quinta-feira, 21 de maio de 2026

...

Kiyo Murakami

Devia ser sábado, passava da meia-noite. Ele sorriu para mim. E perguntou:
- Você vai para a Liberdade?
- Não, eu vou para o Paraíso.
Ele sentou-se ao meu lado. E disse:
- Então eu vou com você.

Autor : Caio Fernando Abreu

quarta-feira, 20 de maio de 2026

Dor


Seu nome esqueci sim
Só dói quando chamo
Por mim

Autor : Alice Ruiz

terça-feira, 19 de maio de 2026

Mudamos esta Noite


Mudamos esta noite
E como tu
eu penso no fogão a lenha
e nos colchões
onde levar as plantas
e como disfarçar os móveis velhos

Mudamos esta noite
e não sabíamos que os mortos ainda aqui viviam
e que os filhos dormem sempre
nos quartos onde nascem

Vai descendo tu
Eu só quero ouvir os meus passos
nas salas vazias.

Autor : António Reis

domingo, 17 de maio de 2026

Ilha


Em mim moram todos os mares do mundo.

Serei ilha inóspita
onde os oceanos eclodem
e onde renasço
a cada maré.

Autor : BeatriceM 17-05-2026
Imagem : Janelle Pietrzark

sábado, 16 de maio de 2026

Na copa das árvores

Na copa das árvores
nota-se o movimento
que é em ti circunscrito.

Autor : Nuno Travanca
Imagem : Gina Vasquez

sexta-feira, 15 de maio de 2026

Começar o dia com os gestos


Começar o dia com os gestos
de minha Mãe:
aquecer a água e o leite
cortar o pão
contra o peito
lavar o prato a chávena o pires
limpar as migalhas da mesa
arrumar
o que está fora do lugar
E de nada disto ficar resto
de letra escrita
Fazer como ela
poemas com gestos
que nascem e morrem na mesma hora
Talvez por isso eternos

Ser modestamente vivo
Cumprir a vida sem porquês nem ambição
Palpitar sem pensar
como o próprio coração

autor : Teresa Rita Lopes
In Cicatriz(1996)

quinta-feira, 14 de maio de 2026

Dores da apatia!

Mundo calado na indiferença...
Espectadores apáticos da crueldade
Horrores se criam manipulando a crença
Que se diz libertação na falsidade.
Usam-se os medos para justificar a guerra...
"Os terroristas são os nossos inimigos!"
Espalha-se sangue sem pudor na Terra
Para se enriquecer alguns umbigos!
Tanto jogo escuro oculto
Feito nos bastidores do poder
Para fazer do ódio um culto!
Há uma atmosfera doentia
Não deixem o Amor morrer!!!
A dor que existe é gerada na apatia!...


Autor : João Bettencourt 15/03/2026
Imagem : Pinterest

quarta-feira, 13 de maio de 2026

Inquietude

Ouço-te silêncio.
Diz-me o que sinto
O que anseio
O que me sufoca!

Esta inquietude permanente
Sem razão aparente de ser
O vazio profundo
Do querer e não querer.
Estou aqui
Vou, não sei onde
De onde venho, não recordo!


Nas horas aladas do desencontro
Fecho as pálpebras da vida
Perfumo de tomilho a alma
E parto, nas pétalas dos lírios brancos.


Autor : Cecília Vilas Boas
In "O Eco do Silêncio
Imagem : Anna O.

terça-feira, 12 de maio de 2026

ofício de labaredas

só os jovens e os loucos sabem
que amar-te assim
é um ofício de labaredas.

Autor : João de Mancelos
Imagem : Alex Stoddard

domingo, 10 de maio de 2026

Alucinação

Quando na memória surges
como neblina com cores,
as luzes de néon da rua
instigam-me, e saio para a noite,
calma e esperançada,
à procura de ti.

E sei:
é desvario 

Autor : BeatriceM 10-05-2026
Imagem : Kelly Tan

sábado, 9 de maio de 2026

Poética

Que é a poesia?
uma ilha
cercada
de palavras
por todos os lados

Que é o poeta?um homem
que trabalha o poema
com o suor do seu rosto
um homem
que tem fome
como qualquer outro
homem.

Autor : Cassiano Ricardo (São José de Campos, Brasil, 
             26/6/1895 – Rio de Janeiro, 14/1/1974)
             Poeta, ensaísta, jornalista, licenciado em Direito.´
Imagem: Logan Zilmer

sexta-feira, 8 de maio de 2026

Um dia virá


Cristina Fornarelli

Um dia virá
em que a minha porta
permanecerá fechada
em que não atenderei o telefone
em que não perguntarei
se querem comer alguma coisa
em que não recomendarei
que levem os casacos
porque a noite se adivinha fresca.

Só nos meus versos poderão encontrar
a minha promessa de amor eterno.

Não chorem; eu não morri
apenas me embriaguei
de luz e de silêncio.

Autor : Rosa Lobato Faria
in A noite inteira já não chega-poesia-1983-2010 Guimarães Editora, 2012

quinta-feira, 7 de maio de 2026

um coração ao longe


Um coração tão branco que pudesse
invadir o mar
um coração como uma onda
ténue contra a areia
um coração ao longe
uma vaga ao longo do oceano
através do céu em direção à falésia
em direção ao mar
um coração onde coubesse
todo o amor
toda a fraternidade
um coração verdadeiro
um coração humano
um coração animal
um coração de ternura
um coração maior onde coubesse
todo o mar
toda a vida
toda a verdade
um coração onde morar

Autor : Rui Prates Esteves

quarta-feira, 6 de maio de 2026

Meu Deus, me dê a coragem

Meu Deus, me dê a coragem
de viver trezentos e sessenta e cinco dias e noites,
todos vazios da tua presença
Me dê a coragem de considerar esse vazio
como uma plenitude

Faça com que eu seja a tua amante humilde
entrelaçada a ti em êxtase
Faça com que eu possa falar
com este vazio tremendo
e receber como resposta
o amor materno que nutre e embala
Faça com que eu tenha a coragem de te amar,
sem odiar as Tuas ofensas à minha alma e ao meu corpo
Faça com que a solidão não me destrua
Faça com que minha solidão
me sirva de companhia

Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar
Faça com que eu saiba ficar com o nada
e mesmo assim me sentir como se estivesse
plena de tudo
Receba em teus braços o meu pecado de pensar

Autor : Clarice Lispector
Imagem : Katerina Plotnikova

terça-feira, 5 de maio de 2026

Pintura


Onde se diz espiga
leia-se narciso.
Ou leia-se jacinto.
Ou leia-se outra flor.
Que pode ser a mesma.

As flores
são formas
de que a pintura se serve
para disfarçar
a natureza. Por isso
é que
no perfil
duma flor
está também pintado
o seu perfume.

Autor : Albano Martins
in "Castália e Outros Poemas"
Imagem : Lizzy Petereit

domingo, 3 de maio de 2026

Conflito

Quem me tranquiliza
sobre o que haverá depois
do caminho palmilhado?

Quem me afasta os fantasmas
que me desabrigam à noite?

Quem me hospeda o medo
que me trespassa o corpo todo… 

Autor : BeatriceM 03-05-2026
Imagem :Adam Bird

sábado, 2 de maio de 2026

Gosto quando me falas de ti...

Gosto quando me falas de ti... e vou te percorrendo
e vou descortinando a tua vida
na paisagem sem nuvens, cenário de meus desejos
[tranqüilos

Gosto quando me falas de ti... e então percebo
que antes mesmo de chegar, me adivinhavas,
que ninguém te tocou, senão o vento
que não deixa vestígios, e se vai
desfeito em carícias vãs...

Gosto quando me falas de ti... quando aos poucos a luz
vasculha todos os cantos de sombra, e eu só te encontro
e te reencontro em teus lábios, apenas pintados,
maduros,
mas nunca mordidos antes da minha audácia.

Gosto quando me falas de ti... e muito mais adiantas
em teus olhos descampados, sem emboscadas,
e acenas a tua alma, sem dobras, como um lençol
distendido,
e descortino o teu destino, como um caminho certo, cuja
primeira curva
foi o nosso encontro.

Gosto quando me falas de ti... porque percebo que te
[desnudas
como uma criança, sem maldade,
e que eu cheguei justamente para acordar tua vida
que se desenrola inútil como um novelo
que nos cai no chão..."

Autor : J. G. de Araújo Jorge
(Do livro "Quatro Damas" 1ª Edição, 1965)
Imagem  : rosie hardy

sexta-feira, 1 de maio de 2026

best seller

 

chega de ser livro de poemas
na próxima encadernação
quero fama e romance

Autor : Liria Porto
Imagem :Ashraful Arefin

quinta-feira, 30 de abril de 2026

decênio

há dez anos
que o meu braço esquerdo
queima


dez anos
e na verdade
eu não me lembro
qual braço

mas não esqueço:

dez anos
que alfabetizados
meus ouvidos
na tua língua odienta

afasta de mim
essa saliva
infecta

que desfecho:
disseste
que de mim
nada sobraria

nada

nada de festas
nem traço

(larga do meu braços moço
eu peço
e peço
e peço
e me despeço)

nem fração
dez anos
que ando sobrando
escorrendo
pelos dedos pegajosos
das ruas
de miasmas masculinos

de mim sobrou
quase tudo
menos o medo


Autor : Anna Clara de Vitto
Poemas do livro “Água Indócil”, editora Urutau, 2019.
Imagem : Omar Ortiz

terça-feira, 28 de abril de 2026

Beijo


quando te beijo o beijo que tu me beijas
é que a flor envolve a terra que toca a flor

e é só a forma de os meus lábios dizerem que sim
e de os teus lábios dizerem que não
que não houve tempo antes de nós

Autor : Vasco Gato
in «Um Mover de Mão», pág. 24

domingo, 26 de abril de 2026

Cair e Reerguer

Em tempos destruí, sem pretender,
muito do que tinha
e nem sabia.

Sobrou, numa queda de emoções,
um silêncio
em ruínas surdas.

Catei nos destroços de mim
uma réstia de força
para conseguir reerguer-me
do fundo do abismo emocional.

A essência de outrora
ficou com mazelas incuráveis,
mas, ainda assim, recuperei —
e alguma coisa aprendi. 

Autor: Beatrice M 26-04-2026
Imagem : Alex Stoddard

sábado, 25 de abril de 2026

Cravos de Abril

Cravos de Abril
Para os meninos que queiram recordar
o que não viveram

Tinha um cravo na lapela
tinha outro cravo na mão
pus um cravo na janela
e mais um no coração.

Dei cravos a tanta gente
tanta gente os deu a mim
nesse dia de repente
tudo em volta era um jardim.

Dei um cravo ao soldadinho
outro cravo ao capitão
liberdade pão e vinho
e que viva a revolução.

Cravo em verso cravo em prosa
cravo nosso meu e teu
em Maio que é mês da rosa
choveram cravos do céu.

Muito tempo já passou
no que passou desde então
mas o cravo esse ficou
dentro do meu coração.

Passa o tempo e não demora
no que passou desde então
mas o cravo inda cá mora
dentro do meu coração.

Autor  : José Fanha

sexta-feira, 24 de abril de 2026

Eva


Eva conhecia o medo inicial, não da solidão, não do pecado, mas de alguma inexistência. Trazia consigo a sensação da inexistência do mundo. Não sabia de onde chegara, e talvez por isso lhe parecesse errado partir.

Ouviu: - Se partires, não regressarás

a lugar algum. Nunca se regressa

partindo.


Autor : Filipa Leal, A Inexistência de Eva
Imagem : Pinterest

quinta-feira, 23 de abril de 2026

Amor de Ontem Hoje e Sempre


Um amor que não morre
é um amor que se alimenta de lembranças.
Um amor que não morre
é um amor que se regozija no presentem
não esquece o passado e suspira pelo futuro.

Amor, humores, rumores
há algo sempre aí
haverá algo sempre no ar,
sangrando
a imaginar nossos corpos
a silenciar nossas posses
nossas possessividades
ontem, hoje e sempre.

Queria calar o que morre em mim:
o calor dos seus abraços
a esquiva dos seus olhares
a tempestade que inunda
minhas planícies.

Um amor que não morre
é o encontro com a tua voz, com teu corpo
é um amor que se lança ao futuro
com a única certeza daquilo que foi, é e será:
o amor de uma vida inteira.

Autor : Carlos Eduardo Leal
in A Sede da Mulher (e de um Homem), (editado no Brasil, s/ data)

quarta-feira, 22 de abril de 2026

Atrasos

Sempre olhavas o relógio
E as horas marcadas
Para estar em casa
Quando começava
A despir-me
Olhavas-me cobiçoso
E tocavas-me
Onde sabias
As horas ficavam para trás
(Mas nunca te atrasavas
Em casa)
Atrasavas-te só em mim
No reboliço
Em que deixávamos
Metade de nós

Autor : Paula Raposo 
Imagem Pinterest

terça-feira, 21 de abril de 2026

Primeiro foste um nome

ira zhuyka dzhul

Primeiro foste um nome, 
depois um corpo 
que se anunciou aos meus olhos, 
por fim fizeste-te ouvir 
na voz com que me acariciaste… 
Voaste para mim inteira. 
Nesse momento percebi, 
abrias as asas para me abraçar.

.
autor : albino santos

domingo, 19 de abril de 2026

Veto

Quis ser presença,
mas o que ofereci
de nada valeu.

Fiquei a contar as contas
de um rosário
numa prece que nem Deus acolheu.

Autor : BeatriceM 19-04-2026
Imagem : André Bird

sábado, 18 de abril de 2026

...

sem caneta nem teclado
de modo mais que perfeito
o mútuo caminho, perfeito
desaguara-nos lado a lado
e os versos que então fluíam
do espaço que era comum
eram o que os dedos de um
na pele do outro escreviam
e nesse onírico contexto
longe e perto, pareceria
que escrevendo em parceria
e de mãos dadas, o texto
o poema então irrompia
na língua viva do tacto
escrito na pele com o tato
do contacto que o escrevia

Autor : António Gil
Imagem : Pnterest

sexta-feira, 17 de abril de 2026

Quando eu morrer


Peter Brownz Braunschmid

Quando eu morrer, não digas a ninguém que foi por ti.
Cobre o meu corpo frio com um desses lençóis
que alagámos de beijos quando eram outras horas
nos relógios do mundo e não havia ainda quem soubesse
de nós; e leva-o depois para junto do mar, onde possa
ser apenas mais um poema - como esses que eu escrevia
assim que a madrugada se encostava aos vidros e eu
tinha medo de me deitar só com a tua sombra. Deixa

que nos meus braços pousem então as aves (que, como eu,
trazem entre as penas a saudades de um verão carregado
de paixões). E planta à minha volta uma fiada de rosas
brancas que chamem pelas abelhas, e um cordão de árvores
que perfurem a noite - porque a morte deve ser clara
como o sal na bainha das ondas, e a cegueira sempre
me assustou (e eu já ceguei de amor, mas não contes
a ninguém que foi por ti). Quando eu morrer, deixa-me

a ver o mar do alto de um rochedo e não chores, nem
toques com os teus lábios a minha boca fria. E promete-me
que rasgas os meus versos em pedaços tão pequenos
como pequenos foram sempre os meus ódios; e que depois
os lanças na solidão de um arquipélago e partes sem olhar
para trás nenhuma vez: se alguém os vir de longe brilhando
na poeira, cuidará que são flores que o vento despiu, estrelas
que se escaparam das trevas, pingos de luz, lágrimas de sol,
ou penas de um anjo que perdeu as asas por amor.

Autor: Maria do Rosário Pedreira

quinta-feira, 16 de abril de 2026

A esperança é um barco

A esperança é um barco
A luz
é uma viagem


Autor : Alberto de Lacerda
Imagem : Pinterest

quarta-feira, 15 de abril de 2026

UM TEMPO DE PAZ, UM TEMPO DE GUERRA

 

Veio um tempo de paz
Veio um tempo de guerra
Os comboios não paravam nas estações
As geografias não coincidiam com os mapas
Os meses eram anos
E os anos eram séculos
Veio um tempo de paz
Veio um tempo de guerra
E os soldados não tinham pátria
E as munições eram do mundo inteiro
Os países alargavam-se nas fronteiras
As geografias não coincidiam com os mapas
O amor, uma saudade uma impossibilidade
Os homens e as mulheres já não choravam
As lágrimas secas de tanta pólvora
E as bocas quietas
Sem palavras
Sem gritos
Sem sons
Porque os dias eram cinzentos
E os segundos já não cabiam nos relógios
Um tempo de paz
Um tempo de guerra

Autor : Cecilia Barreira

terça-feira, 14 de abril de 2026

Olhar

        

Nesse mundo farto de poesias
onde somos uma só a viver
há um proveito sublime e constante
em cada verso que vai nos conter
no desabrochar quando brota o olho em flor
nesse tudo pode florescer
na ventania que baila
que dança
a aura
a alma
num renascer tudo de novo
um recomeço
os recomeços são cheios de ilusões
...aos olhos
de uma flor...
que nasce.

Autor : AA
Albino Alves do facebook do autor
Imagem :Silena Lambertini

domingo, 12 de abril de 2026

Questão


Olhando o horizonte, sento-me
na beira do banco de madeira,
à espera do entardecer.

Diz-me, no seio da maresia,
porque o cair da tarde
me devolve esta calma serena.

Autor :  Beatrice M 12-04-2026
Imagem : Anna Derzhanovskaya

sábado, 11 de abril de 2026

Em cada sorriso que fazes


Em cada sorriso que fazes
Transparece a criança
Que guardas em ti.
Nasce uma madrugada
Em cada estrela que olhas
Quando os meus olhos,

Perdidos,
Fixam o teu olhar.

Autor : Paulo Eduardo Campos
In “Na Serenidade dos rios que enlouquecem"
Imagem : Viktoria Haack Photography

quarta-feira, 8 de abril de 2026

A dor dos outros

A dor dos outros
Está fora da janela.
Entristece-nos
Como um ciclo de chuvas
Mas não nos molha os pés
Nem os cabelos.
Por vezes avistamo-la
Na soturna rua
Que a medo atravessamos.
Ou no café
Onde uma mão se estende.
Vamos então ao armário maior
Buscar o dó, a pena.
E ao porta-moedas
Rebuscar uns trocos.
Alguns de nós
Mas poucos, muito poucos,
Guardaram bagas
Que o tempo lhes ditou.
Verdades que hibernaram
No gelo das idades
E germinaram em caverna escura.
Só esses têm a coragem de ver
Que a dor dos outros
É sempre a nossa dor
Que anda em viagem.
E que, curvada,
Ao peso da bagagem
Nos persegue
E procura.


Autor : Isabel Fraga,
In_ Música das Esperas (Lua de Marfim, 2013)
Imagem : Rosie Hardy

terça-feira, 7 de abril de 2026

depois do amor


às vezes, depois do amor, 
quando feras dóceis rondam o nosso sono, 
e afastam os passos dos teus amantes, 

às vezes, quando me encosto à nudez, exausto, 
e tomo o peso às tuas palavras, 
e fico sempre devedor, 

às vezes, quando me inventas um nome 
para que a madrugada chegue 
e eu não tenha de morrer nunca mais, 

às vezes, penso no deus que te perdeu, 
e choro, às escondidas, por ele. 

Autor : João de Mancelos 
Imagem : Alex Stoddard

domingo, 5 de abril de 2026

Eu tenho um sonho


No ventre do vento
traz-me
um pássaro
com um ramo de oliveira
no bico —
na plenitude do seu mito…

Autor :  BeatriceM 05-04-2026
Imagem :  Pinterest

sábado, 4 de abril de 2026

Palavras

as tuas mãos, ou a tua pele, ou os teus lábios.
o teu olhar. o teu olhar me lembra sempre que

ou o teu cabelo, ou a maneira exacta como
o teu rosto. o teu rosto. ou o teu corpo que
adormece onde o vento não se esqueceu de

ou cada uma das tuas palavras, palavras,
palavras numa língua de céus impossíveis.

Autor : José Luís Peixoto
Imagmem : Jovana Rikalo

sexta-feira, 3 de abril de 2026

A minha história

 

A minha história
é outra
E começa agora
Estou sempre
a começar

Autor : Adília Lopes

quinta-feira, 2 de abril de 2026

E eu gosto do vento



Está hoje um dia de vento e eu gosto do vento
O vento tem entrado nos meus versos de todas as maneiras
e só entram nos meus versos as coisas de que gosto
O vento das árvores o vento dos cabelos o vento do inverno o vento do verão
O vento é o melhor veículo que conheço
Só ele traz o perfume das flores só ele traz a música
que jaz à beira-mar em agosto
Mas só hoje soube o verdadeiro valor do vento
O vento actualmente vale oitenta escudos
Partiu-se o vidro grande da janela do meu quarto


Autor : Ruy Belo
Imagem : Brooke Shaden

quarta-feira, 1 de abril de 2026

E de novo a armadilha dos abraços

E de novo a armadilha dos abraços.
E de novo o enredo das delícias.
O rouco da garganta, os pés descalços
a pele alucinada de carícias.
As preces, os segredos, as risadas
no altar esplendoroso das ofertas.
De novo beijo a beijo as madrugadas
de novo seio a seio as descobertas.
Alcandorada no teu corpo imenso
teço um colar de gritos e silêncios
a ecoar no som dos precipícios.
E tudo o que me dás eu te devolvo.
E fazemos de novo, sempre novo
o amor total dos deuses e dos bichos.

Autor . Rosa Lobato Faria
Imagem : Pinterest

terça-feira, 31 de março de 2026

13

 

Simples gota
dum suor que parece
apenas ansiedade,
mas corre pelo teu rosto
na febre das montanhas,
na loucura dos rios,
dos homens, das cidades,
vim acusar os réus da superfície
à justiça
das tuas tempestades.


Autor : Carlos de Oliveira
 in :descida aos infernos
Imagem : Pinterest

domingo, 29 de março de 2026

Vazios de Presença



não é o silêncio que me despe

são as saudades errantes
que me infestam as noites
de sentimentos inconfessáveis
e vazios de presença

não é o silêncio que me veste 

Autor: BeatriceM 
Imagem : Adam Bird

sábado, 28 de março de 2026

Sabes,

Sabes, leitor, que estamos ambos na mesma página
E aproveito o facto de teres chegado agora
Para te explicar como vejo o crescer de uma magnólia.
A magnólia cresce na terra que pisas – podes pensar
Que te digo alguma coisa não necessária, mas podia ter-te dito, acredita,
Que a magnólia te cresce como um livro entre as mãos. Ou melhor,
Que a magnólia – e essa é a verdade – cresce sempre
Apesar de nós.

Esta raiz para a palavra que ela lançou no poema
Pode bem significar que no ramo que ficar desse lado
A flor que se abrir é já um pouco de ti. E a flor que te estendo,
Mesmo que a recuses
Nunca a poderei conhecer, nem jamais, por muito que a ame,
A colherei.

A magnólia estende contra a minha escrita a tua sombra
E eu toco na sombra da magnólia como se pegasse na tua mão


Autor : Daniel Faria
In Dos líquidos