domingo, 16 de junho de 2019

aos poucos

aos poucos afasto-me,
escondida ando nas águas frias,
em que não queiras nunca encontra-me,
ficarei (apenas) nas reminiscências,
minhas e tuas.

Autor: BeatriceM 15/06/2014
Foto: Sergio Mañana

sábado, 15 de junho de 2019

A CANÇÃO MAIS RECENTE

O poeta
com a sua lanterna
mágica está sempre
no começo das coisas.
É como a água, eterna-
mente matutina.

Pouco importa a noite
lhe ponha a pena
do silêncio na asa.
Ele tem a manhã
em tudo quanto faça.
Alem disso o amanhã
nunca deixará de ter pássa-
ros.

Autor Cassiano Ricardo
De A Face Perdida (1950)

sexta-feira, 14 de junho de 2019

Fatalidade

Não sei tecer
senão espumas,
nuvens
e brumas.

Coisas breves,
leves,
que o vento desfaz.

Como prender-te
em teia tão frágil?

Autor : Luísa Dacosta
in A Maresia e o Sargaço dos Dias

quinta-feira, 13 de junho de 2019

Santo António de Lisboa



Santo António de Lisboa
Era um grande pregador,
Mas é por ser Santo António
Que as moças lhe têm amor.

Autor : Fernando Pessoa

quarta-feira, 12 de junho de 2019

...

Ashraful Arefin.
.
vão
eu queria guardar teu
sorriso o tom
de tua voz teu
cheiro

mas só cabe ausência
nesses potes cheios
de 
solidão

Autor : Mariana Botelho

terça-feira, 11 de junho de 2019

"fogo que arde"


porque me fazes 
prisioneiro desse olhar 
quando essas estrelas 
incendeiam a paixão
como se labaredas 
fossem dentro do peito 
a queimar-me 
a liberdade e o coração?

Autor lm_26.mai.2018

domingo, 9 de junho de 2019

Voo de Asa

Quero voar
nas asas do destino 
com o sol em mim 
com as mãos em riste. 

Em golpes de vento 
esventrando horizontes ,

quero viver a vida.


Autor: BeatriceM 2013/02/10
Foto: inezz-ka

sábado, 8 de junho de 2019

Lisboa

Eduard Gordeev.
.
Alguém diz com lentidão:
“Lisboa, sabes…”
Eu sei. É uma rapariga
descalça e leve,
um vento súbito e claro
nos cabelos,
algumas rugas finas
a espreitar-lhe os olhos,
a solidão aberta
nos lábios e nos dedos,
descendo degraus
e degraus e degraus até ao rio.Eu sei. E tu, sabias?

Autor : Eugénio de Andrade
in Até Amanhã, 1956

Eugénio de Andrade (Póvoa de Atalaia, Fundão , 19/01/1923 – Porto, 13/06/2005) 
Pseudónimo de José Fontinhas. 
Poeta de renome internacional, tradutor, prosador, autor de literatura infantil, antologista, detentor de diversos prémios literários, nomeadamente o Prémio Camões em 2001.

sexta-feira, 7 de junho de 2019

A Menina

sayaka maruyama.
.
adotou a menina 
deu-lhe o melhor comprou roupas 
sapatos um anel um brinco 
mas ela achou um vadio na vida 
nem disse pai eu vou nem disse mãe 
me deixa ela se perdeu nesse mundo 
de Deus eu ainda procuro pergunto 
outro dia disseram que ela estava 
num bar de noite fui lá ninguém 
nunca tinha ouvido falar nela 

Autor : Vera Lúcia de Oliveira

quinta-feira, 6 de junho de 2019

Porque o melhor,enfim,


Kyle Thompson.
.
Porque o melhor, enfim,
É não ouvir nem ver...
Passarem sobre mim
E nada me doer!

— Sorrindo interiormente,
Côas pálpebras cerradas,
Às águas da torrente
Já tão longe passadas. —

Rixas, tumultos, lutas,
Não me fazerem dano...
Alheio às vãs labutas,
Às estações do ano.

Passar o estio, o Outono,
A poda, a cava, e a redra,
E eu dormindo um sono
Debaixo duma pedra.

Melhor até se o acaso
O leito me reserva
No prado extenso e raso
Apenas sob a erva

Que Abril copioso ensope...
E, esvelto, a intervalos
Fustigue-me o galope
De bandos de cavalos.

Ou no serrano mato,
A brigas tão propício,
Onde o viver ingrato
Dispõe ao sacrifício

Das vidas, mortes duras
Ruam pelas quebradas,
Com choques de armaduras
E tinidos de espadas...

Ou sob o piso, até,
Infame e vil da rua,
Onde a torva ralé
Irrompe, tumultua,

Se estorce, vocifera,
Selvagem nos conflitos,
Com ímpetos de fera
Nos olhos, saltos, gritos...

Roubos, assassinatos!
Horas jamais tranquilas,
Em brutos pugilatos
Fracturam-se as maxilas...

E eu sob a terra firme,
Compacta, recalcada,
Muito quietinho. A rir-me
De não me doer nada.
 
Autor : Camilo Pessanha