domingo, 28 de agosto de 2011

Ao largo...e tão perto






Chegas
em ondas de rebentação,
com afagos,
afogas-me,
no mastro erguido
iças-te
desnudando caminhos
por onde as mãos
desfazem nós
de cabos
que outras marés
não dobraram
e sem palavras
abeiras-te da boca…

fundeio,
afundo-me,
ancorado em ti.
.
Autor : Caminheiro http://www.calcadasentimentos.blogspot.com/
Foto:komarek66

domingo, 21 de agosto de 2011

noite e margens


Nas orlas da noite – margens em mim
Tenho todos os segredos – em nós
Guardo no ventre a seiva – e afogo-me
Luxúria dos corpos - em rios
Nas escarpas das certezas – de perigos
E somos dois – entrelaçados
Unos – apenas 
.
Autor :Beatrice
(Nota: pode separar o poema e ler de duas maneiras)
Foto:Stan Mare

domingo, 14 de agosto de 2011

Ressurgimento


Passei o dia triste meu amor...
Foi um domingo inteiro de agonia.
Tudo empalidecera em mi derredor,
ficou a latejar a dor sombria!

Que doloroso e cálido sabor,
nos lábios me abrasava todo o dia!
Sentia ter bebido a própria dor,
dor imprecisa, negra nostalgia...

No silêncio do morno entardecer,
bebi a angústia que me fez sofrer,
e se fundiu em pranto, diluída...

E agora, amor, a minha angústia acalma,
purificada na dor, a minha alma,
vai ressurgir de novo para a vida!

Autor :Judith Teixeira
Mês dos Cravos – Sol-Posto
1920
Foto:Graça Loureiro

domingo, 7 de agosto de 2011

Poema Kitsh


Tu és o meu veneno e o meu vício
uma forma de estar fora de mim
sem ti o que era espera faz-se ofício
a vontade de te ter noite sem fim
esse tu não estares um breve indício
de flores morrendo no jardim.

Há um sítio em mim por habitar
casa para sempre em construção
há traves altos andaimes pelo ar
estaleiro abandonado junto ao chão
onde antes se julgava que era o mar
não há vagas nem marés nem barcos vão.

Se a hora de chegares fica esquecida
não mais posso esperar tua presença
o que antes era corpo tornou ferida
tudo o mais reduto de indiferença
pois onde agora a sombra estava a vida
onde antes a luz a noite imensa.


Autor: Bernardo Pinto de Almeida

domingo, 31 de julho de 2011

Caminho pelo lado da rebentação



Caminho pelo lado da rebentação das ondas ―
o litoral guarda segredo dos meus passos entre
as redes de sal trazidas pelos barcos
e o labirinto das algas ainda agora oferecidas

à praia. Sinto-me à mercê das falésias a riscar
o teu nome na areia; e é como se lentamente
pronunciasse um chamamento triste a que ninguém
acode. Fez-se tarde para os lamentos das sereias:

agora as marés dobam novelos de espuma à roda
dos meus pés, as águas já não transportam
a minha voz, a perder-se sobre as dunas
que os ventos vão desbastando devagar
ao cair da noite. Tenho sempre medo que não voltes.

Autor :Maria do Rosário Pedreira
 Foto:meyy

domingo, 24 de julho de 2011

quedas



caiu uma folha,
(morta?),,,colorida,
semente-lágrima
de vida.
reza em vão
marulhos de uma oração,
de um ciclo que não finda…
caiu uma folha,
mão-arado,
sangrada por chuva-dorida,
caiu uma folha
sozinha,,,no chão

 almaro  
Foto: pkarws

domingo, 17 de julho de 2011

onde a luz se ateia




Desde as últimas pétalas
que não te via neste mar


tão breve
solidária
pelo tempo fora

Reconheci-te peregrina
pelo ressoar das águas

Trazias referências inscritas
nas asas
uma espécie de destino
memórias incumpridas
sem palavras nem repouso
à descoberta de uma pausa
na fissura das escarpas

Gostei de te ver
no cimo dos meus olhos

onde a luz se ateia.


.
Autor :http://mararavel.blogspot.com/

domingo, 10 de julho de 2011

Foram

Foram tantos os silêncios
Que as palavras se perderam
Antes mesmo de serem ditas

Foram tantas as noites cativas
Que os sonhos feneceram
Quando a manhã ainda nem nascera

Foram tantos os silêncios – tantos
Que ainda doem no eco
Dos sentires...

.
Autor :Beatrice
Foto:Nat. S

domingo, 3 de julho de 2011

Sarça


toco-te l(E)tra
discreta sobre a blusa
como transparência
do sol mordendo-te
a teta...

de encontro à meta
o gesto da roupa solta...
macio o tempo da demora:
corpo aberto como prado!...

bravios potros
como amoras na boca!...
urgência dos beijos
como faca...

( línguas e segredos
o vinho e o mosto
do teus lábios...)

aberta no fio da curva
secreta a vulva
como sarça!...
.
Autor :Senador
Foto:loghan

domingo, 26 de junho de 2011

Como é que se Esquece Alguém que se Ama?


Como é que se esquece alguém que se ama? Como é que se esquece alguém que nos faz falta e que nos custa mais lembrar que viver? Quando alguém se vai embora de repente como é que se faz para ficar? Quando alguém morre, quando alguém se separa - como é que se faz quando a pessoa de quem se precisa já lá não está? 
As pessoas têm de morrer; os amores de acabar. As pessoas têm de partir, os sítios têm de ficar longe uns dos outros, os tempos têm de mudar Sim, mas como se faz? Como se esquece? Devagar. É preciso esquecer devagar. Se uma pessoa tenta esquecer-se de repente, a outra pode ficar-lhe para sempre. Podem pôr-se processos e acções de despejo a quem se tem no coração, fazer os maiores escarcéus, entrar nas maiores peixeiradas, mas não se podem despejar de repente. Elas não saem de lá. Estúpidas! É preciso aguentar. Já ninguém está para isso, mas é preciso aguentar. A primeira parte de qualquer cura é aceitar-se que se está doente. É preciso paciência. O pior é que vivemos tempos imediatos em que já ninguém aguenta nada. Ninguém aguenta a dor. De cabeça ou do coração. Ninguém aguenta estar triste. Ninguém aguenta estar sozinho. Tomam-se conselhos e comprimidos. Procuram-se escapes e alternativas. Mas a tristeza só há-de passar entristecendo-se. Não se pode esquecer alguem antes de terminar de lembrá-lo. Quem procura evitar o luto, prolonga-o no tempo e desonra-o na alma. A saudade é uma dor que pode passar depois de devidamente doída, devidamente honrada. É uma dor que é preciso aceitar, primeiro, aceitar. 
É preciso aceitar esta mágoa esta moinha, que nos despedaça o coração e que nos mói mesmo e que nos dá cabo do juízo. É preciso aceitar o amor e a morte, a separação e a tristeza, a falta de lógica, a falta de justiça, a falta de solução. Quantos problemas do mundo seriam menos pesados se tivessem apenas o peso que têm em si , isto é, se os livrássemos da carga que lhes damos, aceitando que não têm solução. 
Não adianta fugir com o rabo à seringa. Muitas vezes nem há seringa. Nem injecção. Nem remédio. Nem conhecimento certo da doença de que se padece. Muitas vezes só existe a agulha. 
Dizem-nos, para esquecer, para ocupar a cabeça, para trabalhar mais, para distrair a vista, para nos divertirmos mais, mas quanto mais conseguimos fugir, mais temos mais tarde de enfrentar. Fica tudo à nossa espera. Acumula-se-nos tudo na alma, fica tudo desarrumado. 
O esquecimento não tem arte. Os momentos de esquecimento, conseguidos com grande custo, com comprimidos e amigos e livros e copos, pagam-se depois em condoídas lembranças a dobrar. Para esquecer é preciso deixar correr o coração, de lembrança em lembrança, na esperança de ele se cansar. 

Autor : Miguel Esteves Cardoso, in 'Último Volume' 
Foto: Martyna Gumuła

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Seria o amor português




Muitas vezes te esperei, perdi a conta,
longas manhãs te esperei tremendo
no patamar dos olhos. Que me importa
que batam à porta, façam chegar
jornais, ou cartas, de amizade um pouco
— tanto pó sobre os móveis tua ausência.


Se não és tu, que me pode importar?
Alguém bate, insiste através da madeira,
que me importa que batam à porta,
a solidão é uma espinha
insidiosamente alojada na garganta.
Um pássaro morto no jardim com neve.

Nada me importa; mas tu enfim me importas.
Importa, por exemplo, no sedoso
cabelo poisar estes lábios aflitos.
Por exemplo: destruir o silêncio.
Abrir certas eclusas, chover em certos campos.
Importa saber da importância
que há na simplicidade final do amor.

Comunicar esse amor. Fertilizá-lo.
"Que me importa que batam à porta..."
Sair de trás da própria porta, buscar
no amor a reconciliação com o mundo.

Longas manhãs te esperei, perdi a conta.
Ainda bem que esperei longas manhãs
e lhes perdi a conta, pois é como se
no dia em que eu abrir a porta
do teu amor tudo seja novo,
um homem uma mulher juntos pelas formosas
inexplicáveis circunstâncias da vida.

Que me importa, agora que me importas,
que batam, se não és tu, à porta.
.
Autor Fernando Assis Pacheco
Foto . Marek W




domingo, 19 de junho de 2011

...


Deixei de ouvir-te. E sei que sou
mais triste com o teu silêncio.

Preferia pensar que só adormeceste; mas
se encostar ao teu pulso o meu ouvido
não escutarei senão a minha dor.

Deus precisou de ti, bem sei. E
não vejo como censurá-lo
ou perdoar-lhe.
.
Autor : Maria do Rosário Pedreira
Foto:Arche

domingo, 12 de junho de 2011

se alguém

se alguém disser que morri, avança até à varanda do céu,
escuta a noite e recolhe o meu corpo da espuma dos planetas.
não deixes que o meu rosto se dissolva nas tuas mãos,
insiste no meu nome até que o mar ascenda à tua boca.
e de luar em luar celebra o coração que fiz teu, mudamente,
como se o amor fosse sobreviver às veias paradas de sangue.

Autor : Vasco Gato in «Um Mover de Mão», pág. 21
Foto: Maarko

domingo, 5 de junho de 2011

Apenas um cigarro


As palavras são as mesmas
mas deixei de saber o tempo
para chegar a ti
durante meses e meses
tinha perdido o hábito
as histórias que de noite sonhas
o evidente esplendor que depois
não tomou nenhuma forma

que a razão é a deste amor
que tanto se confunde
com o medo

não dizias nada
tinhas de repente uma pressa desesperada
como quem do mundo inteiro
pretendesse apenas
um cigarro

Autor:-José Tolentino Mendonça
Foto:
mimowolna




domingo, 29 de maio de 2011

Enigma


Não sei porquê – ainda
Oculto as pétalas das rosas – secas
Entre o livro que me deste
E
Na lezíria em silêncio
O sol feneceu entre o fogo
E a lua a contestar o seu domínio
Entre as nuvens a namorar o mar
Eu ainda espero por ti
.
Autor : Beatrice

Foto : login55

domingo, 22 de maio de 2011

Sonâmbulo


Sonâmbulo,
Deambulei por subúrbios de caminhos
Edificados na chuva de palavras,
Levando nos bolsos vendavais de carícias
Derramadas pelas viagens do teu olhar.

Acordado,
Caminhei por avenidas inteiras de desejo
Traçadas por cem mãos de polvo astuto,
A desaguar aturdidas no teu corpo
Ao som de rugas irritadas de prazer.

Hoje,
Percorro-te na lenta vertigem do toque
Desenhado na pele inquieta da espera,
Incapaz de resistir à sede que inunda
As nossas avenidas com um só caminho,
O nosso.
.
Autor:Nilson Barcelli http://nimbypolis.blogspot.com/
Foto: asiasido

domingo, 15 de maio de 2011

demora a tua mão


Demora a tua mão em mim
Porque a mão é só a mão
E
Depois em mim terei o teu hálito
A tua língua
Com sabor às madrugadas
Plenas
E
Depois do grito em uníssono
E quando apenas o silencio existir
Em mim e em ti
Repousará o sorriso.
.
Autor :Beatrice



domingo, 8 de maio de 2011

guardo



guardo de teus dedos
a imaginada carícia
os beijos soltos
a pele em sobressalto...

abro-te o ardor lento e tépido
na suavidade inquieta 
da polpa do dorso
percorrido...

solto-te na humidade
quente da língua....

sorvo-te na linha longa
das coxas no vértice na curva
no arco fechado
dos corpos...

entrego-me na glória
do sexo na altivez erguida
aguda na vulva
que explode na boca...
.
Autor:Senador
Foto: Cerebellum

domingo, 1 de maio de 2011

..

o meu corpo é um lago
nele desagua
todos os sonhos esventrados...


Autor :Beatrice
Foto: Arveth

domingo, 24 de abril de 2011

hoje


hoje beijo-te na planice
de teu ventre
e planto açucenas
no triangulo
de teu sexo...
.

e no odor vibrante
e quente
da tua fecundidade
colho
o mel
e meu sémen
explode
na suave
colina de teus
seios
.
Autor : Senador
Foto: mokikiphoto

domingo, 17 de abril de 2011

no sonho

no sonho do não ver, ainda sonho no ver 
no sentir
no ver da rotina
em mim
e em todos os sonhos
desenhados em nós

Autor Beatrice

domingo, 10 de abril de 2011

Madrigal



quem me tange quem me toca
quem me semeia em redor?...

quem me quer quem me afasta
quem me envolve quem me mata
quem me faz sedutor
da palavra desprendida?...


quem me busca perdida
nas vagas do sentimento?

quem me tece subtil rede
da emoção da partilha?

quem me ofusca quem me aclara
quem luminosa me acolhe
quem me aguenta quem me nega
quem ardendo me consome?
.
Autor : Senador

domingo, 3 de abril de 2011

outros tempos


outros tempos - nasceram
sem mágoas
apenas memórias ficaram
na retina dos meus olhos
e nas minhas mãos
por vezes ainda acaricio
os teu corpo de querubim
e ainda navego no mar
dos teus olhos
e
no veludo dos teus cabelos
ainda sei - de mim
mas já nada sei de nós
. 
Autor:Beatrice
Foto : nighed

domingo, 27 de março de 2011

Cavaleiro Imaculado



Lânguida a noite,
solar o desejo
assim explícito...

Línguas de fogo
Em teu corpo aberto...
Dolente palavra sussurrada...

Entrego-me. tomo-te!...
Dedos alucinados
Secretos sacrários!...

Volúpia liquefeita!...

Odor de teu sexo
vem da brisa da noite
que nos abraça...

Assim ficamos
fora de Tempo
Tu, a noite, a brisa
- Gosto de sal e mel!

Sou guerreiro imaculado
de um culto antigo:
Vestais me cobrem
em ara de Desejo!..

Autor :-Senador.
Foto:  AJB-baj

domingo, 13 de março de 2011

,,,um dia


um dia meus dedos
vadios
vão percorrer
dunas e enseadas
de teu corpo

e teus cabelos
soltos
serão brisa
no meu peito
no deslumbramento
de beijos
e meu desejo
será sede e sal
e lingua e falo
e água
na tua fonte...
.
.
.
Autor :Senador