terça-feira, 19 de março de 2019

A última corrida


Era um rapaz que partiu
para conhecer o medo
o seu coração arranhado pelas chamas
tropeções de um cego que foge da aldeia
nessa noite
quem conseguiria contar

de comboio em pensamento seguiu para Bréscia
a última corrida de aeroplanos do século
andava à roda de trinta mil libras
e ele queria muito voar sozinho
sobre florestas

ninguém soube mas a sua vida
vista daquele aeroplano maravilhara-o
chegariam os nevões é verdade
novas e novas sombras sobre a terra
mas a sua vida vista do aeroplano era tão grande
como nenhuma outra coisa que conheceu

cá em baixo diziam:
«o seu voo prolonga-se sobre cada floresta
e desaparece
nós vemos as florestas
mas não o vemos a ele»

Autor : Jose Tolentino Mendonça

domingo, 17 de março de 2019

não te iludas


não te iludas com as palavras que por vezes lês, e não compreendes.  não sejas apenas um leitor negligente sobre o que eu escrevo, ou escrevi.

sabes, as palavras não são perpétuas, por vezes caem no entorpecimento e depois passam a ser mentiras/verdades subordinando-se ao tempo em que foram escritas, e depois quando forem lidas.

não te iludas meu amor, porque tudo, tudo tem a sua finitude.

até mesmo as palavras.

Autor : BeatriceM 2014-02-16 reeditado

sábado, 16 de março de 2019

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Quando a voz lhe envelhecer nas palavras. Puxem-lhe os passos na direcção contrária do olhar. Lancem-no sozinho contra a cama e retirem as portas do casulo para quando entrar bater com o nariz no perfume das flores que não plantou. Quando estiver quase a descobrir. Destapem-lhe o futuro da frente e coloquem lá outra coisa que não seja passado. Leiam os gestos os dedos as mãos os braços a carne e gastem-lhe os caminhos de tanto andar a pé. Quando cair num sonho feliz. Respirem-lhe os versos devagarinho para não doer. Deixem-no escapar tranquilo e quieto nem que seja por um triz ou por um triste corpo devoluto.

Autor : Heduardo Kiesse

sexta-feira, 15 de março de 2019

..

a noite desvaneceu-se
em pedaços
perdi a lua, procuro-a...
caminho nua de palavras
no areal do meu destino,
estrelas tombam
na espuma, aqueço-as
no meu ventre,
luzem e liberto-as, aves
brilhando, na noite inexistente
tenho o amor em mim
em quarto minguante,
deslizo no vento
respiro nuvens e descubro-me
noite, azul latejando matizes
de poemas translúcidos,
embriagada de nenúfares...
uma luz branca, marfim
purpurina reacende -se
no meu colo...

Autor : Ana Cristina Macieira 17-11-2018
Retirado do facebook da autora

quinta-feira, 14 de março de 2019

Os Deuses

Kyle Thompson

Houve-os na Grécia antiga,
houve-os em Roma.

Onde estarão agora,
abscônditos mas vivos?

Seu exemplo nos falta.

—: Somos pálidos, tristes, receosos.

Onde estarão, que apenas
sabem deles as árvores?

Autor : Sebastião da Gama
in Campo Aberto

quarta-feira, 13 de março de 2019

O circulo temporário

eduard-gordeev

I.

Na cidade não se falava de amor
mas eu amava
e resistia à cidade
porque falava de amor.

II.

Uns viviam em ruas com nome
de escultor,
outros viviam em ruas com nome
de pintor,
muito poucos viviam em ruas com nome
de gente.

III.

Na cidade tudo era circular:
terminava no mesmo ponto
em que começava.
Redondos, inúteis,
sobrevivíamos
como as montanha lá ao fundo.

Autor  : Filipa Leal
in A cidade líquida e outras texturas (deriva

terça-feira, 12 de março de 2019

......

Kyle Thompson

“Dizem que de louco todo mundo tem um pouco.
Então considerando que muitos surpreendam-se comigo, de louco eu devo ter um muito.
E quer saber? Hei de ter então muito mais.
Ninguém se destaca nessa vida sendo igual a todo mundo.”

Autor : Augusto Branco

domingo, 10 de março de 2019

Oração


Que o tempo te sare a ferida
E que a dor seja atenuada

Porque essa dor é a tua
Ninguém a sente como tu

Que as cores do dia
Sejam um bálsamo para amolecer
A ausência
E a falta do amor
Dessa ave em permanente voejo

Que um dia tudo seja apenas
E só
Memória e saudade….

Autor : BeatriceM 2019-03-09

sábado, 9 de março de 2019

Aparição

Oriol Angrill Jordà
A mulher que por mim passou na rua, há pouco, 
foi uma coisa diáfana, gentil, 
cedo, a pairar 
na sombra dum jardim 
com flores, em baixo, ajoelhadas, 
ao senti-la na altura, 
e mandando-lhe o aroma em lágrimas, desfeito, 
para mantê-la em uma nuvem branca...
.
Mulher, coisa diáfana, vaga e bela, sem desenho,
logo fluido animando o colo duma nuvem, nuvem,
num ápice, trucidada pelo vento!

Autor  : Edmundo Bettencourt
in 'Rede Invisível' 


sexta-feira, 8 de março de 2019

...

Quero ficar só. Gosto muito das pessoas, mas essa necessidade voraz que às vezes me vem de me libertar de todos. Enriqueço na solidão: fico inteligente, graciosa e não esta feia ressentida que me olha do fundo do espelho. Ouço duzentas e noventa e nove vezes o mesmo disco, lembro poesias, dou piruetas, sonho, invento, abro todos os portões e quando vejo a alegria está instalada em mim.

Autor : Lygia Fernandes Telles