domingo, 12 de julho de 2020

Utopias

no meu mundo não há raiva
há apenas o mar que beija a areia
em dias ensolarados, e em noites alvas.

e há o abraço do vento
que me enlaça, quando
adormeço na areia ao relento.

Autor : BeatriceM 2020-07-11
Imagem : Jaroslaw Datta

sábado, 11 de julho de 2020

Se


Se por acaso você não conseguir caminhar
Se seus pés se enfraquecerem e a estrada se alongar,
Sempre haverá um alguém capaz de lhe carregar

Se por acaso você sentir a alma sangrar
E se a alma ferida fizer você chorar,
Sempre haverá alguém capaz de lhe consolar

Se por acaso você sentir o mundo lhe escapar
E tudo for solidão e a solidão lhe machucar,
Sempre haverá alguém capaz de lhe abraçar

Se por acaso você não conseguir enxergar
Perdido dentro de si vendo tudo se apagar,
Sempre haverá um alguém capaz de lhe encontrar

Se por acaso você sentir a vida açoitar
E na hora da agonia você se desesperar,
Sempre haverá um alguém capaz de lhe acalmar

Se por acaso você ver tudo se apressar
Se todo mundo correr se o tempo acelerar
Sempre haverá um alguém capaz de lhe esperar

Se por acaso você deixar de acreditar
Se a própria humanidade lhe decepcionar,
Sempre haverá um Alguém capaz de lhe inspirar

Se por acaso você sentir medo de amar
Se achar que não é mais capaz de se apaixonar,
Sempre haverá um alguém capaz de lhe conquistar

Sempre haverá amor, sempre haverá o bem
Numa via de mão dupla, com a força de um trem,
Alguém ajuda você e você ajuda alguém

Já que sempre haverá alguém para lhe entender
Lhe carregar, lhe acalmar, lhe abraçar quando doer,
Alguém para lhe confortar quando o mundo lhe bater

Já que sempre haverá alguém para lhe socorrer
Só é preciso ser justo e grato para perceber
Que sempre haverá alguém precisando de você.

Autor : Bráulio Bessa

sexta-feira, 10 de julho de 2020

quando o sol morre


Na linha rubra do horizonte, a serra,
como um monstro, adormecido,
tem o ar repousado e indefinido
de quem dorme há mil anos sobre a terra!

O arvoredo, os braços nus descerra

para o azul, já frio e diluído –
curvado o tronco negro e carcomido
rezando pelo sol que se desterra…

Ao longe os corvos, velhos e palreiros,
lá andam a contar pelos outeiros
feitiços de gigantes encantados!...

E o vento desvairado em seu fragor
vai pelos montes, repetindo a dor,
dos que andam pela vida, desgarrados.

Autor : Judith Teixeira outubro 1922
castelo de sombras 1923

quinta-feira, 9 de julho de 2020

Ensina-me a ouvir

Ensina-me a ouvir __ trinar os cantos
que soaram ditosos no passado:
essa harmonia que raiava quando
os gritos de crianças alcançavam
o céu que os acolhia __ deleitando-se.
Ensina-me a estender as mãos e ver
caírem nelas a brilharem estrelas
e espalhá-las depois pelos canteiros
do jardim tão florido e que no meio
tinha lagos, repuxos, cisnes tersos.
Ensina-me contando onde se cruzam
as ilusões __desilusões vividas
com frágeis confianças: que procuro
lembrar e perceber no farto livro
que fui ‘screvendo ainda que confuso.
Mas não te vou pedir que me devolvas
os cantos, as estrelas, o jardim
com lagos __ cisnes __ delicadas flores:
o que de mim agora se aproxima
é, no meio do livro, as secas folhas.
.
Autor : António Salvado
(Castelo Branco, n. 1936)
in “Repor a Luz”, Editora Fólio Exemplar, Lisboa, 2011
Imagem : Arno Rafael Minkkinen

quarta-feira, 8 de julho de 2020

atar-se aos segredos dos dias gémeos


Atar-se aos segredos dos dias gémeos 
não é tarefa fácil para o meu pobre amigo. 

Vem às vezes ver-me, 
para partir o silêncio de uma lenta agonia 
que na memória guarda. 

Atar-se tantos nós não servia para nada. 

Di-lo com os olhos afundados na chuva 
e assim nasce a sua sombra 
no céu quebrado que esconde o abandono. 

Autor : ana merino 
poesia espanhola, anos 90 
trad. joaquim manuel magalhães  relógio d´água 2000

terça-feira, 7 de julho de 2020

Um beijo

Um beijo em lábios é que se demora
e tremem no abrir-se a dentes línguas 
tão penetrantes quanto línguas podem.
Mais beijo é mais. É boca aberta hiante 
para de encher-se ao que se mova nela. 
É dentes se apertando delicados.
É língua que na boca se agitando 
irá de um corpo inteiro descobrir o gosto
e sobretudo o que se oculta em sombras 
e nos recantos em cabelos vive.
É beijo tudo o que de lábios seja 
quanto de lábios se deseja.

Autor : Jorge de Sena

domingo, 5 de julho de 2020

oração inventada

entrei numa igreja
olhei as imagens
queria orar e
agradecer com fé
as dádivas que a vida me deu
até hoje

formou-se um nó na garganta

esqueci-me de como rezar

inventei uma oração
olhando a imagem
e murmurando com os olhos

será que Ele me entendeu?!

Autor : BeatriceM 2020/07/04

sábado, 4 de julho de 2020

Cheguei ao fim.Andei descalço


Cheguei ao fim. Andei de pé descalço

sobre os calhaus do rio, senti
a água fria, as vozes de outro
lado. Ergui-me na cisterna, ouvi
pelo tabique o toque do relógio
e desci noutra casa, ao longe,
a escada estreita. Mas sempre
em tudo isso sentei-me na cadeira.
Deslustrei a fama que me deram,
Soluçei os soluços que passei
com risos importunos. Abri mão
dos trunfos que os anos me dariam
se os olhos pudessem reabrir-se.
As músicas tocaram, mas falei
de arremedos sortidos, da beleza
da mão com sardas brunas, e vazia.
Matei-me esfarelado, e hesitei
entre a folha da agenda e a falha
geológica. Puxei cordas diversas
e alterei assim o rumo dos teus olhos
com a vela que os vela. Sou ainda
o feto minutado que o planeta quis
no país, no país, no campo e na cidade,
entre dentes e datas, azar de bruxaria.
Vário, variei. Pra trás e pra diante
tropecei, empecilho, no teu entendimento.
Vim dos poentes tensos, rapidíssimos,
sobre a terra crestada de moléstia,
vazio de uniforme e de uma carta a chegar.
Engrossei a gravata, fiz sorriso
da careta que a alma me ditou,
pontuei o discurso. __ Vindimei.
Andei de flor em flor nos intervalos
de cantar muito a sério que sem asas
é na cadeira que tenho de sentar
o cu dorido de toda a eternidade:
e a mão, a mesma, a mão direita
mas sinistra, passa do corrimão
para a caneta, a preta, não descreve,
e escreve. Páro de percorrer.
Discorro.__ Mais: decorro, e sem saber
de que novelo saio.
Por sobre o ombro (dói!) lobrigo
tantas confusas coisas, falo delas.
Colo então à própria vista a escrita,
o peso, o contrapeso, a palavra que digo.
Sufoco o medo a medo, e olho a esteira
remudo e quedo, sentado na cadeira

Autor :  Pedro Tamen

sexta-feira, 3 de julho de 2020

...

Que o breve
seja de um longo pensar

Que o longo
seja de um curto sentir

Que tudo seja leve
de tal forma
que o tempo nunca leve.

Autor : Alice Ruiz
Imagem : Ragne Sigmund

quinta-feira, 2 de julho de 2020

Limites do Amor




Condenado estou a te amar
nos meus limites
até que exausta e mais querendo
um amor total, livre das cercas,
te despeça de mim, sofrida,
na direção de outro amor
que pensas ser total e total será
nos seus limites da vida.

O amor não se mede
pela liberdade de se expor nas praças
e bares, em empecilho.
É claro que isto é bom e, às vezes,
sublime.
Mas se ama também de outra forma, incerta,
e este o mistério:

- ilimitado o amor às vezes se limita,
proibido é que o amor às vezes se liberta 

Autor : AFFONSO ROMANO DE SANT'ANNA