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quarta-feira, 3 de junho de 2026

VINCOS

 

A luva no bolso
do antigo casaco de Inverno
atravessou inerte
todas as estações. Tantas
vezes entrou pela janela
o som da água molhando o passeio
enquanto nos vincos
do forro de lã reteve
a memória íntima das mãos.



Autor : Inês Lourenço
De Teoria da Imunidade, Felício & Cabral - Publicações, 1996
Imagem Pinterest

sexta-feira, 2 de maio de 2025

Absolvição

Ajoelhávamos
naquele escuro sítio de madeira,
a fronte curvada, diante de um
sombrio quadrado pontilhado de
furos, que dissimulavam vestes
negras e um rosto oculto. Nessa
encenação da culpa, balbuciávamos
os nossos crimes infantis: faltei
duas vezes à missa. Disse nomes
feios. Desobedeci a minha mãe. Só não
sabíamos quase nenhuma palavra
o número de vezes que nos tínhamos
masturbado, jubilosos e tementes
daquela sabedoria secreta
que havíamos roubado
aos adultos. Assim tomávamos
o Senhor, em pecado mortal,
com a vaga tristeza de
não podermos ser pecadores
arrependidos.

Autor : Inês Lourenço
Imagem : Pinterest

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2025

Prelúdios Inspirados

 


Há mil e cem anos
de poesia num só dia,
mil e cem palavras
numa só sílaba,
mil e cem páginas
numa linha

— quando abro o livro
do teu corpo, e provo mil
mil e cem receitas num só
amor

Autor :Inês Lourenço
Imagem : Giann Enid

quarta-feira, 4 de dezembro de 2024

Os livros


Os livros duram séculos e
falam da melodia da chuva,
dos rios e dos mares, das fontes,
dos húmidos beijos dos
amantes, mas também

morrem despedaçados num
qualquer temporal que parte
as vidraças e lhes tolhe as páginas
numa brutal invasão líquida.

E falam do fogo
das paixões, de estrelas
a arder no infinito,
mas o convívio das chamas
é-lhes vedado, apesar
da torpe ignorância,
a isso os ter condenado
tantas vezes.

Quantos naufrágios e incêndios
os destruiram, para depois
ressurgirem múltiplos,
audazes, amigos tão antigos e
tão novos.

Autor : Inês Lourenço
(in Coisas que nunca)
(trazido de Poema possível)
Imagem :Pinterest


sexta-feira, 16 de setembro de 2022

Penélope

Encontrava-a aos domingos
com a teia de crochet, perto
do estádio. Ulisses regressava
a Ítaca, no fim de mais uma
jornada de águias, dragões
e outros monstros. Argos
no banco de trás, abanava a cauda
para não morrer de velho.

Autor : Inês Lourenço

sexta-feira, 8 de julho de 2022

Morder a Língua


 A ponta do cigarro apaga-se
como o ruído dum insecto
a agonizar na água. A
noite arrefeceu apesar de ser Julho
porque o Verão a norte nunca
se despede da bruma. É tarde
e procuro um verso
que morda a própria língua.

Autor : Inês Lourenço
In O jogo das comparações, Companhia das Ilhas, Lajes do Pico, 2016.
imagem Aykut Aydogdu

sexta-feira, 24 de junho de 2022

Préstimo

Um gato não serve realmente
para nada, vão quase seis séculos
desde o tempo das caravelas
onde embarcou com os marítimos para
extermínio dos roedores que
infestavam o porão das naus. Agora
só o dorso oferece às carícias
ou ao regaço o peso
do pequeno corpo, ronronando
a grata beleza de existir.

Autor : Inês Lourenço
Imagem : Ildiko Neer

quarta-feira, 23 de março de 2022

Desalinho


Nenhum destes poemas
fará parte de um livro
adoptado nas escolas. Há
muito tempo que não escrevo
azul mar e barcos ou outras
palavras para alívio de almas
homéricas.

Prefiro – ou preferem-me
aquelas como: desalinho
alinhavo ou logro ou outra
qualquer. Nunca o arremedo
de uma palavra única esgota
o muito ou nenhum sentido
de um verso.

Autor Inês Lourenço

quarta-feira, 26 de janeiro de 2022

Para um Livro

 

O tempo que passei fechado sem
nenhum leitor justificou ser
imolado pelas traças.
 
Autor :Inês Lourenço

quarta-feira, 9 de junho de 2021

Sala Provisória

    

Nunca se sabe
quando estamos num lugar
pela última vez. Numa casa
que vai ser demolida, numa sala
provisória que vai encerrar, num velho
café que mudará de ramo, como
página virada jamais reaberta, como
canção demasiado gasta, como
abraço tornado irrepetível, numa
porta a que não voltaremos.

Autor :Inês Lourenço 
Imagem : Magdalena Russocka 

sexta-feira, 7 de maio de 2021

" Vice - Versa "

 

deixei há muitos anos de
ter medo do ridículo. Sorte
minha ter encontrado talvez
alguns alguéns que não acharam
muito ridículo o que eu dizia. Aliás
nada é mais ridículo do que tudo
que é muito humano: defecar
em fraldas nos primeiros tempos de
vida ( e muitas vezes nos últimos). Ter
de trabalhar para poder comer ou
vice-versa. As bodas nupciais e os
prováveis antónimos. Os exércitos as igrejas
os parlamentos e no final as nossas
necrópoles com pindéricos retratos
de esmalte apostos em tabuletas de
mármore igualmente pindéricas. E mesmo
a nova moda de derreter o morto até às cinzas
esse copianço hindu que em nós resulta
num morto mais portátil e mais fácil
de esquecer
é como todas as coisas humanas
ridícula.

Autor : Inês Lourenço,
Imagem: Brian Oldham

sexta-feira, 26 de março de 2021

Livros Usados




Tudo que se disse depois e
ainda se diz, pode estar num usado
exemplar de Crime e Castigo ou da Utopia.
Os livros usados - mesmo
que se chamem Utopia -
têm aquela terna docilidade
das páginas em que outras
mãos passaram, ao contrário
dos novos, que em rígidas e
intactas páginas são só apenas
papel impresso.
.
E para escassos amigos, quando
se fugiu duma livraria de
consumíveis tops,
talvez seja essa
a melhor oferta.
.
Autor : Inês Lourenço, In "a disfunção lírica"

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

Domingo

Hoje é o dia dos senhores
e dos sóis em algumas línguas. Noutras
já foi ontem ou será depois, conforme
o cansaço divino sucedeu ou
não ao sétimo dia. Vária
gente irá aos templos ou ao parque
passear o cão. É dia de
visitar o lar de idosos ou de
abastecer a nossa arca
congeladora. Os pais solteiros levam
os filhos a comer pizza e outros
putativos progenitores recuperam
as horas de sono convivialmente
líquidas. O ar das ruas
é mais leve devido à pausa de
domingo. Ao menos hoje acontece
algo de bom em nome de Deus.

Autor : Inês Lourenço
In " Logros Consentidos"

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

Margem Sul

Não quero libertar-me
da minha história, dos grandes navios
que ajudei a reparar, pintar, soldar,
equilibrado como um hábil trapezista
a grandes alturas. Exilado
do cais, hoje navego
na luz do fim da tarde. As minhas mãos
voam na perícia que me resta
jogando os trunfos
que verdadeiramente nunca tive.

Autor : Inês Lourenço, In "A Enganosa Respiração da Manhã",

quarta-feira, 15 de julho de 2020

Primeira Casa


Muitas vezes, por outras casas

e noutros países sonhava
com o soalho antigo e a varanda
onde um entardecer de plátanos
enchia o peito de uma secreta
ansiedade, sem motivo. O quarto
da Mãe, esse lugar de mistérios
fixara-se na sua memória, como
um quadro de autor irremediavelmente
perdido. Sempre que regressava
minguava-lhe a coragem adiada
para pedir aos ocasionais locatários,
a permissão provavelmente estranha de
uma visita. Um dia a velha casa
debruçada sobre os telhados,
apareceu-lhe quase demolida e agora
avultava como um dente postiço, com
uma loja de lingerie barata no
rés-do-chão e um par de janelas
com alumínio e sem mistério
onde os plátanos, há muito ceifados
pelo asfalto, recusariam entardecer.

Autor : Inês Lourenço
 in 'Antologia Poética'

sexta-feira, 24 de abril de 2020

Português Vulgar


O meu gato deixa-se ficar
em casa, farejando o prato
e o caixote das areias. Já não vai
de cauda erguida contestar o domínio
dos pedantes de raça, pelos
quintais que restam. O meu gato
é um português vulgar, um tigre
doméstico dos que sabem caçar ratos e
arreganhar dentes a ordens despóticas. Mas
desistiu de tudo, desde os comícios nocturnos
das traseiras até ao soberano desprezo
pela ração enlatada, pelo mercantilismo
veterinário ou pela subserviência dos cães
vizinhos. Já falei deste gato
noutro poema e da sua genealogia
marinheira, embarcada nas antigas
naus. Se o quiserem descobrir, leiam
esse poema, num livro certamente difícil
de encontrar. E quem procura hoje
livros de poemas? Eu ainda procuro,
nos olhos do meu gato, os
dias maiores de Abril.

Autor : Inês Lourenço
in Lagos Consentidos
Imagem: Lindsey Kustusch