terça-feira, 1 de setembro de 2015

Momento

Marta Orlowska


O vôo dos pássaros prolonga
a beleza das tardes.
E há, em nosso olhar,
um vasto
dealbar.
Tudo, em grandeza, torna-se possível.
O visível nasce do invisível.
As nuvens acenam, de repente.
E aquilo que emergiu
é o emergente.

Autor : Artur Eduardo Benevides

domingo, 30 de agosto de 2015

Há dias em que em ti talvez não pense

Steve Walker

Há dias em que em ti talvez não pense
a morte mata um pouco a memória dos vivos
é todavia claro e fotográfico o teu rosto
caído não na terra mas no fogo
e se houver dia em que não pense em ti
estarei contigo dentro do vazio

Autor : Gastão Cruz
in Fogo (Assírio & Alvim, 2013)

sábado, 29 de agosto de 2015

Sempre

Mathieu Chatrain
sempre que uma praia se levanta
és sempre tu que me tocas
e sempre tu quem aceita o sorriso
é sempre o sol embrulhado em terra pura
e sempre pura a voz que a terra canta
porque se ouvires a água na pedra
a água que sempre nos meus lábios sabe a ti
se ouvires a água na pedra tens a lua
a manhã o cereal de espuma que não pára de crescer
nos lábios teus que a água dos meus conhece
como o sol procura o dia e sempre acha a noite
e é na noite que sempre te digo
que sempre te juro as mãos enormes
e levanto a praia que tu levantas
quando sempre acordamos
e na nossa nudez se esconde a noite
em que lábios nos lábios criámos o mar
.

Autor : © Vasco Gato

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Sabíamos

Nishe
Sabíamos ambos,
que no peso de uma folha
e em cada palma da mão suada
estava o mosto da vida, as flores e as borboletas.
Sabíamos ambos,
que no sabor a sal da pele
e em cada perder dos nossos medos
havia um travo salgado que nos enchia a alma de sentires.
Sabíamos ambos,
que no calor ventos
e em cada assomo das ondas do mar
naufragavam e escorriam-nos os sentimentos.
Não sabíamos porém…
que na luz dos nossos sonhos
nascia um sopro inquieto
que nos fazia perdidos no meio dos caminhos.
E não sabíamos que os desejos
desaguavam num mar de esquecimentos.

Autor © António Carlos Santos )
In: Livro de poesia: "Da Geometria Do Amor"

terça-feira, 25 de agosto de 2015

não me deixes morrer longe do mar

Elizabet Gadd

não me deixes morrer longe do mar
das vagas de palavras que me sussurras
quando fechas os olhos espraiando os lábios
e as tuas mãos são algas apetecidas

não me deixes morrer longe do mar
das asas aladas de pássaros vivos
que ecoam as noites em amor escritas
salgadas por temperos escondidos

não me deixes morrer longe do mar
das marés tão certas de incerteza
como a vida preceder o tempo
ou o horizonte ser infinito com rosto

não me deixes morrer longe... de ti

Autor : Margarida Vieira
in Segredos Tecidos à mão


sexta-feira, 21 de agosto de 2015

mãe,

Duy Huynh

mãe, eu sei que ainda guardas mil estrelas no colo.
eu, tantas vezes, ainda acredito que mil estrelas são
todas as estrelas que existem.
.
Autor : José Luís Peixoto
in a Casa A Escuridão

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Fica

Marta Orlowska

Fica…
Não me abandones os teus silêncios de vidro
onde se exila a tua verdade clara,
não abandones em mim
esses teus lugares suspensos, adormecidos,
onde a madrugada pura se expande em cânticos
de aves azuis.

Aguardo-te amanhã,
naquele beiral perto do céu
onde se avista o campo de lilases
semeado com todas as tuas palavras súbitas
para mim.
Fica...

Autor : MARIA JOÃO SARAIVA
in RIO DE DOZE ÁGUAS, 12 POETAS (Coisas de Ler, Ed., 2012)

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

CHAMAR-TE MEU AMOR


Dizer que tudo em ti é movimento
e que há corças nas selvas em redor
do amor que às vezes faço em pensamento
... ou do que eu penso quando faço amor.

Dizer que em tudo escuto a tua voz
... no mar no vento na boca das searas
o maior amor do mundo somos nós
cobrindo a solidão de pedras raras.

Dizer tudo o que eu digo nunca basta
pois para ti não chegam as palavras
"meu amor" é uma expressão que já está gasta
mas tem sempre um aroma de ervas bravas.

É por ti tudo o que faço e digo e chamo
por ti eu tudo invento e tudo esqueço
dou tudo o que há em mim quando te amo
mas nem sei meu amor se te conheço.

Autor : Joaquim Pessoa

domingo, 16 de agosto de 2015

A viagem ainda não começou



Diante de nós havia, o tempo. Apenas o tempo
A tarde era de bonança mas as gaivotas insistiam em voar
E o tempo passava. Acendes-te um cigarro. E em leves baforadas de fumo,
disseste que não gostavas de conversas sérias, nem de rotinas.
Nem de coisas sérias.  E as gaivotas continuavam a cirandar,  alheadas de tudo .
A tua voz tornou-se um sussurro. No tempo.E nesse dia.

Hoje quando a noite desponta.
Eu sei que o dia retornará e a minha viagem ainda não começou.

BeatriceMar
2014-10-19
Reeditado

sábado, 15 de agosto de 2015

Saudade



Segue-me noite e dia o teu desejo!...
Oiço a tua voz rúbida e cantante
Suplicar-me a carícia do meu beijo,
numa teima exigente e perturbante!

E o meu corpo vencido, dominado,
vai tombar doloroso, inconsciente,
sobre a lembrança morna do passado
- e fica-se a sonhar... perdidamente!

Autor : Judith Teixeira
in 'Antologia Poética'