quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Desespero


7 de Dezembro 1936
18 Janeiro de 1984

Não eram meus os olhos que te olharam
Nem este corpo exausto que despi
Nem os lábios sedentos que poisaram
No mais secreto do que existe em ti.

Não eram meus os dedos que tocaram
Tua falsa beleza, em que não vi
Mais que os vícios que um dia me geraram
E me perseguem desde que nasci.

Não fui eu que te quis. E não sou eu
Que hoje te aspiro e embalo e gemo e canto,
Possesso desta raiva que me deu

A grande solidão que de ti espero.
A voz com que te chamo é o desencanto
E o esperma que te dou, o desespero.

Autor : Ary dos Santos
in 'Liturgia do Sangue'

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Dies Irae

Leslie Ann O'Dell
Apetece cantar, mas ninguém canta.
Apetece chorar, mas ninguém chora.
Um fantasma levanta
A mão do medo sobre a nossa hora.

Apetece gritar, mas ninguém grita.
Apetece fugir, mas ninguém foge.
Um fantasma limita
Todo o futuro a este dia de hoje.

Apetece morrer, mas ninguém morre.
Apetece matar, mas ninguém mata.
Um fantasma percorre
Os motins onde a alma se arrebata.

Oh! maldição do tempo em que vivemos,
Sepultura de grades cinzeladas,
Que deixam ver a vida que não temos
E as angústias paradas!

Autor : Miguel Torga
in 'Cântico do Homem'

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

....

Norvz Austria

De tanto olhar pelo olho de vidro da dor
secaram-se-me os olhos.
Faço-me e desfaço-me em pele por vestir
um olhar apagado no passar dos teus dias
onde não me acho real.

O tempo habitua a dor para que já não doa.
Depois que se entende tudo é um denso vazio
a apontar o lugar onde antes havia uma ferida.

Ali esgravato para que sangre sobre a folha
duas ou três gotas de um verso só
onde um mundo gira ao contrário
para chegar ao encontro das horas.

Amarro o teu nome à palavra instante
antes que durma
e até por detrás do véu dos sonhos
o instante não é nome
ou palavra mais ou menos que seja
do que aquilo que na minha noite mergulha:
- coisa nenhuma.

O relógio marca a ilusão
de um amanhã que não chega.
Ainda assim te digo

até amanhã...

Autor : Sónia M
http://soniagmicaelo.blogspot.pt/

domingo, 4 de dezembro de 2016

Cantiga para não morrer


Ferreira Gullar, pseudônimo de José Ribamar Ferreira foi um escritor, poeta, crítico de arte, biógrafo, tradutor, memorialista e ensaísta brasileiro e um dos fundadores do neoconcretismo.
 10 de setembro de 1930
 4 de dezembro de 2016


Quando você for se embora,
moça branca como a neve,
me leve.

Se acaso você não possa
me carregar pela mão,
menina branca de neve,
me leve no coração.

Se no coração não possa
por acaso me levar,
moça de sonho e de neve,
me leve no seu lembrar.

E se aí também não possa
por tanta coisa que leve
já viva em seu pensamento,
menina branca de neve,
me leve no esquecimento.

Autor : Ferreira Gullar

sábado, 3 de dezembro de 2016

Tarde

é tarde
já devia estar deitado

mas
continuo sentado
à minha mesa
de estudo
a escrever
coisas que penso

coisas de nada
e de tudo

num desabafo
em silêncio
com o papel
nu e mudo


Autor: Vieira da Silva In Marginal Pág 29
Foto: pararirararara

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Sabes por vezes queria beijar-te



Federico Erra

“Sabes por vezes queria beijar-te. Sei que consentirias.
Mas se nos tivéssemos dado um ao outro ter-nos-íamos separado porque os beijos apagam o desejo quando consentidos.
Foi melhor sabermos quanto nos queríamos, sem ousarmos sequer tocar nossos corpos.
Hoje tenho pena. Parto com essa ferida.
Tenho pena de não ter percorrido teu corpo como percorro os mapas, com os dedos teria viajado em ti do pescoço às mão da boca ao sexo. Tenho pena de nunca ter murmurado teu nome no escuro. Acordado perto de ti. As noites teriam sido de ouro e as mãos teriam guardado o sabor de teu corpo.”

Autor : Al Berto

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Fim

norv austria
faz-se tarde
e eu deixei de esperar-te.

todos os portos se fecham sobre mim
e a floresta adensa-se -

nenhuma clareira se abre à passagem dos
animais e do homem antigo.

são 4 horas na manhã de todos os relógios.

Autor:José Agostinho Baptista
in Deste Lado Onde

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

O Pecado da Gula

paolo barzman
Ontem à tarde saí.
Queria passear as lembranças
que um dia de chuva faz crescer em nós.
Há dias que o vento rondava a casa
cheio de segredos incompletos
a roçar-me a orelha. E eu não resisto
ao sabor do vento
e a uma boa história para enganar o frio.

É fácil perdermo-nos nas ruas.
Nunca se regressa pelos mesmos caminhos
mas todos parecem iguais
com o cheiro da chuva a deixar o alcatrão
e a subir na memória
de outras ruas.
Mas há só um caminho que trilhamos. O corpo
é uma bússola fiel que segue pela estrada
enquanto o pó se levanta
muito para além dos nossos passos.

Autor : Rosa Alice Branco
in'Animal Volátil'

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Como se Morre de Velhice

Ionut Caras

Como se morre de velhice
ou de acidente ou de doença,
morro, Senhor, de indiferença.

Da indiferença deste mundo
onde o que se sente e se pensa
não tem eco, na ausência imensa.

Na ausência, areia movediça
onde se escreve igual sentença
para o que é vencido e o que vença.

Salva-me, Senhor, do horizonte
sem estímulo ou recompensa
onde o amor equivale à ofensa.

De boca amarga e de alma triste
sinto a minha própria presença
num céu de loucura suspensa.

(Já não se morre de velhice
nem de acidente nem de doença,
mas, Senhor, só de indiferença.)

Autor : Cecília Meireles
in 'Poemas (1957)'


segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Labirinto

By Trini Schultz


Perco-me em mim
labirinto sem fim.
Nada o que parece
foi ou é.
Onde estarão as memórias
fieis às origens?
O Tempo adulterou-as!
Hoje estão sublimadas
mudadas, momento a momento.
Até... ao esquecimento.
.
Autor:LuisM Castanheira
https://poesiaaremar.blogspot.pt/