terça-feira, 30 de novembro de 2021

Com a Minha Mão


Com a minha mão que ainda escrevia, toquei a
sua face
e estremeci.

Quebraram-se os cálices, os espelhos, as lâmpadas
que iluminavam a minha idade,
a minha vida.

Alguém gritou, de repente,
e a sua voz profunda golpeou para sempre o
adormecimento das casas.

O cisne disse a última palavra no lago à
deriva,
e o tigre preparou o salto quando nos seus
olhos se acenderam dois archotes.

Os cordeiros do quinto mês
procuraram, em pânico, os redis do anoitecer.

Com a minha mão que ainda ardia, toquei
a sua lã,
que mais tarde teria a cor do sangue,
a cor do medo na sua alma.

Caminhei pelos campos vermelhos,
pouco depois do extermínio.
Parei, perplexo, sem dizer nada,
sem ser capaz de olhar outra vez o coração das
trevas.

Estás perdido, ouvi ao longe,
à saída da floresta,
estás perdido nos labirintos que te perseguem
durante o sono.

Com a minha mão que ainda arde, escrevo,
esqueço,
sou aquele que parte.

Autor _: José Agostinho Baptista In Esta Voz É Quase o Vento
Imagem :Maria Magdalena Oosthuizen

domingo, 28 de novembro de 2021

Recolhimento

 
Nada me leva a sair deste círculo,
em que esquecida de todos me isolei,
nesta casa tão perfeita,
e tão quebrantada de afectos,
daqui a dias, é novamente Natal,
para mim será apenas mais um dia,
como todos os outros,
em que a saudade e a solidão,
estarão comigo de mãos dadas.

Autor : BeatriceM 28-11-2021
Imagem :Erika Hopper

sábado, 27 de novembro de 2021

Perder a manhã

 


Perder a manhã
assim:
no eco profundo
do verdilhão distante
caindo doce
como cascata de flores

no voo enlaçado
de duas borboletas
enamoradas

na dança lenta
de ramos floridos
cedendo à sedução
da brisa

Perder assim
a manhã e o corpo
deixando um sorriso
ganhar asas
e pela graça do sol
ser malmequer de luz

Autor : Pedro BeloClara

sexta-feira, 26 de novembro de 2021

O Passado


Débil luz surgindo no céu
de súbito entre
dois galhos de pinheiro, as finas agulhas

recortadas agora sobre a superfície radiosa
e acima disto
o alto céu emplumado –

Cheira o ar. Este é o cheiro do pinheiro branco,
sobretudo intenso quando o vento passa por ele
e o som que faz é igualmente bizarro,
como o som do vento num filme –

Sombras movendo-se. Produzem as cordas
o som costumeiro. O que ouves agora
será o som do rouxinol, chordata,
o pássaro macho a cortejar a fêmea –

As cordas agitam-se. A rede
balouça no vento, bem
amarrada entre dois pinheiros.

Cheira o ar. Este é o cheiro do pinheiro branco.

É a voz da minha mãe que ouves
ou tão-só o som que fazem as árvores
quando o ar passar por elas

pois que som faria
o passar por nada?

Autor : Louise Glück
Imagem :Julian Calverley

quinta-feira, 25 de novembro de 2021

PLÁTANOS



Depois de ter fechado tudo, abro de novo a porta
e corro, cambaleante, para a vazia escuridão
assusta-me a certas horas a companhia
do que não adormece
a resistência disso
que permanece no nosso espaço
movido por outras forças

Mas também acontece acender primeiro a luz
e só depois sentir um medo louco da casa que me acolhe
dos seus redemoinhos imperceptíveis
que julgo cada vez mais perto
como se estivesse para ser morto
às mãos do próprio Deus

Não sei bem acordar vivo destas coisas:
por vezes aproveito o ruído do entardecer e grito muito alto
ou deixo-te um instante só (um instante só)
para fechar os olhos que tanto ardem
ou atiro das margens folhas ao rio
para medir o tempo de uma vida
a naufragar

Autor  :José Tolentino Mendonça

quarta-feira, 24 de novembro de 2021

Podias obedecer a um registo de perder

  

Podias obedecer a um registo de perder
o respeito, levantar a saia se a tivesses,
alçar a perna se cão fosses, mandar à merda
quem vem socorrer-te da vida e te decepa os dedos.

Com um rigor de artilharia que amortece o cansaço,
o combate quase sereno. De vez em quando,
fazes a conta de cor e dizes apesar de tudo, inspiras-me,
e não queres saber muito mais do que isto.

Estás na vida com na montra alguns relógios,
parado, e pensas numa sepultura no mar, tudo
menos esta terra, tudo menos uma corda, tudo menos
viver a pulso e ter de sacudir a chuva contra o casaco.

Os dias sem prognóstico, vivendo apenas para
esperar a madrugada, e que ela venha como cortejo
e aprendas a ficar.

Autor :  Marta Chaves
Imagem : Annegien Schilling

terça-feira, 23 de novembro de 2021

Gosto das noites frias de inverno

 


Gosto das noites frias de inverno
quando não estás. Escuto
canções de homens cansados de cantar
e vejo como a solidão
se dispersa no fogo lento da lareira.
Ou releio poemas que me falam das águas
do coração e das suas marés,
amontoo pratos e talheres no lava-loiça,
abro a última garrafa
de um vinho precioso.

Nas outras noites de inverno,
quando estás, nada de semelhante acontece.
A casa mantém-se sóbria, silenciosa,
perplexa. Por isso, desligo as luzes
e ponho-me a seguir os traços
contínuos do teu rosto no escuro,
depois da morte de deus
parece impossível mas a luz irrompe ainda
onde nenhum sol brilha.

Autor : Luís Filipe Parrado
Imagem : christiane vleugels

domingo, 21 de novembro de 2021

Anotações


Desaprendi, tanta coisa que não queria ter aprendido
nem experimentado
agora porta de casa já não fica destrancada
e cá dentro o frio é cada vez maior
mesmo que o aquecedor esteja ligado.

Penso que por vezes uma palavra apenas
me aqueceria senão o corpo
pelo menos o coração
mas tudo o passado levou
e nem migalhas deixou.

Ainda tenho a TV,
a gata sabes, morreu um dia destes!

Autor : BeatriceM 21-11-2021
Imagem : Christine Elgger

sábado, 20 de novembro de 2021

Dá-me a tua mão



Dá-me a tua mão.
Deixa que a minha solidão
prolongue mais a tua
- para aqui os dois de mãos dadas
nas noites estreladas,
a ver os fantasmas a dançar na lua.
Dá-me a tua mão,companheira,
até o Abismo da Ternura Derradeira.

Autor : José Gomes Ferreira
Imagem António Macedo (Pintor)

sexta-feira, 19 de novembro de 2021

50 anos

 

Talvez escreva
poemas
que já li
que outros já escreveram
que eu mesma já escrevi
esqueço-me
da minha vida

Autor : Adilia Lopes
Imagem : Natasha Bieniek

quinta-feira, 18 de novembro de 2021

Sonhos Irreais


Dentro da noite, meu sonho voa sem destino
Sem rumo, procurando no além encontrar-te
Sem descanso, num trilho duro, clandestino
A fim de doar meu coração que quer amar-te

Sonha o meu coração durante noites serenas
Embora sangrando pelas feridas da saudade
Fantasias das noites tranquilas e tão amenas
Girando na utopia, das palavras de verdade

Nesse sonho, meu coração, sente-se amante
De um outro coração que por douto instante
Surge no sonho mas já perdeu a razão de ser

Porque se tem que sonhar um anseio irreal
Quando é um pesadelo e nos gera tanto mal
E se acorda sentindo nosso coração a sofrer

Autor :  R y k @ r d o
https://pensamentosedevaneiosdoaguialivre.blogspot.com/
Imagem : Alexei Antonov

quarta-feira, 17 de novembro de 2021

Que é feito de mim

Perdi-me de todas as trovas
num mar de azuis angústias
meus olhos amanhecem cinzas
entardecem sentinelas
e de noite são janelas
negras asas de andorinhas
que vivem voando em rondas
dando gritos, inquietas
dando voltas sobre voltas

Que é feito daquelas asas
em que voava, voavas?

Autor : Maria Petronilho
Imagem : Annegien Schilling

terça-feira, 16 de novembro de 2021

hoje tive um sonho

hoje tive um sonho
que não era meu

(talvez seja teu).

que queres que faça com ele?

talvez deixá-lo
pousado no travesseiro
a adornar-te o rosto
num beijo como o primeiro.

Autor : LuísM Castanheira 04-09-2021
Imagem :Adam Bird

domingo, 14 de novembro de 2021

Sem retorno

Vais deixando cada vez mais longínquo
o caminho de retorno
escasseiam as palavras faladas
ou simplesmente escritas.

Agora os dias escurecem mais apressadamente
e as noites são cada vez mais longas
vai passando o tempo progressivamente
e amanhã mesmo que o sol desponte.

Já não trará o calor do teu abraço.

Autor : BeatriceM 2021-11-14
Imagem : Nikolay Tikhomirov

sábado, 13 de novembro de 2021

Teu Corpo

 

Teu corpo
é como um
rio sem margens!
Por isso
o percorrerei
sem tréguas
infinitamente!
E então,
seremos um!

Autor : Delmar Maia Gonçalves

sexta-feira, 12 de novembro de 2021

Efemer__idade

 

O passar dos dias põe a cor grisalha
nos meus cabelos.
O tempo escasso é propício
ao esquecimento
e à lonjura da infância.

No meu olhar
e nos meus lábios
a marca da sede.

Eu espero o outono na beira
do abismo.
Choro por instinto só para enxugar a
face em frente ao espelho.

Autor : Solange Firmino
(No livro “Geometria do abismo”)

quinta-feira, 11 de novembro de 2021

Regressarei contigo


regressarei contigo, da noite mais longa,
com as mãos a transbordar de lume,
sabendo que nunca morreremos.
por ti, enfrentarei a chuva, a pólvora,
o deserto, o pânico, o negrume, a cinza,
quando todos os castelos arderem.
pelos teus olhos verei, cego,
nascer a seara azul
na primeira onda da madrugada.
contigo, atravessarei os arcos do futuro,
rumo às planícies onde riem e brincam
as mais belas crianças do infinito.

Poema: João de Mancelos
Imagem : Maria Magdalena Oosthuizen

quarta-feira, 10 de novembro de 2021

Mágoa


Eu que cheguei a ter essa alegria
de junto ao meu possuir teu coração!
Eu que julgava eterna a duração
do voluptuoso amor que nos unia,

sou ‒ apagada a última ilusão,
morto o deslumbramento em que vivia,
‒ um cego que ao lembrar a luz do dia
sente mais negra ainda a escuridão.

Tu me deste a ventura mais perfeita,
perdi-a e dei-te a chama insatisfeita
dessa imensa paixão com que te quis…

Hoje, o que eu sinto, inútil, revoltada,
não é mágoa de ser desgraçada,
‒ é pena de ter sido tão feliz.

Autor : Virginia Vitorino
imagem Erica Hopper

terça-feira, 9 de novembro de 2021

KOLYMBÍTRIA


O absoluto não é ter muitas coisas juntas, Mas
o quase nada que vibra no fim da tarde,
Quando as pedras se iluminam de dentro,
Com já saudades do sol que vai partir.

Autor : Manuel Resende
Imagem :Silas Manhood

domingo, 7 de novembro de 2021

Hoje


hoje,
neste dia balsamizado de outono,
lanço no voo dos pássaros,
todos os sonhos,
que amontoei, e assim
uma parte de mim,
sobrevoará o país dos sonhos.

se calhar,
talvez,na próxima primavera,
talvez,
os pássaros me tragam réstias de uma realidade,
em que os sonhos brilhem novamente,com o seu chilrear em forma de uma sinfonia de Beethoven.
.
Autor : BeatriceM 14-10-2014

sábado, 6 de novembro de 2021

Desalinho


Corri para os teus braços, mas não estavas,
Não dei conta da tua falta ao meu redor,
Por sentir no ar o teu odor, esse pormenor,
O que resistia, mesmo quando t’ausentavas…
Busquei-te p’lo mundo onde t’encontravas,
O que outrora criámos por um bem maior
Por crermos que tal seria para nós melhor,
Tendo-te tal como tu tudo de ti me davas…
Tentei perceber o que havia sucedido,
O que surgira para ter ficado sozinho,
Achando-me sem rumo certo, desiludido,
Mas só vi como motivo deste desalinho
O que nunca, para mim, fará sentido
Sempre que um futuro contigo adivinho…

Autor : Luís Corredoura dixit ©
Imagem : Daniel Del Orfano

sexta-feira, 5 de novembro de 2021

Não te mexas.

 O futuro é perder o equilíbrio,

cair até bater no fundo
de uma insónia hora a hora
interrompida para respirar
à superfície da luz.

Não te mexas, ainda.

Não hesites, não assustes o sonho
pousado em teia sobre ti,
não agites as águas.

E talvez a vida se deixe
ficar à margem
com os seus dias armados de pedras.

Autor : Inês Dias
Imagem : Erica Hopper

quinta-feira, 4 de novembro de 2021

Um lugar antigo ___ encerrado

Sonho-te em tempos de insónia
ou julgo que te sonho.
Sonho-te sempre ausente
em lugares vazios onde chego
onde outrora havia gente
onde fui vivo ___ contigo
há muitos anos
encontro aquelas portas altas
fechadas sobre o pó.
Um lugar onde a minha vida se fez
década sobre década
e tu estiveste naquele lugar
sobre uma nuvem que já era errante
desde há muito e culminou
naquele silêncio depois da revolução.
Subi a todos os andares
bati a todas as portas
ninguém resistiu.
Sonho-te em tempos de insónia
ou julgo que te sonho.
Às vezes penso que aquele lugar
nunca existiu
nem tu.

Autor : Luís Rodrigues-
Imagem : Ilia Kisaradov

quarta-feira, 3 de novembro de 2021

és o mar dos meus sonhos


és o mar dos meus sonhos
inquietos e vastos
como as linhas triangulares
que sublinham o coração
no fundo de nós
crescem margens duplas
triângulos sem voz
segredos que guardamos
na cruz dum templo
sem tempo...
quando estamos sós

Autor : Cristina Fernandes
in, "O Momento Certo"editado 29-2-2020
Imagem : Omar Ortiz

terça-feira, 2 de novembro de 2021

O Livro Fechado

 


Quebrada a vara, fechei o livro
e não será por incúria ou descuido
que algumas páginas se reabram
e os mesmos fantasmas me visitem.
Fechei o livro, Senhor, fechei-o,

mas os mortos e a sua memória,
os vivos e sua presença podem mais
que o álcool de todos os esquecimentos.
Abjurado, recusei-o e cumpro,
na gangrena do corpo que me coube,

em lugar que lhe não compete,
o dia a dia de um destino tolerado.
Na raça de estranhos em que mudei,
é entre estranhos da mesma raça
que, dissimulado e obediente, o sofro.

Aventureiro, ou não, servidor apenas
de qualquer missão remota ao sol poente,
em amanuense me tornei do horizonte
severo e restrito que me não pertence,
lavrador vergado sobre solo alheio

onde não cai, nem vinga, desmobilizada,
a sombra elíptica do guerreiro.
Fechei o livro, calei todas as vozes,
contas de longe cobradas em nada.
Fale, somente, o silêncio que lhes sucede.


Autor : Rui Knopfli, in "O Corpo de Atena"

domingo, 31 de outubro de 2021

Pedido ao Vento


vem, conhecer
a minha cidade
agora que é outono,

quando a tarde se esvai
e o crepúsculo é mais enternecedor,

e não precisas dizer nada
nem sequer,quando olhares
assustado para o meu cabelo
que tingi da cor do poente.
.
Autor : BeatriceM
Imagem : christiane vleugels

sábado, 30 de outubro de 2021

Essa velha ciência

 

Essa velha ciência, a de esperar, escrevê-la
em cadernos retirados a cada viagem. Neles
anotaste os movimentos do mundo, o balanço
do mar. São só velhos, os cadernos; ainda

escreves à mão, ainda respiras por ele,
ciência antiga – onde a conservas? Linha
a linha as viagens vão passando por eles como
um mapa: aqui as ilhas, ali pequenos continentes,

provas de que o mundo não acaba à tua porta
quando o jardim desaparece entre os granitos.
Levantas a voz uma vez por outra, mas não é

isso que te interessa. Gostavas apenas que
os cadernos ficassem, gravados de ti e de quem amas,
guardados em gavetas, guardando o mundo.


Autor : Francisco José Viegas
Imagem :Adam Bird

sexta-feira, 29 de outubro de 2021

Há mulheres que falam em silêncio


Há mulheres que falam silêncio. Enchem a vida como um
batel de sonhos. Se lhes perguntam se querem falar do que
arrastam, respondem que é das gaivotas que preferem falar.
Trocam a terra firme pelo baloiçar das águas. Não têm
âncoras nos barcos, pois é com as mãos e a alma
que querem agarrar as amarras do cais.
Largam abrigos sem consultar as bússolas e os astrolábios
dos navegadores. Não mareiam, deslizam, Não cismam
no que não têm, antes observam as mãos abertas
e encontram-nas vestidas de sonhos.
Aconselham-se com as marés e escutam os peixes
que vêm à tona. Vestem-se para uma festa todas as noites,
mesmo que as noites não se abram ao vento,
Adormecem em almofadas de penas.
Os seus corações não precisam de leme.

Autor : Lília Tavares
In: Bailarinas de corda.
Imagem: Ron di Scenza 

quinta-feira, 28 de outubro de 2021

Adormecer com as estrelas


Adormecer com as estrelas
e um beijo de pétalas
nos lábios semeado
enquanto a lua cintila
no tecto do coração:
é o justo instante
do breve sorriso branco
é a justa imagem
para nos olhos morrer
antes da viagem sem nome
sempre que o dia for
pura embriaguez de luz

Autor : Pedro Belo Clara

quarta-feira, 27 de outubro de 2021

Que sabes tu

Que sabes tu do cântico do leito dos rios
e das águas frescas na vertigem do calor ?
As margens são as varandas, onde no verão
poisam as libelinhas nos beirais dos choupos
em flor.
Vem, não te percas nos caminhos
colhendo o canto das cotovias
que correm de ramo em ramo,
louvando a luz do dia.
E quando chegares ao açude
compara a desdita dos desventurados
com o sussurro das cachoeiras,
rumorejando a alegria das
nascentes distantes,
que mesmo hoje no flagelo da guerra
correm frescas e cantantes como antes.

Autor : Manuela Barroso, in "Luminescências"

terça-feira, 26 de outubro de 2021

com a polpa dos dedos


com
a polpa
dos dedos
abro
o teu sorriso
gota
a
gota

até desmoronar
as vigas
dos meus olhos

Autor : Carlos Nogueira Fino
Imagem: Omar Ortiz


domingo, 24 de outubro de 2021

O Abraço


Enlacei com toda a minha força
a árvore da praça.

Estou louca!

Dirão alguns.

Que importa?

Se a minha loucura é tão mais sã
do que a vossa lucidez.

Autor : BeatriceM 2021-10-24

sábado, 23 de outubro de 2021

Em um retrato

 

De sob o cômoro quadrangular
Da terra fresca que me há-de inumar,

E depois de já muito ter chovido,
Quando a erva alastrar com o olvido,

Ainda, amigo, o mesmo meu olhar
Há-de ir humilde, atravessando o mar,

Envolver-te de preito enternecido,
Como o de um pobre cão agradecido.

Autor : Camilo Pessanha
Imagem : Viktoria Haack

sexta-feira, 22 de outubro de 2021

Arroios


Não há passeio, é uma ponte
de metal verde que nos leva
a casa. Rente ao edifício,
arrancaram as pedras
da calçada – uma a uma.
Escavaram a terra
que ficou, depois.
Os prédios (o número dezoito
e os outros pares) parecem
aguardar o transplante.
Mostram os canos
descobertos: raízes
que os ligam,
a trama subterrânea da cidade.

Autor : Margarida Ferra

quinta-feira, 21 de outubro de 2021

Amei Demais

Madruguei demais. Fumei demais. Foram demais
todas as coisas que na vida eu emprenhei.
Vejo-as agora grávidas. Redondas. Coisas tais,
como as tais coisas nas quais nunca pensei.

Demais foram as sombras. Mais e mais.
Cada vez mais ardentes as sombras que tirei
do imenso mar de sol, sem praia ou cais,
de onde parti sem saber por que embarquei.

Amei demais. Sempre demais. E o que dei
está espalhado pelos sítios onde vais
e pelos anos longos, longos, que passeià procura de ti.
 De mim. De ninguém mais.

E os milhares de versos que rasguei antes de ti, eram perfeitos.
 Mas banais.

Autor : Joaquim Pessoa, in 'Ano Comum'

quarta-feira, 20 de outubro de 2021

nao

não receies os meus medos invisíveis
aqueles que não adormecem
nem na orla dos teus abraços,
tantos que não entendo como ainda
me mantêm acordada no pó da noite,
mas sabes,
a minha boca é o ninho dos pássaros.
não tem sombras pois é pelas tuas asas
que espero em plena luz.


Autor : Lília Tavares
In Evocação das Àguas
Imagem : Mikael Aldo

terça-feira, 19 de outubro de 2021

Uma leitura pública num café de Punta Umbría


Quando leio um poema em voz alta
sinto que as pessoas me olham
como se esperassem uma revelação.
Como se estivessem à espera dos milagres.
E hoje, finalmente, quase cedo à
tentação de explicar os mecanismos
dos milagres. Por exemplo:
eu posso fazer gelo escrevendo apenas
a palavra «gelo». E isso mesmo
faria neste momento
se não temesse que os mais distraídos
usassem o gelos nos copos
altos do gin tónico.

Autor : José Carlos Barros

domingo, 17 de outubro de 2021

Ansiedade

 

Abalei para a rua à procura de nós
a ansiedade cura-se com a ansiedade.

Ando na areia e meus pés sentem o frio do mar
as ondas sinuosas propagam-se e
cessam em o frio gélido da águas salinas mas, eu já nada sinto
ansiosa e descrente.

Eu só consigo abraçar o fogo
que deixaste em mim.

BeatriceM 2021-10-17
Imagem : Rachel Baran

terça-feira, 12 de outubro de 2021

uma nova guerra

e pensar que, depois de desaparecer,
haverá mais dias para os outros, outros dias,
outras noites.
cães a passear, árvores oscilando
ao vento.

não deixarei muita coisa.
algo que ler, talvez.

um rebelde na estrada
devastada.

Paris às escuras.

Autor : Charles Bukowski
Imagem : Ron di Scenza

domingo, 10 de outubro de 2021

Partilha

Não me perguntes quem sou
Não te importes saber de mim
Nem de ti – quando estás aqui
Não te importes saber dos outros
Nem de nós – depois
Ama-me
Assim como estou – agora
Nua e só tua
E depois
Nada interessa
Nem tão-somente
Nós.

Autor : BeatriceM 2011-06-03
Imagem : Matthew Scherfenberg

sábado, 9 de outubro de 2021

Eu gosto das palavras

 


Eu gosto das palavras e do canto
E dos ecos que trazem à lembrança,
Dessas canções de frança e aragança
Que são só sons que cobrem, como um manto,

O que têm que cobrir, porque, entretanto,
Já há, profissional, uma ordenança
A recolher em fichas, sem parança,
O tom, o cheiro, o muco, do seu pranto.

Que cante, e dance, e viva, e morra, e vibre,
Que se desdobre em nervos e minutos,
E seja para sempre eterno e livre

O grito que se ergueu irresoluto
Desse sítio onde o corpo se coíbe
E súbito triunfa do seu luto.

Autor : Manuel Resende
Imagem : David Talley

sexta-feira, 8 de outubro de 2021

Orgulho


És orgulhoso altivo. Também eu.
Nem sei bem qual de nós o será mais,
as nossas forças são rivais:
se é grande o teu poder, maior é o meu.

Tão alto anda este orgulho! Toca o céu.
Nem eu quebro nem tu. Somos iguais.
Cremo-nos inimigos. Como tais
nenhum de nós ainda se rendeu.

Ontem, quando nos vimos frente a frente,
fingiste bem esse ar indiferente…
e eu, desdenhosa, ri, sem descorar…

Mas que lágrimas devo àquele riso!
E quanto, quanto esforço foi preciso
para, na tua frente, não chorar!

Autor : Virginia Vitorino

quinta-feira, 7 de outubro de 2021

Escada de Caracol

a memória é uma escada de caracol
onde tropeçam os nomes e as noites
de todas as raparigas que amei,
e esquecidas ficaram na espiral do tempo,
na curva ansiosa da minha mão,
no voo sem rasto de uma ave.
onde estarão, agora?
quem as beijou, em vez de mim,
em noites de fogo salgado?
ó tempo, deixa-me aguardar na escada
pelos passos, pela chave na fechadura,
pela porta ardente do amor.

Autor : João de Mancelos
In "Poemas". Mundos(s): Coletânea de poesia lusófona, n.º 14. Org. Ângelo Rodrigues. Lisboa: Colibri, 2021.
Imagem Jaroslaw Blamins

quarta-feira, 6 de outubro de 2021

chuva

Chuva nos vidros.
Nada, chuva nos vidros!
Espaçadas, casuais, agudas, oblíquas, agulhadas.
Chuva que se anuncia, que apenas se anuncia.
Pingas que vão secando. Se vão arredondando,
tornando imateriais e invisíveis.
Vagas coisas. Como quê?
Como as coisas da minha vida.
Nem já chuva nos vidros…
Já não de vêem os sinais.

Autor : Irene Lisboa

terça-feira, 5 de outubro de 2021

A morte não é nada

A morte não é nada.
Eu somente passei
para o outro lado do Caminho.

Eu sou eu, vocês são vocês.
O que eu era para vocês,
eu continuarei sendo.

Me dêem o nome
que vocês sempre me deram,
falem comigo
como vocês sempre fizeram.

Vocês continuam vivendo
no mundo das criaturas,
eu estou vivendo
no mundo do Criador.

Não utilizem um tom solene
ou triste, continuem a rir
daquilo que nos fazia rir juntos.

Rezem, sorriam, pensem em mim.
Rezem por mim.

Que meu nome seja pronunciado
como sempre foi,
sem ênfase de nenhum tipo.
Sem nenhum traço de sombra
ou tristeza.

A vida significa tudo
o que ela sempre significou,
o fio não foi cortado.
Porque eu estaria fora
de seus pensamentos,
agora que estou apenas fora
de suas vistas?

Eu não estou longe,
apenas estou
do outro lado do Caminho…

Você que aí ficou, siga em frente,
a vida continua, linda e bela
como sempre foi.”

Santo Agostinho

segunda-feira, 4 de outubro de 2021

Homenagem


Fernando Echevarría
Nome completo Fernando Echevarría Ferreira
Nascimento  26 de Fevereiro de 1929
 Cabezón de la Sal - Espanha
Morte 04 de Outubro de 2021 Porto


Há um vento imóvel que quase transfigura
Em si mesmos os bichos e os homens.
Vemos passar pela floresta a sua
Tepidez de covil. Perto da noite,
Um halo de sentidos sensíveis os circunda
E movem a cautela inaugural da fome.
Ou, se pisam a rua,
Quase que vão por onde
Quando eram reis de uma consciência obscura
A palpitar pelos confins da morte.
Há um vento imóvel. Uma paciência, a crua
Caça. E por onde a encantação dos nomes
Relampagueia, unificando a sua
Nomeação à astralidade do homem.

Fernando Echevarria
Paris, 2 jan. 86

Fernando Echevarría nasceu em 26 de fevereiro de 1929. Publicou seu livro de estreia em 1956, Entre dois anjos. Viveu em França, onde se aproximou dos círculos oposicionistas portugueses aí exilados; daí envolveu-se em vários movimentos de luta revolucionária contra o regime militar português. Só regressou a Portugal depois do 25 de abril. Escreveu ainda títulos como Tréguas para o amor (1958), Sobre as horas (1963) e Ritmo real (1971). Premiado reiteradas vezes, com galardões como o Prêmio Pen Clube, Grande Prêmio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores e Prêmio Nacional de Poesia António Ramos Rosa.