quinta-feira, 30 de abril de 2020

Palavras para a Minha Mãe



mãe, tenho pena. esperei sempre que entendesses
as palavras que nunca disse e os gestos que nunca fiz.
sei hoje que apenas esperei, mãe, e esperar não é suficiente.

pelas palavras que nunca disse, pelos gestos que me pediste
tanto e eu nunca fui capaz de fazer, quero pedir-te
desculpa, mãe, e sei que pedir desculpa não é suficiente.

às vezes, quero dizer-te tantas coisas que não consigo,
a fotografia em que estou ao teu colo é a fotografia
mais bonita que tenho, gosto de quando estás feliz.

lê isto: mãe, amo-te.

eu sei e tu sabes que poderei sempre fingir que não
escrevi estas palavras, sim, mãe, hei-de fingir que
não escrevi estas palavras, e tu hás-de fingir que não
as leste, somos assim, mãe, mas eu sei e tu sabes.

Autor : José Luís Peixoto, in "A Casa, a Escuridão"
Imagem : Gustav Klimt

quarta-feira, 29 de abril de 2020

Rebentação



Rebentação
Hoje sou eu que poso para o teu poema
Como uma modelo numa cama de flores
Que estaria
A vida inteira diante dos teus olhos
Até ser só ossos, ouro, palavras, rebentação.

Autor : Ana Salomé
Imagem : Alex Stoddard

terça-feira, 28 de abril de 2020

Do Amor Impossível

 Do amor impossível diz-se invisível sua inevitabilidade

 Como te dizer deste amor intransparente, que, sendo evidente, visível não é
Como incandescer tal translúcida chama

O amor é sempre imprevisto, sempre surpreendente, sempre-sempre indeclinável
Como negar a incerteza que se oculta na tua necessidade

Sinto-te num sonho profundo, memória num tempo-porvir, espera sem sequer
suceder

Do amor impossível diz-se visível sua impossibilidade

Da descrença e das suas invisibilidades ocupam-se os passos das sombras
Num desvendar de névoas desnudo tua claridade, corpo-contraluz contendo minha
densa escuridão

Do amor impossível digo ser visível sua inevitabilidade

Como contradizer este luminar sentir
Como extrair a rara luz da luz exacta

Autor : Filipe Campos Melo

domingo, 26 de abril de 2020

resguarda-me o pensamento


resguarda-me o pensamento,
no sibilar do eco,
que me trespassa os neurónios.

Autor : BeatriceM 23-04-2014
Imagem : Cristina Coral

sábado, 25 de abril de 2020

o Futuro


Isto vai meus amigos isto vai 
um passo atrás são sempre dois em frente 
e um povo verdadeiro não se trai 
não quer gente mais gente que outra gente 

Isto vai meus amigos isto vai 
o que é preciso é ter sempre presente 
que o presente é um tempo que se vai 
e o futuro é o tempo resistente 

Depois da tempestade há a bonança 
que é verde como a cor que tem a esperança 
quando a água de Abril sobre nós cai. 

O que é preciso é termos confiança 
se fizermos de maio a nossa lança 
isto vai meus amigos isto vai. 

José Carlos Ary dos Santos



sexta-feira, 24 de abril de 2020

Português Vulgar


O meu gato deixa-se ficar
em casa, farejando o prato
e o caixote das areias. Já não vai
de cauda erguida contestar o domínio
dos pedantes de raça, pelos
quintais que restam. O meu gato
é um português vulgar, um tigre
doméstico dos que sabem caçar ratos e
arreganhar dentes a ordens despóticas. Mas
desistiu de tudo, desde os comícios nocturnos
das traseiras até ao soberano desprezo
pela ração enlatada, pelo mercantilismo
veterinário ou pela subserviência dos cães
vizinhos. Já falei deste gato
noutro poema e da sua genealogia
marinheira, embarcada nas antigas
naus. Se o quiserem descobrir, leiam
esse poema, num livro certamente difícil
de encontrar. E quem procura hoje
livros de poemas? Eu ainda procuro,
nos olhos do meu gato, os
dias maiores de Abril.

Autor : Inês Lourenço
in Lagos Consentidos
Imagem: Lindsey Kustusch

quinta-feira, 23 de abril de 2020

Nostalgia

A pequena flor

só que além nasceu
sonhou ser maior:
nada lhe valeu...

Na cova esquecida,
sol que desejou
não a bafejou,
bastarda da vida...

E era flor ou gente?
Esquecida imperfeita
numa dor silente
ali jaz desfeita!

Autor  : António Salvado
 in "Tropos"

quarta-feira, 22 de abril de 2020

Já não Vivo, Só Penso


Já não vivo, só penso. E o pensamento
é uma teia confusa, complicada,
uma renda subtil feita de nada:
de nuvens, de crepúsculos, de vento.

Tudo é silêncio. O arco-íris é cinzento,
e eu cada vez mais vaga, mais alheada.
Percorro o céu e a terra aqui sentada,
sem uma voz, um olhar, um movimento.

Terei morrido já sem o saber?
Seria bom mas não, não pode ser,
ainda me sinto presa por mil laços,

ainda sinto na pele o sol e a lua,
ouço a chuva cair na minha rua,
e a vida ainda me aperta nos seus braços.

Autor : Fernanda de Castro
 in "E Eu, Saudosa, Saudosa"
Imagem :Brooke Shaden 

terça-feira, 21 de abril de 2020

O mistério das águas

Serão os corpos água?
Só de teus olhos sei:
para levar à boca,
quando a sede
sufoca.

Autor:- Pedro Belo Clara
Imagem :-Alessio Albi

domingo, 19 de abril de 2020

quando

Quando não conseguimos ou não podemos,
contemplar o sol,
temos de nos concentrar nas estrelas,
e até  a  cintilação que delas expele,
despertará em nós,
a suavidade das flores,
e desta luz que ilumina,
a minha noite.

Não estou só!

Nunca, ninguém está completamente só.
.
Autor : BeatriceM 2014-04-13(reeditado)
Imagem : alex stoddard

sábado, 18 de abril de 2020

Homens que são como lugares mal situados


Homens que são como lugares mal situados
Homens que são como casas saqueadas
Que são como sítios fora dos mapas
Como pedras fora do chão
Como crianças órfãs
Homens sem fuso horário
Homens agitados sem bússola onde repousem

Homens que são como fronteiras invadidas
Que são como caminhos barricados
Homens que querem passar pelos atalhos sufocados
Homens sulfatados por todos os destinos
Desempregados das suas vidas

Homens que são como a negação das estratégias
Que são como os esconderijos dos contrabandistas
Homens encarcerados abrindo-se com facas

Homens que são como danos irreparáveis
Homens que são sobreviventes vivos
Homens que são sítios desviados
Do lugar

Autor : daniel faria
in poesia

sexta-feira, 17 de abril de 2020

Quem ama vê miudezas

Tinha um jeito singular de fechar os olhos quando experimentava emoção bonita, coisa de segundos e coisa imensa.
Era como se os olhos quisessem segurar a lindeza do instante um bocadinho, o suficiente para levá-lo até o lugar onde o seu sabor nunca mais poderia ser perdido.
Eu via, olhos do coração abertos, e nunca mais perdi de vista o sabor desse detalhe. Porque quem ama vê miudezas com olhar suficiente pra nunca mais se perderem.

Autor :Ana Jácomo
Imagem : Laura Makabresku

quinta-feira, 16 de abril de 2020

In Memorium


nasceu em Ovalle, no Chile, a 4 de outubro de 1949
 morreu a 16 de abril de 2020 em Oviedo, Espanha. 

Se é certo que a vida é breve e frágil, também é verdade que a dignidade e a coragem lhe conferem a vitalidade que nos faz suportar os seus enganos e desditas.

Autor : Luis Sepúlveda

quarta-feira, 15 de abril de 2020

In Memorium



José Rubem Fonseca

Juiz de Fora, 11 de Maio de 1925
Rui de Janeiro, 15 de Abril de 2020

foi um contista, romancista, ensaísta e reteirista brasileiro

Uns fogem do amor e outros procuram com sofreguidão, mas no fim o que fica, em todos, é a mesma coisa, uma insuportável sensação de vazio.

Rubem Fonseca

Conserta-se

Sonho em ter
Uma oficina
Dessas que fazem
De tudo.
Sonho em ter as ferramentas
Dessas que servem pra tudo.
E soldar sentimentos quebrados
Colar pensamentos rasgados
Martelar novas teclas
Pra ver se alguém entende
Que reformar as entranhas
É necessário.

Autor : Ana Peluso
Imagem : Frank Melech

terça-feira, 14 de abril de 2020

Arte Poética


Nos bosques das
madrugadas do verão
colhes nevoeiros
É que o poema também
precisa disso
para que o verso
tenha dureza e elasticidade

Depois, retesas o arco
e o horizonte vibra em
suas etéreas arcadas
A liberdade é agora uma
antiga praça
Ao centro, um fontanário
e sorridentes crianças

Autor : Luís Costa 
Imagem : Rachel Baran

domingo, 12 de abril de 2020

Domingo de Pâscoa



……Ainda hoje somos homens e mulheres de passagens; somos filhos da Páscoa.
Os mares existem; os cativeiros também. As ameaças são inúmeras. Mas haverá sempre uma esperança a nos dominar; um sentido oculto que não nos deixa parar; uma terra prometida que nos motiva dizer: Eu não vou desistir!
E assim seguimos. Juntos. Mesmo que não estejamos na mira dos olhos.
O importante é saber, que em algum lugar deste grande mar de ameaças, de alguma forma estamos em travessia...


Padre Fábio de Melo

sexta-feira, 10 de abril de 2020

A morte de Jesus

El Greco

As vezes me custo a entender teu grande sofrimento
e nao reflito o suficiente,como aguentasse tanta dor
jamais teria essa tua coragem,essa tua ousadia
de dar a sua propria vida simplesmente por amor.

Teu nascimento,ja tinha um determinado proposito
afinal o teu chamadoja se dava por plena conclusao
obidiencia,respeito e fe,era inicialmente tua base
pra ir com consequencias,morrer por redençao.

Hoje,depois do teu resgate,do teu carinho e compaixao
entendo a tua vinda,a tua historia,o teu libertar
nao quero me reter da tua misericordia comunhao
apenas quero te servir,me render e te adorar.

Mas e ato dificil te seguir,e ser como tu es
tu fosses limpo,fosse tentado mas jamais pecou
Eu nao sou nada comparavel a ti Jesus
mas sou tudo,pq um dia tua graça me alcançou!

Autor : Diego Ferreira

quarta-feira, 8 de abril de 2020

meu vestido de amante


No armário do meu quarto escondo de tempo e traça
meu vestido estampado em fundo preto.
É de seda macia desenhada em campânulas vermelhas
à ponta de longas hastes delicadas.
Eu o quis com paixão e o vesti como um rito,
meu vestido de amante.
Ficou meu cheiro nele, meu sonho, meu corpo ido.
É só tocá-lo , volatiza-se a memória guardada:
eu estou no cinema e deixo que segurem a minha mão.
De tempo e traça meu vestido me guarda.

Autor : Adélia Prado

terça-feira, 7 de abril de 2020

Elegia ao Poente

Tão ténue a luz
deste macerado sol
que em nossos olhos
poisa, canta e morre…

Entreguemos os corpos
à sombra que o envolve.

E talvez sejamos os rios
que a lua prometeu chorar.

Autor: Pedro Belo Clara

domingo, 5 de abril de 2020

É Abril



É Abril e chove,
chove como se as nuvens encolerizadas,
quisessem lavar todas as impurezas do mundo,
estamos em quarentena,
num cativeiro necessário e obrigatório,
mas , abro a porta e
saio para a chuva, quero sentir a água
a gotejar em mim
abro os braços ao céu
e deixo-me avassalar
no cântico do ruído da chuva a cair
sobre mim como uma catarse.

A chuva de Abril a lavar o mundo

BeatriceM 2020-04-04
Imagem: Rosie Hardy

sábado, 4 de abril de 2020

hoje chovem pétalas de dor


poderia chamar-te pelo nome
ou pelo aroma da primavera;
poderia olhar as estrelas
ou a claridade do teu rosto;
poderia ser a semente plantada
ou a gota que alimentasse a tua sede,

poderia...
mas, perdoa-me, amor.

a minha voz morre ao nascer
quando preso fico
sem ver flores a crescer;
sem afastar as nuvens cinzentas
que dum céu pendem quase sem te ter;
sem saber dos rios que correm,
e das nascentes da inocência,
da água que de meu corpo há-de
purificar este saber,
e sem vislumbrar o fim do deserto
neste trapézio, sem rede e sem mar aberto,
para te olhar... para te ver.

Autor : LuísM Castanheira 2020-03-30
Imagem :Mikael Aldo

sexta-feira, 3 de abril de 2020

Ela sou eu também


Mesmo sem querer,
mesmo não querendo uma nem outra,
somos uma só e a mesma. Mas ela trai-me
quando escreve por mim, quando não se conforma,
quando quer tudo.
Ela, a das lágrimas de raiva,
a que nunca te beija com meus lábios. 

Autor : Amalia Bautista
Imagem : Alessio Albi

quinta-feira, 2 de abril de 2020

Lisboa ainda

Lisboa não tem beijos nem abraços
não tem risos nem esplanadas 
não tem passos
nem raparigas e rapazes de mãos dadas 
tem praças cheias de ninguém
ainda tem sol mas não tem 
nem gaivota de Amália nem canoa
sem restaurantes sem bares nem cinemas 
ainda é fado ainda é poemas
fechada dentro de si mesma ainda é Lisboa 
cidade aberta
ainda é Lisboa de Pessoa alegre e triste 
e em cada rua deserta
ainda resiste. 

Autor : Manuel Alegre poema escrito em 20 de março de 2020

quarta-feira, 1 de abril de 2020

As portas que batem


As portas que batem
nas casas que esperam. 
Os olhos que passam 
sem verem quem está. 
O talvez um dia 
Aos que desesperam. 
O seguir em frente. 
O não se me dá. 
O fechar os olhos 
a quem nos olhou. 
O não querer ouvir 
quem nos quer dizer. 
O não reparar 
que nada ficou. 
Seguir sempre em frente 
E nem perceber. 

Autor: Maria Judite de Carvalho
Imagem:Stephen Carroll