Mostrar mensagens com a etiqueta Carlos Poças Falcão. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Carlos Poças Falcão. Mostrar todas as mensagens

sábado, 20 de junho de 2026

Que virá, quando ouvires dizer que vem?

Que virá, quando ouvires dizer que vem?
E como, se ao chegares nada aparecer?
Mergulhador nocturno, mergulhador diurno

ao fôlego que resta haverás de confiar
o que em fundura chama e à superfície ecoa.
Em breve ficas pronto para nada perguntar

ouvindo o que vier, recebendo o que chegar.
Não é preciso o que, nem necessário o onde
o para quê de quando, o para quem de como.

E chegará sem porque e falará nem quanto
por entre contra e dentro, perante quase em tudo
apenas vindo assim, sem modo, com chegando.

Autor : Carlos Poças Falcão,
 Dodecaemas, livro Nuvem, 2000
Imagem : Adrian Borda

terça-feira, 9 de dezembro de 2025

Movimento Imóvel


Passavam mil anos. Seres extraordinários
saíam da terra ou nela penetravam e
desapareciam. Guerras arrasavam
o que se erguia por cima de outras guerras.
E este movimento era imóvel. As pedras
lá estavam, não mentiam, com os astros
as únicas fautoras do silêncio.
Havia qualquer coisa como o vento que erodia.

Mas passavam mil anos. Os povos contavam
pelos dedos. A morte não vinha mais depressa.

Autor : Carlos Poças Falcão
Imagem : Pinterest

quinta-feira, 6 de novembro de 2025

Dia de Aguaceiros


Dia de aguaceiros. Sei que os jardins
não são os de Academos. Mas vou pelos passeios
entre a escrita das chuvadas no saibro e a discreta
disposição do Logos na murta dos canteiros.

Dia de amentilhos, gravetos, muros verdes:
as alamedas param e os cedros repousam
a terra tão porosa que facilmente encanta
- e eu cedo e levo ao chão a mão inteira, a medo.

Retiro-a manchada por um líquen de areia.
Aprendo por contacto que o Verbo nos irmana
baixando intelecções a corpos indefesos.
E um século à volta abre guarda-chuvas negros.

Autor : Carlos Poças Falcão
Imagem :Paolo Barzman

terça-feira, 24 de junho de 2025

Sempre dançaram

 

Sempre dançaram. Mataram. Ergueram
Pedra sobre pedra o seu desejo, o seu espanto.
Tinham de mudar o curso desses rios
tinham de suar. O sonho em ressaca
varria-lhes a vida. Não paravam.

As palavras eram o mais árduo
ofício de inventar. Julgavam que sabiam
com palavras. Os céus lentamente evoluíam
havia sempre a noite e sempre o dia.
nunca suspeitaram que morriam.


Autor: Carlos Poças Falcão
arte nenhuma poesia 1987-2012

quinta-feira, 27 de julho de 2023

.

 


Gosto de um templo onde não se passa nada.
A luz solar que entra é um acontecimento
assim como as sombras que se movem devagar.
Tudo é tão parado que os olhos também param
e ao pararem vêem como se não fossem olhos
mas aberturas simples ou passagens no aberto.
Gosto de uns olhos onde não se passa nada.
A luz mental que entra é um acontecimento
assim como os desejos que se movem devagar.
Tudo é tão parado que as palavras também param
e ao pararem falam como se nada dissessem
mas fossem vozes altas, chamamentos no disperso.
Gosto da palavra em que não se passa nada.
A luz moral que entra é um acontecimento
assim como os enganos que se movem devagar.
Tudo é tão parado que o corpo também pára
e ao parar respira como se não fosse um corpo
mas um desejo aberto, oração continuada.
Gosto de um corpo onde não se passa nada.
A luz do mal que entra é um acontecimento
assim como as culpas que se movem devagar.
Tudo é tão parado que o pensamento para
e ao parar recebe não a lâmpada e a verdade
mas a ondulação que vem de onde não se sabe nada.

Autor : Carlos Poças Falcão
in Sombra Silêncio
Imagem: Tobias Glud

quinta-feira, 16 de junho de 2022

O Riso


Por substituição das emoções a poesia
recorda uma arte escura: vagares, caligrafia
da estação que ondula, oscilação de um cálamo
a meio do branco. A natureza encurva-se,
o coração assenta de modo a ver o mundo.
Eis um dia inteiro, o trabalhar dos olhos,
a falta de sentido de iluminar a luz.
A sombra é sem esforço, a respiração respira,
encontra-se uma face, transforma-se num som,
pequenos acidentes dilatam-se no céu.
Palavras que se apagam. Pensamentos fáceis.
Se isto é poesia eu rio-me no fim:
é como estar sentado, não ter arte nenhuma.

Autor : Carlos Poças Falcão
Imagem : Willem Haenraets

terça-feira, 7 de setembro de 2021

Todos sabemos acender um fósforo

 

Todos sabemos acender um fósforo
a quem nos pede lume.

Talvez fosse uma conversa
possível até ao fim. Mas o mais vulgar
é ficarmos onde estamos
com o fósforo aceso à beira do rosto

— e antes de haver tempo
a chama queima os dedos.

Autor : Carlos Poças Falcão

sábado, 10 de julho de 2021

Todos os dias viajo para a culpa


Todos os dias viajo para a culpa.
É lá onde trabalho, movendo e removendo
juízos e vergonhas, vergando-me nas margens
do rio tenebroso. Depois liberto as faces
lavadas nas passagens, estendo inteiro ao sol
o manto, a envoltura, a translúcida mortalha

que ilude o meu rubor. Viajo para a culpa
e regresso ao fim dos dias, a tempo dos crepúsculos
e do corpo de repouso. Já amo esta viagem
que segura o meu amor, a inteligência canta
todo o dia de canseiras. Assim trabalho ao sol
fazendo por que a vida não me seja inimputável.

 Autor : Carlos Poças Falcão
Imagem : Dariusz Klimczak