem de nós – depois
Ama-me
Assim como estou – agora
Nua e só tua
E depois
Nada interessa
Nem tão-somente
Nós.

Autor : BeatriceM 2011-06-03
Imagem : Matthew Scherfenberg

sábado, 9 de outubro de 2021

Eu gosto das palavras

 


Eu gosto das palavras e do canto
E dos ecos que trazem à lembrança,
Dessas canções de frança e aragança
Que são só sons que cobrem, como um manto,

O que têm que cobrir, porque, entretanto,
Já há, profissional, uma ordenança
A recolher em fichas, sem parança,
O tom, o cheiro, o muco, do seu pranto.

Que cante, e dance, e viva, e morra, e vibre,
Que se desdobre em nervos e minutos,
E seja para sempre eterno e livre

O grito que se ergueu irresoluto
Desse sítio onde o corpo se coíbe
E súbito triunfa do seu luto.

Autor : Manuel Resende
Imagem : David Talley

sexta-feira, 8 de outubro de 2021

Orgulho


És orgulhoso altivo. Também eu.
Nem sei bem qual de nós o será mais,
as nossas forças são rivais:
se é grande o teu poder, maior é o meu.

Tão alto anda este orgulho! Toca o céu.
Nem eu quebro nem tu. Somos iguais.
Cremo-nos inimigos. Como tais
nenhum de nós ainda se rendeu.

Ontem, quando nos vimos frente a frente,
fingiste bem esse ar indiferente…
e eu, desdenhosa, ri, sem descorar…

Mas que lágrimas devo àquele riso!
E quanto, quanto esforço foi preciso
para, na tua frente, não chorar!

Autor : Virginia Vitorino

quinta-feira, 7 de outubro de 2021

Escada de Caracol

a memória é uma escada de caracol
onde tropeçam os nomes e as noites
de todas as raparigas que amei,
e esquecidas ficaram na espiral do tempo,
na curva ansiosa da minha mão,
no voo sem rasto de uma ave.
onde estarão, agora?
quem as beijou, em vez de mim,
em noites de fogo salgado?
ó tempo, deixa-me aguardar na escada
pelos passos, pela chave na fechadura,
pela porta ardente do amor.

Autor : João de Mancelos
In "Poemas". Mundos(s): Coletânea de poesia lusófona, n.º 14. Org. Ângelo Rodrigues. Lisboa: Colibri, 2021.
Imagem Jaroslaw Blamins

quarta-feira, 6 de outubro de 2021

chuva

Chuva nos vidros.
Nada, chuva nos vidros!
Espaçadas, casuais, agudas, oblíquas, agulhadas.
Chuva que se anuncia, que apenas se anuncia.
Pingas que vão secando. Se vão arredondando,
tornando imateriais e invisíveis.
Vagas coisas. Como quê?
Como as coisas da minha vida.
Nem já chuva nos vidros…
Já não de vêem os sinais.

Autor : Irene Lisboa

terça-feira, 5 de outubro de 2021

A morte não é nada

A morte não é nada.
Eu somente passei
para o outro lado do Caminho.

Eu sou eu, vocês são vocês.
O que eu era para vocês,
eu continuarei sendo.

Me dêem o nome
que vocês sempre me deram,
falem comigo
como vocês sempre fizeram.

Vocês continuam vivendo
no mundo das criaturas,
eu estou vivendo
no mundo do Criador.

Não utilizem um tom solene
ou triste, continuem a rir
daquilo que nos fazia rir juntos.

Rezem, sorriam, pensem em mim.
Rezem por mim.

Que meu nome seja pronunciado
como sempre foi,
sem ênfase de nenhum tipo.
Sem nenhum traço de sombra
ou tristeza.

A vida significa tudo
o que ela sempre significou,
o fio não foi cortado.
Porque eu estaria fora
de seus pensamentos,
agora que estou apenas fora
de suas vistas?

Eu não estou longe,
apenas estou
do outro lado do Caminho…

Você que aí ficou, siga em frente,
a vida continua, linda e bela
como sempre foi.”

Santo Agostinho

segunda-feira, 4 de outubro de 2021

Homenagem


Fernando Echevarría
Nome completo Fernando Echevarría Ferreira
Nascimento  26 de Fevereiro de 1929
 Cabezón de la Sal - Espanha
Morte 04 de Outubro de 2021 Porto


Há um vento imóvel que quase transfigura
Em si mesmos os bichos e os homens.
Vemos passar pela floresta a sua
Tepidez de covil. Perto da noite,
Um halo de sentidos sensíveis os circunda
E movem a cautela inaugural da fome.
Ou, se pisam a rua,
Quase que vão por onde
Quando eram reis de uma consciência obscura
A palpitar pelos confins da morte.
Há um vento imóvel. Uma paciência, a crua
Caça. E por onde a encantação dos nomes
Relampagueia, unificando a sua
Nomeação à astralidade do homem.

Fernando Echevarria
Paris, 2 jan. 86

Fernando Echevarría nasceu em 26 de fevereiro de 1929. Publicou seu livro de estreia em 1956, Entre dois anjos. Viveu em França, onde se aproximou dos círculos oposicionistas portugueses aí exilados; daí envolveu-se em vários movimentos de luta revolucionária contra o regime militar português. Só regressou a Portugal depois do 25 de abril. Escreveu ainda títulos como Tréguas para o amor (1958), Sobre as horas (1963) e Ritmo real (1971). Premiado reiteradas vezes, com galardões como o Prêmio Pen Clube, Grande Prêmio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores e Prêmio Nacional de Poesia António Ramos Rosa.

domingo, 3 de outubro de 2021

após

ardem-me os meus olhos
ao perscrutar
o fulgor da manhã
depois de mais uma noite
sem dormir
nem sonhar.

olho entristecida
e entre o medo
de encarar o dia
não sei qual o rumo a tomar
se a noite também me atormenta.

saio e não sei o que foi feito
de mim, entre estas ruas
que já não reconheço
que eram todas desiguais
mas que me eram tão minhas.

estive ausente, e ausente me sinto
entre as folhas que estão no chão
anunciando o outono
e me dilacerando a alma.

Autor : BeatriceM 2021-10-03
Imagem:Mariesol Fummy

sábado, 2 de outubro de 2021

canção para uma manhã diferente


somos andorinhas negras
à procura dum país
onde exista primavera
e o povo seja feliz

trazemos a guerra urgente
contra tudo o que é bonança
para acordar quem se fica
na morte de ter esperança

quebrem-se as pontes dos homens
falsas canções de ternura
gritemos o desespero
com a raiva da loucura

queimem-se as noites de lua
com o rubro de alvorada
que nós faremos o sol
da manhã nunca encontrada

Autor : vieira da silva (in Marginal)
Imagem : Christine Ellger

sexta-feira, 1 de outubro de 2021

Caligrafia


Já não enxergo as palavras
como antes,
sem que os olhos ardam
Mas nunca as tive tão íntimas,
agora cicatrizes,
confissões
de si mesmas.

Como em um rito,
o esquecimento
também se faz presente
com seus remorsos.

Vou ombro a ombro
com o futuro.
A ninguém revelo
meu nome.

Autor : Solange Firmino

quinta-feira, 30 de setembro de 2021

E eu sou Eu


Aqui estou eu
Mestiço de negro e branco
Severo e brando
Obstinado e ocioso
Modesto e orgulhoso
Obsessivo e sereno
Manso e prudente
Agradável e egocêntrico
Talvez a lei dos contrários
Impere em mim
Ou talvez haja apenas
Uma simbiose de antíteses
O que faz de mim indivíduo
Pois é…
Eu sou eu.

Autor : Delmar Maia Gonçalves