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quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Soubeste abrir a porta


Soubeste abrir a porta
que dá para o sucesso
para o longínquo
para um lugar
onde mesmo em deserto
o amor nasceu
onde o leito dum rio
traça a directriz
capaz de o conduzir até ao mar

Autor : António Salvado
Imagem : Pinteres

quinta-feira, 23 de janeiro de 2025

Nunca regresso ao ponto de partida

Nunca regresso ao ponto de partida,
quando me leva como eremita
a solidão do dia em que viajo,
quando nem horizontes desordenam
com seus fechados véus
a vontade afincada de transpor
as linhas clandestinas.

E porque voltaria? Trabalhoso
seria descobrir
de novo a senda aberta ao retornar,
com poeiras e pedras, sobressaltos,
em toda a dimensão da revoada.

O ponto de partida
diluiu-se aliás no pesadelo
de noites infindáveis, sem contorno,
sem astros pelo céu a tilintarem
e sem segurança do romper
da manhã desejada.

Companheira leal, a solidão
parte sempre comigo
até onde a distância não existe.

Autor : António Salvado
Imagem : Martin
 Marcisovsky

terça-feira, 24 de dezembro de 2024

Natal

Que nos trazes a não ser
lágrimas cada vez mais,
natal eterno a nascer
de outros natais…
Ligeira esperança que toca
os nossos olhos molhados
e o sangue da nossa boca,
amordaçados…

Ah bruxuleante luz
acenando ao longe em vão
e que a dor nos reproduz
em ilusão…

Ternura dum breve instante
que o próprio instante desterra,
morta no facto constante
de tanta guerra…

Autor : António Salvado

quinta-feira, 4 de abril de 2024

Resposta


Alma: não tiveste um lugar. Assim,
te foste ao reino prometido, e dobras-te
agora em quanta solidão venceste,
impelida num mundo de retorno.

Nem a razão expectante permitiu
o maior pensamento de certezas!
Alma: da terra ao céu o traço fino
da tua directriz — mais não ficou...

Eis a vida — pó cruel, ansiedade
que deu a forma à tua acção perfeita
em sombras de tristeza e dia a dia.

Desvendado segredo! A dor que seja
o fogo, tua lembrança encontrou
nesse vazio a única palavra...

Autor : António Salvado

segunda-feira, 6 de março de 2023

É noite, Mãe


António Forte Salvado
 Castelo Branco  20 de fevereiro de 1936,
Castelo Branco 05 de Março de 2023



É noite, Mãe

As folhas já começam a cobrir
o bosque, mãe, do teu outono puro...
São tantas as palavras deste amor
que presas os meus lábios retiveram
pra colocar na tua face, mãe!...

Continuamente o bosque se define
em lividez de pântanos agora,
e aviva sempre mais as desprendidas
folhas que tornam minha dor maior.

No chão do sangue que me deste, humilde
e triste, as beijo. Um dia pra contigo
terei sido cruel: a minha boca,
em cada latejar do vento pelos ramos,
procura, seca, o teu perdão imenso...

É noite, mãe: aguardo, olhos fechados,
que uma qualquer manhã me ressuscite!...
.
Autor : António Salvado, in "Difícil Passagem"

sábado, 26 de novembro de 2022

A Eterna Ausência

 

Eu aguardei com lágrimas e o vento
suavizando o meu instinto aberto
no fumo do cigarro ou na alegria das aves
o surgimento anónimo
no grande cais da vida
desse navio noturno
que me trazia aquela com lábios evidentes
e possuindo um perfil indubitável,
mulher com dedos religiosos
e braços espirituais...

Aquela mulher-pirâmide
com chamas pelo corpo
e gritos silenciosos nas pupilas.

Amante que não veio como a noite prometera
numa suspensa nuvem acordar
meu coração de carne e alguma cinza...

Amante que ficou não sei aonde
a castigar meus dias involúveis
ou a afogar meu sexo na caveira
deste carnal desespero!...

Autor : António Salvado,
in "A Flor e a Noite"
Imagem : Richard Davis


[António Forte Salvado (Castelo Branco, 20 de Fevereiro de 1936) é um poeta e escritor português. Além de ser autor de uma extensa obra poética, é também autor de ensaios e antologias, tendo sido a sua obra reconhecida várias vezes com prémios nacionais e internacionais.]

sábado, 10 de setembro de 2022

Preso ao meu destino

 

E preso ao meu destino eu principio
onde um pequeno sol por entre as árvores
perscruta o chão.
Ávido enfim de azul,
meu grito vive a ponte que o abismo
há muito conquistou.
O lume é ténue,
a chama é quase ausente e quase extinta.

Autor : António Salvado
Imagem :Michelle Ellis

sábado, 13 de agosto de 2022

A Poesia

Difícil, estreita passagem,
força quente perscrutada,
corpo de névoa, de imagem,
com sulcos de tatuagem,
voz absoluta escutada...

Destino de aranha, tece
com fios vários da vida
alegria se amanhece
ou chora se a luz fenece
pela noite perseguida.

Intimidade exterior,
pureza de impuras formas,
conhecimento e amor,
água límpida, estertor,
sem regras feita de normas.

Autor : António Salvado

terça-feira, 5 de julho de 2022

Nostalgia

 


A pequena flor
só que além nasceu
sonhou ser maior:
nada lhe valeu...

Na cova esquecida,
sol que desejou
não a bafejou,
bastarda da vida...

E era flor ou gente?
Esquecida imperfeita
numa dor silente
ali jaz desfeita!

Autor : António Salvado
Imagem : Magdalena Lutek

quinta-feira, 2 de dezembro de 2021

Nesgas do Azul

 

Não sei se a tua voz, ou se o murmúrio
do fim da tarde que se ouvia quase
como uma gota d'água que tombasse
em calmo lago ali alheio e mudo.

Nossos olhos retinham o crepúsculo
que lentamente audaz se aproximava
e pelo céu ainda alavam pássaros
que sulcavam as nesgas do azul.

Foi um momento singular aquele
em que os sentidos todos reunidos
apelavam ao gozo do silêncio:

um instante perene de certeza
de que era fogo aquilo que vivíamos,
que não se via: bramidor ardendo.

Autor :António Salvado
Imagem : Ilya Kisaradov

terça-feira, 13 de abril de 2021

O Olhar de Ver

 


Em tudo o que tu vês eu moro aí,
em tudo o meu olhar a ti só vê -
conforto de presença tão contínuo
que não sabe onde surge onde termina
dentro do modo o tempo deste ver.

Nem eu alcanço outro horizonte além,
nem tu aqui outra maior distância -
e os olhos bem juntinhos não se lembram
de sentirem em si diverso alento
que não seja - a tremerem - a constância.

Por isso como um lanço os nossos corpos
ignoram qualquer 'spaço que os separe -
muito encostados poros sobre poros
olham apenas o prazer que é nosso
com mais desejo encima até fartarem.

Autor : António Salvado
 in O Sol de Psara 

terça-feira, 30 de março de 2021

Oculta Lágrima



Mesmo que retornases a pisar
as ervas do caminho,
mesmo que as tuas mãos anunciassem
em concha água das fontes,
mesmo que em desatino
os sons da tua voz
como outrora se ouvissem perto ou longe
e mesmo que os teus olhos
languidamente para os meus olhassem -
só poderia responder-te agora
com uma oculta lágrima
que não foi derramada.

Autor : António Salvado, In "Essa Estória", 
Imagem :  Brian Oldham

sábado, 13 de fevereiro de 2021

As pontas dos meus dedos
percorrem a extensão
de lugares recônditos.

A peregrinação dos meus sentidos
levando-me aos confins da descoberta
perturba ainda mais este vazio.

Nas oliveiras pássaros
gritam a primavera
à espera de se unirem.

Autor : António Savado
In Mais uma vez as aves. S/c.: Folio Exemplar, 2015, p 19.
Imagem : Omar Ortiz

terça-feira, 19 de janeiro de 2021

Partiste. Eu gelo...


                    


Partiste. Eu gelo os dias 
a conjugar os verbos da ausência - 
modos e tempos da melancolia: 
e com essa certeza vou vivendo. 

E se longinquamente amanheceres, 
se a tua ausência se medir por anos, 
uma nova gramática terei 
d'inventar pois: para vencer desânimos. 

Tu partiste - regressarás talvez, 
e eu preso à solidão mas aguardando 
ouvir teus passos leves no passeio 
(uma igual ilusão... de quando em quando)

Autor António Salvado
IN De Tão Cansada a Esperança seguido de Liames. S/c.: A.23 Edições, 2017, p 98.
Imagem : Victor Bauer

terça-feira, 15 de setembro de 2020

A Palavra


Não sei que é feito delas: as palavras 
para onde fugiram ? recolheram
a que lugar distante… e, sem as ver,
sinto um vazio em mim feito de nada.

À minha beira permanecem sempre
à espera que eu as chame ao meu convívio - 
e ei-las ali silenciosamente 
aguardando de mim o desafio.

E relanço o olhar à minha volta 
e mesmo tu me surges tão diáfana
que já nem sei se tu, tempo sem horas, 
só foste em minha vida vã palavra.

Autor : Antonio Salvado
Imagem: Alex Stoddard

quinta-feira, 9 de julho de 2020

Ensina-me a ouvir

Ensina-me a ouvir __ trinar os cantos
que soaram ditosos no passado:
essa harmonia que raiava quando
os gritos de crianças alcançavam
o céu que os acolhia __ deleitando-se.
Ensina-me a estender as mãos e ver
caírem nelas a brilharem estrelas
e espalhá-las depois pelos canteiros
do jardim tão florido e que no meio
tinha lagos, repuxos, cisnes tersos.
Ensina-me contando onde se cruzam
as ilusões __desilusões vividas
com frágeis confianças: que procuro
lembrar e perceber no farto livro
que fui ‘screvendo ainda que confuso.
Mas não te vou pedir que me devolvas
os cantos, as estrelas, o jardim
com lagos __ cisnes __ delicadas flores:
o que de mim agora se aproxima
é, no meio do livro, as secas folhas.
.
Autor : António Salvado
(Castelo Branco, n. 1936)
in “Repor a Luz”, Editora Fólio Exemplar, Lisboa, 2011
Imagem : Arno Rafael Minkkinen

terça-feira, 12 de maio de 2020

As folhas já começam a cobrir


As folhas já começam a cobrir
o bosque, mãe, do teu outono puro...
São tantas as palavras deste amor
que presas os meus lábios retiveram
pra colocar na tua face, mãe!...

Continuamente o bosque se define
em lividez de pântanos agora,
e aviva sempre mais as desprendidas
folhas que tornam minha dor maior.
No chão do sangue que me deste, humilde
e triste, as beijo. Um dia pra contigo
terei sido cruel: a minha boca,
em cada latejar do vento pelos ramos,
procura, seca, o teu perdão imenso...

É noite, mãe: aguardo, olhos fechados,
que uma qualquer manhã me ressuscite!...

Autor: António Salvado
in "Difícil Passagem"

quinta-feira, 23 de abril de 2020

Nostalgia

A pequena flor

só que além nasceu
sonhou ser maior:
nada lhe valeu...

Na cova esquecida,
sol que desejou
não a bafejou,
bastarda da vida...

E era flor ou gente?
Esquecida imperfeita
numa dor silente
ali jaz desfeita!

Autor  : António Salvado
 in "Tropos"