Aqui estão as minhas escolhas do que considero melhor em Poesia,Prosa Poética e Fotografia. Domingo é dia de trabalhos de minha autoria.
quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017
terça-feira, 31 de janeiro de 2017
um não poema
kiki123
(conjugando as cores)
porque branca é a alma
e não tem físicas dores.
nada pertuba esta calma
neste poema sem tema.
Autor : LuísM Castanheira
domingo, 29 de janeiro de 2017
oxalá...
jenna martin
pego nas palavras, liberto-as
e a memória
ressuscita ao som do dia.
Lá fora
há uma cortina de névoa a cair sorrateira
e no horizonte uma chuva anunciada
promete lavar a praça.
oxalá lave também a alma
dos ímpios
oxalá...
Autor : BeatriceM
sábado, 28 de janeiro de 2017
Voltar a voar
Anka Zhuravlva
Voei em algum dia
Sei!
depois …perdi
as asas, não podia voar
tive de aprender
a caminhar.
Enquanto caminhava
pensei
em um dia poder
voltar a voar
Construí um par
de asas
com os sonhos
que fui juntando.
Subi ao monte mais alto
lancei-me á ilusão
e durante breve momento
senti o que era voar,
mas logo o vento
desfez minhas asas
construídas de sonhos.
Cai ao solo,
tive de voltar a caminhar.
Autor : Silvestre Raposo
sexta-feira, 27 de janeiro de 2017
Os amantes
Laura Makabresku
Os amantes
fecham-se
um no outro
(como os punhos
do bebé
que dorme
no berço
e no útero
da mãe
como as caras
dos ícones
no escuro
das igrejas)
Autor : Adília Lopes
in 'Sete Rios Entre Campos'
quinta-feira, 26 de janeiro de 2017
Olhar e Sentir
Leah Johnston
Olhar e sentirpor dentro do corpo a massa de que é feito o avesso dele.
Ossos músculos nervos veias
tudo o que está no corpo e mundo é
a pintura contém e depõe na tela e
se acaso aí o pintor deixou reservas
nesse sem nada o avesso do mundo se
recolhe e mostra a face.
Autor : Júlio Pomar
in "TRATAdoDITOeFEITO"
quarta-feira, 25 de janeiro de 2017
Sem corpo nenhum
como te hei de amar?
— Minha alma, minha alma,
tu mesma escolheste
esse doce mal!
Sem palavra alguma,
como o hei de saber?
— Minha alma, minha alma,
tu mesma desejas
o que não se vê!
Nenhuma esperança me dás,
nem te dou:
— Minha alma, minha alma,
eis toda a conquista
do mais longo amor!
Autor : Cecília Meireles
in 'Poemas (1942-1959)'
— Minha alma, minha alma,
eis toda a conquista
do mais longo amor!
Autor : Cecília Meireles
in 'Poemas (1942-1959)'
terça-feira, 24 de janeiro de 2017
Em todas as ruas te encontro
rosie hardy
Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão
perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura
Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
Autor : Mário Cesariny
in "Pena Capital"
domingo, 22 de janeiro de 2017
Habitas
Pintura de antónio macedo
http://antoniomacedo.pt/pt-pt
Habitas no sorriso indesvendável
com que afagas o meu corpo
no estremecimento que provocas na
pele
no desejo que ressurge
nos bálsamos que ficaram na alvura
dos lençóis em desalinho
e na noite que se veste e despe
em luxúria compassada.
Autor : BeatriceM
sábado, 21 de janeiro de 2017
...
Há uma casa no olhar
de um amigo.
Nela entramos sacudindo a chuva.
Deixamos no cabide o casaco
fumegando ainda dos incêndios do dia.
Nas fontes e nos jardins
das palavras que trazemos
o amigo ergue o cálice
e o verão
das sementes.
Então abre as janelas das mãos para que cantem
a claridade, a água
e as pontes da sua voz
onde dançam os mais árduos esplendores.
Um amigo somos nós, atravessando o olhar
e os véus de linho sobre o rosto da vida
nas tardes de relâmpago e nos exílios,
onde a ira nómada da cidade arde
como um cego em busca da luz.
Autor : Eduardo Bettencourt Pinto
in da outra margem
sexta-feira, 20 de janeiro de 2017
Pensar
Rosie Hardy
Pensar
é como tactear uma sombra
entrar de rastos
numa profusão de escuros
Autor : Ana Hatherly
In Fibrilações, 2005
quinta-feira, 19 de janeiro de 2017
Adeus
Pintura de Ana Paula Lopes
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.
Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.
Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já se não passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.
Adeus.
Autor : Eugénio de Andrade
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.
Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.
Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já se não passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.
Adeus.
Autor : Eugénio de Andrade
in “Poesia e Prosa”
Eugénio de Andrade, pseudónimo de José Fontinhas foi um poeta português. Tem uma biblioteca com o seu nome no Fundão.
Eugénio de Andrade, pseudónimo de José Fontinhas foi um poeta português. Tem uma biblioteca com o seu nome no Fundão.
Nascimento : 19 de janeiro de 1923,Fundão
Falecimento: 13 de junho de 2005, Porto
Fonte Wikipédia
quarta-feira, 18 de janeiro de 2017
Tudo à volta se move

Olga Astratova
Tudo à volta se move.
É firme e seca a terra
e eu sinto que as águas me engolem.
Julguei-me o sonho
mas dele
não sou mais que a névoa.
O provável que afastas
com medo que arda.
A poeira pousada no vestido transparente
da solidão que persegues.
Baixo os braços
cansada
de ficar frente às luzes que acendes.
Uma a uma sopro-as.
A dor tacteia as paredes
mas eu sou
o escuro do quarto que a cega.
Enquanto o silêncio alucina ainda
com o gemido de outras noites
eu emerjo do fundo do poço
sem que os meus lábios beijem as águas.
Autor :Sónia M
http://soniagmicaelo.blogspot.pt/
http://soniagmicaelo.blogspot.pt/
terça-feira, 17 de janeiro de 2017
Se eu pudesse
Se eu pudesse
ter-te em vez dos versos,
ou ter um verso
em vez de ti,
ou ter os olhos
como os de um gato
para perscrutar a noite
onde isso se decide.
Autor : Pedro Mexia
In Avalanche, 2001.domingo, 15 de janeiro de 2017
Lembrar-te
Graça Loureiro
Lembrar-te
Num dia frio de Janeiro
Sentado a olhar o rio
E a aspirar sofregamente um cigarro
No declínio da tarde
Na cidade grande
Lembrar-te a sorrir
A sentir o calor das tuas mãos
Que em fuga eu acariciava
E de repente. É Janeiro de outro ano
Noutra cidade que não a tua
Que não a minha
E sinto a lembrança
A reconfortar os dias que se formam
Nos trilhos do destino
Autor : BeaticeM
sábado, 14 de janeiro de 2017
Mãe
Mãe:
Por quem
os sinos
dobram
assim?
É por ti
ou por mim?
Autor : Albano Martins
in 'Antologia Poética'
sexta-feira, 13 de janeiro de 2017
O nome lírico
Esta manhã
hoje
é um nome
Nem mesmo amanheceu
nem o sol
Autor : Fiama Hasse Pais Brandão
in líricas portuguesas
hoje
é um nome
Nem mesmo amanheceu
nem o sol
a evoca
Uma palavra
palavra só
a ergue
Com um nome
Uma palavra
palavra só
a ergue
Com um nome
amanhece
clareia
Não do sol
mas de quem
a nomeia
Não do sol
mas de quem
a nomeia
Autor : Fiama Hasse Pais Brandão
in líricas portuguesas
quinta-feira, 12 de janeiro de 2017
Poema
lovisa ringborg rotwand
Alguma coisa onde tu parada
fosses depois das lágrimas uma ilha,
e eu chegasse para dizer-te adeus
de repente na curva duma estrada
alguma coisa onde a tua mão
escrevesse cartas para chover
e eu partisse a fumar
e o fumo fosse para se ler
alguma coisa onde tu ao norte
beijasses nos olhos os navios
e eu rasgasse o teu retrato
para vê-lo passar na direcção dos rios
alguma coisa onde tu corresses
numa rua com portas para o mar
e eu morresse
para ouvir-te sonhar
Autor : António José Forte
quarta-feira, 11 de janeiro de 2017
A verdadeira mão
Natália Drepina
A verdadeira mão que o poeta estende
não tem dedos:
é um gesto que se perde
no próprio acto de dar-se
O poeta desaparece
na verdade da sua ausência
dissolve-se no biombo da escrita
O poema é
a única
a verdadeira mão que o poeta estende
E quando o poema é bom
não te aperta a mão:
aperta-te a garganta
Autor : Ana Hartherly
In O Pavão Negro(2003)
terça-feira, 10 de janeiro de 2017
Eu não voltarei
morna, serena, calada,
adormecerá tudo, sob
sua lua solitária.
Meu corpo estará ausente,
e pela janela alta
entrará a brisa fresca
a perguntar por minha alma.
Ignoro se alguém me aguarda
de ausência tão prolongada,
ou beija a minha lembrança
entre carícias e lágrimas.
Mas haverá estrelas, flores
e suspiros e esperanças,
e amor nas alamedas,
sob a sombra das ramagens.
E tocará esse piano
como nesta noite plácida,
não havendo quem o escute,
a pensar, nesta varanda.
Autor : Juan Ramón Jiménez
domingo, 8 de janeiro de 2017
...
Leah Johnston
eu era a estrela que te orientava,
e iluminava,
quando a luz rareava,
no nublado dos dias.
tu sabias…sabias...
BeatriceM
sábado, 7 de janeiro de 2017
Legenda
anka zhuravlva
na legenda do presente
o fim duma história breve,
vou vivendo um sonho intacto
num pesadelo crescente
— uma luz fecunda e leve
nos olhos pardos dum gato.
Autor: Fernanda Botelho
sexta-feira, 6 de janeiro de 2017
Primeira Palavra
Aproxima o teu coração
e inclina o teu sangue
para que eu recolha
os teus inacessíveis frutos
para que prove da tua água
e repouse na tua fronte
Debruça o teu rosto
sobre a terra sem vestígio
prepara o teu ventre
para a anunciada visita
até que nos lábios humedeça
a primeira palavra do teu corpo
Autor : Mia Couto,
e inclina o teu sangue
para que eu recolha
os teus inacessíveis frutos
para que prove da tua água
e repouse na tua fronte
Debruça o teu rosto
sobre a terra sem vestígio
prepara o teu ventre
para a anunciada visita
até que nos lábios humedeça
a primeira palavra do teu corpo
Autor : Mia Couto,
in 'Raiz de Orvalho'
quinta-feira, 5 de janeiro de 2017
Ajuda
Porque o amor é simples,
Vale a pena colhê-lo.
Nasce em qualquer degredo,
Cria-se em qualquer chão.
Anda, não tenhas medo!
Não deixes sem amor o coração!
Autor : Miguel Torga
Vale a pena colhê-lo.
Nasce em qualquer degredo,
Cria-se em qualquer chão.
Anda, não tenhas medo!
Não deixes sem amor o coração!
Autor : Miguel Torga
in 'Diário (1945)'
quarta-feira, 4 de janeiro de 2017
Pai, dizem que ainda te chamo
o sono - a ausência não te apaga como a bruma
sossega, ao entardecer, o gume das esquinas. Há nos
meus sonhos um território suspenso de toda a dor,
um país de verão aonde não chegam as guinadas
da morte e todas as conchas da praia trazem pérola. Aí
nos encontramos, para dizermos um ao outro aquilo
que pensámos ter, afinal, a vida toda para dizer; aí te
chamo, quando a luz me cega na lâmina do mar, com
lábios que se movem como serpentes, mas sem nenhum
ruído que envenene as palavras: pai, pai. Contam-me
depois que é deste lado da noite que me ouvem gritar
e que por isso me libertam bruscamente do cativeiro
escuro desse sonho. Não sabem
que o pesadelo é a vida onde já não posso dizer o teu
nome - porque a memória é uma fogueira dentro
das mãos e tu onde estás também não me respondes.
Autor : Maria do Rosário Pedreira
in 'Nenhum Nome Depois
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