in Criatura nº 4, 2009
Imagem :Ildiko Neer
Aqui estão as minhas escolhas do que considero melhor em Poesia,Prosa Poética e Fotografia. Domingo é dia de trabalhos de minha autoria.
E tu tão longe
e tão dentro de mim, tão invasivo.
E esta chuva
que ameaça dissolver toda a terra
e tornar tudo mar, o meu pesadelo.
E de repente todas as distâncias
se tornam infinitas,
como se só o louco mais malvado
as pudesse ter concebido.
folheio, devagar, as páginas de um livro:
ondas pálidas e cardumes de letras negras
flutuam-me entre as mãos.
escuto o sussurro de poemas antigos,
deslizando sob os meus dedos,
na mútua carícia de quem troca o lume.
entre a capa e a contracapa,
versos e rimas murmuram, palavras
cálidas como uma mulher entreaberta.
e toda a noite o livro me leva pela mão,
em cada página, a ferida do amor
e o oceano de um branco quase azul.
é madrugada. fecho o livro.
tranquilas vozes adormecem-me
— e, no sono de um verso, naufrago.
O poeta disse: a inspiração
não existe. De há muito, as musas
ficaram desempregadas. E desvendou
algum método de trabalho
à parca assistência, altivo e contemporâneo,
enquanto lá fora o mar e as altas palmeiras
resistindo ao tráfego do fim da tarde,
pouco se interessavam
pela carpintaria dos versos.
Autor : Inês Lourenço
De Um Quarto com Cidades ao Fundo, Quasi Edições, 2000
Nenhuma palavra foi dita
era só o silencio esgotado
embargado de voz
nada ficou por dizer
só as ondas que recolhemos do oceano
e da areia esgotamos toda musica do mar.
Autor : Adriana Magalhães
Recanto das Letras
Enviado por Adriana Magalhães em 06/05/2016
Código do texto: T5626637
Classificação de conteúdo: seguro
De quantas facas se faz o amor
de quantas pedras se faz o vício
de quantos homens se faz o medo
de quantas noites se faz a morte
de quantas vidas se faz uma criança
de quantas ternuras se faz o tédio
de quantas horas
será feita a esperança que guardo
com sons de corpo arrastado
de quantas grutas será feita
esta humilde nas veias
que me acordam
de quantos poros será feito o mistério
de quantos gritos será feita uma religião
de quantos ossos será feita
a maldade
de quantos crimes será feita
esta lua que mal começou
e já me deixou no hábito de apurar
os sentidos
Deixo-te de herança o sol das manhãs
que incendeiam
as cortinas
da minha janela.
Deixo também
o pássaro que voa
solitário e rotineiro
… que vem todos os dias.
Deixo-te a esperança
nas manhãs ensolaradas
e a saudade do sol
nas manhãs cinzentas.
Os poemas feitos em melodias
que dedico em tua sintonia são seus.
pegue-os.
Espalhe via vento
para que eles dancem
com a música que dediquei a você.
Aqui, o céu é mil vezes dourado
e colhe rotinas quando a manhã surge
– esse mesmo céu que te deixo como herança.
Deixo-te as minhas risadas
e o pensamento amoroso
com que amanheço…
porque minha maior riqueza
é o meu amor, que é seu.
há várias maneiras de começar o dia
quando acordo fumo um cigarro
coso silêncios à pele
num quarto inteiro de palavras vazias
que se repetem como rituais
durante semanas ensaiei regressos
apesar das paredes vazias
não deixo de fingir que não estou só
O amor é lindo mas
são horas de fechar o bar,
são horas de te salvar um pouco, miúda,
de te levar daqui para bem perto da felicidade,
de retribuir todas as tuas esperas
com o melhor sorriso e uma Lisboa
que amanheça a céu aberto
num pernilongo vagar traçado,
dois cafés e só um copo de água,
um oásis no deserto das próximas manhãs,
de te salvar um pouco, de riscar os templos,
de prolongar a música além do minuto final,
de te mostrar a faixa escondida.
São uma fusão descontrolada
de emoções que se entranham
desequilibradas, mas robustas
um caos
que desvia o curso de um rio
e o transforma em oceano.
os ventos sopram do mar
aumentam aumentam
da natureza das coisas tudo acaba
nem o tempo passa
Autor : Carlos Nogueira FIno
in a ver
Fundação Calouste GoulbenkianLisboa, 2002, p.17
Um desenho do meu corpo, de repente.
Um trapézio
bambo e desunido, com pontas excrescentes,
uma rosa no fundo das costas
com o gosto do húmus, o mofo das caves
é mais acima a dor
ciática, o lóbulo queimado
por magia ou vingança,
E o gosto por cantigas populares,
o cálice venéreo,
a pronúncia da terra, impúdica,
a língua aberta e desfolhando-se, a escaldar.
O corpo é cheio, já se sabe, de nervos e ressaltos
raramente líricos
cheio da lembrança do negrume e da pobreza,
à garganta espinhosa do sexo,
os pés calcados,
o primeiro milho nos currais da humilhação.
Chega-se muito resumidamente a velho.
A criança espera ao domingo o infalível
osso fluorescente, oferecido com o jornal,
o estupendo osso da mandíbula de um dinossauro
de quem virá a ser, desfeita
a impura impressão de beleza,
um digno contemporâneo.
Os meus demónios
tratam-me pelo nome.
Os meus demónios
são legião e não desertam.
Os meus demónios
obedecem a todas as ordens
e a nenhuma vontade.
Os meus demónios
começaram por ser meus
por afinidade e agora
são parentes de sangue.
Os meus demónios
é que escrevem os poemas.