domingo, 13 de maio de 2012

Piano em silêncio


Bernardo Sassetti
24 de Junho de 1970
10 de Maio de 2012
.
As trevas a deambularem
no vazio do tempo
é tarde o silêncio 
nas teclas do piano
as poeiras são fragmentos
de mágoa
exaustas na demanda da 
partitura que ainda lá está
à espera dos teus dedos.

.
Autor :Beatrice

domingo, 6 de maio de 2012

e ...


sonhei teu corpo, depois de conhecer teu rosto.  chamei, teu nome, antes  mesmo de mo dizeres.   por vezes olhava-te e pensava que tu não eras real, que eras uma imaginação da minha mente perturbada.  eu seria apenas uma mariposa em redor duma luz, que os teus olhos lampejavam.    pensei. sonhei. sem saber discernir o sonho e o pensamento.  a realidade.   a utopia.  sonhei.   ainda sonho com o teu beijo e o fim das alvoradas.

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autor :BeatriceM  2012-05-06
foto: Paulo César

domingo, 29 de abril de 2012

...




gostava de voar, mas as asas por vezes frágeis cortavam-se por entre o improvável voo , vezes outras, eram pesadas demais, nesses dias vogava pelo sonho e aspirava o aroma da maresia do mar .  um dia experimentou chorar e não gostou do sabor a sal das lágrimas. desde esse dia criou um palco de alegrias onde,e, só o sorriso tem lugar.
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autor: Beatrice

 Foto : Srebrna Kropla

domingo, 22 de abril de 2012

Linho,que desalinho


Linho, que desalinho!
Como te invejo, maganão!...
Alcanças tu, atrevido
Onde não chega a minha mão...

Andas prá aí todo ufano
Em rimas de poesia...
Tomas por arte o engano
E por louca a fantasia...

Quando devias, é certo
Ser apenas alvura
E deixares a descoberto
A doce formosura
Em resguardo deitada
Abrindo-se como uma rosa
Ao perfume da madrugada...

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Autor : Senador

domingo, 15 de abril de 2012

Há Palavras


Talvez um dia eu ouça as palavras que eu imaginei e nunca me disseste, não é um exercício da minha mente nem tão pouco um desejo que mantenho. Talvez seja apenas um segredo que guardei no silêncio, da partilha dos corpos e que nunca falamos. Há palavras que não são ditas em voz altas. Há palavras que se desenham no olhar.
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Autor:BeatriceM
Foto:LAQ

domingo, 8 de abril de 2012

Talvez

Talvez a coroa cravada na fronte 
Talvez a dor 
Não fosse o caminho merecido 
Para salvar do pecado todos 
Os que não Te souberam amar.


.
Autor :Beatrice

Foto : Ryszard-Lebmor

domingo, 1 de abril de 2012

Que Fizemos


Que fizemos dos nossos sonhos, e dos
beijos que trocamos, quando nada era proibido
e tu vinhas à noite por entre as árvores da praça
e eu esperava-te no café da esquina.

Hoje somos dois estanhos que se refugiam
na melancolia dos dias, e quando te procuro
com o olhar por entre as árvores da praça
é apenas uma sombra que imagino.

mas nunca és tu

Autor : Beatrice
Foto: absentia

domingo, 25 de março de 2012

Esqueci



Tantas vezes me dizias que me amavas
 E eu sabia que era mentira 
Mas fingia e acreditava
 Porque nada tinha senão as tuas palavras

 Esqueci 
 As esperas a imaginar
 As chegadas 
Que eram apenas partidas 
 Apenas promessas em palavras

 Esqueci

 As datas
 Os locais
 Tanta mentira que quando
 Se transformou em verdade 
Eu pensei que era mentira

 E simplesmente esqueci

E esqueci-te


Autor : Beatrice
Foto: OczywistaPanda

domingo, 18 de março de 2012

Falesias


Poder-me-ão encontrar, trago um rapaz na minha
memória, a casa a uma janela
da qual o faço vir como um sabor à boca,
falésias onde o aguardo à hora do crepúsculo.

Regresso assim ao mar de que não posso
falar sem recorrer ao fogo e as tempestades
ao longe multiplicam-nos os passos.
Onde eu não sonhe a solidão fá-lo por mim.
.
Autor : Luís Miguel Nava
Foto : The Professor


domingo, 11 de março de 2012

deixei-te partir



deixei-te partir sem recriminações
sem palavras, nem ecos
apenas silêncios

silêncios

quando a porta se fechou
olhei-me e não me vi
apenas senti-me num chão sem chão

ferida e magoada, anestesiada 
como se estivesse dentro de água
em hipotermia crescente

e pensei no cheiro das gardénias
que um dia tive no parapeito da janela
.
Autor : Beatrice
Foto: api

domingo, 4 de março de 2012

Ofício de Amar



já não necessito de ti
tenho a companhia nocturna dos animais e a peste
tenho o grão doente das cidades erguidas no princípio doutras galáxias, e
o remorso



um dia pressenti a música estelar das pedras, abandonei-me ao silêncio
é lentíssimo este amor progredindo com o bater do coração
não, não preciso mais de mim
possuo a doença dos espaços incomensuráveis
e os secretos poços dos nómadas



ascendo ao conhecimento pleno do meu deserto
deixei de estar disponível, perdoa-me
se cultivo regularmente a saudade de meu próprio corpo

Autor : Al Berto In O Medo

Foto : monicy

domingo, 26 de fevereiro de 2012

e na cor alva


e na cor alva das manhãs
havia sempre a partilha dos corpos,
sobre a seda, osso e pele,
foi há tanto tempo
que os ruídos das sombras, renascem
na noite que se opõe às manhãs.
.
e sei que havia, luzes no fogo inflamado

nas pétalas calcinadas das flores

em combustão.
.
e tudo foi (era) possível como a luz rubra da paixão.

.

Autora: Beatrice
Foto ; Szymons

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Estavas sentado e havia uma paisagem agreste





Estavas sentado e havia uma paisagem agreste
nos teus olhos: as nuvens a prometerem chuva,
os espinheiros agitados com a erosão das dunas,
um mar picado, capaz de todos os naufrágios.

O teu silêncio fez estremecer subitamente a casa -
era a força do vento contra o corpo do navio; uma
miragem fatal da tempestade; e o medo da tragédia;
a ameaça surda de um trovão que resgatasse a ira
dos deuses com o mundo. quando te levantaste,

disseste qualquer coisa muito breve que me feriu
de morte como a lâmina de um punhal acabado
de comprar. (Se trovejasse, podia ser um raio
a fracturar a falésia no espelho dos meus olhos.)

Hoje, porém, já não sei que palavras foram essas -
de um temporal assim recordam-se sobretudo os despojos
que as ondas espalham de madrugada pelas praias.

Autor : Maria do Rosário Pedreira

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Na noite


Na noite existem estrelas mágicas
Que me levam a alumiar o caminho
Entre o céu e o destino

Em archotes de luz ávida
E esplendorosa
Semeio pirilampos

E percorro mansamente
Os trilhos proibidos que me levam a ti
.
Autor :BeatriceM 2012-02-12
Foto: Rockania

domingo, 5 de fevereiro de 2012

...


ladro à lua faminto de teu corpo
nas infinitas noites
em que não vens apesar do grito!..

tomo-te em meu corpo febril
como adolescência do desejo
em solidão desesperada!...

colho-te pura flor da madrugada
entre orvalhos e lascívia sibilada
em que te deito sem te ter!...

sorvo-te no altar da tuas coxas
persigo a meta como caça em língua
resoluta em febre de greta  molhada...

sublimo-te na explosão do meu sexo
como gota na sofreguidão do beijo
como se tu viesses toda inteira...


Autor:Senador
Foto: Jerzy Sowa, Jr.

domingo, 29 de janeiro de 2012

Haverá talvez


Haverá talvez um modo de amanhecer
que revele nos olhos o secreto ardor
com que se levanta o trigo enorme.

Haverá talvez um lago que a noite não toque
e de dia em dia, como ontem, como amanhã,
cante a mulher que ali foi ver nascer o filho.

Haverá talvez um suor que não o do sacrifício
e com o qual a pele cintile como uma borboleta
que vem descendo o céu até à flor dos teus lábios.

Haverá talvez uma fala onde nos poderemos encontrar
sem que a tua mão esqueça a minha, sem que o sorriso
esconda o vazio, uma fala que só possa e saiba dizer nós.

Haverá talvez um poema em que o soluço aperte as veias
como o rio aperta o mar, um poema em que eu e tu
dormimos sobre o luminoso esplendor do universo.

 Autor : Vasco Gato

domingo, 22 de janeiro de 2012

É hora da partida


É hora da partida – esperada
A roupa cobre o meu corpo 
Agora só meu
E deixo desordenados 
Aromas impregnados no teu 

Descansas num mar revolto
De sentires 
De desejos consumados
E de olhos fechados – dormes
Sonhando prazeres partilhados

Já não estou mais ardendo
No lume que nos queimou
No ocaso que chegou
No eco que se desfez
Na hora da partida que se anunciou

E vou pela calada
Dançando em passos ligeiros
Ainda com vestígios de beijos e mel
E das carícias que ficam 
A flutuar em parcelas de saudade.
.
Autor : BeatriceM 22-01-2012
Foto: Laura Makabresku

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

A música



Rui Costa
 1972-2012

A música partilha com a flor
a carne que se alaga como um copo.
A música é um rizoma atómico
cheia de sílabas grossas e finas
no peito maduro da onda.

Por isso a onda cai e a flor
também. E se te digo sei que ficas
triste e é quando substituis essa
geração de força por dois pequenos
vasos à entrada do teu dorso (e qual
és tu e qual sou eu é uma haste subindo)

Do teu lado esquerdo é dia.
O vestido é branco e aponta
a cidade a que chegas com os
dedos, rodando os ombros mas
não a cabeça. O teu olhar
é uma ferida musical sem verbo fixo:
a penumbra bate às vezes na
pálpebra, outras na imaginação.

A queda gera o seu próprio
impulso, como se fosse o preen-
chimento de uma forma: chama-se amor
e serve para os ouvintes ouvirem o esbracejar
do desejo, esses versos de asa silenciosa-
ouves?

Há poetas azuis que julgam que a
coerência é um pardal azul (da goela
até aos pés). Normalmente limpam os óculos
com coerência, em vez de com (enfim)
e depois vêem o mesmo pardal, a todas
as horas do dia e da noite, sentado azul-
mente sobre o seu nariz azul.

Pela direita, dizes que os versos
não caem se mudares constantemente
o chão. Mas os sonhos sim, e que a transla-
ção do vento sabe do remorso dos bichos mais
pequenos: procura as palavras junto ao chão
e se não me vires,
é porque o silêncio é também a música
e canto-a sem nome
para ti.
.

Rui Costa
in Um poema para Fiama,
Labirinto,2007

domingo, 15 de janeiro de 2012

Os Versos



Os versos assemelham-se a um corpo
quando cai
ao tentar de escuridão em escuridão
a sua sorte

nenhum poder ordena
em papel de prata essa dança inquieta
.


Autor :José Tolentino Mendonça
Foto:fotoalterego

domingo, 8 de janeiro de 2012

....



---deixaste-me no fim da avenida perto do quiosque 
havia música num bar junto da praia 
estava frio e atravessei a rua 
abracei a tarde só para mim 
e tu não sabias da lágrima que corria 
e das gaivotas que sobrevoavam o barco no mar 
e eu sabia que tu nunca irias comigo naquele 
nem noutro barco qualquer 
porque o teu destino era outro
 e aí  não havia lugar 
para mim---
.
Autor :Beatrice
Foto: Rockania

domingo, 1 de janeiro de 2012

Falei de ti



Falei de ti com as palavras mais limpas

Viajei, sem que soubesses, no teu interior.
Fiz-me degrau para pisares, mesa para comeres,

tropeçavas em mim e eu era uma sombra
ali posta para não reparares em mim.



Andei pelas praças anunciando o teu nome,
chamei-te barco, flor, incêndio, madrugada.
Em tudo o mais usei da parcimónia
a que me forçava aquele ardor exclusivo.


Hoje os versos são para entenderes.
Reparto contigo um óleo inesgotável
que trouxe escondido aceso na minha lâmpada
brilhando, sem que soubesses, por tudo o que fazias.


Autor,Fernando Assis Pacheco

domingo, 25 de dezembro de 2011

O Natal



O natal faz-me confusão, e nunca é, nem nunca foi como eu o imaginava, ou sonhava.

E na minha permanente confusão acerca disso, prefiro o meu mutismo a uma opinião mais plausível e coerente, mas, e como é Natal  para todos os seguidores e os leitores que visitam este espaço, desejo

Bom Natal de 2011
.
Foto  Tomasz Stawowy
Beatrice

domingo, 18 de dezembro de 2011

Falo de


Falo de um homem que possuía livros de poemas. Foi talvez o único real leitor. Ele abria os livros, um livro. Escolhia um poema. Era um ritual misterioso. Porque ele raspava as letras da página, cuidadosamente, como para conservar a integridade do papel. Raspava e reunia os pedaços negros. Aquecia então água com o vagar próprio da vertigem. Uma estranha ciência de vapores.

A infusão sucedia: a escura substância do poema misturava-se mais e mais com o fervor da água, até ao ponto em que tudo aquilo era vivo. O homem bebia então o poema e o poema flutuava no sangue, atingindo todos os lugares do corpo, reclamando todos os lugares do corpo. Não era previsível o efeito do poema. Cada poema dissolvido, sorvido, feito homem, trazia consigo uma possibilidade própria. O homem crescia com o poema, crescia mais para si, mais para o poema.


o homem que possuía livros de poemas, possuía uma biblioteca em branco. Páginas e páginas de poemas arrancados sem vestígios, um crime perfeito. Era uma biblioteca poética. Uma biblioteca que podia arder.

Autor : Vasco Gato
de Omertã, Quasi Edições, 2007
Imagem:-Fao

domingo, 11 de dezembro de 2011

se um dia



se um dia – alhures
olhasses para mim
num mar que não o meu – nem o teu
e para um passado - que eu queria presente
.
a minha natureza
seria uma serpente
com a língua em fogo
.
Autor: Beatrice

domingo, 4 de dezembro de 2011

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Pedem tanto a quem ama: pedem
o amor. Ainda pedem
a solidão e a loucura.
Dizem: dá-nos a tua canção que sai da sombra fria.
E eles querem dizer: tu darás a tua existência
ardida, a pura mortalidade.
Às mulheres amadas darei as pedras voantes,
uma a uma, os pára-
-raios abertíssimos da voz.
As raízes afogadas do nascimento. Darei o sono
onde um copo fala
fusiforme
batido pelos dedos. Pedem tudo aquilo em que respiro.
Dá-nos tua ardente e sombria transformação.
E eu darei cada uma das minhas semanas transparentes,
lentamente uma sobre a outra.


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Autor: Herberto Helder 
Foto Keita