Gosto quando me falas de ti... e vou te
percorrendo
e vou descortinando a tua vida
na paisagem sem nuvens, cenário de meus
desejos
[tranqüilos
Gosto quando me falas de ti... e então
percebo
que antes mesmo de chegar, me adivinhavas,
que ninguém te tocou, senão o vento
que não deixa vestígios, e se vai
desfeito em carícias vãs...
Gosto quando me falas de ti... quando aos
poucos a luz
vasculha todos os cantos de sombra, e eu só
te encontro
e te reencontro em teus lábios, apenas
pintados,
maduros,
mas nunca mordidos antes da minha audácia.
Gosto quando me falas de ti... e muito mais
adiantas
em teus olhos descampados, sem emboscadas,
e acenas a tua alma, sem dobras, como um
lençol
distendido,
e descortino o teu destino, como um caminho
certo, cuja
primeira curva
foi o nosso encontro.
Gosto quando me falas de ti... porque percebo
que te
[desnudas
como uma criança, sem maldade,
e que eu cheguei justamente para acordar tua
vida
que se desenrola inútil como um novelo
que nos cai no chão..."
Autor : J. G. de Araújo Jorge
(Do livro "Quatro Damas" 1ª Edição,
1965)
Imagem : rosie hardy

2 comentários:
Um poema de entrega total a alguém e a quem se recebe de braços abertos.
O sujeito lírico vê a vida dela antes dele como um "novelo inútil", algo que estava parado ou sem rumo, e que só ganha utilidade e movimento quando ele chega para "desenrolar" essa história.
Gostei de reencontrar J.G. de Araújo Jorge (1914-1987)
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