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sábado, 20 de janeiro de 2018

Nocturno

Victor Bauer
O desenho redondo do teu seio
Tornava-te mais cálida, mais nua
Quando eu pensava nele…Imaginei-o,
À beira-mar, de noite, havendo lua…

Talvez a espuma, vindo, conseguisse
Ornar-te o busto de uma renda leve
E a lua, ao ver-te nua, descobrisse,
Em ti, a branca irmã que nunca teve…

Pelo que no teu colo há de suspenso,
Te supunham as ondas uma delas…
Todo o teu corpo, iluminado, tenso,
Era um convite lúcido às estrelas….

Imaginei-te assim à beira-mar,
Só porque o nosso quarto era tão estreito…
- E, sonolento, deixo-me afogar
No desenho redondo do teu peito…

Autor : David Mourão-Ferreira

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Secreta Viagem


No barco sem ninguém, anónimo e vazio,
ficámos nós os dois, parados, de mão dada…
Como podemos só dois governar um navio?
Melhor é desistir e não fazermos nada!

Sem um gesto sequer, de súbito esculpidos,
tornamo-nos reais, e de madeira, à proa…
Que figura de lenda! Olhos vagos, perdidos…
Por entre as nossas mãos, o verde mar se escoa…

Aparentes senhores de um barco abandonado,
nós olhamos, sem ver, a longínqua miragem…
Aonde iremos ter? – Com frutos e pecado,
se justifica, enflora, a secreta viagem!

Agora sei que és tu quem me fora indicada.
O resto passa, passa… alheio aos meus sentidos.
– Desfeitos num rochedo ou salvos na enseada,
a eternidade é nossa, em madeira esculpidos.

Autor : David Mourão-Ferreira

in Obra Completa. Lisboa, Presença, 2006, p. 44.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

E por vezes

Huda Fauzan

E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos

Autor : David Mourão-Ferreira

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

...

josephine cardin

Na penumbra dos ombros é que tudo começa
quando subitamente só a noite nos vê
E nos abre uma porta nos aponta uma seta

para sermos de novo quem deixámos de ser

Autor : David Mourâo-Ferreira
in OBRA POÉTICA (Ed. Presença, 1988)

sexta-feira, 17 de junho de 2016

Paraíso

christian schloer

Deixa ficar comigo a madrugada,
para que a luz do Sol me não constranja.
Numa taça de sombra estilhaçada,
deita sumo de lua e de laranja.

Arranja uma pianola, um disco, um posto,
onde eu ouça o estertor de uma gaivota...
Crepite, em derredor, o mar de Agosto...
E o outro cheiro, o teu, à minha volta!

Depois, podes partir. Só te aconselho
que acendas, para tudo ser perfeito,
à cabeceira a luz do teu joelho,
entre os lençóis o lume do teu peito...

Podes partir. De nada mais preciso
para a minha ilusão do Paraíso.

Autor : David Mourão-Ferreira
in "Infinito Pessoal"

quarta-feira, 2 de março de 2016

Preâmbulo

Galopam cavalos
por dentro do sangue

Em dunas resvalam
a boca e as mãos

Crispam-se as pálpebras
Os dedos se inflamam

ao mais leve toque
na tua garganta

assim que de costas
te deito na cama

Autor : David Mourão-Ferreira

sábado, 31 de outubro de 2015

Tempestades

Brooke Shaden

São de nada
 tempestades
 ante a falta
 que me fazes.

Autor :  David Mourão-Ferreira