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quarta-feira, 29 de novembro de 2023

Percorro-te

 

Percorro-te
A língua de cetim
A prolongar o êxtase
As mãos de seda
No rio do teu corpo.
Afloro a nascente:
E num grito
Todo tu és torrente.

É tarde, meu amor
É muito tarde.
O tempo implacável me consome
E destrói o vigor do corpo moço:
Apagou o fulgor do meu olhar
Roubou a altivez do seio cheio
Secou o rio manso do meu ventre
Cobriu de pergaminho a minha mão
É tarde, muito tarde
Mas… por dentro
Ainda bate, por ti, o coração.

Autor : Maria Aurora
(in Discurso Amoroso, Porto 2006)
Imagem: desconheço o autor

sexta-feira, 27 de outubro de 2023

Trago-te nos braços ao cair da tarde

trago-te nos braços ao cair da tarde
quando a glicínia cheira na porta do meu corpo
tacteias a espaço a porta entreaberta
e reténs o grito na fogueira da boca
convulsionada e ágil te conduzo
na relva agora húmida e macia.

Fecho-me para crescer em ti
os dedos acordados e subtis
e é tudo água, vórtice, clarão.
 
Autor :  Maria Aurora Carvalho Homem
in antes que a noite caia

sexta-feira, 29 de setembro de 2023

É tarde meu amor


É tarde, meu amor
É muito tarde.
O tempo implacável me consome
E destrói o vigor do corpo moço:
Apagou o fulgor do meu olhar
Roubou a altivez do seio cheio
Secou o rio manso do meu ventre
Cobriu de pergaminho a minha mão
É tarde, muito tarde
Mas… por dentro
Ainda bate, por ti, o coração.

Aurora Augusta Figueiredo de Carvalho Homem, que usou os pseudónimos literários de Maria Aurora e de Maria Aurora Carvalho Homem, nasceu em Sátão (Viseu), 13 de novembro de 1937 - m. no Funchal, 11 de junho de 2010.

(in Discurso Amoroso, Porto 2006)

Imagem :Adam Bird

quarta-feira, 16 de agosto de 2023

Nomeio-te em segredo

momeio-te em segredo
e não te digo
retenho-te nos olhos
e tudo acende
cicias-me ao ouvido
e alvoroçada
recolho-te na boca
e tudo queima.

Ardo sozinha
a mão convulsionada
a desenhar-te em mim
Nomeio-te em segredo

Autor : Aurora Carvalho Homem, que usou o pseudónimo literário Maria Aurora
Imagem : Anna Heimkreiter

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Sexta Poética 38

Maria Aurora Carvalho Homem

13/11/1939
11/06/2010


A palavra não chega a ser murmúrio
Mastigo-a na sombra a intervalos breves:
é um dizer silencioso
um tempo sem rosto
uma ausência presente em cada gesto.
A palavra viaja no meu corpo
prendo-a na franja dos olhos
corrompe a limpidez da distância
na precisão incolor dos dias.
É cardo, gume, alfazema e jasmim.
Persigo-a neste gesto de quem quer.
A palavra é este olhar de tudo cheio
este cheiro de noite
este acaso de nada
adágio sufocado em catedral vazia
vôo raso de pássaro vadio.
A palavra tem rosto de mulher
olhar de noiva eternamente virgem
é a pele que me veste cada dia
e que me despe à noite devagar.
Faço-a minha na ternura calada
de quem desfolha rosas no outono.
Caladas nos dizemos:
amantes confessados.

Autora: Maria Aurora Carvalho Homem

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Quero-te



Quero-te
no secreto segredo de dizer-te
na asa da brisa repousada
no fulgor deste sol
no arrepio da água na levada
no sobressalto da pedra na falésia
no silêncio dos cumes
na claridade das madrugadas brancas
no respirar nocturno das ruelas
no calor do vinho a perfumar a boca
na solidão das mãos
na fímbria do desejo
(quero-te assim
longínquo e doce
terno e ausente)
só posso desejar-te nas palavras.
.
Autor:Maria Aurora Carvalho Homem
Foto:Antropina

sexta-feira, 26 de setembro de 2008



(quero-te assim

longínquo e doce

terno e ausente)

só posso desejar-te nas palavras
.

Autor:Maria Aurora Carvalho Homem