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sexta-feira, 3 de abril de 2026

A minha história

 

A minha história
é outra
E começa agora
Estou sempre
a começar

Autor : Adília Lopes

quarta-feira, 21 de maio de 2025

Lisboa


Cidade branca
semeada
de pedras

Cidade azul
semeada
de céu

Cidade negra
como um beco

Cidade desabitada
como um armazém

Cidade lilás
semeada
de jacarandás

Cidade dourada
semeada
de igrejas

Cidade prateada
semeada
de Tejo

Cidade que se degrada
cidade que acaba

Autor : Adília Lopes
 in 'Poemas Novos'

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2025

Como se faz um poema?


Apanhei o cabelo
em rabo de cavalo
agora a minha solidãovê-se melhor
vê-se tão bem
como a minha face

E a minha face
é desassombrada
as sombras
não são minhas

Autor : Adília Lopes
Imagem : Pinterest

quarta-feira, 1 de janeiro de 2025

Sou imprudente


Adília Lopes,
Pseudónimo literário de Maria José da Silva Viana Fidalgo de Oliveira,
Lisboa , 20 de Abril de 1960
Lisboa,30 de Desembro de 2024
.
Sou imprudente
como os pombos
que morrem atropelados
e complicada
como as serpentes
que se enroscam
nas árvores

Autor : Adília Lopes
Imagem : Desconheço o Autor 

sexta-feira, 20 de dezembro de 2024

Depois da paixão


Depois
da paixão
e da ausência
ficou a esperança
e a indulgência

Não sou Marianna
e tu não és Chamilly

A minha história
é outra
e começa agora

Estou sempre
a começar

Autor : Adília Lopes
Imagem : Ekaterina Shulga

sexta-feira, 19 de novembro de 2021

50 anos

 

Talvez escreva
poemas
que já li
que outros já escreveram
que eu mesma já escrevi
esqueço-me
da minha vida

Autor : Adilia Lopes
Imagem : Natasha Bieniek

sexta-feira, 24 de setembro de 2021

Neste dia Cinzento

 
Neste dia cinzento
procuro um verso
e não encontro
não tem importância

Autor : Adilia Lopes
Imagem : Sandy Wijaya

quarta-feira, 19 de agosto de 2020

A Propósito de Estrelas

Não sei se me interessei pelo rapaz 
por ele se interessar por estrelas
se me interessei por estrelas por me interessar 
pelo rapaz hoje quando penso no rapaz
penso em estrelas e quando penso em estrelas 
penso no rapaz como me parece
que me vou ocupar com as estrelas 
até ao fim dos meus dias parece-me que
não vou deixar de me interessar pelo rapaz 
até ao fim dos meus dias
nunca saberei se me interesso por estrelas 
se me interesso por um rapaz que se interessa
por estrelas já não me lembro 
se vi primeiro as estrelas
se vi primeiro o rapaz 
se quando vi o rapaz vi as estrelas

Autor :Adília Lopes
In “Quem Quer Casar Com a Poetisa?”
Quasi Edições 
Imagem: Ali Jardine

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

Um poema

O poema
sai barato
já não se escreve
com pena de pato

Um poema
é um poema
é um poema

Uma rosa
não é uma rosa
não é uma rosa

O rabo
é abstracto?
o poema
sobre o poema
(este poema)
engonha
mas não envergonha

Autor : Adília Lopes
In Caras Baratas - Antologia, Lisboa: Relógio D'Água, 2004

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

Marianna e Chamilly

Eduardo Arguelles art

Quando partires
se partires
terei saudades
e quando ficares
se ficares
terei saudades

Terei
sempre saudades
e gosto assim

Autor : Adília Lopes
in 'Caderno'

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

21 anos

Bogna Patrycja Altman

Os meus cavalos
espantaram-se

Como o Hipólito
da tragédia grega
bocados de mim
pendem
dos arbustos

Autor : Adília Lopes
in 'A Árvore Cortada'

sexta-feira, 3 de março de 2017

Entregámo-nos

Neil Driver

Entregámo-nos
um ao outro
dentro dos lençóis
brancos
à tarde
e agora sabemos
e não sabemos
um do outro
escrevemo-nos
escrevemos

Autor : Adília Lopes

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Os amantes

Laura Makabresku

Os amantes
fecham-se
um no outro
(como os punhos
do bebé
que dorme
no berço
e no útero
da mãe
como as caras
dos ícones
no escuro
das igrejas)

Autor : Adília Lopes
in 'Sete Rios Entre Campos'

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Arte Poética




Trini Schultz
Escrever um poema
é como apanhar um peixe
com as mãos
nunca pesquei assim um peixe
mas posso falar assim
sei que nem tudo o que vem às mãos
é peixe
o peixe debate-se
tenta escapar-se
escapa-se
eu persisto
luto corpo a corpo
com o peixe
ou morremos os dois
ou nos salvamos os dois
tenho de estar atenta
tenho medo de não chegar ao fim
é uma questão de vida ou de morte
quando chego ao fim
descubro que precisei de apanhar o peixe
para me livrar do peixe
livro-me do peixe com o alívio
que não sei dizer

Autor : Adília Lopes
in 'Um Jogo Bastante Perigoso'