sexta-feira, 4 de abril de 2025


Diz só o silêncio
um gesto
um beijo
que as palavras
estão nuas de sentido
envoltas no burel
dos sonhos.

Autor : Maria Helena Ventura 
QUANDO O SILÊNCIO FALAR
Imagem :Pinterest

quinta-feira, 3 de abril de 2025

Poema inútil com montanha

Alcove (Adam Andrearczyk)

Vejo a montanha à minha frente pousada 
Sobre a água sempre verde, e penso na inutilidade 
De tudo o que ela é, e na inutilidade de estar pensando nisto, 
Quando um pensamento inútil me sugere 
Que a montanha pode ser 
Um pormenor pensado por ela 
Na paisagem do meu próprio peensamento, para 
Com isto me levar a pensar sobre pensamentos, 
E não sobre montanhas, ficando ela, como antes, 
Pousada na água sempre verde, sem ser 
Pensada por ninguém. 

Autor : Rui Costa



quarta-feira, 2 de abril de 2025

Principe

katia chausheva

Príncipe:
Era de noite quando eu bati à tua porta
e na escuridão da tua casa tu vieste abrir
e não me conheceste.
Era de noite
são mil e umas
as noites em que bato à tua porta
e tu vens abrir
e não me reconheces
porque eu jamais bato à tua porta.
Contudo
quando eu batia à tua porta
e tu vieste abrir
os teus olhos de repente
viram-me
pela primeira vez
como sempre de cada vez é a primeira
a derradeira
instância do momento de eu surgir
e tu veres-me.
Era de noite quando eu bati à tua porta
e tu vieste abrir
e viste-me
como um náufrago sussurrando qualquer coisa
que ninguém compreendeu.
Mas era de noite
e por isso
tu soubeste que era eu
e vieste abrir-te
na escuridão da tua casa.
Ah era de noite
e de súbito tudo era apenas
lábios pálpebras intumescências
cobrindo o corpo de flutuantes volteios
de palpitações trémulas adejando pelo rosto.
Beijava os teus olhos por dentro
beijava os teus olhos pensados
beijava-te pensando
e estendia a mão sobre o meu pensamento
corria para ti
minha praia jamais alcançada
impossibilidade desejada
de apenas poder pensar-te.
São mil e umas
as noites em que não bato à tua porta
e vens abrir-me

Autor : Ana Hatherly

terça-feira, 1 de abril de 2025

Sobre o Regaço


Sobre o regaço tinha
o livro bem aberto;
tocavam em meu rosto
seus caracóis negros.
Não víamos as letras
nem um nem outro, creio;
mas guardávamos ambos
fundo silêncio.

Por quanto tempo? Nem então
pude sabê-lo.

Sei só que não se ouvia mais que o alento,
que apressado escapava
dos lábios secos.

Só sei que nos voltámos
os dois ao mesmo tempo,
os olhos encontraram-se
e ressoou um beijo.

Autor: Gustavo Adolfo Bécquer