quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Encantatória

Lora Zombie

Custa é saber
como se invoca o ser
que assiste à escrita,
como se afina a má-
quina que a dita,
como no cárcere
nu se evita,
emparedado, a lá-
grima soltar.

Custa é saber
como se emenda morte,
ou se a desvia,
como a tecla certa arreda
do branco suporte
a porcaria.

Autor :-Luiza Neto Jorge
em revista Colóquio|Letras, número 78, Março de 1984, p. 77.



terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

PAISAGENS DA MESMA SOLIDÃO

 Ninguém me disse, um dia,
No escuro
Que há palavras que são sítios por dentro.

Ninguém me disse, um dia,
Que há noites que são quase lugares.
Paisagens da mesmo solidão,
Plena de outros lados:
As lágrimas principais.

Como ruas assim,
Que se existissem de tanto silêncio,
Seriam planícies de mais frias
E despovoadas,
Morrendo com tanta força que nunca
Se encontrariam no mesmo medo.

Porque no silêncio,
Há sempre o perigo de palavras às escuras

(onde tenho todas as ruas do mundo
À minha espera)

Autor: Duarte Temtem
 in o poema insone (Magna)

domingo, 17 de fevereiro de 2019

Vivências



Victor Bauer
.
Regresso…sem hora nem data delimitada
Ao sítio onde num tempo me senti feliz
Sou contraproducente
E ao inverso das andorinhas
Que regressam sempre na primavera
Eu não tenho esse ritual…regresso quando me apetece
E me faz falta ao corpo e à mente

A viagem nem é  curta, em tempo, e distância
Mas regresso e fico neutralizada  a beber uma limonada bem fria
Imaginando que o limão é doce, quando sei que é amargo
E fico a ver o mar a bater na areia
Como uma valsa cadenciada
Por vezes num bailado descontrolado e impetuoso

Quando me chega um odor a tabaco
Não desvio a minha vista do meu ponto de vigília
Eu sei que não és tu

E parto até o próximo regresso
Ao local onde em algum tempo
Me senti feliz

Autor : BeatriceM 2019-02-16



sábado, 16 de fevereiro de 2019

Não há Vagas

O preço do feijão
não cabe no poema. O preço
do arroz
não cabe no poema.
Não cabem no poema o gás
a luz o telefone
a sonegação
do leite
da carne
do açúcar
do pão

O funcionário público
não cabe no poema
com seu salário de fome
sua vida fechada
em arquivos.
Como não cabe no poema
o operário
que esmerila seu dia de aço
e carvão
nas oficinas escuras

- porque o poema, senhores,
   está fechado:
   "não há vagas"

Só cabe no poema
o homem sem estômago
a mulher de nuvens
a fruta sem preço

    O poema, senhores,
    não fede
    nem cheira

Autor : Ferreira Gullar
 in 'Antologia Poética'

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

Hora de Ponta



Mirella Santana

Apanhar um lugar a esta hora é uma sorte, poder olhar
pela janela e fingir que tenho imunidade diplomática,
que estou de lá do vidro com o hálito das folhas, o sabor
a hortelã e um ar fresco interrompido pela velha senhora
a quem cedo o assento e um sorriso enquanto me agradece
de nada, de ir agora em pé empurrada, de cá do vidro
a apanhar uma overdose de realidade com o bafo quente
do homem gordo na minha orelha, com a mão livre
apertada contra o peito, contra o visco da hora apinhada
na minha pele pública, na minha pele de todos.
No banco em frente uma mulher afaga a neta com o sorriso
doce e cansado, os olhos brilhantes, a candura intacta
toma-me toda como se eu fosse um anjo
descendo à terra com um corpo real para que a minha pele
receba a dádiva da tua, aceite os cheiros de um dia de trabalho,
o calor excessivo, a proximidade insustentável e leia no teu rosto
cada mandamento nos solavancos que nos atiram uns para
os outros. No teu rosto ã hora de ponta aprendo a compaixão
até sair na próxima paragem com um suspiro de alívio.

Autor : Rosa Alice Branco
 in 'Da Alma e Dos Espíritos Animais'

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

Traço Comum

descalço-me de sombras para chegar a ti
 as linhas do meu rosto são claríssimas
 nelas não vês o velho, a criança, o adulto
 vês apenas o traço comum
 que é onde eu procuro a tua mão
 na transparência da minha palavra inteira

Autor : Vasco Gato




quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

Marianna e Chamilly

Eduardo Arguelles art

Quando partires
se partires
terei saudades
e quando ficares
se ficares
terei saudades

Terei
sempre saudades
e gosto assim

Autor : Adília Lopes
in 'Caderno'

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

O silêncio

Mara Light

Regressamos a uma terra misteriosa
trazemos uma ferida
e o corpo ferido
imprevistamente nos volta
para margens mais remotas

Giorgio Armani tinha declarado
àquele jornal inglês: «o luxo desagrada-me,
é anti-democrático.
Quero agora homenagear os operários de todo o mundo»
Eu só pensava em São João da Cruz
enquanto ouvia pela enésima vez:
«a moda substituiu o luxo
pela elegância»

João da Cruz fala de coroas,
resplendores, casulas
véus de seda, relicários de ouro e
diamantes

para lá do jogo das nossas defesas
qualquer coisa interior
a intensa solidão das tempestades
os campos alagados,
os sítios sem resposta

o teu silêncio, ó Deus, altera por completo os espaços

Autor : José Tolentino Mendonça

domingo, 10 de fevereiro de 2019

saudades

saudades do teu corpo
moreno
com aroma de amoras silvestres
misturado com o meu
aroma de framboesas.

somos e temos os aromas
que se completam em nós
dois
apenas.

Autor : - Beatrice 2019-02-10

sábado, 9 de fevereiro de 2019

Madrugada


Loui Jover

Do fundo de meu quarto, do fundo
de meu corpo
clandestino
ouço (não vejo) ouço
crescer no osso e no músculo da noite
a noite

a noite ocidental obscenamente acesa
sobre meu país dividido em classes

Autor : Ferreira Gullar
in 'Antologia Poética'