O sentir, por vezes,
tantas vezes,
não é partilhado.
Por vezes,
é apenas um sincronismo
de olhares
que não foram vividos.
Autor : BeatriceM 2026-07-26
Imagem :Anna O.
Aqui estão as minhas escolhas do que considero melhor em Poesia,Prosa Poética e Fotografia. Domingo é dia de trabalhos de minha autoria.
O sentir, por vezes,
tantas vezes,
não é partilhado.
Por vezes,
é apenas um sincronismo
de olhares
que não foram vividos.
Autor : BeatriceM 2026-07-26
Imagem :Anna O.
somos os que a morte reconduz
à rapidez das lágrimas, ao ritmo brutal
de uma festa que nada antecedeu:
hiato que a mão utilizou para guiar
a dor pelo trilho da suspeita; somos
os que a morte reconhece como a sua memória,
um rasto que procura a presa e a encontra
no homem que se embrenha por caminhos
dissimulado no seu próprio esquecimento
Por toda a parte espectros
Do mapa percorrido em cinco e quarenta
Prolongados anos
A cidade encontra
O espectro do que eu fui
Saído dos horrores da adolescência
Filtra obscuramente
O meu imo
Que não conheço
Vem
[irreconhecível
Ao meu encontro
Tacteamo-nos no escuro
Apaixonadamente
O amor é cego
Mas só ele permite
Realmente ver
Acho que o tempo escasseia,
diluindo-se em dias.
Não sei quantos ainda me serão dados.
Não conseguirei relatar o que desperdicei sem saber,
nem descrever o que ficou por dizer,
nem o que disse sem pensar — e sem querer.
Talvez ainda me sobre tempo
para, numa qualquer casualidade,
numa curva do destino,
ainda te conseguir encontrar
e levar comigo, em memória crua,
a tua presença, que ainda
predomina em mim.
É triste
o espectáculo do amor
apodrecendo aos poucos,
na fruteira
as maçãs que te trouxe
têm agora a pele seca e enrugada.
Autor : Luís Filipe Parrado
in Entre a Carne e o Osso, 2012
O pior ainda são os dias em que toda
a escrita é despropositada e incómoda.
A mão que ousa o verso é lenta e trémula,
prolongando o tédio sobre a página.
Tudo é branco em redor como uma duna
ou uma doença subterrânea. Aquele que escreve
está inclinado sobre a água ou sobre a
noite e nenhuma fala lhe ascende à boca.
Tece-se o não dizer com ínfimas agulhas
e se houvesse uma arca para guardá-lo
seria larga e brilhante como uma casa.
Havia de morar nela a solidão dos grandes
dias cinzentos e dentro dela
uma pequena pedra polida e esguia.
Já não te deitas na minha cama
paradoxalmente, o sono também não
a minha cama é apenas cama
metamorfoseada nos contornos invisíveis
de corpos unidos
de um tempo que ficou no pretérito.
Autor : BeatriceM 2026-07-12
Imagem:Rosie Hardy
16
De neve nada sei, de sol também,
de milhares de sossegos acordados,
da subida do teu rosto atrás dos ombros,
da mão ardente, da vista da sacada
nada sei.
Ponho palavras como coisas feitas:
só entre elas, enquanto jogam, leves,
seu rodado sem cor nem qualidades,
minha ciência existe, e já não minha,
ou só tão minha como tua e delas,
ar entre os dedos, sumo de verdades.
De amar não me canso…
Mesmo entristecida,
perdido o cansaço
vou vivendo a vida!
Choros e sorrisos
não matam saudade
nem amores perdidos
nem a felicidade …
Saboreio a vida
do modo que posso,
ou a mordo, gulosa,
doce , saborosa,
ou a esqueço
vencida…
Mas de amar,
não me canso!
Disse-te: uma casa.
Não falávamos há meses e isto
foi tudo o que te soube dizer:
uma casa, tenho uma casa.
Arrumei primeiro os discos, depois os filmes,
só então os livros, as loiças.
Como quem se abrigasse da chuva,
pendurei os primeiros quadros.
Quatro: estrada, mar, mulher, coração.
Começou a chover quando me perguntaste
se te convidava para jantar.
Era desnecessariamente Julho
e dentro de casa chovia tanto.
Disse-to, confesso, sem esperança
- apenas porque uma casa
é muito grande para guardar na boca.
Uma ave uma só ave
ponto negro em rosto
de turquesas apuradas
vagueia sem nota
de regresso ou despedida
Na brisa saboreia-se
o sal que tempera a tarde
ao de leve estremecem
copas de pinheiros
carvalhos e figueiras solitárias
um estertor como espasmo
doce tão doce
E uma passada surda
na gravilha batida
dá um ritmo que se perde
no próprio ritmo de tudo
Na curva da estrada deserta
um gato deita-se ao vazio
como lentos os amantes
morrem nos braços do amor
Há em tudo isto
um fascínio absoluto
que não necessita de nome
para cintilar ínclito
no coração do silêncio
Autor : Pedro Belo Clara
Fusun Urkun
Falamos das coisas e elas acontecem
por isso ciciamos o que nos pede o corpo
não são as coisas só aquilo que dizemos
nossas pobres palavras não as dizem inteiras?
As palavras são coisas, extremas, luminosas,
quando tu dizes porta, há uma porta que se abre
quando tu dizes sexo, há um amor que se cumpre
não sabemos sequer o poder das palavras
nem o poder das coisas nem o poder dos rostos.
As coisas são palavras feridas pela morte
são agulhas finíssimas que trespassam a noite
os teus lábios dizem coisas os teus lábios cintilam
por eles fala o mundo, por eles se faz o oiro
pois o mundo acontece sempre que o pronuncias.
Os sapatos vermelhos
rasos e sem hesitação,
a mesma presilha do dia
do casamento,
as solas lisas depois de tudo.
Esse calçado e não
um par de sapatilhas forrado a cetim,
provavelmente os pés
arranjados lá dentro,
em pontas,
as fitas que deviam subir pela perna
a desfiarem-se já antes do laço seguro.
Os sapatos vermelhos
permeáveis a todos os passos
escolhidos às cegas.
Vermelhos, hoje mais,
são do jardim e das pedras
da calçada. Servem-me
ainda no primeiro dia de aulas.
E das ramagens do meu ser,
Libertam-se gotas de sonhos
Banhadas pelo perfume dos lilases
Agora, soltos em flores atemporais.
Do meu corpo eclodem rebentos floridos
Que se soltam de mim
E sobem, lentamente, na leveza da alma
Pousando na candura dos dias felizes.
Olho-me ao longe...
Reconheço cada fragmento, cada cor
Cada recanto, que agora procura paz.
O corpo jaz no restolho dos sonhos...
Com asas de pássaro, esvoaço para longe
Somos transeuntes
num mundo desencantado
onde o amor
parece não ter morada
nem pátria
mas apenas indigência.