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quinta-feira, 6 de fevereiro de 2025

Convite

Nesta fase em que só o amor me interessa
o amor de quem quer que seja
do que quer que seja
o amor de um pequeno objecto
o amor dos teus olhos
o amor da liberdade

o estar à janela amando o trajecto voado
das pombas na tarde calma

nesta fase em que o amor é a música de rádio
que atravessa os quintais
e a criança que corre para casa
com um pão debaixo do braço

nesta fase em que o amor é não ler os jornais

podes vir podes vir em qualquer caravela
ou numa nuvem ou a pé pelas ruas
- aqui está uma janela acolá voam as pombas -

podes vir e sentar-te a falar com as pálpebras
pôr a mão sob o rosto e encher-te de luz

porque o amor meu amor é este equilíbrio
esta serenidade de coração e árvores

Autor:  Egito Gonçalves
(in 366 Poemas que Falam de Amor; org. de Vasco Graça Moura)
Imagem : Dragan Todorovi

terça-feira, 28 de janeiro de 2025

Com Palavras


Com palavras me ergo em cada dia!
Com palavras lavo, nas manhãs, o rosto
e saio para a rua.
Com palavras - inaudíveis - grito
para rasgar os risos que nos cercam.
Ah!, de palavras estamos todos cheios.
Possuímos arquivos, sabemo-las de cor
em quatro ou cinco línguas.
Tomamo-las à noite em comprimidos
para dormir o cansaço.
As palavras embrulham-se na língua.
As mais puras transformam-se, violáceas,
roxas de silêncio. De que servem
asfixiadas em saliva, prisioneiras?
Possuímos, das palavras, as mais belas;
as que seivam o amor, a liberdade...
Engulo-as perguntando-me se um dia
as poderei navegar; se alguma vez
dilatarei o pulmão que as encerra.
Atravessa-nos um rio de palavras:
Com elas eu me deito, me levanto,
e faltam-me palavras para contar...

Autor : Egito Gonçalves
 in 'Antologia Poética'

terça-feira, 3 de dezembro de 2024

Cadernos de Poesia


Difícil é esperar
quando nada sabemos
nada haver a esperar.

O eco de uma lágrima não basta
para dar vento à sementeira

Autor Egito Gonçalves

terça-feira, 15 de agosto de 2023

O teu ombro sabe a nudez

O teu ombro sabe que a sua nudez
é objecto de poema.
Quando tiras o vestido
- pelo ombro -
o teu corpo sabe que as palavras
acorrem
ao arrepio da pele.

E o meu corpo sabe
que as palavras lhe pertencem,
esbarram no desejo,
apresentam a incoerência do delírio
que desce do teu ombro
para a música
do silêncio que fará o poema.

Dedico-te palavras: apenas
marcos de uma intensidade,
uma ligeira pele do que nunca
poderia descrever, da porta
que se abre quando o ombro
se solta do vestido
que desenha no chão
um gemido de amor: o som
da alegria, o seu
visível reflexo que capta
e expande
toda a luz secreta do poema.

Autor : José Egito de Oliveira Gonçalves 
Imagem : Tatyana Mironova

sábado, 20 de agosto de 2022

O Fósforo na Palha

 

 Aos meus olhos
a cidade organiza
a sua tristeza.

Uma cintura aperta
a asfixia.
Um furo mais.

Um riso eleva-se
e sou eu que rio
sou eu que amo.

Auxilio a cidade
a suportar.
Um furo menos.

Não há pedras bastantes
para o nosso túmulo.

Egipto Gonçaves
imagem :Katharina Jung

quinta-feira, 26 de maio de 2022

Sitiados

Esta cidade é a última cidade...
Os muros derruídos estão cercados:
Os canhões troam através dos mapas.

Nossa imagem, revelada pelas montras,
Passeia pelas ruas de mãos dadas...
Somos a última trincheira valiosa.

Unidos, trituramos os assaltos
E renovamos o cristal da esperança.

Os ruídos emolduram-te o sorriso,
Pura mensagem, prenhe de um futuro
Isolado de poeiras e de lágrimas.

Autor : Egipto Gonçalves
Imagem : Richard Davis

terça-feira, 15 de março de 2022

Love Story

 

Nunca encontrámos
o lugar onde o amor se forma.
Tentámos, aceitando os desencontros,
dançámos em torno,
arrepiámos uma breve carícia,
separámos-nos
sem descobrir o que haveria a descobrir,
o que haveria a atravessar:
uma montanha, um túnel,
ou mina ou arco
de uma ponte.
Agora contemplo uma cama
vazia
flutuando numa barragem
longe do lugar
que poderíamos ser.
Muitas coisas se partilharam,
as palavras não eram pedras,
o vento alguma vez
nos juntou os cabelos.
Nunca encontrámos
o lugar onde o amor se arma.
Foram pedaços de muita coisa:
quando os queria colar
sempre algum era arrastado pela chuva,
sempre algum se perdia em lençóis de sombra.
A imagem de cada um de nós
nunca foi suficiente
para criar no outro o relâmpago,
o pássaro ígneo, delirante.
Nunca encontrámos
o percurso das águas,
o lugar onde o amor se firma.
 
Autor : Egito Gonçalves