terça-feira, 6 de dezembro de 2022

Como se fosse o mar


Antigamente
era assim: bastava
o voo duma ave
para te arrepiar a pele. Agora
os navios cortam
a linha de água e nem
um leve sobressalto
te percorre os rins.

Autor : Albano Martins
(Do livro Escrito a vermelho, 1999)
Imagem : vaggelis fragkakis

domingo, 4 de dezembro de 2022

Em dias inóspitos

Em dias inóspitos
Gasto as recordações
Em prenúncios que expiraram
E que apenas
São fugas dentro de mim

Pequenos ápices
Ínfimos pormenores
Que ninguém refez
E eu depois de tanto tempo
Ainda continuo a dobar a meada

Custa por vezes, saber em que caos
Ou aridez se transformou este
Ou aquele dia
Quando se torna inóspito
E desaguam em mim apenas fiapos
De momentos que não regressam jamais

Autor : BeatriceM 2022-12-03
Imagem : Katarina Smuraga

sábado, 3 de dezembro de 2022

A Terceira Via

Do alto deste monte, numa manhã assim,
só há duas coisas a fazer:
chatear deus ou deixar deus em paz.

Minto.
É claro que há uma terceira via
(mas dá muito trabalho):

fingir que não o vejo nem o oiço
do alto deste monte
na luz da manhã.

Autor : A.M.Pires Cabral
Imagem :Gareth Pon


sexta-feira, 2 de dezembro de 2022

Minha casa




Minha casa hoje, tem janelas abertas
para o nascente, para o poente,
e,
também para a larga estrada,
aquela que conduz ao limite, pela
frente.


Minha casa solitária, Branca e alta, embora
esteja plantada em estéril campo, é toda
circundada de verde, paz e silêncio. Nova e
antiga casa, onde o Amor e a Esperança,
ainda são uma constante.

Autor - Ada Ciocci Curado
Imagem : Autor desconhecido

quinta-feira, 1 de dezembro de 2022

sem título

 


Dentro
de mim
os Lobos furiosos
e cinzentos
nunca triunfarão
embora
eu seja
apenas um menino
magro de olheiras fundas
e os Cordeiros
ainda dominem
o meu terreno plano.

Autor :delmar maia gonçalves
Imagem : Alex Currie

quarta-feira, 30 de novembro de 2022

Quimera

Eu quis um violino no telhado
e uma arara exótica no banho.
Eu quis todos os cheiros do pecado
e toda a santidade que não tenho.
Eu quis uma pintura aos pés da cama
infinita de azul e perspectiva.
Eu quis ouvir ouvir a história de Mira Burana
na hora da orgia prometida.
Eu quis uma opulência de sultana
e a miséria amarga da mendiga.
Eu quis um vinho feito de medronho
de veneno, de beijos, de suspiros.
Eu quis a morte de viver dum sonho
eu quis a sorte de morrer dum tiro.
Eu quis chorar por ti durante o sono
eu quis ao acordar fugir contigo.
Mas tudo o que é excessivo é muito pouco.
Por isso fiquei só, com o meu corpo.
Eu quis uma toalha de brocado
e um pavão real do meu tamanho.

Autor : Rosa Lobato de Faria

terça-feira, 29 de novembro de 2022

Ele Teme Não Ter Amor Para o Tanto que Ama


O que te faço desta alegria com que te olho?
Perder-te seria inglório, cuidar-te parece pouco.
Que faço, o que te faço,
se ultrapasso o que me sinto,
da transfusão me transbordando,
e mais temo o fracasso
de não saber chamar o nome
ao que desamo de tanto amar?

Talvez que eu em mim já não exista...
Que vivas, provas que há vida
p'ra lá de mim;
porém não podes tu apenas ser quem sejas
e seres, resplendente,
a sombra de perdão.
O que fazer às coisas que eram antes...
Que te olho de lá de mim!

Que a alegria tomou conta das alegrias,
esboroou a crosta ao pão da noite
e deu a ver o miolo azul do dia
e um girassol de luz por entre as nuvens!
Que o pouco de mim que eu era
entornou-se e se fez grande
e a baleias quis pulmões no lento mar
p’ra respirar-se em se afundar de si...

Não sei o que me faça deste tanto que me apouca.
Que fazer? Que as montanhas são tão altas!
Como dançar com gigantes?
Que loucura de se ter!
Quando me esqueceres, por Deus, não me esqueças!
O espelho fez-me novo já tão velho...
Desliga a máquina a este sonho.
O meu coração mais puro do que eu!

Autor : Daniel Jonas
Imagem : Colin Roberts

domingo, 27 de novembro de 2022

Escureço


Escureço comigo

e sei que não verás a minha escuridão
quando digo escureço, quero dizer envelheço
e não sei se é bom ou não
escurecer sem ti,


e hoje é apenas um dia…mas, é mais um dia,
e está frio.


Autor : BeatriceMar 22-11-2015
Imagem : Zhong Lin

sábado, 26 de novembro de 2022

A Eterna Ausência

 

Eu aguardei com lágrimas e o vento
suavizando o meu instinto aberto
no fumo do cigarro ou na alegria das aves
o surgimento anónimo
no grande cais da vida
desse navio noturno
que me trazia aquela com lábios evidentes
e possuindo um perfil indubitável,
mulher com dedos religiosos
e braços espirituais...

Aquela mulher-pirâmide
com chamas pelo corpo
e gritos silenciosos nas pupilas.

Amante que não veio como a noite prometera
numa suspensa nuvem acordar
meu coração de carne e alguma cinza...

Amante que ficou não sei aonde
a castigar meus dias involúveis
ou a afogar meu sexo na caveira
deste carnal desespero!...

Autor : António Salvado,
in "A Flor e a Noite"
Imagem : Richard Davis


[António Forte Salvado (Castelo Branco, 20 de Fevereiro de 1936) é um poeta e escritor português. Além de ser autor de uma extensa obra poética, é também autor de ensaios e antologias, tendo sido a sua obra reconhecida várias vezes com prémios nacionais e internacionais.]

sexta-feira, 25 de novembro de 2022

Tema Livre


Há uma parte de ti
presa às linhas férreas
aos rios e seus afluentes
e às capitais de distrito.

Há ainda em ti
quem peça
uma redacção dirigida
como aquela no alternar das estações.
Escrevíamos: os dias ficam mais curtos
e do armário retiramos as roupas de lã.

Ou
vice-versando:
os dias prolongam-se
proporcionalmente aos decotes
inversamente à altura dos vestidos.

Mas agora já não atravessas armários
como em C. S. Lewis.
Neles só encontras espectros em redenção.

Cega de liberdade
esperas, apenas,
por uma bengala.

Do outro lado da rua
a sombra
de um cão.

Autor : Ana Paula Inácio
(in Piolho, revista de poesia n.º 18)
Imagem : Karyn Teno

quinta-feira, 24 de novembro de 2022

...

 

Quando me perguntaste estás bom eu
desencadeou uma conversa que ainda hoje
perdura, acontece que a conversa
não adiantou nada e nunca mais
voltei a dizer que não estava bom.
decidi dizer a verdade e disse não, o que


Mesmo dizer conversa é uma maneira
de falar, uma vez que, salvo raras
excepções, imperam mais os passos
e o silêncio. Repara, eu sou uma espécie
de legenda a passar em rodapé, com pontapés
na gramática e erros de português, deito-me
tão cedo, tão cedo, tão cedo que
quando acordo não sei se é ontem
ou amanhã, ouvi alguém, ao pequeno
almoço (ou seria o jantar?), rir-se de mim
e dizer que eu era muito bem caçado.

Também um poema mau pode romper
como qualquer bela flor espontaneamente.
Tem uma vida, é uma frágil vida
com palavras que podem ser baratas
e caras, podem ser tudo e não significam
nada, um poema mau pode representar
uma vida. Mas será que tu sabes medir
o seu valor? Tu que já nem sequer
conversas comigo, apenas me vês.

A tua marcação exacta, todavia, não era
programa, actuação premeditada, militância,
mas resultado de uma indiferença activa: cola
de sobreiro que se agarra e descola, agarra
e descola, nunca se afasta de mais, nunca
se aproxima muito, nunca se agarra de vez.

Uma conversa que ainda hoje dura, só
porque te quis explicar os defeitos
de perguntas que não são bem perguntas.
Perturbei a ordem dos cumprimentos,
sinceramente desde logo percebi o que me
esperava, não consegui contrariar a fatalidade
da atracção e por isso, quase sem querer,
mal dei por mim estava moribundo.

Autor : Helder Moura Pereira,
Imagem : Oleg Oprisco

quarta-feira, 23 de novembro de 2022

...

 a Daniel Faria

caminhar sobre as palavras
com os pulsos amarrados à vida,
ainda o medo, o tempo alucinado.

vem, repara na ternura
aqui sangra o silêncio da pedra
por entre os alvéolos da luz
respirando nos pulmões
de antigos afogados.

esta é a luz que nasce de ti. Do poema.
Azul, essa luz que se ergue dos mortos
e irradia em terra de ninguém.

Autor : Maria João Cantinho
Imagem :Elizabeth Gadds

terça-feira, 22 de novembro de 2022

Se Perguntas Onde Fui


Se perguntas onde fui,
devo dizer: o mar.
Estive sempre ali,
mesmo estando a mudar.

Foi ali que escrevi
tua pele, teu suor.
Ao tempo, seus faróis.
Não mudei de mudar.
2
O que mudou em mim,
senão andar mudando
sem nunca mais mudar?

Quem mudará em mim,
se não sei mudar?
3

Ou me mudei. Sou outro.
Outra ventura, outra
virtude, cadência,
remota criatura.

Então que se apresente.
Seja tenaz, plausível
esse rosto invisível
e áspero.

Mudei. Soprava o mar.
Mudei de não mudar.

Autor : Carlos Nejar, in 'Árvore do Mundo'
Imagem : Griffin Lamb

domingo, 20 de novembro de 2022

Até Sempre


como se o presente estivesse em manutenção,
esta chuva que se alaga no interior de mim,
o meu corpo seco,
seco e a amparar memórias,
que descambam em sensibilidades,
e em lágrimas (secas) que nunca ninguém verá

Os olhos que se despedem,
amedrontados,
as mãos vazias, ocupadas com nada,
vazias, apenas vazias de nós.

Autor : BeatriceM 2022-11-19
Imagem :Cristina Coral

sábado, 19 de novembro de 2022

 


Venha o sol que vier, é uma promessa
O que a manhã nos traz na sua alvura.
É outra vez a vida que começa
Abertura de inocência e de frescura.

Cipreste frio a noite, a noite! Cor impura.
Triste alegria a tinta negra impressa.
Venha o sol que vier, tem mais altura.
O sonho que se veja e que meça.

Claro como a verdade _ diz o povo.
Doce como um começo, o fruto novo
Onde reluz o laivo que o pintou.

Venha o sol que vier, é um outro dia
No límpído da fantasia.
Que a nossa escuridão iluminou.

Autor : Miguel Torga
Imagem : David Tomek