na noite escura
as sombras encurralam-me
mas há sempre uma candeia
que rasga o breu
que me acossa
e percebo — com um terror sarcástico —
que, por vezes,
sou a minha própria sombra
num ritmo
que não controlo.
Autor :BeatriceM 2026-09-13
Imagem : Janelle Pietrzak
Imagem : Janelle Pietrzak

1 comentário:
José Carlos Sant Anna
“As sombras encurralam-me”. Verso vigoroso, Beatrice – é uma tônica dos seus poemas? Pergunta retórica. Sigamos. No verso, parece não haver escolha. É a revelação de um cenário do gótico e, nele, o eu lírico está acuado por forças externas e, ao mesmo tempo, revela sua vulnerabilidade diante do desconhecido. Mas há luz. É a entrada da “candeia” em cena; é o ponto de virada; é a busca pela razão; é a consciência que clareia o caminho. Todavia, longe de parecer salvadora, essa luz revela uma ironia, dir-se-ia trágica – “com um terror sarcástico” – uma vez que o poema revela que o inimigo não está fora, mas dentro. Ou seja, a luz que o eu lírico buscou para se salvar é a que projeta “a sombra”; e aqui você concebe uma imagem paradoxal. Ameaça e ameaçado partilham o mesmo corpo. E o poema se move, na estrofe final, de uma constatação espacial (onde está a sombra) para uma constatação temporal e existencial (o ritmo). Quando o eu lírico afirma que o ritmo não é controlado por ele (pelo próprio eu), dá-se a perda de controle sobre a própria psique. É uma dança involuntária entre os nossos momentos de lucidez (candeia) e as nossas recaídas na melancolia ou na autodestruição (sombra).
Este poema é uma bela construção dialética entre a luz e a sombra.
Um bom domingo, Beatrice!
Enviar um comentário