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terça-feira, 4 de agosto de 2026

O abismo

Kolja Tatic

Com a sua pele de poço,
pele comprometida com o medo que no fundo fede e a que,
digamos,toda ela adere de uma forma resoluta,
dir-se-ia que se engancha, se pendura,
o branco da memória a alastrar pelo corpo,
um branco tão branco como o das noites em branco
e sobre o qual a idade, exorbitada, hiante, se insinua,
pensos, ligaduras, impregnados de memória,
uma memória onde fulgura a lava dos sentidos que entram
em actividade e lhe disputam os dias idos,
assim ergue a balança,onde sustém o abismo.

Autor : Luis Miguel Nava

terça-feira, 14 de outubro de 2025

Não muita vez nos vemos, mas, se poucos


Não muita vez nos vemos, mas, se poucos
amigos há para falar
dos quais me sirvo de relâmpagos, de todos
é ele o que melhor vai com a minha fome.

Os dedos com que me tocou
persistem sob a pele, onde a memória os move.
Tacteiam, impolutos. Tantas vezes
o suor os traz consigo da memória, que não tenho
na pele poro através
do qual eles não procurem
sair quando transpiro. A pele é o espelho da memória.

Autor : Luís Miguel Nava
In poesia completa (1979-1994). 

quinta-feira, 18 de setembro de 2025

Sem outro intuito


Sem outro intuito
Atirávamos pedras
à água para o silêncio vir à tona.
O mundo, que os sentidos tonificam,
surgia-nos então todo enterrado
na nossa própria carne, envolto
por vezes em ferozes transparências
que as pedras acirravam
sem outro intuito além do de extraírem
às águas o silêncio que as unia.

Autor : Luís Miguel Nava
in Vulcão I

quinta-feira, 28 de agosto de 2025

O céu

Oleg Oprisco


O céu
Assoam-se-me à alma,quem
como eu traz desfraldado o coração sabe o que querem
dizer estas palavras.
A pele serve de céu ao coração.

Autor :Luís Miguel Nava

terça-feira, 17 de junho de 2025

A pele ia imitando o céu como podia

cristophe gilbert

A pele era o que de mais solitário havia no seu corpo.
Há quem, tendo-a metida
num cofre até às mais fundas raízes,
simule não ter pele, quando
de facto ela não está
senão um pouco atrasada em relação ao coração.
Com ele porém não era assim.
A pele ia imitando o céu como podia.
Pequena, solitária, era uma pele metida
consigo mesma e que servia
de poço, onde além de água ele procurara protecção.

Autor : Luís Miguel Nava

terça-feira, 8 de abril de 2025

Os nós da escrita

 Viktor Sheleg

Escrever é, para mim, tentar desfazer nós, embora o que na realidade acabo sempre por fazer seja embrulhar ainda mais os fios. A própria caligrafia é sufocada.
Há, todavia, um momento em que as palavras são cuspidas, saem em borbotões, e o sangue e a saliva impregnam o sentido. É impossível separá-los.
Por trás talvez não haja mesmo nada. São palavras que não estão ginasticadas, que secam e encarquilham como folhas por que a seiva já não passe.
Oprimem toda a página, através da qual deixa de ser possível respirar. Tapam-lhe os poros. A própria chuva que neles caia não se escoa.

Autor : Luís Miguel Nava

sábado, 22 de março de 2025

A noite



A noite veio de dentro, começou a surgir do interior
de cada um dos objectos e a envolvê-los no seu halo negro.
Não tardou que as trevas irradiassem das nossas próprias
entranhas, quase que assobiavam ao cruzar-nos os poros.
Seriam umas duas ou três da tarde e nós sentíamo-las
crescendo a toda a nossa volta. Qualquer que fosse a pers-
pectiva, as trevas bifurcavam-na: daí a sensação de que,
apesar de a noite também se desprender das coisas, havia
nela algo de essencialmente humano, visceral. Como ins-
tantes exteriores que procurassem integrar-se na trama
do tempo, sucediam-se os relâmpagos: era a luz da tarde,
num estertor, a emergir intermitentemente à superfície das
coisas. Foi nessa altura que a visão se começou a fazer
pelas raízes. As imagens eram sugadas a partir do que
dentro de cada objecto ainda não se indiferenciara da luz
e, após complicadíssimos processos, imprimiam-se nos
olhos. Unidos aos relâmpagos, rompíamos então a custo
a treva nasalada.

Autor:Luis Miguel Nava
in Vulcão IPoesia Completa 1979-1994
Imagem : Rosie Anne Prosser

terça-feira, 7 de janeiro de 2025

As ondas que se encontram


As ondas que se encontram
ainda agora em formação no espírito
dele já não vêm rebentar ao meu.

Por mim não volto a vê-lo, encontros houve
com ele dos quais a alma ficou cheia de dedadas.

Já nem sequer dele quero ouvir falar,
saber que se ele
fosse uma cama estaria por fazer nada me traz
agora além de desconforto.

Autor : Luís Miguel Nava
Poemas, Porto: Limiar, 1987, p.59.
Imagem Anton Gorlin

sábado, 21 de setembro de 2024

os rostos náufragos

peter brownz braunschmid

A substância do deserto é a do mar, que dele difere apenas pelo grau de apuramento. O mar surge no termo dum processo em que o deserto é uma das fases ou, mais concretamente, a sua cristalização. Se se atender a que o lugar onde esse apuramento se produz é o nosso espírito, não poderão causar qualquer estranheza factos como, por exemplo, o de a presença do deserto ser notada por quem, como os marinheiros, tenha um íntimo contacto com o mar.
O que eu do mar conheço, devo-o contudo, mais do que a qualquer outra experiência, a corpos onde a nitidez das suas águas ultrapassa muitas vezes a dos próprios traços fisionómicos; não raro, basta uma leve carícia, ou outro contacto ainda mais discreto, para sentir como são avassaladoras essas águas, à superfície das quais parecem prestes a afundar-se os rostos náufragos.
Não obstante, também já eu me apercebi da clandestina presença do deserto, o que me leva a compará-lo àquela roupa que persiste em irromper na pele de quem por isso nunca por completo se consegue desnudar.

Autor  : Luís Miguel Nava
O Céu Sob as Entranhas

sábado, 6 de janeiro de 2024

Os dedos

 

Os dedos com que me tocou
persistem sob a pele, onde a memória os move.
Tacteiam, impolutos. Tantas vezes
o suor os traz consigo da memória, que não tenho
na pele poro através
do qual eles não procurem
sair quando transpiro.A pele é o espelho da memória.

Autor : Luís Miguel Nava
Imagem :Omar Ortiz

quinta-feira, 30 de novembro de 2023

No Fogo da Memória

Começa-se o silêncio a desenhar
nos interstícios da carne, a que se prendem
imagens que no fogo
lento da memória se apuraram
de dia para dia e que o passado
nos serve agora como uma iguaria.

Autor :Luís Miguel Nava
Imagem : Korinne Bisig

quinta-feira, 9 de novembro de 2023

Basalto


Agora que se o mar ainda
rebenta é por acção da memória, arrancam-me
basalto ao coração ondas fortíssimas.

Ainda o vejo às vezes por aí, olhamo-nos
então como se à boca
mas pouco há a dizer acerca disso.

Autor : Luís Miguel Nava
Imagem : Mika Suutari

quinta-feira, 21 de setembro de 2023

Retrato

A pele era o que de mais solitário havia no seu corpo.
Há quem, tendo-a metida
num cofre até às mais fundas raízes,
simule não ter pele, quando
de facto ela não está
senão um pouco atrasada em relação ao coração.
Com ele porém não era assim.
A pele ia imitando o céu como podia.
Pequena, solitária, era uma pele metida
consigo mesma e que servia
de poço, onde além de água ele procurara protecção.

Autor : Luís Miguel Nava
Imagem : David Talley

quinta-feira, 19 de janeiro de 2023

A Fome

 

 Aqui, onde a mão não
alcança o interruptor da vida, aqui
só brilha a solidão.
Desfazem-se as lembranças contra os vidros.

Aqui, onde a brancura
dum lenço é a brancura do infortúnio,
aqui a solidão
não brilha, apenas
se estorce.

A fome fala através das feridas.

Autor : Luís Miguel Nava. 
Imagem Mary Parker


sábado, 17 de dezembro de 2022

Paisagens

São outras as paisagens quando alguém
as vê pelas janelas do seu próprio coração ou quando
com esse coração
a própria estrada está comprometida.

Autor : Luís Miguel Nava,
Imagem: evan atwood

quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

Paisagem Citadina


A pele por fulgurantes
instantes muitas vezes abre-se até onde
seria impensável que exercesse
com tão grande rigor o seu domínio.

Não temos então dela senão rápidas
visões, onde os reclames
do coração se cruzam, solitários
e agrestes, reflectidos

por trás nos ossos empedrados.
Em certas posições vêem-se as cordas
do nosso espírito esticadas num terraço.

A roupa dói-nos porque, embora
nos cubra a pele, é dentro
do espírito que estão os tecidos amarrados.

Autor : Luís Miguel Nava, in 'O Céu Sob as Entranhas'
Imagem :Ilya Kisaradov

sábado, 17 de outubro de 2020

Através da Nudez

Este garoto é fácil compará-lo a um campo de relâmpagos 
encarcerando um touro. Através da nudez vêem-se os astros. 
É onde o poema interioriza 
a sua própria hipérbole, a paisagem. 

Movem-se os tigres como câmaras na areia, prontos eles 
também a deflagrarem. A manhã 
espanca a praia, é impossível descrevê-la sem falar 
dos fios deste poema 
que a cosem com a paisagem 

Autor :Luís Miguel Nava 
Imagem : Tyler Rayburn

sábado, 21 de outubro de 2017

Dois rios

Elizabet Gadd

O corpo dividido em duas partes
fechadas
à chave uma na outra, avanço
num duplo coração como se fosse
ao mesmo tempo num só barco por dois rios.

Autor : Luis Miguel Nava

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Dois Rios


Kylli Sparre

O corpo dividido em duas partes
fechadas
à chave uma na outra, avanço
num duplo coração como se fosse
ao mesmo tempo num só barco por dois rios.

Autor : Luís Miguel Nava
in O CÉU SOB AS ENTRANHAS (Limiar, 1989)



domingo, 18 de março de 2012

Falesias


Poder-me-ão encontrar, trago um rapaz na minha
memória, a casa a uma janela
da qual o faço vir como um sabor à boca,
falésias onde o aguardo à hora do crepúsculo.

Regresso assim ao mar de que não posso
falar sem recorrer ao fogo e as tempestades
ao longe multiplicam-nos os passos.
Onde eu não sonhe a solidão fá-lo por mim.
.
Autor : Luís Miguel Nava
Foto : The Professor