Devia ser sábado, passava da meia-noite. Ele sorriu para mim. E perguntou:
- Você vai para a Liberdade?
- Não, eu vou para o Paraíso.
Ele sentou-se ao meu lado. E disse:
- Então eu vou com você.
Autor : Caio Fernando Abreu
Aqui estão as minhas escolhas do que considero melhor em Poesia,Prosa Poética e Fotografia. Domingo é dia de trabalhos de minha autoria.
Na copa das árvores
nota-se o movimento
que é em ti circunscrito.
Mundo calado na indiferença...
Espectadores apáticos da crueldade
Horrores se criam manipulando a crença
Que se diz libertação na falsidade.
Usam-se os medos para justificar a guerra...
"Os terroristas são os nossos inimigos!"
Espalha-se sangue sem pudor na Terra
Para se enriquecer alguns umbigos!
Tanto jogo escuro oculto
Feito nos bastidores do poder
Para fazer do ódio um culto!
Há uma atmosfera doentia
Não deixem o Amor morrer!!!
A dor que existe é gerada na apatia!...
Ouço-te silêncio.
Diz-me o que sinto
O que anseio
O que me sufoca!
Esta inquietude permanente
Sem razão aparente de ser
O vazio profundo
Do querer e não querer.
Estou aqui
Vou, não sei onde
De onde venho, não recordo!
Nas horas aladas do desencontro
Fecho as pálpebras da vida
Perfumo de tomilho a alma
E parto, nas pétalas dos lírios brancos.
só os jovens e os loucos sabem
que amar-te assim
é um ofício de labaredas.
Quando na memória surges
como neblina com cores,
as luzes de néon da rua
instigam-me, e saio para a noite,
calma e esperançada,
à procura de ti.
E sei:
é desvario
Autor : BeatriceM 10-05-2026
Imagem : Kelly Tan

Meu Deus, me dê a coragem
de viver trezentos e sessenta e cinco dias e noites,
todos vazios da tua presença
Me dê a coragem de considerar esse vazio
como uma plenitude
Faça com que eu seja a tua amante humilde
entrelaçada a ti em êxtase
Faça com que eu possa falar
com este vazio tremendo
e receber como resposta
o amor materno que nutre e embala
Faça com que eu tenha a coragem de te amar,
sem odiar as Tuas ofensas à minha alma e ao meu corpo
Faça com que a solidão não me destrua
Faça com que minha solidão
me sirva de companhia
Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar
Faça com que eu saiba ficar com o nada
e mesmo assim me sentir como se estivesse
plena de tudo
Receba em teus braços o meu pecado de pensar
Onde se diz espiga
leia-se narciso.
Ou leia-se jacinto.
Ou leia-se outra flor.
Que pode ser a mesma.
As flores
são formas
de que a pintura se serve
para disfarçar
a natureza. Por isso
é que
no perfil
duma flor
está também pintado
o seu perfume.
Quem me tranquiliza
sobre o que haverá depois
do caminho palmilhado?
Quem me afasta os fantasmas
que me desabrigam à noite?
Quem me hospeda o medo
que me trespassa o corpo todo…
chega de ser livro de poemas
na próxima encadernação
quero fama e romance
Autor : Liria Porto
Imagem :Ashraful Arefin
há dez anos
que o meu braço esquerdo
queima
dez anos
e na verdade
eu não me lembro
qual braço
mas não esqueço:
dez anos
que alfabetizados
meus ouvidos
na tua língua odienta
afasta de mim
essa saliva
infecta
que desfecho:
disseste
que de mim
nada sobraria
nada
nada de festas
nem traço
(larga do meu braços moço
eu peço
e peço
e peço
e me despeço)
nem fração
dez anos
que ando sobrando
escorrendo
pelos dedos pegajosos
das ruas
de miasmas masculinos
de mim sobrou
quase tudo
menos o medo
Em tempos destruí, sem pretender,
muito do que tinha
e nem sabia.
Sobrou, numa queda de emoções,
um silêncio
em ruínas surdas.
Catei nos destroços de mim
uma réstia de força
para conseguir reerguer-me
do fundo do abismo emocional.
A essência de outrora
ficou com mazelas incuráveis,
mas, ainda assim, recuperei —
e alguma coisa aprendi.
Cravos de Abril
Para os meninos que queiram recordar
o que não viveram
Tinha um cravo na lapela
tinha outro cravo na mão
pus um cravo na janela
e mais um no coração.
Dei cravos a tanta gente
tanta gente os deu a mim
nesse dia de repente
tudo em volta era um jardim.
Dei um cravo ao soldadinho
outro cravo ao capitão
liberdade pão e vinho
e que viva a revolução.
Cravo em verso cravo em prosa
cravo nosso meu e teu
em Maio que é mês da rosa
choveram cravos do céu.
Muito tempo já passou
no que passou desde então
mas o cravo esse ficou
dentro do meu coração.
Passa o tempo e não demora
no que passou desde então
mas o cravo inda cá mora
dentro do meu coração.
Autor : José Fanha
sem caneta nem teclado
de modo mais que perfeito
o mútuo caminho, perfeito
desaguara-nos lado a lado
e os versos que então fluíam
do espaço que era comum
eram o que os dedos de um
na pele do outro escreviam
e nesse onírico contexto
longe e perto, pareceria
que escrevendo em parceria
e de mãos dadas, o texto
o poema então irrompia
na língua viva do tacto
escrito na pele com o tato
do contacto que o escrevia
Veio um tempo de paz
Veio um tempo de guerra
Os comboios não paravam nas estações
As geografias não coincidiam com os mapas
Os meses eram anos
E os anos eram séculos
Veio um tempo de paz
Veio um tempo de guerra
E os soldados não tinham pátria
E as munições eram do mundo inteiro
Os países alargavam-se nas fronteiras
As geografias não coincidiam com os mapas
O amor, uma saudade uma impossibilidade
Os homens e as mulheres já não choravam
As lágrimas secas de tanta pólvora
E as bocas quietas
Sem palavras
Sem gritos
Sem sons
Porque os dias eram cinzentos
E os segundos já não cabiam nos relógios
Um tempo de paz
Um tempo de guerra
Autor : Cecilia Barreira
Nesse mundo farto de poesias
onde somos uma só a viver
há um proveito sublime e constante
em cada verso que vai nos conter
no desabrochar quando brota o olho em flor
nesse tudo pode florescer
na ventania que baila
que dança
a aura
a alma
num renascer tudo de novo
um recomeço
os recomeços são cheios de ilusões
...aos olhos
de uma flor...
que nasce.
Autor : Paulo Eduardo Campos
In “Na Serenidade dos rios que enlouquecem"
Imagem : Viktoria Haack Photography
A dor dos outros
Está fora da janela.
Entristece-nos
Como um ciclo de chuvas
Mas não nos molha os pés
Nem os cabelos.
Por vezes avistamo-la
Na soturna rua
Que a medo atravessamos.
Ou no café
Onde uma mão se estende.
Vamos então ao armário maior
Buscar o dó, a pena.
E ao porta-moedas
Rebuscar uns trocos.
Alguns de nós
Mas poucos, muito poucos,
Guardaram bagas
Que o tempo lhes ditou.
Verdades que hibernaram
No gelo das idades
E germinaram em caverna escura.
Só esses têm a coragem de ver
Que a dor dos outros
É sempre a nossa dor
Que anda em viagem.
E que, curvada,
Ao peso da bagagem
Nos persegue
E procura.
as tuas mãos, ou a tua pele, ou os teus lábios.
o teu olhar. o teu olhar me lembra sempre que
ou o teu cabelo, ou a maneira exacta como
o teu rosto. o teu rosto. ou o teu corpo que
adormece onde o vento não se esqueceu de
ou cada uma das tuas palavras, palavras,
palavras numa língua de céus impossíveis.
Está hoje um dia de vento e eu gosto do vento
O vento tem entrado nos meus versos de todas as maneiras
e só entram nos meus versos as coisas de que gosto
O vento das árvores o vento dos cabelos o vento do inverno o vento do verão
O vento é o melhor veículo que conheço
Só ele traz o perfume das flores só ele traz a música
que jaz à beira-mar em agosto
Mas só hoje soube o verdadeiro valor do vento
O vento actualmente vale oitenta escudos
Partiu-se o vidro grande da janela do meu quarto
Simples gota
dum suor que parece
apenas ansiedade,
mas corre pelo teu rosto
na febre das montanhas,
na loucura dos rios,
dos homens, das cidades,
vim acusar os réus da superfície
à justiça
das tuas tempestades.