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quarta-feira, 15 de abril de 2026

UM TEMPO DE PAZ, UM TEMPO DE GUERRA

 

Veio um tempo de paz
Veio um tempo de guerra
Os comboios não paravam nas estações
As geografias não coincidiam com os mapas
Os meses eram anos
E os anos eram séculos
Veio um tempo de paz
Veio um tempo de guerra
E os soldados não tinham pátria
E as munições eram do mundo inteiro
Os países alargavam-se nas fronteiras
As geografias não coincidiam com os mapas
O amor, uma saudade uma impossibilidade
Os homens e as mulheres já não choravam
As lágrimas secas de tanta pólvora
E as bocas quietas
Sem palavras
Sem gritos
Sem sons
Porque os dias eram cinzentos
E os segundos já não cabiam nos relógios
Um tempo de paz
Um tempo de guerra

Autor : Cecilia Barreira

sexta-feira, 3 de janeiro de 2025

Ao Longe Escutava

Ao longe escutava
O vazio intacto
Um vulcão
Os jogos do azar
Escapulindo lágrimas
Ao longe um sátiro sem audição nem olfato
Os dias felizes
Ao longe
A mordidela de rochas e o avental
aquele que puseste no Natal

Ao longe eu escutava
A tua voz em tanques
Nos cucos
O vazio intacto
Os dias felizes
As areias que éramos, tristes
Os pomos os pélagos os gerúndios
(tu de paixão em riste)

Autor : Cecília Barreira

quarta-feira, 6 de novembro de 2024

Poema ao amigo que perdi

Era uma manhã nutrida quase fúlgida
Quando te visitei no ermo
E te vi com as pedras os braços e as âncoras
Enquanto enunciavas palavras sem eira nem beira
alcalinas e demoradas
Eras todo tu um mundo que já não existe
Um apelo ao terrunho às saudades de enxadas e alguidares
Eras um viajante dos sonos silentes
Eras caligrafia e gestos dissidentes
Eras uma flor sem água com a ampulheta e o passar das horas
Elegi-te o meu maior amigo
O que desvelava a minha espera o meu grito
Eras o refrão do meu cansaço da minha inquietação do meu ser aflito
Eras as consoantes de uma chávena de um pão de um atrito
Quando te partiste de mim
Amareleci e pendi para as cicatrizes de um marejar maldito
Reuni as dálias e os escaravelhos e aí por ora me agito

Autor : Cecília Barreira July 31, 2022
Imagem : Trini Schultz

quinta-feira, 1 de janeiro de 1970

É PRIMAVERA, É TEMPO DOS GIRASSÓIS

 


E hoje é primavera
E já nada trava os girassóis
Nada
Nem a guerra
Nem os mísseis
Nem os ocupantes
Nem os discursos
Nem as amnésias
Nem os tamanhos
Nem os uivos
Nem as latitudes
Nem as fórmulas químicas
Nem os ambíguos
Nem os donos dos dinheiros
Nem os que se deitam em leitos de ganância
Nem as hipérboles
Já nada trava os girassóis
É Primavera
Já é tempo de acabar a espera

Autor : Cecilia Barreira