quinta-feira, 21 de junho de 2018

Se o tempo


Marcela Bolivar

Se o tempo
fosse
uma flor, o seu
perfume
seria
esta luz
escorrendo
pelas escarpas
do dia.

Autor : Albano Martins

quarta-feira, 20 de junho de 2018

...

laura iverson


Quando as coisas ficam ruins, é sinal de que as coisas boas estão por perto...
Autor: Cora Coralina

terça-feira, 19 de junho de 2018

O anel de vidro

Natália Drepina

Aquele pequenino anel que tu me deste,
— Ai de mim — era vidro e logo se quebrou
Assim também o eterno amor que prometeste,
— Eterno! era bem pouco e cedo se acabou.
Frágil penhor que foi do amor que me tiveste,
Símbolo da afeição que o tempo aniquilou, —
Aquele pequenino anel que tu me deste,
— Ai de mim — era vidro e logo se quebrou
Não me turbou, porém, o despeito que investe
Gritando maldições contra aquilo que amou.
De ti conservo no peito a saudade celeste
Como também guardei o pó que me ficou
Daquele pequenino anel que tu me deste

Autor : Manuel Bandeira

domingo, 17 de junho de 2018

Hoje

Cristina Fornarelli

Hoje já nem sei o que fazer do convite
Que não recebi
E acredito que o tenhas enviado

Nem me importa
Assim nem me preocupo
Quais os sapatos que teria de levar

Qualquer  um deles
Magoa-me os pés como um castigo
Que não tenho de suportar

Autor -  BeatriceM 2018-06-17


sábado, 16 de junho de 2018

As perguntas


Cristina Coral

Não tem rosto, o Deus dos perplexos. Nem voz.
Nem arrependimento. Nem a alegria dos alegres
ou o medo da escuridão. Não posso dizer-vos como
se encontram os seus caminhos, se o melro poisa

nas hortas junto do rio, ao adivinhar a tempestade.
Deus predador, o nosso, prudente, interdito,
que desagrada ao canto mais simples. As nossas
pegadas ficam no deserto, aguardam a passagem

como um fantasma que se desprende da chuva.
Esta luz é incerta, balança sobre as varandas, ameaça
os dias, converte ou desarma todas as palavras certas,

todos os olhos abertos. Não tem rosto, o Deus dos
perplexos, não caminha nos precipícios, não arde
como a urze fitando o céu, não o comove a morte.

Autor : Francisco José Viegas
(de O Puro e o Impuro, Quasi edições, 2003)

sexta-feira, 15 de junho de 2018

Água - Memória

ezgi polat

Que súbita alegria me tortura
alegria tão bela e estranha
tão inquieta
tão densa de pressentimentos?
Que vento nos meus nervos
que temporal lá fora
que alegria tão pura, quase medo ao silêncio?

Pára a chuva nas árvores
pára a chuva nos gestos,
interiores contornos
divisíveis distâncias
ultrapassáveis gritos
que alegria no inverno,
que montanha esperada ou inesperado canto?

Autor : Maria Alberta Menéres.

quinta-feira, 14 de junho de 2018

De Antemão

ezgi polat

Tocaram-me na cabeça com um dedo terrificamente
doce, Sopraram-me,
Eu era límpido pela boca dentro: límpido
engolfamento,
O sorvo do coração a cara
devorada,
O sangue nos lençóis tremia ainda:
metia medo,
Se um cometa pudesse ser chamado como um animal:
ou uma braçada de perfume
tão agudo
que entrasse pela carne: se fizesse unânime
na carne
como um clarão,
Um anel vivo num dedo que vai morrer:
tocando ainda
a cabeça o rítmico pavor
do nome,
O leite circulava dentro delas,
É assim que as mães se alumiam
e trazem para si o espaço todo
como
se dançassem,
São em si mesmas uma lenta
matéria ordenada, Ou uma
crispação: uma ressaca,
E quando me tocaram na cabeça com um dedo baptismal:
eu já tinha uma ferida
um nome,
E o meu nome mantinha as coisas do mundo
todas
levantadas

Autor : Herberto Helder

quarta-feira, 13 de junho de 2018

...


Diantha Louwes

me desfiz
das roupas
vesti
a couraça
sai
na madrugada
rumo ao nada..
sentei na calçada
enquanto a enxurrada
lavava a cidade
e
corria imunda
se escondendo nos bueiros
sem levar o
mal cheiro
Senti
uma dor profunda
uma tristeza
vagabunda
de coisas
que já deixei
e sem querer
voltei
"vesti de novo
as roupas"
e na cadeira
me atirei
e
chorei.

autor . joanna.franko

terça-feira, 12 de junho de 2018

.

laura makabresku

Vem buscar a tua ansiedade antes que passe
Melodia-me
Atravessa o silencio sem medo de escorregar na casca das palavras mais duras
Segue em frente na legitima defesa dos sonhos
Despenteia o sentimento
Enfia um sorriso na boca mesmo quando não houver beijos para receber
Vem amor
Vem buscar a tua ansiedade antes que passe
Alegra-te
Deixe-me ser
O seu poema
O abraço que te agarra por dentro
O beijo da ida e da volta
Não interessa quanta distância cabe dentro de um adeus
Não interessa quantos regressos tem uma despedida para sempre
Longe é voltar atrás
O que interessa é ser feliz, nem que seja por um pouco da eternidade

Autor : Heduardo Kiesse

domingo, 10 de junho de 2018

Hoje


Hoje apetece-me dançar
Ao sabor do vento
E do tempo

Hoje descobri mais uma ruga
Ainda fina mas já bem delineada
A intrusa – que se lixe!

A vida passa
E nós passamos a vida
A ensaiar a próxima cena

Não te iludas
Pode já não haver lugar
Para mais nenhuma cena

Autor : BeatriceM