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quinta-feira, 30 de abril de 2026

decênio

há dez anos
que o meu braço esquerdo
queima


dez anos
e na verdade
eu não me lembro
qual braço

mas não esqueço:

dez anos
que alfabetizados
meus ouvidos
na tua língua odienta

afasta de mim
essa saliva
infecta

que desfecho:
disseste
que de mim
nada sobraria

nada

nada de festas
nem traço

(larga do meu braços moço
eu peço
e peço
e peço
e me despeço)

nem fração
dez anos
que ando sobrando
escorrendo
pelos dedos pegajosos
das ruas
de miasmas masculinos

de mim sobrou
quase tudo
menos o medo


Autor : Anna Clara de Vitto
Poemas do livro “Água Indócil”, editora Urutau, 2019.
Imagem : Omar Ortiz

quarta-feira, 25 de março de 2026

sem amor e com gosto

não há amor nas trincheiras do desejo
costas unhadas contra o piso de madeira
dizem que esse tipo de coisa voltou à moda
esqueci o meu e o teu nome nos fundos e bordas
de copos americanos
esqueci como se ama
antes de perder o juízo alheio
eu posso sorrir
posso te beijar a testa a boca o peito
posso até jurar
o que se jura no altar
da boca para fora e
do resto para dentro
mas não há amor nos lustres
nas paredes nos vitrôs nas pias nas bancadas
desisti do amor
com os joelhos bem separados
eu termino primeiro
terminas me beijas me acaricias o rosto
acho graça
eu sinto calor e sono e pena
levanto sem me vestir e sujo
teu assoalho
não te importas
sabes que sempre há
quem limpe

Autor : Anna Clara de Vitto
Poemas do livro “Água Indócil”, editora Urutau, 2019.
Imagem : Mira Nedyalkova

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Não há Vagas

 

as mulheres e as construções
envelhecem antes do mundo

embolorecem em véus de chuvas
a toldar-lhes os desgostos:

suas fachadas sujas
desbotam-se
desgraçam-se
sujeitas ao mesmo sol
de muitas vidas

as raivas das mulheres
são nódoas em lençóis rotos
expostos na vertigem dos varais

as mulheres-edifício
abrigam moradores
demais

Autor : Anna Clara de Vitto
Imagem : Pinterest

quarta-feira, 24 de abril de 2019

Vai com cuidado

eduard gordeev
.

há na cidade uma despedida
de malas feitas
e documentos falsos

há bilhetes suicidas
e mal-entendidos
nos nomes das ruas

não há mais saída:
o rio que me beba
o corpo bêbado

não há tempo
para curar um porre
entre uma ponte e a morte.

Autor : Anna Clara de Vitto


Anna Clara de Vitto. Poeta. Santista radicada em São Paulo. Participa da coordenação do Clube da Escrita para Mulheres. Possui poemas publicados em algumas revistas online, tais como Fazia Poesia e Algo deu Errado, iniciativa dos alunos do Curso Livre de Preparação do Escritor – CLIPE, Casa das Rosas, turma de 2018. Publicará em breve seu primeiro livro de poesias e, enquanto banca uma Penélope meio Ariadne e se concentra na tarefa, frequenta saraus e leituras. Blog: www.medium.com/@annaclaraescreve