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quarta-feira, 18 de maio de 2022

Casulo


Abrem-se para o mundo
na rara manhã
ainda intactas
asas em suspenso

((vão devagar))

na quietude ausente
das nuvens que passam
um anjo nasce

Autor : Solange Firmino
In Quando a dor acabar

sexta-feira, 15 de abril de 2022

Árvore fantasma

 

A árvore vã
segura o abandono
da estação

ela nunca escolhe
mas não arreda pé
de sua substância
ferida na seiva

desmancha-se
na sua profundidade
esperando atrair
os pássaros dementes
perdidos de seus ventos

Autor : Solange Firmino
No livro “Quando a dor acabar”, da @caravanagrupoeditora

sexta-feira, 8 de abril de 2022

Do dever

 
O fardo da montanha é quase tocar o céu
o fardo da nuvem é durar pouco
mesmo quando acaba a chuva

certos encargos são estranhos
pois o fardo da caverna é não conter vento
e o fardo do vento é ser abafado
em espaços muitas vezes minúsculos

o fardo humano é um tormento
pois não sabe se busca por Deus
ou se Deus o habita

Autor : Solange Firmino
In “Quando a dor acabar”
Imagem : Katharina Jung

sexta-feira, 14 de janeiro de 2022

Nômade


Decorei meu nome
para andar no sem rumo
dos abismos.

Observei os ventos
que se cruzavam
em desvios sonâmbulos
que estilhaçavam
os espelhos.

Vi as sereias chamando os marujos
nas praias bravas
que se desdobravam
e engoliam navios.

Percebi as sombras nos muros
das noites insones.

Fui cúmplice do brilho das estrelas
e do silêncio deslumbrado
das manhãs de verão.

Autor _ Solange Firmino
In “Geometria do abismo”

quarta-feira, 15 de dezembro de 2021

Narcisista

Como aprender a me achar
sem me perder?
O reflexo não me explica,
apenas me consome
e me prende.

Uno-me tanto a mim
que meus átomos se juntam
ao meu reflexo.

Como Narciso,
acho-me
no reverso, no inverso,
no espectro que me devora.

Quando me perco,
é quando me encontro.

Autor : Solange Firmino
(No livro “Fragmentos da insônia”)

sexta-feira, 12 de novembro de 2021

Efemer__idade

 

O passar dos dias põe a cor grisalha
nos meus cabelos.
O tempo escasso é propício
ao esquecimento
e à lonjura da infância.

No meu olhar
e nos meus lábios
a marca da sede.

Eu espero o outono na beira
do abismo.
Choro por instinto só para enxugar a
face em frente ao espelho.

Autor : Solange Firmino
(No livro “Geometria do abismo”)

sexta-feira, 1 de outubro de 2021

Caligrafia


Já não enxergo as palavras
como antes,
sem que os olhos ardam
Mas nunca as tive tão íntimas,
agora cicatrizes,
confissões
de si mesmas.

Como em um rito,
o esquecimento
também se faz presente
com seus remorsos.

Vou ombro a ombro
com o futuro.
A ninguém revelo
meu nome.

Autor : Solange Firmino

sexta-feira, 17 de setembro de 2021

Epitáfio


Na véspera de minha morte
naufraguei nas
abissais ondas do Letes.

Subornei oráculos para saber meu fim,
mas os vates discretos
resistiram,
assediaram-me com seu séquito
de sacerdotisas sensuais.

Eles sabiam da minha fadiga
e trouxeram asas,
como as de Ícaro.

Foi assim que caí feliz
no abismo.

Autor : Solange Firmino(No livro “Geometria do abismo)
Imagem : Mariesol Fummy

quarta-feira, 14 de julho de 2021

Indecifrável

 


 

Eu me repito.
Colo post-it por aí
para não esquecer datas.
Atravesso a idade já gasta
comprando um espelho novo.
Vejo poesia em tudo,
procurando o traço ressonante.
Sou transparente,
mas ninguém nada sabe
sobre mim.
E sempre me repito.

Autor : Solange Firmino

quarta-feira, 16 de junho de 2021

Despertar

 

 

É preciso transgredir a distração da flor em gestação,
tocá-la infinitamente,
sorver-lhe o perfume,
soprar a gota de orvalho pousada em cada cor,
inventar um arco-íris
pelas arestas do vento,
abrir caminhos para a primavera.

A sombra se faz luz,
o inverno se desfolha.
Como se existisse um tempo das estações,
a primavera dá sinais,
despida das névoas,
como se fosse a primeira vez.

Autor : Solange Firmino