domingo, 2 de março de 2014

a saudade


a saudade não tem cor,
mas eu sei que o vento,
não leva nem a cor,
nem esta saudade de ti.
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BeatriceMar

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

.E escrevi o teu nome


E escrevi o teu nome e o teu número de telefone numa página da agenda do mês de Fevereiro. E, ao escrevê-lo, sabia que era uma despedida, mas todo o mês de Março nos arrastamos na despedida, como caranguejos na maré vazia. Sem ti, lancei outras raízes, construí pátios e terraços, fontes cujo som deveria apagar todos os silêncios, plantei um pomar com cheiro a damasco, mandei fazer um banco de cal à roda de uma árvore para olhar as estrelas do céu, um caminho no meio do olival por onde o luar pousaria à noite, abobadas de tijolo imaginadas pelo mais sábio dos arquitetos e até teias de aranha suspensas no teto, como se vigiassem a passagem do tempo. Nada disso tu viste, nada te contei, nada é teu. Sozinhos, eu e a aranha pendurada na sua teia, contemplamos-nos longamente, como quem se descobre, como quem se recolhe, como quem se esconde. Foi assim que vi desfilar os anos, as paredes escurecendo, um pó de tijolo pousando entre as páginas dos mesmos livros que fui lendo, repetidamente. Heathcliff e Catarina Linton destroçados outra vez pela minúcia do tempo.
Como explicar-te como tudo isto se te tornou alheio, como tudo te pareceria agora estranho, como nada do que foi teu vigia o teu hipotético regresso? Ulisses não voltará a Ítaca e Penélope alguma desfará de noite a teia que te teceste.
E arranquei a página da agenda com o teu nome e o teu número de telefone. Veio a seguir Abril e depois o Verão. Vi nascer a flor da tremocilha e das buganvílias adormecidas, vi rebentar o azul dos jacarandás em Junho, vi noites de lua cheia em que todos os animais noturnos se chamavam rãs, corujas e grilos, e um espesso calor sobre a devassidão da cidade. E já nada disto, juro, era teu.
E foi assim que descobri que todas as coisas continuam para sempre, como um rio que corre ininterruptamente para o mar, por mais que façam para o deter.
Sabes, quem não acredita em Deus, acredita nestas coisas, que tem como evidentes. Acredita na eternidade das pedras e não na dos sentimentos; acredita na integridade da água, do vento, das estrelas. Eu acredito na continuidade das coisas que amamos, acredito que para sempre ouviremos o som da água no rio onde tantas vezes mergulhamos a cara, para sempre passaremos pela sombra da árvore onde tantas vezes paramos, para sempre seremos a brisa que entra e passeia pela casa, para sempre deslizaremos através do silêncio das noites quietas em que tantas vezes olhamos o céu e interrogamos o seu sentido. Nisto eu acredito: na veemência destas coisas sem princípio nem fim, na verdade dos sentimentos nunca traídos.
E a tua voz ouço-a agora, vinda de longe, como o som do mar imaginado dentro de um búzio. Vejo-te através da espuma quebrada na areia das praias, num mar de Setembro, com cheiro a algas e a iodo. E de novo acredito que nada do que é importante se perde verdadeiramente. Apenas nos iludimos, julgando ser donos das coisas, dos instantes e dos outros. Comigo caminham todos os mortos que amei, todos os amigos que se afastaram, todos os dias felizes que se apagaram. Não perdi nada, apenas ilusões de que tudo podia ser meu para sempre.

Autor : Miguel Sousa Tavares
Conto extraído do livro “Não te deixarei morrer, David Crocket” 

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Voos inesperados




Paco de Lucía, 
 nome artístico de Francisco Sánchez Gómez
Algericas,21 de Dezembro de 1947

Cancún,26 de Fevereiro de 2014

Já a luz se apagou do chão do mundo





Já a luz se apagou do chão do mundo,

deixei de ser mortal a noite inteira;
ofensa grave a minha, que tentei
misturar-me aos duendes na floresta.
De máscara perfeita, e corpo ausente,
a todos enganei, e ninguém nunca
saberia que ainda permaneço
deste lado do tempo onde sou gente.
Não fora o gesto humano de querer-te
como quem, tendo sede, vê na água
o reflexo da mão que a oferece,
seria folha de árvore ou sério gnomo
absorto no silêncio de uma rima
onde a morte cessasse para sempre.

Autor : António Franco Alexandre,

             in «Duende»

domingo, 23 de fevereiro de 2014

hoje um barco com flores

Adelina Kim


Hoje,
sem destino desaguo no dia,
como uma partícula de um arco-íris,
que a noite pariu no meu olhar,
e num barco com flores.

Sem eira nem beira,
junto a cumplicidade,
das cores que me trespassam,
o olhar e a alegria de SER.
.
Autor : BeatriceMar

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Canção do Leste

Rosemary Blanche


Na volta da esquina
um anjo invisível espera;
uma vaga névoa, um espectro pálido
dir-te-á algumas palavras do passado.

Como água de acéquia o tempo
cava em ti o seu manso trabalho
de dias e semanas,
de anos sem nome nem recordação.

Na volta da esquina 
seguir-te-á esperando em vão 
esse que não foste, esse que morreu 
de tanto ser tu próprio o que és. 
Nem a mais leve suspeita, 
nem a mais leve sombra 
te indica o que poderia ter sido 
esse encontro. E, no entanto, 
estava ali a chave 
da tua ventura breve sobre a terra. 



Autor : Álvaro Mutis,
in «Os Versos do Navegante - antologia poética»
(tradução de Nuno Júdice)

domingo, 16 de fevereiro de 2014

não te iludas



não te iludas com as palavras que por vezes lês, e não compreendes.  não sejas apenas um leitor negligente sobre o que eu escrevo, ou escrevi.

sabes, as palavras não são perpétuas, por vezes caem no entorpecimento e depois passam a ser mentiras/verdades subordinando-se ao tempo em que foram escritas, e  depois quando forem lidas.

não te iludas meu amor, porque tudo, tudo tem a sua finitude.

até mesmo as palavras.

Autor : BeatriceMar

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

..

Barry Ross Smith

Creio que existes 
Mas não te vejo. 
Outrora estiveste aqui, 
Agora existo só. 
Deixo cair uma lágrima 
Do sentimento ferido, 
Onde nubla o ateado sofrimento 
De não te ver. 
E o coração bate no profundo vazio 
Do nada.
.
Autor Wolf

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Com a tua letra



Porque eu amo-te, quer dizer, estou atento
às coisas regulares e irregulares do mundo.
Ou também: eu envio o amor
sob a forma de muitos olhos e ouvidos
a explorar, a conhecer o mundo.

Porque eu amo-te, isto é, eu dou cabo
da escuridão do mundo.
Porque tudo se escreve com a tua letra.

Autor : Fernando Assis Pacheco, «A Musa Irregular»

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Gostava


Gostava de lavar em mim todas,
as agruras que se preservam ainda,
nítidas e expectantes,
gostava de apagar com água fresca,
as  contusões que o destino fomentou,
e poder voar mesmo que seja exclusivamente,
no pensamento.
 .
BeatriceMar 2014-02-09

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

...

Steve Hanks
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A terra leva-nos por terra;
mas tu, mar,
levas-nos pelo céu.
.
Autor : Juan Ramón Jiménez

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Luz



Talvez que noutro mundo, noutro livro,
tu não tenhas morrido
e talvez nesse livro não escrito
nem tu nem eu tenhamos existido

e tenham sido outros dois aqueles
que a morte separou e um deles
escreva agora isto como se
acordasse de um sonho que

um outro sonhasse (talvez eu),
e talvez então tu, eu, esta impressão
de estranhidão, de que tudo perdeu
de súbito existência e dimensão,

e peso, e se ausentou,
seja um sonho suspenso que sonhou
alguém que despertou e paira agora
como uma luz algures do lado de fora.

Autor : Manuel António Pina, in «Todas as Palavras - Poesia Reunida»

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

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Queima o sangue um fogo de desejo,
De desejo a alma é ferida,
Dá-me os teus lábios: o teu beijo
É o meu vinho e minha mirra.
Reclina para mim a cabeça
Ternamente, faz que eu durma
Sereno até que sopre um dia alegre
E se dissipe a névoa nocturna.

Autor : Aleksandr Púchkin

in «O Cavaleiro de Bronze e Outros Poemas»

domingo, 2 de fevereiro de 2014

apenas um poema num olhar

Yoko Janji

desejava  escrever um poema,
não um poema escrito com palavras,
apenas um poema, onde no olhar
tu soubesses que era,
para ti.
.
Autor : BeatriceMar

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

O teu nome

Victoria Howell

Flor de acaso ou ave deslumbrante,
Palavra tremendo nas redes da poesia,
O teu nome, como o destino, chega,
O teu nome, meu amor, o teu nome nascendo
De todas as cores do dia!


Autor : Alexandre O'Neill,
 in «Poesias Completas», ed. Assírio & Alvim.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

...

Robert Frank


O gato lembra-se de ti nos intervalos. Espera
de olhos acesos as histórias que nos contas.
Passeia-se inquieto sobre o meu parapeito e eriça
o pêlo, cúmplice, quando pressente que regressas.
Chegas sempre de noite. Sei quem és e ao que vens
e ofereço-te o silêncio de um pequeno quarto recuado,
as sombras das traseiras na minha pele, o tempo
de repetir um gesto inevitável. Ouço-te contar
a mesma lenda com lábios sempre novos. Aprendo-a
e esqueço-a. Nunca a saberemos de cor, o gato ou eu.
Depois partes. Levas contigo a tua voz, mas a música
fica. Eu fecho as portadas devagar. O gato mia baixo
à janela. Ninguém acena: guardamos com os outros
o segredo das tuas visitas. Ambos. O gato e eu.

Autor : Maria do Rosário Pedreira

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

...



Saio da cama pela fenda do lençol e fecho-a sobre ti. Toco o chão ao de leve, como uma ave repousa na pele das ondas. Visto-me às escuras _ tão mais discreta a blusa do avesso, a saia tão distraída nas costuras. Vou para a cozinha de sapatos na mão e escrevo-te um bilhete: deixei-te um beijo sobre a tua almofada antes de sair.

Não preciso assinar.

Autor : Maria do Rosário Pedreira

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Bilhete

wojcech



hoje

não ouvi o que disseste
estive
preocupado
em ouvir o que não disseste
.
Autor : vieira da silva http://www.vieiradasilva-ilhavo.com/marginal.

domingo, 19 de janeiro de 2014

O piano e eu

BigBadWolf

já nada me faz falta,
nem quando ao abrir a porta,
e deparo com o piano, calado.

há muito que habito na ausência, de ti,
e de nós.
.
Autor : BeatriceMar

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

semicertezas de uma noite de anseios e distâncias

Jasmin

imagino um céu sobre nós
cavalgando a noite
velozmente
como o corpo escala
ruelas femininas

imagino lugares limpos
baladas
véus descalços de meses
e calendários transparentes

imagino-te nua,
adivinho-me a arder
tu e eu,
escadaria invisível
de boca em boca
de ilusão em ilusão
algures
na derradeira certeza
das mãos frias.

.
Autor : Jorge Pimenta http://oorvalhodofimdomedo.blogspot.pt/

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Sem pecado


BigBadWolf


Pequei…
Num momento
Em que perdi o teu olhar
E esqueci-me
Do mar suave
Beijo… sempre.
Pequei…
Sem pecado
Na dor de sentir
Como vela aroma
Que escureceu
No mirrar do caminho.
Pequei…
No cair de um abraço
No rasgar de um dizer
No escrever sem fim
No trovão da quebra
Pequei… apenas… sem pecado!


Autor :José Luís Outono, MAR DE SENTIDOS (Ed. Vieira da Silva, 2012)

domingo, 12 de janeiro de 2014

Vôo de Tejo sem asas



Vôo de Tejo sem asas. Nem de velas.
Nem de partidas. Ou de mil desmedidas
Chegadas...

É de névoa o horizonte em que me despenho...

Ousamos o que sabemos nos passos
Que não damos. E ficamos...

Não mais Pirâmedes
Corroídas. Areias do deserto.
Vento suão de mil enganos.
Não mais Nilos...

Quem de Helena, tróias?!
Quem tece o rosto de Penélope
Em meus dedos?
Que romanos, que glórias?
Que Cervantes? que mistérios?
Que Machados? que Castelas?
Que sêdes de mil anos?

Torrentes de água pura
Nerudas. Índios. Neves de montanhas.
Meu sangue fervendo no gelo das estepes...

Quem me arde nesta dor?
Que sal? Que mar? Que guindastes? Que pimentas?
Que Bandarras? Que poetas?
Que Vieiras?

Camões de luto. Jangadas. Capelas imperfeitas
e Pessoa no proscénio...

não mais heróis
não mais ilhas
nem míticas profecias...

E no entanto este Povo
Este olhar desamparado que queima em cada gesto

E este fado. E este fardo...

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

O meu coração é uma folha de papel

Sónya Sudarikova

O meu coração é uma folha de papel
com retas e curvas e espirais
de lírios carnais.

Neles repousam os beijos de borboletas
com desejos de asas incansáveis,
sonhos infindáveis.

E entre o traço do voo e o sorriso da flor,
o céu de um peito vibra no ar
do poema amar.

Autor : Angela Lopes

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

O primeiro dia

Anja Stiegler

O que o acordou foi o silêncio. Primeiro, o do despertador que não tocou à hora combinada todas as manhãs. Depois, o de outra respiração, que devia ouvir e não ouvia. Estendeu a mão para o quente do outro lado da cama e encontrou o frio. Apalpou e encontrou vazio. Então, sim, despertou completamente.

Um prenúncio de tragédia desceu por ele abaixo, como um arrepio. O que acabara de se lembrar era que não acordara só por acaso ou por acidente: aquele era o primeiro dia, a primeira manhã da sua separação — o primeiro de quantos dias? — em que acordaria sempre sozinho, com metade da cama fria, metade do ar por respirar.

Era Abril, sábado e chovia. Sentado na cama, lembrou-se das instruções que dera a si mesmo para aquela manhã: fazer peito forte à desgraça. Nada é inteiramente bom, mas nada é inteiramente mau - pensou. Posso ler à noite até me apetecer sem me mandarem apagar a luz, posso dormir atravessado na cama, posso-me livrar daquele rol de cobertores com o qual ela me esmagava, fizesse sol, chuva ou frio, porque as mulheres são mais friorentas que eu sei lá, posso usar a casa-de-banho todo o tempo que quiser, posso espalhar as roupas, os jornais e os papéis pelo quarto à vontade e até - oh, suprema liberdade — posso fumar à noite na cama.

Levantou-se para se olhar ao espelho da casa-de-banho. Sorriu à sua própria imagem, ensaiou-a calma, tranquila, confiante. Imaginou mentalmente o texto que poderia redigir sobre si mesmo para a secção de anúncios pessoais do jornal: “Divorciado, 40 anos, bom aspecto, licenciado, rendimento médio-alto, casa própria e espaçosa, desportos, ar livre, terno e com sentido de humor”. Mulheres compatíveis? Deus do céu, dezenas delas! Sou um partidão — concluiu para o espelho.

Calmo, tranquilo e confiante, passou aos outros aposentos da casa para dar uma vista de olhos ao resultado da partilha dos móveis, aliás feita sem grandes problemas, como é próprio de gente civilizada. Por alto, entre oliving, o hall, o escritório, a cozinha, o quarto de casal e as duas casas-de-banho, estimou nuns setecentos contos o preço da reposição das coisas em falta. Mais metade dos livros e dos CD's, quase todas as fotografias dos últimos dez anos das suas vidas e algumas outras coisas cujo verdadeiro valor era o vazio que encontrava se olhasse para o lugar onde elas costumavam estar.

“Até agora vou-me aguentando”, considerou ele. Entre perdas e danos e a certeza adquirida de que nada dura para sempre, restavam-lhe várias razões e objectos e sentimentos para olhar em frente sem um sobressalto.

Enquanto fazia, com um prazer insuspeitado, o seu primeiro pequeno-almoço de homem só, passou à fase seguinte do que chamara o “plano de sobrevivência”: desfolhar a agenda de telefones em busca de amigos igualmente sós com quem fazer “programas de homens” ou de antigas namoradas, que se tinham separado ultimamente ou outras que achava acessíveis mas que nunca tivera a coragem e a oportunidade de aproximar. A primeira desilusão foi com os amigos: de A a Z, realizou que só tinha dois amigos sem mulher e, para agravar as coisas, com nenhum deles lhe apetecia sair e entrar numa de “anda daí e mostra-me lá como é o mundo lá fora”. Quanto às mulheres que julgava sortables, sempre eram cinco, mas o resultado foi quase patético. Duas já não moravam naqueles telefones, outra tinha-se casado entretanto, e o marido estava ao lado a ouvir a conversa, o que o deixou completamente idiota a inventar pretextos absurdos para o telefonema. Do número da quarta atendeu uma criancinha e ele desligou e foi só na última da lista que finalmente teve sorte: sim, a Joana morava ali, era ela própria ao telefone. Não, não estava casada nem, pelo que, esforçadamente, percebeu, tinha namorado. Sim, ok, por que não irem jantar logo, para falar do projecto que ele tinha e onde ela poderia caber. “Ah, a tua mulher não vem? Separados? Não, não sabia. Recente? Pois, essas coisas são tão chatas, mas ainda bem que reages e tens projectos novos e tudo! Ok, às oito e meia vens-me buscar”. Ele teria desligado quase em êxtase, não fosse a frase final dela, à despedida, que o deixou verdadeiramente abalado. “Olha, vais-me achar uma grande diferença. A idade não perdoa a ninguém, não é?”

Enfim, sempre era um date. O primeiro, certamente, de uma longa lista. O que interessa se for um flop — achas que ias encontrar uma mulher super logo ao virar da esquina? É preciso é entrar no circuito, pá, começar a sair, a ser visto, fazer com que as pessoas saibam que estás disponível. O resto vem por arrasto.

Passeou-se pela casa, pensativo, fumando o primeiro cigarro do dia. De repente lembrou-se que ainda não tinha visto o quarto do filho. A cama e a escrivaninha tinham ido, assim como praticamente todos os brinquedos. Sobrava um boneco de peluche, três ou quatro carrinhos semi-partidos, unslegos e um quadro para fazer desenhos, com os respectivos marcadores, pousados, à espera de uma mão de criança. A mesa-de-cabeceira ficara e parecia absurda no meio do quarto, sem a cama nem os outros móveis, com um retrato dele e do filho numa praia do Algarve, sorrindo, abraçados um ao outro. Sem saber porquê, sentou-se no chão encostado à parede, muito devagar, a olhar para a fotografia. Duas grossas lágrimas escorregaram-lhe pela cara abaixo e caíram na madeira do chão, entre as pernas. Foi só então que ele percebeu que estava a chorar.


Autor: Miguel Sousa Tavares 
texto extraído do livro “Não te deixarei morrer, David Crockett”, Editora Nova Fronteira – Rio de Janeiro, 2005, pág. 23.

domingo, 5 de janeiro de 2014

Amei-te com as palavras

Boris Zaretsky

Amei-te com as palavras
com o verde ramo das palavras
e a pomba assustada do coração.

Amei-te com os olhos
o espelho doido dos olhos
e a sede inextinguível da boca.

Amei-te com a pele
as pernas e os pés
e todos os gritos que trago
por debaixo da roupa.

Amei-te com as mãos
As mesmas com que te digo adeus.

Autor : Rosa Lobato de Faria