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quinta-feira, 10 de abril de 2025

Paixão Secreta

  

Acordei com os primeiros pássaros,
já minha lâmpada morria.

Fui até à janela aberta e sentei-me,
com uma grinalda fresca
nos cabelos desatados...
Ele vinha pelo caminho
na névoa cor de rosa da manhã.

Trazia ao pescoço
uma cadeia de pérolas
e o sol batia-lhe na fronte.

Parou à minha porta
e disse-me ansioso:
— Onde está ela?
Tive vergonha de lhe dizer:
— Sou eu, belo caminhante,
sou eu.

Anoitecia
e ainda não tinham acendido as luzes.

Eu atava o cabelo, desconsolada.
Ele chegava no seu carro
todo vermelho, aceso pelo sol poente.

Trazia o fato cheio de poeira.
Fervia a espuma
na boca anelante dos seus cavalos...

Desceu à minha porta
e disse-me com voz cansada:
— Onde está ela?
Tive vergonha de lhe dizer:
— Sou eu, fatigado caminhante,
sou eu.

Noite de Abril.
A lâmpada arde neste meu quarto
que a brisa do Sul
enche suavemente.

O papagaio palrador
dorme na sua gaiola.

O meu vestido é azul
como o pescoço dum pavão,
e o manto verde como a erva nova.

Sentada no chão, perto da janela,
olho a rua deserta ...

Passa a noite escura
e não me canso de cantar:
— Sou eu, caminhante sem esperança,
sou eu.

Autor  : Rabindranath Tagore, in "O Coração da Primavera"
Tradução de Manuel Simões
Imagem ; TJ Drysdale

sábado, 14 de dezembro de 2024

A Mulher Inspiradora


Mulher, não és só obra de Deus;
os homens vão-te criando eternamente
com a formosura dos seus corações,
e os seus anseios
vestiram de glória a tua juventude.

Por ti o poeta vai tecendo
a sua imaginária tela de oiro:
o pintor dá às tuas formas,
dia após dia,
nova imortalidade.

Para te adornar, para te vestir,
para tornar-te mais preciosa,
o mar traz as suas pérolas,
a terra o seu oiro,
sua flor os jardins do Verão.

Mulher, és meio mulher,
meio sonho.

Autor : Rabindranath Tagore
in "O Coração da Primavera"
Tradução de Manuel Simões
Imagem : Marcin Łaskarzewski

quinta-feira, 7 de novembro de 2024

Cântico da Esperança

Não peça eu nunca
para me ver livre de perigos,
mas coragem para afrontá-los.

Não queira eu
que se apaguem as minhas dores,
mas que saiba dominá-las
no meu coração.

Não procure eu amigos
no campo da batalha da vida,
mas ter forças dentro de mim.

Não deseje eu ansiosamente
ser salvo,
mas ter esperança
para conquistar pacientemente
a minha liberdade.

Não seja eu tão cobarde, Senhor,
que deseje a tua misericórdia
no meu triunfo,
mas apertar a tua mão
no meu fracasso

Autor : Rabindranath Tagore
in "O Coração da Primavera"
Tradução de Manuel Simões
Imagem : Caras Lonut