domingo, 27 de setembro de 2026

Sentimento

São uma fusão descontrolada
de emoções que se entranham
desequilibradas, mas robustas

um caos
que desvia o curso de um rio
e o transforma em oceano.


Autor :BeatriceM 2026-09-27
Imagem : Brooke Shaden

sábado, 26 de setembro de 2026

Os ventos sopram do mar



os ventos sopram do mar
aumentam aumentam
da natureza das coisas tudo acaba
nem o tempo passa

Autor : Carlos Nogueira FIno
in a ver
Fundação Calouste Goulbenkian
Lisboa, 2002, p.17

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Um desenho do meu corpo,

 


Um desenho do meu corpo, de repente.
Um trapézio
bambo e desunido, com pontas excrescentes,
uma rosa no fundo das costas
com o gosto do húmus, o mofo das caves
é mais acima a dor
ciática, o lóbulo queimado
por magia ou vingança,
E o gosto por cantigas populares,
o cálice venéreo,
a pronúncia da terra, impúdica,
a língua aberta e desfolhando-se, a escaldar.

O corpo é cheio, já se sabe, de nervos e ressaltos
raramente líricos
cheio da lembrança do negrume e da pobreza,
à garganta espinhosa do sexo,
os pés calcados,
o primeiro milho nos currais da humilhação.

Chega-se muito resumidamente a velho.
A criança espera ao domingo o infalível
osso fluorescente, oferecido com o jornal,
o estupendo osso da mandíbula de um dinossauro
de quem virá a ser, desfeita
a impura impressão de beleza,
um digno contemporâneo.

Autor : Andreia C. Faria
De Tão bela como qualquer rapaz, Língua Morta, 2017
Imagem : Anna O.

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Os meus demónios

Os meus demónios
tratam-me pelo nome.
Os meus demónios
são legião e não desertam.
Os meus demónios
obedecem a todas as ordens
e a nenhuma vontade.
Os meus demónios
começaram por ser meus
por afinidade e agora
são parentes de sangue.
Os meus demónios
é que escrevem os poemas.

Autor : Pedro Mexia
Imagem :Paolo Barzman

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Crepúsculo de Setembro em Cacela


Um ar tão doce como se
estivesse dizendo o último
adeus a alguém

Autor :  Teresa Rita Lopes
Imagem : Yume

terça-feira, 22 de setembro de 2026

Dove

 


Com a chegada da manhã as aves sobem muitas vezes
ao meu olhar

Trémulo lanço-me então ás águas em busca do dia
inaugural.

A nudez começa na página onde o corpo cai, o corpo
voa.

A escrita escreve-me

Autor :Luis Filipe Parrado
In Tundra Pág.7

domingo, 20 de setembro de 2026

Um abraço


quando me fechaste nesse abraço
que eu não aguardava

descobri o calor
desse conforto

e percebi que, fora das muralhas
que nos prendem,
há um universo à espera.

Autor :BeatriceM 
Imagem : Laura Hakabresku

sábado, 19 de setembro de 2026

Tábuas


Presencio o fulgor das janelas.
Viro-me de encontro aos vidros do longo corredor
que separam o sol da tarde

dos recantos obscurecidos da primeira sala,
e vejo um recorte nítido,
um tremeluzir de nuvens no horizonte do vidro:

os prédios da frente rigorosamente transpostos
para uma linguagem primitiva
a dois, três traços, como o bisão de Altamira.

Imagens de terraços fronteiriços
e nuvens sobre terraços.
com elas se fazem as tábuas com que calculamos

as dimensões do dia. A pertença a certo ritmo,
a certa frase que da vida inteira
encerra o há muito perseguido.


Autor : Luís Quintais
Imagem : Julie Waroquier

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Deixa o Tempo


deixa o tempo fazer o resto
fechar janelas
aplacar os barcos
recolher os víveres
semear a sorte

acender o fogo
esperar a ceia

abre as portas: lê a luz
a sombra, a arte do passarinheiro
com três paus

fazes uma canoa
com quatro tens um verso,
deixa o tempo fazer o resto.


Autor : Ana Paula Inácio
Imagem : Alex Benetel

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Mundo Cruel

Primeiro te dão uma estrada
Depois tu ganhas a vida
Se não der em nada
Não tinha saída

Autor : Vitor Casimiro
Imagem : Pinterest

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Quase de nada místico

Paul Fried

Não, não deve ser nada este pulsar
de dentro: só um lento desejo
de dançar. E nem deve ter grande
significado este vapor dourado,
e invisível a olhares alheios:
só um pólen a meio, como de abelha
à espera de voar. E não é com certeza
relevante este brilhante aqui:
poeira de diamante que encontrei
pelo verso e por acaso, poema
muito breve e muito raso,

que (aproveitando) trago para ti.

Autor : Ana Luísa Amaral
in às vezes o Paraíso

terça-feira, 15 de setembro de 2026

Saudade Definida

 

e o que é a saudade
senão um poço aberto no peito
de onde içamos água de sombra?

Autor : João de Mancelos
Imagem : Cig Harvey

domingo, 13 de setembro de 2026

Perdida na sombra

na noite escura
as sombras encurralam-me

mas há sempre uma candeia
que rasga o breu
que me acossa

e percebo — com um terror sarcástico —
que, por vezes,
sou a minha própria sombra

num ritmo
que não controlo.

 Autor :BeatriceM 2026-09-13
Imagem : Janelle Pietrzak

sábado, 12 de setembro de 2026

Compasso para elegia

Adam Bird.
.
Não me venham dizer que há remédio:
nada substitui a presença das coisas,
a presença material das coisas.

Os dias da morte
gravitam no escuro,
enquanto acendo fósforos de sombra
à tua procura nas gavetas,
nos armários, nas cabines,
em todos os lugares
onde fatalmente
tu não estás.

Nenhum prodígio pode reconstituir
a tua voz, o sorriso interior da tua boca,
voz humana, acesa no peito,
cujas palavras eram como labaredas.

Só o silêncio comemora o facto
de teres vivido como o álcool,
possuindo possuída,
com as artérias cheias de vinho doce
- corpo de vaso e sangue de licor.

Autor : albano martins
assim são as algas
campo das letras 2000

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Esta manhã encontrei o teu nome

Esta manhã encontrei o teu nome nos meus sonhos
e o teu perfume a transpirar na minha pele. E o corpo
doeu-me onde antes os teus dedos foram aves
de verão e a tua boca deixou um rasto de canções.

No abrigo da noite, soubeste ser o vento na minha
camisola; e eu despi-a para ti, a dar-te um coração
que era o resto da vida - como um peixe respira
na rede mais exausta. Nem mesmo à despedida

foram os gestos contundentes: tudo o que vem de ti
é um poema. Contudo, ao acordar, a solidão sulcara
um vale nos cobertores e o meu corpo era de novo
um trilho abandonado na paisagem. Sentei-me na cama

e repeti devagar o teu nome, o nome dos meus sonhos,
mas as sílabas caíam no fim das palavras, a dor esgota
as forças, são frios os batentes nas portas da manhã.

Autor:Maria do Rosário Pedreira
Foto:Marasm

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

quisera

Oleg Oprisco

quisera tão só esse dom de cegar,
de luz trespassar as noites
e no ventre do mundo correr mansamente
como se os navios chamassem
e um oceano morresse no vazio dos passos,
como se fosse a hora de me transformar numa ilha
onde só tu naufragasses

autor . gil t. sousa

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

QUEBRA-LUZ

Desconfio dos poetas
que falam muito de luz, das
manhãs e das árvores
na sua obsessão hospedeira
de frutos aves e
folhas. Desconfio dos que cantam
lareiras e vozes mansas, tentando
apaziguar o poema com a sua
indústria de incensos. Eles
encenam como velhos profetas
tardias formas de beleza
extinta – e fazem do verso
um ritual nado-morto
de pequenos afectos,
indiferentes à faca
incandescente que separa
o corpo das palavras
da substância do mundo.

Autor : Inês Lourenço
In De Logros Consentidos, &etc, 2005
Imagem : Pinterest

terça-feira, 8 de setembro de 2026

princípios

no princípio era o silêncio sem rosto apenas vácuo
apenas vácuo obstinado raiz de tempo
não observado mas repleto de plumas
névoa traçada no ponto mais sublimado

que da luz o pó colado noutro pó
em chamas intercaladas respiração
boca-a-boca novos suspiros e bolhas
incandescentes de ardida saliva

recorte de canção em sílaba só
curta desenhada de inércia e traço
imenso com linha irreconhecível
de tantos cheiros anunciados na ânsia

a cor das plantas de arame seco na
água feita de terra recuperada
para se ver o nada crescer no poente
como véu escuro de primeiro sombreado

Autor : Fernando Lemos
Imagem : Brooke Shaden

domingo, 6 de setembro de 2026

Incertezas

na sofreguidão dos corpos
todas as palavras
são desnecessárias

tento montar um puzzle
com as que não disseste
nem eu disse

é exaustivo —uma charada
onde me enredo
e termino em incertezas.

Autor :BeatriceM 2026-09-06
Imagem :Michal Maciak

sábado, 5 de setembro de 2026

os nós da escrita

Escrever é, para mim, tentar desfazer nós, embora o que na realidade acabo sempre por fazer seja embrulhar ainda mais os fios. A própria caligrafia é sufocada.
Há, todavia, um momento em que as palavras são cuspidas, saem em borbotões, e o sangue e a saliva impregnam o sentido. É impossível separá-los.
Por trás talvez não haja mesmo nada. São palavras que não estão ginasticadas, que secam e encarquilham como folhas por que a seiva já não passe.
Oprimem toda a página, através da qual deixa de ser possível respirar. Tapam-lhe os poros. A própria chuva que neles caia não se escoa.


Autor:Luís Miguel Nava
Foto:mastercrasch

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Chuva

Chuva, são lágrimas do céu
são as tristezas do mundo;
por este mundo tão cão.
Chuva; tristeza no meu olhar
sintoma de solidão
que trago no coração.
Chuva, gosto de ouvi-la cantar
nas janelas do meu
quarto;
são lágrimas a namorar
a saudade que há lá
dentro!


Autor : Alcina Viegas
Imagem : Alessio Trerotoli

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Eu não sei o que sou

Tudo parece gasto, tudo: os corredores, as janelas,
mas sobretudo os nomes das coisas, a forma como
se organizam e se preparam para a morte,
o modo de tudo desaparecer. Um sentido
para as coisas, um sentido para dar às coisas.
Ter medo e saber, esquecer e querer esquecer.
Sento-me à noite na varanda onde o frio chega
primeiro e reparo que tudo parece gasto e sem sentido.

Autor :  Francisco José Viegas
in Se me comovesse o amor)
Imagem : Vaggelis Fragkakis

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

quando a casa se cala


quando a casa se cala
de repente aprendo a ter medo
e fui eu que pedi este silêncio

abro e fecho armários e gavetas
quero um lugar fechado para guardar memórias
depois fico ali sentada
à espera que algo aconteça

Autor ▪ Maria Sousa
Imagem : Anka Zhuravleva

terça-feira, 1 de setembro de 2026

O teu sorriso

Nadja-Berberovic

E se o céu fosse só isto…?

As nuvens dos teus lábios
O infindável azul da tua boca…

e eu feito ave louca
a sobrevoar-te num beijo
a embebedar-me de desejo
a morar no teu sorriso…

Ai, se o céu fosse só isto
e nada mais fosse preciso!

Autor : João Morgado
in Rio de Doze Águas

domingo, 30 de agosto de 2026

Só hoje

 



deixa que acompanhe teu voo,
que seja a outra asa,
a outra margem.

que te ampare o voo,
que te sare a feridas,
que te beije a face.

e depois, vai
que o teu voo é longo,
e é apenas teu.

e será sempre assim,
sempre,
até que mais nada reste.

senão um adeus,
aquele adeus,
que será para sempre.

só hoje...amanhã,
não sei,
se estaremos aqui.

Autor : BeatriceM 2017-08-27
Imagem : Brooke Shaden