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sábado, 22 de junho de 2024

O chamado da Falésia

espera-se por tudo quando a falésia
nos chama por dentro do nevoeiro
cobrindo a ilha

nesse momento pensamos se todo o mundo
será assim vestido de bruma e limpamos
os olhos com as nuvens do horizonte

na verdade sabemos que não e o mar
é como uma estrada indicando um caminho
e o coração uma bússola para orientar a viagem

e ao chamado ecoando pelas serras verdes
e se detendo nas pedras cinzentas dos cumes
não sabemos que dizer como responder

algures apontamos um pedaço de terra
e um dia numa carta à mãe lá confessamos
estou aqui tão distante do lugar
onde num dia como nunca vi outro igual
decidi que hei-de morrer

hoje por lá mora um silêncio
sabendo a demora à saudade caiada de chuva
onde já deviam estar as paredes de cal branca
de uma casa

espere por mim

Autor : José António Gonçalves
Imagem : Adrian Borda

quinta-feira, 22 de julho de 2021

Porto Santo, Verão de 1973


oiço a música forjada e quente do sol e do mar
embravecido, num cântico azul, sem manhãs, nem
pureza, nem casas. os barcos, brancos e vermelhos
brilham e baloiçam, baloiçam e brilham afogados
pela água fria e irritada. as palavras flamejam
e soltam-me gritos amorfanhados enquanto as construo
na areia da praia em chama, onde o mar despeja
a sua ira da cor do céu. a hora, esta hora, é aquela
do beijo, da fervura, da comida, do sono, ou então
a do amor. é um castelo, uma cara, no chão molhado
o tempo. uma mão. cinco dedos num esconderijo profundo
do gesto, do vómito sem cor nem corpo. é o sol e as
formigas, o vento e a música procurando um porto, um
cais, ou um navio, um braço queimado correndo a pele
e o suor do sonho. oiço as vozes, a música, e congemino
um silêncio cavalgando o ruído enquanto o calor cai
nos olhos, devorando a carne e o pensamento. ao meu
pé, algumas crianças jogam lama no meio-dia e procuram
a mãe. encontram-na na água morna do porto, perdida
e embrenhada na alma dum santo sem auréola, primitivo,
no coração dum homem só e húmido, embriagado, dizendo
versos com as rimas colorindo as pálpebras inchadas.
e toda a gente fala, ao mesmo tempo. a tarde desprende-me
o lugar da mão assustada. e ela, solta, é o rosto fornicado
da esperança, a água bebida com sal, bebida com sol, sem
saber a nada. é uma carta, um diário, ou um postal. é o
porto santo moldado na pedra negra, escavada ao alcance
da música e do poema. sem loucura, nem amor.

Autor : José António Gonçalves
(in «Vinte Textos Para Falar de Mim», Col. Cadernos Ilha, Nº. 1, 1988)

sábado, 26 de junho de 2021

Porque Nasci

 

sou poeta porque nasci só no orvalho das manhãs
e descobri nas palavras que explorei no silêncio
a explicação das coisas a razão da brancura
a vontade inexplicável de estar aqui
onde caí com as mãos presas e os olhos vendados
o corpo negro e nu descoberto ao longo dos montes.
sou poeta. gritei-o longe com a força da minha voz
e as valas fecharam-se e deixaram-me passar.
mantos azuis ventos fortes mares estranhos
céus límpidos tomaram conta de mim. sou poeta.
nasci só, no orvalho das manhãs, protegido
por flores
por bombas, por maldições e o meu corpo é uma haste
ou harpa ou arma, pedaço de pão, fogo, fome ou lanterna
brinquedo rodando nas mãos de jugos. sou poeta.
dêem-me o vosso arado. deixai-me cultivar vossas terras
áridas, vossos desertos secos. deixai-me soçobrar
nos vossos barcos náufragos. deixai-me criar epitáfios
fogueiras, lendas. deixai-me com os vossos filhos vagando pelas
montanhas, pela lã das ovelhas. pelas
ventanias. deixai-me construir um ruído mudo de silêncio
uma voz calada, mais vibrante que esta branda fala
para dizer-vos um poema sou poeta nasci rosa
no orvalho transparente das manhãs.

 Autor :José António Gonçalves
Imagem: Victor Bauer 
(in «Vinte Textos Para Falar de Mim», Col. Cadernos Ilha, Nº. 1, 1988)

sábado, 5 de junho de 2021

SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN

 

Tenho uma praia branca
de areia doce
na cabeça.
Raramente me esqueço
do mar e acordo sempre
com um cavalo amarelo correndo
sobre as ondas mansas
em direcção ao infinito
com um peixe preso na boca.
Nesses dias deito-me e imagino
montanhas à distância dos horizontes
vestidas com os verdes dos quotidianos
e as flores dos altares
e depois recolho-me ao sal
das bibliotecas fechadas.

Autor : José António Gonçalves
(in «Aventura na Casa dos Livros», Col. Cadernos Ilha, Nº. 10, 2000)

quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

Dêem-me as tábuas



Dêem-me as tábuas, 
essas tábuas de madeira firme 
com que se constroem os barcos. 

Dêem-me as tábuas rijas do tempo, 
as tábuas livres e cantantes de madeira 
com que se erguem os muros fortes 
das cidades inexpugnáveis. 

Deixem-me juntá-las às folhagens 
do despojamento da sua condição de árvores. 
Com elas, prometo, 
irei vigorosamente alicerçar, 
no entrelaçar das tempestades 
que se lêem nos intervalos das nuvens invernais, 
as jangadas calmas 
que respondem nas manhãs de nevoeiro 
pelo simples nome de casas. 

Depois, se verdadeiramente me apetecer, 
decoro-as com dois pares de asas 
e deixo-as voar. 

A promessa permanece no poema. 
Deixemos as casas, na sua condição de jangadas, 
cumprir com a sua missão de navegar. 

Autor : José António Gonçalves 
in Memórias da Casa de Pedra"
Foto: Jordi Feliu 

quinta-feira, 20 de março de 2008

Os Figos



Colheram-se ontem
os figos doces dos seios
da mulher que se perdia
nas esquinas
das ruas abandonadas ao amor.

Provei-os.

Encontrei-a hoje pela manhã
desfazendo-se em beijos
no asfalto frio
ainda com a face
plena
de rubor.

José António Gonçalves
(in "Esquivas São as Aves", Col. Cadernos Ilha, nº. 11,
Ed. Correio da Madeira, 2001)
Foto:Rui Bonito