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sábado, 19 de agosto de 2023

A definição do amor

 

dantes escrevia poemas de amor. para viver com o amor nos poemas, sempre. depois disseram-me que já toda a gente o fez, que nada mais havia a escrever sobre o amor. que o amor já estava em demasiados poemas. eu aceitei o conselho e passei a escrever poemas de morte. escrevi muitos poemas sobre o meu pai, até ao dia em que percebi que a morte é sinónimo de amor, como tudo é sinónimo do amor. e voltei a escrever o que nada havia a dizer. porque até o poema é sinónimo de amor.

Autor : Jorge Reis-Sá
em 'biologia do homem
Imagem : Natalie Kapushenko

sábado, 24 de junho de 2023

sabes, pai

 

o cachecol bege nos muros da foz
cobria as árvores com o seu pêlo, ao vento
o boné azul, marinheiro nos cabelos louros
sussurrava pequenas frases às silentes águas
o teu sorriso tão leve, enternecia o rosto
esses óculos, teu cabelo nas tardes de sol

ou o barco encalhado na areia breve
junto ao castelo onde nos passeávamos
eu tu a mãe, duas ou três falas e o meu corpo
que se chegava a vós junto à estrada

nestes muros da foz, abertos ao mar
que voava

Autor  : Jorge Reis-Sá
Imagem : Hayley Roberts

sábado, 27 de maio de 2023

Digo que Te Amo

digo que te amo
sorris e eu amo, digo que te quero
sorris e eu quero, dizes em sonhos
 
em sonhos que já tive, onde desejei ser céu sol e
estrelas para que te pudesse olhar eternamente 

Autor : Jorge Reis-Sá
imagem omar ortiz

quinta-feira, 27 de abril de 2023

escrevo como quem quer ser escrito

uma árvore ou uma pena no centro da frase
um espelho branco onde observo a palavra

e dos seus troncos brotam folhas, letras
inundações de verde no lago azul do céu
que caem, voando, asas de papel

como tu, também eu sussurro
lentas sílabas à leve melancolia que nos abraça

Autor : Jorge Reis-Sá
Imagem Nicolas Bruno

sábado, 18 de março de 2023

Pai, a Minha Sombra és Tu

a cadeira está vazia, um corpo ausente
não aquece a madeira que lhe dá forma

e não ouço o recado que me quiseste dar
nem a tua voz forte que grita meninos
na hora de acordar
ouço o teu abraço, no corredor em gaia
e os olhos molhados pela inusitada despedida

o sol foge
mas o crepúsculo desenha a sombra que
tenho colada aos pés
ou o espelho, coberto com a tua face

pai, digo-te
a minha sombra és tu

Autor : Jorge Reis-Sá,
 in "A Palavra no Cimo das Águas