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quarta-feira, 16 de novembro de 2022

Ruínas


 Na casa onde nasci, já morriam as paredes salgadas.
O movimento dos ponteiros era lento e ferrugento.
A chaminé fumava e fumava sem intervalos.
Havia formigueiros.
Havia bolor nos biscoitos.
Havia o prolongamento da utilização.
Reconduziam-se os dias sem pensar que a casa
[estava a morrer.
Faziam-se as compotas sem percebermos que o sótão
se desmantelava, desde o cerne e desde as chagas dos pregos.
Havia um contacto físico com a consumição.
Um contacto moral com os labirintos do calendário.
Na casa onde eu nasci, também nasceu a minha mãe.
Depois, as janelas emperraram nas dobradiças.
E as tardes de sol, que só existem quando somos alegres,
[conspiraram.
Ruínas, fora das crisálidas, como toutinegras.

Autor : Alice Caetano
In “Arranja-me um Emprego”

quarta-feira, 12 de outubro de 2022

Mulher de Arame

A não-mulher, antes de chegar a manhã, vai amassar o pão nasgamelas do contrato, com a barriga a parir anilhas e parafusos, em
ritmo acelerado e com os tímpanos a libertarem leitescondensados e açucarados, antes que chegue o sol, porque o sol
pode abrir as janelas.

No dia seguinte, são as espumas encarquilhadas, a passar debaixodos pés, sobre os mosaicos dos pátios com desenhos de rotação etranslação, que convergem para a extremidade da belezainvoluntária, mais o perfume do sabão, aberto, no pântano dasestátuas de arame.

Por isso, não me parece que esta mulher seja realmente mulher,mas antes asa peneireira das torres e, só, durante um instanteantes da morte (o tempo que dura a maquilhagem).Anseia que passe o inverno, por causa da inquietação que é secar aroupa no varal. E vai correndo sempre, enganada pelo horóscopo,

quase em estanho, nunca mulher.É o saiote, o toque do adufe, a menstruação, o pelourinho, a

grinalda, o fermento.

Sem orgasmos, sem lágrimas, sem pérolas, sem nunca ser quase

estátua.

É uma silhueta atrás do avental, que se assume ao sonho daevasão.

Extenua num idílio que é insustentável.

A pastora do imenso.

Morre todos os dias, na escuridão do jardim.

.

 autor : Alice Caetano, in Antologia da Moderna Poética Portuguesa
Imagem : Mikeila Borgia

 

quarta-feira, 11 de novembro de 2020

O Fim dos Labirintos

 

De repente, o chão da estrada ficou branco. Aquele chão, que separava as mulheres, do labirinto. 
Nem as sombras, que habitualmente se desenhavam nos muros, 
Nem o sangue dos pés caminhantes…. já nada disso restava. 
De repente, o sol fez-se uma enorme labareda e o sacrifício foi engolido, 
assim como o cansaço, as trevas, a garganta seca, a água de lavar os pratos… tinham desaparecido. 
Um espanto! 
Aquele chão da estrada, agora branco!! 
Aquela estrada do muro do labirinto, agora aberta!! 
Aquele tempo cinzento e doloroso, agora iluminado!! 
De repente, as mulheres começaram a cantar canções alegres. 
Pousaram as canastras com as peças metálicas e dançaram. 
Já nem sequer eram mulheres, eram asas peneireiras dos bosques. 
Pareciam pássaros enormes chegados do Princípio do Futuro com os machados de sílex, capazes de destruir todas as portas trancadas e todos os regulamentos injustos. 
Aproximaram-se os curiosos, vieram os noticiosos e os mensageiros observar tamanha revolução alada. 
- As mulheres desfizeram o labirinto! – dizia-se por todo o lado! 
- As mulheres cortaram os cabelos e vestiram-se de vermelho! – ouvia-se no rádio. 
- Que petulância! Que atrevimento! – vociferavam alguns, cheios de catarro. 
Mas as mulheres continuaram, cada vez mais confiantes. Cada vez mais lindas! Porque os labirintos também se derrubam. 

Autor :Alice Caetano
Imagem : Vadim Stein