Mostrar mensagens com a etiqueta Adriana Lisboa. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Adriana Lisboa. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

A saudade

a saudade não é da ordem do tempo

mas sim do espaço
não se trata de querer
rever revisitar reencontrar
(reiteração de verbos
num infinitivo infinito)
mas de algo da equipe do corpo
seu acervo de cheiro e ruído
seu buquê de seiva e voz
a saudade é da ordem do espaço
vago e é sempre hoje
e é hoje sempre
nesse seu breu
escavado
sabe-se como
debaixo das barbas do sol

Autor : Adriana Lisboa.
Imagem : TJ -Drysdale

quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

Palavra eu

 


súbito vem o desejo
de um poema em que não caiba
a palavra eu

mas ela desconfiada
salta para dentro da pura
intenção: haverá sabotagem
nesse ao redor
nesse céu de tanto azul
nessa mosca pesada e lúdica
batucando na janela?

tantas coisas prescindem
de mim
tudo é maior do que eu
e no entanto
este instante
em que se pensa isto
em que se escreve isto —
será menos do que
inequivocamente meu?

Autor : Adriana Lisboa.
Imagem Elena Kalis

sexta-feira, 24 de outubro de 2025

rés-do-chão

 

no fundo de cada coisa
o raso
no vasto de cada coisa
o ínfimo
no descampado o íntimo na nudez
um nem atinar com ela
no reles de cada coisa
o tudo dela
vida em revoada

no raso de cada coisa
o cavo
no ínfimo de cada coisa
sua extensão
no descompassado o ritmo na embriaguez
uma espécie de rés-do-chão

em meio metro
de qualquer coisa
um deus descalço
e bom

Autor : Adriana Lisboa.
Imagem : amber hortelano

sexta-feira, 16 de junho de 2023

A uma Calça Jeans

Eu te peço desculpas pela
lambança da bainha
pesquisei o passo

a passo mas a agulha é muito

pequena a linha é muito fina
e minhas mãos se impacientam demais
outras calças que tive no passado
desfrutaram da costura contemplativa
que minha mãe lograva — talento que não
herdei embora tenha tentado (agulhas
de tricô aos dez anos inclusive)
minha destreza não passa
de um emaranhado de linhas
para a emergência de um botão
sinto muito calça jeans
parece que seguiremos
tropeçando juntas em nossas
costuras mal-ajambradas
enquanto ainda coubermos uma na outra
e o tempo
condoído
ainda couber em nós

Autor : Adriana Lisboa
Imagem : Anil Saxena

sexta-feira, 19 de maio de 2023

A função das coisas


Nos objetos fabricados pelos tuaregue
com seus poucos recursos
para o uso cotidiano
bolsas
selas de camelo
tendas
seria de se supor alma seca
alinhavada pela funcionalidade
no entanto eles os fabricam
intrincados
coloridos
lindos
com seus poucos recursos
cunhando
do deserto
um carnaval

Autor : Adriana Lisboa

sexta-feira, 14 de abril de 2023

Espelho Meu


Não sei de quem a marca
que embaça o espelho
essa cicatriz em formato de mão
essa intromissão essa gafe não sei
quem espalmou ali
seu traço
não sei de quem a mão
fantasma que esfuma
o meu rosto o meu tempo o reflexo
que me habituei
a confirmar aqui
não sei quem plantou
na minha cara uma outra
biografia

.. não sei ao certo
mas desconfio que essa neblina
no espelho
seja eu.

Autor : Adriana Lisboa
Imagem :Michelle Ellis

quarta-feira, 18 de janeiro de 2023

Cortina



A cortina se estufa
quarto adentro como se viva
a primeira trovoadareboa lá fora
o cachorro corre e
se esconde na escada
escura
a cortina se estufa
 
como se animada por dentro
da trama do tecido
o fole de um pulmão
que sugere:
nada mais
urgente do que inspirar
este momento
(nada:
nem mesmo um cortejo inteiro
de notícias ou poemas)
este momento
a tempestade em prelúdio
e o sopro
de lilases
que ela traz.

Autor :Adriana Lisboa
Imagem : karen hollingsworth

quarta-feira, 9 de março de 2022

Como Cortar Relações



Às vezes tesoura cega basta
noutros casos é preciso usar os dentes
o fio de uma peixeira a minúcia
de um canivete suíço
às vezes a substância é tão frágil que
com a ideia de um corte se desmancha
noutros casos há que cortar os mares

Autor : Adriana Lisboa
Imagem: Autor Desconhecido

quarta-feira, 21 de outubro de 2020

não sei de quem a mão


não sei de quem a mão
fantasma que esfuma
o meu rosto o meu tempo o reflexo
que me habituei
a confirmar aqui
não sei quem plantou
na minha cara uma outra
biografia

não sei ao certo
mas desconfio que essa neblina
no espelho
seja eu. 

Autor : Adriana Lisboa
Imagem : Monia Merlo