domingo, 29 de novembro de 2020

Pretérito

Entrei em contacto contigo em fins de Abril, princípios de Maio ,de um ano que já não importa, feira do livro no Parque Eduardo VII. Ias estar lá, como sempre. Não me lembro se cheguei a pedir para entrar na tua vida enigmática, mas acho que entrei assim como um pássaro que voa e poisa num ramo de arvore, e o elege como seu. Claro que tu não eras um ramo de arvore, mas eu entrei de voo raso ,e fiquei a olhar para ti como se fosses um anjo pequeno com asas grandes e encantadas. Eu sei lá o que via em ti? Um misto de adoração pagã e perdia-me a olhar-te a beber as tuas palavras, a esmiuçar tudo o que de ti brotava. Erramos pela cidade, pelas vielas, e por toda a cidade grande. Eu gostava quando andávamos de mão dada. Entraste em mim e eu em ti, mas, os segredos e os mistérios que engendravas .Não os quis perceber, não quis deslindar. Eu não era nenhum personagem dos teus livros. Era apenas uma miúda deslumbrada. 

Depois os dias eram todos iguais. E cansei-me de mim e de ti. De nós. Já não leio o que escreves mas, lá no fundo, ficou algo que nunca vou esquecer 

Depois foram mudando as datas da feira e eu fui-me esquecendo e deixei de ir. Não me interessava mais...e tu!??

Autor : Beatrice 2020-11-29

sábado, 28 de novembro de 2020

Ramo

Talvez eu não consiga quanto amo
ou amei teu ser dizer, talvez
como num mar que tu não vês
o meu corpo submerso seja o ramo
final que estendo já não sei a quem

Autor - Gastão Cruz,
in “A moeda do tempo e outros poemas”.
Imagem : Brian Oldham

sexta-feira, 27 de novembro de 2020

perfeição


Um muito de você em mim
É bom.

Um muito de mim em você, também.

Um pouco de nós em nós mesmos,
Mais a mistura acima
Seria a perfeição.

Autor : Ana Peluso
Imagem : Laura Makabresku

quinta-feira, 26 de novembro de 2020

Alvorecer


O sol revela
Cores vivas que luzem
Nova vontade.

Aves ligeiras
Em coro melódico
Abrandam o ser.

Leves e claros:
Cúmulos livres pintam
Um quadro puro.

Autor : Rúben Marques
Imagem : Bertoni Siswanto

quarta-feira, 25 de novembro de 2020

meia lua meu amor

meia lua meu amor
é tua

a outra metade
guardei-a para o compadre
que me beija a boca
quando chegas tarde
da casa da outra 

Autor : Líria Porto
in "escritoras suicidas".
Imagem :Joan Caroll

terça-feira, 24 de novembro de 2020

Poesia

 


é a visita do tempo nos teus olhos,
é o beijo do mundo nas palavras
por onde passa o rio do teu nome;
é a secreta distância em que tocas
o princípio leve dos meus versos;
é o amor debruçado no silêncio
que te cerca e que te esconde:
como num bosque, lento, ouvimos
o coração de uma fonte não sei onde...

Autor: Vítor Matos e Sá
 in 'Esparsos' 
Imagem Jonna Jinton

domingo, 22 de novembro de 2020

Premonição

 


É tarde.  Está frio.  Fixo o olhar sobre uma árvore da praça que tem um ramo partido.  Não tardará muito. E o ramo cairá desamparado sobre o chão encharcado da rua. Um frio percorre todo o meu corpo como se fosse eu o ramo a cair,e como se ao cair ou quando isso acontecer, o mesmo acontecerá comigo. 

Andas estranha, muito estranha. Por vezes nem sei quem és, diz ele. Pareces uma alienada. Sempre exausta. Sempre ausente, para aí a olhar para coisa nenhuma. 

Passo as mãos pelos meus cabelos soltos, e não replico, não me apetece falar para quem não me concede atenção. 

Levanto-me e meto-me na cama, embrulhada na manta polar, para esquecer realmente quem sou agora ou quem fui outrora. 

Nessa noite sonhei com ele, tinha-me oferecido um ramo enorme de flores que eu agarrei sôfrega e fugi na noite. 

Tive medo! Se me deu flores é que eu já morri. 

Porque ele enquanto vivi,nunca me deu flores.


Autor : BeatriceM 2020-11-15 
Imagem : Carla Coulson

sábado, 21 de novembro de 2020

Não sei

 

Não sei para que lado da noite me hei-de virar
onde esconder de ti o rio de fogo das lágrimas
quase a transbordar e acendo mais um cigarro
e falo atabalhoadamente de um futuro qualquer
e suspiro de alívio porque não ouves o que digo
ou se calhar também não sabes onde te esconderes
esperamos que se ilumine o lado certo da noite
é quando se esgotam as palavras e os silêncios
e a minha mão procura a tua que a recebe
e a noite se unifica e todos os rios secam
menos um por onde navegamos
para abolir a noite.

Autor : Carlos Alberto Machado

sexta-feira, 20 de novembro de 2020

De súbito é o susto


De súbito é o susto
estampado no rosto
refletido no espelho
parado na garganta. 

Invasores transitam
pelo quarto
desrespeitam o sono
em furor incontido.
Colocam algemas
em pulsos inocentes. 

Contra palavras – há muros
contra lamentos, murros. 

Levam jovens na mira
de fuzis reluzentes. 

Autor : Lara de Lemos

quinta-feira, 19 de novembro de 2020

Tu não sabias

 


Tu não sabias que eu sei quanto sabias
Tu exibias o que em ti desconhecias

Porém, tu vias, pressentias
na magia das horas mais amargas
o ponteiro dos segundos com que vias
rodarem no sentido das palavras...

E no silêncio das horas se estendia
um carinho sinuoso, entorpecente,
um meigo sorriso que escorria
num rio de ternura languescente.

Tu não sabias... nem eu... nenhum de nós
que a vida esconde os seus segredos
nos silêncios da nossa própria voz
e no código de amor dos nossos dedos.

Autor : Fernando Peixoto

quarta-feira, 18 de novembro de 2020

Mapeamentos

 

Desenhava caminhos no corpo dela, como se fossem mapas.
Marcava a longitude como se cravasse ali, o coração. 

Em cada parte dela,
eu era e descobria caminhos na presença, nas pintas que a natureza riscava na pele dela. 

A sensação de conhecer cada centímetros da pele dela
me fazia delirar na doce e eterna delícia de amar. 

Mapear os contornos do corpo dela
e deixar ali as marcas das minhas digitais e encontrar a minha constelação. 

Rota, bússola e direção e o corpo dela caminho da minha perdição e redenção. 

Autora: Mariana Gouveia 
Foto: Elena Vizerskaya

terça-feira, 17 de novembro de 2020

Varanda de Pilatos

Não há tempo. Há o espaço. O sol e as nossas voltas.
Os bocejos da lua, o clã dos astros.
Os buracos negros.
Ó mãe! Para onde foram os seres vivos de ainda
Há pouco em todo o seu esplendor?
Mortos como tu, a natureza recebe-os.
A Terra, essa criança atroz, destrói os seus brinquedos
Numa rotina mecânica.
Quantas noites me faltam? Quantos beijos no escuro?
Quanta luz me cabe ainda nas pupilas?
Os anos não me matam, não me ferem os meses,
As horas não me guilhotinam.
As células vão ardendo nos seus mapas
De nervos, o sangue demora sempre mais um pouco
A chegar ao seu destino orgânico.
Devagar, devagar, a cabeça amolece.
Devagar no colo do sono.
Ó mãe. Um ninho. Uma cama macia no teu ventre.
Uma exposição de sinais. Uma geometria
Que me liga ao saber acumulado.

Autor : Armando Silva Carvalho
in 'Sol a Sol'
Imagem: Mikael Aldo

domingo, 15 de novembro de 2020

Pai


Os meus olhos caíram na foto que tenho, na minha mesa de trabalho, junto da janela. 

Através dela (da janela), vejo o mar, com seu eterno azul que hoje ainda se encontra mais intenso. 

As gaivotas famintas sobrevoam os pescadores, que arduamente puxam as redes para a praia. 

Olho novamente o teu retrato que me sorri, e sem querer, nos meus olhos formam-se um diluvio de lágrimas, que desamparadas caem sobre a mesa onde trabalho. 

Tenho saudades tuas Pai. 

Tantas! 

Autor : BeatriceM 2020-11-15

sábado, 14 de novembro de 2020

Uma Fuga para a Infãncia


Nas tardes de domingo
(cheirava a doce de coco e rebuçado)
os meninos brincavam
iam passear ao mar
até o Morro iam
ver a gente. 

O menino ficou preso
quando cresceu. 

E nas tardes de domingo
vozes vinham chamá-lo
vinham ecos de vozes
que lindas vozes o menino ouvia! 

Mas o menino estava preso
e não saía… 

Numa tarde de domingo
os outros meninos vieram chamar
o menino preso…
E foi nessa tarde de domingo 

(cheirava a doce de coco e rebuçado)
que o menino fugiu para não voltar. 

Autor : Mário António
Imagem :Robert Gonsalves

sexta-feira, 13 de novembro de 2020

A alma é como a lavra


A alma é como a lavra. 
Quando as nossas mãos voltam a desfiar 
o milho amarelo de ouro? 
Que outras mãos que as nossas semeiam 
o medo e o silêncio da morte? 
Porquê este frio? Porquê tão longa a noite? 
Como se faz o mundo? Quando começa o mundo? 

Autor : Maria Alexandre Dáskalos
in Jardim das Delícias 
Imagem : Autor desconhecido

quinta-feira, 12 de novembro de 2020

Dizer um nome


Não direi o teu nome para
nós evidente pois estás no centro
da multidão que fomos quando a outros
disputámos o óxido do ouro

Não direi o teu nome como outrora pedi
que não dissesse o meu nome quem tinha
o poder de o dizer em pleno dia:
dizer um nome é sempre uma heresia

Autor : Gastão Cruz
in“Óxido”. Lisboa: Assírio & Alvim, 2015.
Imagem : Lara Zangoul

quarta-feira, 11 de novembro de 2020

O Fim dos Labirintos

 

De repente, o chão da estrada ficou branco. Aquele chão, que separava as mulheres, do labirinto. 
Nem as sombras, que habitualmente se desenhavam nos muros, 
Nem o sangue dos pés caminhantes…. já nada disso restava. 
De repente, o sol fez-se uma enorme labareda e o sacrifício foi engolido, 
assim como o cansaço, as trevas, a garganta seca, a água de lavar os pratos… tinham desaparecido. 
Um espanto! 
Aquele chão da estrada, agora branco!! 
Aquela estrada do muro do labirinto, agora aberta!! 
Aquele tempo cinzento e doloroso, agora iluminado!! 
De repente, as mulheres começaram a cantar canções alegres. 
Pousaram as canastras com as peças metálicas e dançaram. 
Já nem sequer eram mulheres, eram asas peneireiras dos bosques. 
Pareciam pássaros enormes chegados do Princípio do Futuro com os machados de sílex, capazes de destruir todas as portas trancadas e todos os regulamentos injustos. 
Aproximaram-se os curiosos, vieram os noticiosos e os mensageiros observar tamanha revolução alada. 
- As mulheres desfizeram o labirinto! – dizia-se por todo o lado! 
- As mulheres cortaram os cabelos e vestiram-se de vermelho! – ouvia-se no rádio. 
- Que petulância! Que atrevimento! – vociferavam alguns, cheios de catarro. 
Mas as mulheres continuaram, cada vez mais confiantes. Cada vez mais lindas! Porque os labirintos também se derrubam. 

Autor :Alice Caetano
Imagem : Vadim Stein

terça-feira, 10 de novembro de 2020

Sensação musical para embalo de almas

 

Onde a vida foi, fugitiva, 
a forma inatingível, 
a pura música cativa 
e livre, como um sensível 
alheio a nós, e sendo-nos, 
há só o puro longe, o pólen 
em suspensão e estige 
de ausência - pétalas cismantes 
recortando a sua origem 
não em nós, na morte de instantes. 

Autor : António de Navarro
Imagem : Ragne Sigmund

Estações da idade


Ando descalço sobre o nome da cidade.
Atravesso a rua. Uma sombra caminha ao meu encontro.
Toca-me e desfaz-se como um grito. 
Vim de África há muitos anos e nunca regressei
à idade da minha partida. 
Agora estou num parque, no fim de Novembro,
e o Inverno aproxima-se. 
Sou um homem com a memória de um menino.
Às vezes chove na janela sem fim
dos anos que correram adiante de mim. 
Mas estou aqui, no parque que escurece,
com o meu violino. As folhas dançam,
geladas; o silêncio tem a cor da neve. 
Os sinais da minha respiração crescem entre as árvores
adormecidas.
Mesmo fria a luz canta, húmida.
Como um cão, beija-me as mãos. 
Vou-me embora lentamente. Levo comigo
o teu nome, na minha boca e no meu peito.
Volto-me: os meus pés deixam na terra
o itinerário das aves. 
Amo, murmuro aos ramos quebrados
deste dia enquanto o meu coração
te pede a viagem
de regresso ao poema. 

Autor : Eduardo Bettencourt Pinto (2011-12-01)
Foto : Trey Brafford

segunda-feira, 9 de novembro de 2020

Homenagem a Artur Cruzeiro Sexas

 


Nome completo Artur Manuel Rodrigues do Cruzeiro Seixas
Nascimento  03 de Dezembro de 1920 (AMADORA)
Morte o8 de Nobembro de 2020
-
A Tua Boca Adormeceu 

A tua boca adormeceu
parece um cais muito antigo
à volta da minha boca.

Mas as palavras querem voltar à terra
ao fogo do silêncio que sustém as pontes
perdidas na sua própria sombra.

E há um cão de pedra como um fruto
que nos cobre com o seu uivo
enquanto pássaros de ouro com mãos de marfim
transplantam as árvores transparentes
para o ponto mais fundo do mar.

As lágrimas que não chorei
arrependidas
fazem transbordar a eterna agonia do mar
como um lençol fúnebre
com que tivesse alguém coberto o rosto metafórico
dos cinco continentes que em nós existem.

Assim é ao mesmo tempo
que sou eu e não o sou
aquele relógio das horas de ouro
que além flutua.

Artur do Cruzeiro Seixas
in 'Homenagem à Realidade'
Foto: Tiago Petinga/Lusa

domingo, 8 de novembro de 2020

anoitece

A noite já faz questão de fazer poiso.
E entra pela janela do quarto onde me recolhi.
Estou a ler o teu livro. É antigo, eu sei, mas, está autografado.
Escrito com uma letra em gatafunhos mas com uma dedicatória para mim.
Passo os dedos pelo teu nome.
Uma vez, outra vez. Muitas vezes, o faço.
Depois vai para cima da mesa-de-cabeceira. É o sítio dele.
E assim repousa em total serenidade. 

E em completa agitação com os meus desvarios

Autor : BeatriceM 03-11-2020

sábado, 7 de novembro de 2020

Até à morte eu me atormentarei

 

Até a morte eu me atormentarei
Pelo que descobri e não encontrei,
Pelo que, pascaliano como sou,
Eu compreendi, e ainda assim maldigo.
Sou o idiota mais perfeito, aliás,
Por feito mais de carne que de gás.
É esse o fado que me leva adiante,
Num mundo para o qual não sou prestante.
Tudo o que tenho as mulheres me deram,
Consolação, razão para existir.
Benditas Berenices, Beneditas.
Também sejam benditos meus amigos,
Pois gosto deles, tenham longa vida,
E até eu mesmo que não a mereço,
Mas que a observo e sei qual é seu preço. 

Autor: João Ubaldo Ribeiro
Imagem: Kyle Thompson

sexta-feira, 6 de novembro de 2020

25


Ainda não te conheço. 

Falta uma década
Para cruzares o meu caminho. 

Se te encontrar na rua 

Verei apenas uma forma opaca
Tão opaca
Quanto qualquer outra forma humana o pode ser
Talvez nem dê
Pela tua passagem. 

Não chegámos ainda 

Ao morno portal
Do nosso encontro. 

As tuas mãos 

Ainda são apenas
As tuas mãos.
E eu passo devagar por ti
Como mais um dia
Que nasce. 

Autor : Isabel Fraga
 in “ E tudo será Luz”, página 34
Imagem : Rosie Hardy

quinta-feira, 5 de novembro de 2020

hoje eu acordei

hoje eu acordei
sem saber que caminho seguir
a minha cama é o lugar mais seguro
ficarei aqui! até fazer sentido sair
preciso de um motivo para calçar os sapatos
e hoje eu não tenho
a cama é o mar
e eu me agarro aos travesseiros
para ver se ainda me salvo... 

Autor :  Bruno Fontes 
Imagem :Kyle Thompson

quarta-feira, 4 de novembro de 2020

FluÍdos


tornei-me assim liquefeita
quando daquela feita
despi-me de nãos e sins

de mim então me perdi
nessa vontade inconclusa
acumulada no rim

ficou a mágoa comigo
fincada dentro do umbigo
quase criava raiz

minha tristeza de chuva
esta amargura profusa 
tem olhos túmidos

sou tal e qual o dilúvio
derramo transbordo enxurro
sangro os pulsos

Autor- Líria Porto
in "Esculturas musicais 14". Zunái - revista de poesia e debates, 26.7.2013.

terça-feira, 3 de novembro de 2020

Félix

Foto Jenna Martim

Félix tinha dezanove anos quando morreu. Era um velho.

Ao entrar, dei com a fotografia dele na mesa dos obituários. Uma nota, escrita com o abalo de quem sofrera uma perda irreparável, sublinhava a sua rara estirpe. Félix tinha sido uma cintilação. Um anjo sem asas.

Caía a noite. Alguns vultos, dispersos na sala, alimentavam sombras esquálidas.

Bob, com as mãos nos bolsos, passeava numa rua imaginada.

Era uma figura grande. Atravessou a imagem com a placidez de um ser que levita num permanente estado de ausência. Não sabia quem era: O seu próprio nome volteava, sem poiso, num rumor perdido no vazio. Tudo o que porventura tinha na cabeça, eventos, pessoas, lugares, datas, parecia confundi-lo numa desordem permanente. Não falava, balbuciava. A sua memória, fragmentada, voava como uma pomba num palácio desabitado.

Cumprimentei-o. Reparou em mim como se eu fosse um dia de chuva.

Félix, o gato, compreendera estas vidas no fim e amara-as. Conhecia-as pelo rumor da solidão e pelo cheiro da melancolia, sentadas em cadeiras de rodas, as mãos repousadas no inútil mecanismo das horas sem propósito. Então, acudia-as com o calor do seu corpo deixando-se afagar, dormindo com elas, saltando-lhes para o colo.

Durante o dia tomava posse de todos os espaços públicos e privados. Estava em casa. Deixava-se afagar pelas mãos mais sequiosas, mais tristes, trémulas e frágeis. O calor do seu corpo simulava um grande e alto dia de Verão.

Até que ficara órfão dos donos. Ele primeiro. Depois ela.

As empregadas questionaram-se. Que fazer de Félix, agora velho, sozinho, o pelo a perder o fulgor de outrora? Dera tudo o que tinha. Não podia ser preterido como algo inútil à mercê de quem, eventualmente, o adoptasse.

Arranjaram-lhe um cantinho na sala. Puseram a cama, o caixote com areia e o prato. Félix continuou como sempre, meigo, disponível, e a deixar o calor do seu corpo no inverno sem regresso dos anciãos.

Na manhã em que não acordou, o crepúsculo de Novembro caía com as folhas das árvores e iluminava o ar e o chão numa dança doirada. Fechou-se um ciclo.

Félix, o gato, animava agora o colo das estrelas.

Autor :Eduardo Bettencourt Pinto 2015-11-15
Lugar dos Áceres, British Columbia

domingo, 1 de novembro de 2020

Memórias


Às vezes a minha mente relembra coisas do passado. Por vezes não sei se foram do meu passado, ou do futuro, porque há certas cenas que não me lembro com exatidão. 


Eu gostava de sentar-me no cais a ver os barcos e a desenhar, quieta sem conversar com ninguém, gostava de estar só com os momentos que me eram sagrados e só meus. 

Mas. Todos os dias ou quase todos, eu cheirava um perfume bom que se esvaia no ar mas que invadia as minhas narinas como um toque de chegada. Era trazido pela presença de um homem. 

Ele era alto, trazia a delicadeza na pele morena, penso de quem apanha muito sol. 

Sentia que me espiava, ou pelo menos me acompanhava, e o seu perfume era a certeza da sua presença, e não uma utopia. 

Cansei-me. Ficava irritada, pela presença que me apoquentava. 

Deixei de ir para o cais, uma ou duas semanas. 

Só que um dia pensei, que era dona dos meus passos e dos meus pensamentos e voltei novamente para os meus momentos de relax. 

Era outono. Um dia com cores de cinza. Quando as narinas detetaram o perfume, fiquei sobressaltada. O perfume era outro, era novo com certeza. Levantei o olhar discretamente e vi-o. Ele aproximou-se de mim. Fiquei em pânico. Falou devagar em português correcto mas com um sotaque que não soube esclarecer. 

-Já não vem cá faz duas semanas, mas ainda bem que veio hoje! Vou embora, e acho que não voltarei, e, queria ver como estava. 

Olhei-o atónita e quase a gaguejar, perguntei que tinha ele a ver com isso. 

Sorriu tristemente e disse: 

-Eu sei que é estranho, mas, eu sempre vinha aqui com a esperança de encontra-la. A minha vida é estranha, vim visitar a minha filha, mas ela desapareceu num acidente no dia em que me foi buscar ao aeroporto. 

E a dor é insuportável.Eu só vinha aqui porque você é fisicamente muito parecida com ela.Era uma maneira de utópica de a rever. Até sempre e seja feliz. 

E em passos largos foi embora, entrando num táxi que o esperava. 

Não tive sequer tempo de dizer algo, fiquei ali parada a olhar o carro que avançava ao longo da estrada. 

Já se passaram tantos anos. Hoje sem querer lembrei-me . 

Autor : BeatriceM 2010-10-31