domingo, 26 de abril de 2015

A dieta


Deitei-me sem jantar, naquela noite
sonhei que te comia o coração.
Suponho que seria pela fome.
Enquanto devorava aquela fruta
─ era doce e amarga ao mesmo tempo ─
tu beijavas-me com os lábios frios,
mais frios e mais pálidos que nunca.
Suponho que seria pela morte.

Autor : amalia bautista

sábado, 25 de abril de 2015

Revolução


Como casa limpa
Como chão varrido
Como porta aberta

como puro inícío
Como tempo novo
Sem mancha nem vício

Como a voz do mar
Interior de um povo

Como página em branco
Onde o poema emerge

Como arquitectura
Do homem que ergue
Sua habitação

Autor : Sophia de Mello Breyner Andresen
in O nome das coisas

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Cadernos de Poesia



Difícil é esperar
quando nada sabemos
nada haver a esperar.

O eco de uma lágrima não basta
para dar vento à sementeira 

autor Egito Gonçalves

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Mudemos de casa

Mike & Madeleine Bülow

Mudemos de casa; porque é preciso
arrumar as dores de outra maneira,
certificarmo-nos da existência do corpo
em novos lençóis, voltar a ter ilusões,
lugar propício para a curiosidade
de alguns que nos fazem acreditar
que a vida é um amplo anfiteatro
para as mãos.

autor : jorge gomes miranda

quarta-feira, 22 de abril de 2015

esplanadas

Eduard Gordeev


Um sofrimento parecia revelar
a vida ainda mais
a estranha dor de que se perca
o que facilmente se perde
o silêncio as esplanadas da tarde
a confidência dócil de certos arredores
os meses seguidos sem nenhum cálculo

por vezes é tão criminoso
não percebermos
uma palavra, uma jura, uma alegria

autor: josé tolentino mendonça

terça-feira, 21 de abril de 2015

...

aynur Guçlu



para lá da cortina além da porta errada
silencioso e só está sentado
e lê num livro velho
a sua própria história

autor : manuel de castro

segunda-feira, 20 de abril de 2015

É uma tortura passar o dia à espera da noite

Pier Toffoletti
Perco-me nestas linhas,
com que te tento escrever...
As linhas que desenho no meu pensamento,
reproduzindo o teu sorriso...
O teu rosto perfeito,
desenhado à mão pelo mestre...
A tua beleza única,
que me prende em sonhos....
Aqueles sonhos que vivo
enquanto durmo e me mantêm vivo...
Acordo e só penso em dormir
para poder estar contigo...
É uma tortura passar o dia à espera da noite...
Queria ter-te a toda a hora...
Resides na minha lembrança...
Apenas isso...
Aquele momento que passou...
O cheiro que deixaste tatuado no meu corpo...
A pele sedosa que vestias...
Nuvens onde dormimos,
criadas pelo incenso que assistiu ao nosso amor...
Dissiparam-se depois...
Como os meus sonhos,
todas as manhãs quando acordo e tu não estás...

Autor : Nuno Miguel Miranda

sábado, 18 de abril de 2015

O Amigo

Kam Kan

Esqueceste amigo!
Quando mais era preciso
Que te lembrasses
Esqueceste amigo!
Ou talvez não saibas
Que quando a dor
Nos abafa e deprime
Quando o peito estala
E nos oprime
Necessitamos por vezes
De uma simples palavra de conforto
Ou de um pequeno gesto a dizer-nos:
Estou contigo!
E é tão fácil amigo
E tão verdade
Quando dentro de nós
Mora de facto a amizade.
Mas se nada disto sentes
Se nada disto entendes
Ou achas que não mereço
Então…
É com mágoa que reconheço
E te digo
Que não és
Nem nunca foste
Meu amigo!    
                                                                                                         
Autor Orlando Laranjeiro


sexta-feira, 17 de abril de 2015

Agora é diferente


Agora é diferente
Tenho o teu nome o teu cheiro
A minha roupa de repente
ficou com o teu cheiro

Agora estamos misturados
No meio de nós já não cabe o amor
Já não arranjamos
lugar para o amor

Já não arranjamos vagar
para o amor agora
isto vai devagar
isto agora demora

Autor : Manuel António Pina


quinta-feira, 16 de abril de 2015

A esquina estava lá



A esquina estava lá
E a árvore prevista
Mas não eu.
Falto-me? Faltei-me
Mas nem sempre é necessário não faltar.
Basta o simulacro de árvore na esquina
Basta a esquina sem estrada onde passei
Basta ouvir-me o silêncio em cada passo.


Autor : Helder Macedo