domingo, 22 de maio de 2016

sabes

сандра бирман

sabes, que se um dia eu embarcar contigo
nesse sonho, sem presente nem futuro,
quiçá apenas passado, eu levarei os gatos,
mesmo que eles enjoem o mar em que navegas.


BeatriceMar

sábado, 21 de maio de 2016

há noites assim

Mikko Lagerstedt

Há noites assim não de outra coisa
que são de si mesmas cheias
até ser insuportável
até cada corpo cheirar exactamente
ao cheiro da sua alma. Há noites assim
que somos nós: Deus nos defenda
de tanta noite haver por dentro
por fora de nós mesmos.

Autor : Bernardo Pinto de Almeida

sexta-feira, 20 de maio de 2016

O teu coração dorme comigo

Parvana Photography

Aceitar o dia. O que vier.
Atravessar mais ruas do que casas,
mais gente do que ruas. Atravessar
a pele até ao outro lado. Enquanto
faço e desfaço o dia. O teu coração
dorme comigo. Agasalha-me as noites
e as manhãs são frias quando me levanto.
E pergunto sempre onde estás e porque
as ruas deixaram de ser rios. Às vezes
uma gota de água cai ao chão
como se fosse uma lágrima. Às vezes
não há chão que baste para a enxugar.


Autora : Rosa Alice Branco

quinta-feira, 19 de maio de 2016

Ainda o Deserto

maszu

Quando o deserto começa a ser por dentro,
alastra a mancha de secura sobre o que chamamos coração
e só esperamos que a noite chegue, pois nenhuma brisa
se levanta já para a podermos imaginar.

Autor : Luís Filipe Castro Mendes
in Lendas da India

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Um Dia, de Repente

steve hank

Um dia, de repente,
arrastam-nos à força
para um lugar incerto.

Um dia, de repente,
Desnudam-nos impudica/
mente.

Um dia, de repente,
somos apenas um ser vivo:
verme ou gente?

Autor : Lara de Lemos
in 'Antologia Poética'

terça-feira, 17 de maio de 2016

Aragem

juan carlos boveri

Como aragem perfumada
a mim te entregas, minha amada.

E não sei se existes ou se te sonho:
meu desejo te nomeia
pura brisa de folhagem.

Que aroma me envolve quando te despes?

Esta fragrância que me inebria
vem do teu corpo ao desnudar-se
ou da luz rosada que amanhece?


Autor : Gonçalo Salvado

domingo, 15 de maio de 2016

tenho o livro



António Curnetta

não sei horas, nem tempo, nem tão pouco prazos,
conservo imagens (nossas) ainda.

choveu e nem me importa, gosto de sentir a chuva a cair
tenho o livro (o teu)
já o li e reli.

e quero pensar que nunca chega o términus
para não me desvincular do que ele me diz e desdiz
sinais de luta de sonhos de cinzas
e de reedificação.

deixo a imaginação a vaguear e as flores a perfumar o dia.

Autor: BeatriceMar


sábado, 14 de maio de 2016

Era o último amor

Nicole Burton (Parvana Photography)

Era o último amor. A casa fria,
os pés molhados no escuro chão.
Era o último amor e não sabia
esconder o rosto em tanta solidão.

Era o último amor. Quem advinha
o sabor pela escuridão?
Quem oferece frutos nessa neve?
Quem rasga com ternura o que foi verão?

Era o último amor, o mais perfeito
fulgor do que viveu sem as palavras.
Era o último amor, perfil desfeito
entre lumes e vozes passadas.

Era o último amor e não sabia
que os pés à terra nua oferecia.

Autor : Luís Filipe Castro Mendes

sexta-feira, 13 de maio de 2016

Minha boca

Peter Brownz Braunschmid

minha boca
é pouca
pro desejo
que anda à solta

Autor : Martha Medeiros

quinta-feira, 12 de maio de 2016

quero dizer-te: não morras

Ezgi Polat

quero dizer-te: não morras.

Nem me digas quem és, quem foste, como sabes
a língua que se fala sobre a terra.
Ao lume lanço
toda a vontade de viver, ser vivo,
a cautela do ar, ardendo em torno.
Passarei, terás passado em mim, só quero
dizer-te: não morras nunca, agora, nunca mais.

Autor : António Franco Alexandre