terça-feira, 23 de maio de 2017

(Poema 6 do Ciclo Elementos)

Maja Topcagic

O que dói não são as roturas, o afastamento,
a incapacidade a minar como um cancro
oculto e certeiro. O que dói não é
a pouca solidez com que se disse
esta ou aquela palavra, esta ou aquela frase;
com que se insistiu, apesar de receios vários,
na grotesca encenação do que se previa
muito aquém de qualquer futuro. O que dói
não é a viscosidade das emoções a grafar-se
em algum mapa antecipadamente condenado,
nem tão-pouco a insistência de uma insolúvel
lembrança a fugir. O que dói verdadeiramente
é acordarmos um dia e descobrirmos
que nada disso teve importância alguma.

Autor :  Victor Oliveira Mateus. Gente Dois Reinos
 Fafe: Editora Labirinto, 2013
 p 27 ( Prefácio de Inocência Mata, Texto da Contracapa de José Ángel García Caballero).
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sábado, 20 de maio de 2017

Amor

Omar Ortiz


Cala-te, a luz arde entre os lábios,
e o amor não contempla, sempre
o amor procura, tacteia no escuro,
essa perna é tua?, esse braço?,
subo por ti de ramo em ramo,
respiro rente á tua boca,
abre-se a alma à lingua, morreria
agora se mo pedisses, dorme,
nunca o amor foi facil, nunca,
também a terra morre.

Autor : Eugénio de Andrade

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Já não vivo, só penso

Victor Bauer

Já não vivo, só penso. E o pensamento
é uma teia confusa, complicada,
uma renda subtil feita de nada:
de nuvens, de crepúsculos, de vento.

Tudo é silêncio. O arco-íris é cinzento,
e eu cada vez mais vaga, mais alheada.
Percorro o céu e a terra aqui sentada,
sem uma voz, um olhar, um movimento.

Terei morrido já sem o saber?
Seria bom mas não, não pode ser,
ainda me sinto presa por mil laços,

ainda sinto na pele o sol e a lua,
ouço a chuva cair na minha rua,
e a vida ainda me aperta nos seus braços.

Autor : Fernanda de Castro

quinta-feira, 18 de maio de 2017

Lançamentos

Apresentação da obra por
Luís Filipe Sarmento e Isabel Mendes Ferreira


Na suavidade da pele a caligrafia
De todos os nomes letra a letra
Urdidura dos lábios no percurso da sede
E desmesuradas línguas
Notas de uma guitarra a arder na combustão dos corpos
E clandestinas grutas
Como chamas.

Desnascer do tempo
No encantamento dos olhos a derramarem-se
Por dentro na doçura do rosto
E no sinfónico movimento do voo
E na incandescência alada dos murmúrios
Assim libertos – grito sustenido
No âmago. A explodir desmedido
Qual poema líquido.

Poema Líquido, p. 30


Manuel Veiga Nasceu em, Matela, Vimioso (Trás-os-Montes), e vive em Bobadela, concelho de Loures. É licenciado em Direito tendo exercido advocacia alguns anos no início de carreira, que depois prosseguiu como consultor Jurídico em Municípios da Área Metropolitana de Lisboa e mais tarde como Inspector Superior da Inspecção Geral da Educação, onde desempenhou funções no respectivo Gabinete Jurídico. 
Entretanto, havia sido redactor de noticiários da Emissora Nacional e Copywriter de publicidade. Colaborou esporadicamente na imprensa diária, designadamente, no “Diário de Lisboa” e em “O Diário”, e regularmente em revistas periódicas sobre temas de natureza política, económica e social, designadamente, a revista “Economia EC”, a revista “Poder Local”, e a revista “SEARA NOVA”, integrando presentemente o Conselho Redactorial desta última. 
Para além da obra agora dado à estampa pela Poética, é também autor das obras “Poemas Cativos” (poesia, Poética Edições, 2014), “Notícias de Babilónia e outras Metáforas” (crónicas, Modocromia, 2015) e “Do esplendor das coisas possíveis” (poesia, Poética Edições, 2016).

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Venho de dentro, abriu-se a porta ...

Karen Hollingsworth

Venho de dentro, abriu-se a porta:
nem todas as horas do dia e da noite
me darão para olhar de nascente
a poente e pelo meio as ilhas.

Há um jogo de relâmpagos sobre o mundo
de só imaginá-la a luz fulmina-me,
na outra face ainda é sombra

Banhos de sol
nas primeiras areias da manhã
Mansidões na pele e do labirinto só
a convulsa circunvolução do corpo.

Autor : Luísa Neto Jorge
In A Lume - Poesia

terça-feira, 16 de maio de 2017

Chove

Emerico Toth

Mas isso que importa!,
se estou aqui abrigado nesta porta
a ouvir a chuva que cai do céu
uma melodia de silêncio
que ninguém mais ouve
senão eu?

Chove...

Mas é do destino
de quem ama
ouvir um violino
até na lama.

Autor : José Gomes Ferreira

domingo, 14 de maio de 2017

casualidades

Oleg Oprisco

desviados da rotina,
submersos em cascatas de emoções acabadas
cruzaram-se, acidentalmente,

cruzaram-se numa esquina da vida,
quando fugiam de tudo e todos,
quando andavam por aí invisíveis,

olhares trocados,
sorrisos cúmplices,
e corpos partilhados,

e seguiram caminhos contraditos
fugiram, e a ausência
macerou a saudade compartilhada,

aos poucos, e levemente
criou uma auréola num acaso que
merece sempre ser revivido.

Autor : BeatriceM

sábado, 13 de maio de 2017

Os amigos


norvz austria

Esses estranhos que nós amamos
e nos amam
olhamos para eles e são sempre
adolescentes, assustados e sós
sem nenhum sentido prático
sem grande noção da ameaça ou da renúncia
que sobre a luz incide
descuidados e intensos no seu exagero
de temporalidade pura

Um dia acordamos tristes da sua tristeza
pois o fortuito significado dos campos
explica por outras palavras
aquilo que tornava os olhos incomparáveis

Mas a impressão maior é a da alegria
de uma maneira que nem se consegue
e por isso ténue, misteriosa:
talvez seja assim todo o amor

Autor : José Tolentino Mendonça
In : De Igual Para Igual

sexta-feira, 12 de maio de 2017

As tuas mãos

omar ortiz
Pálido, extático,
olhavas para mim.
E as tuas mãos raras,
de linhas estilizadas,
poisavam abandonadas
sobre os tons liriais do meu coxim…

Os meus olhos de sonho
ficaram presos tristemente
às tuas mãos!...
- Mãos de doente,
mãos de asceta…
E eu que amo e quero a rubra cor dos sãos,
tombei-me a contemplá-las
numa atitude cismadora e quieta…

Depois aqueles beijos que lhe dei,
unindo-as, ansiosa, à minha boca
torturada e aflita,
tiveram a amargura
suavemente doce
duma dor bendita!

Mãos de renúncia! Mãos de amargor!
… E as tuas lindas mãos, nostálgicas e frias,
tristes cadáveres
de ilusão e dor,
não puderam entender
a febre exaltada
e torturante
que abrasava
as minhas mãos
delicadas,
- as minhas mãos de mulher!

Autor : Judith Teixeira
in 'Antologia Poética'

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Conheço o Sal


Kevin Pinardy

Conheço o sal da tua pele seca
depois que o estio se volveu inverno
da carne repousando em suor nocturno.

Conheço o sal do leite que bebemos
quando das bocas se estreitavam lábios
e o coração no sexo palpitava.

Conheço o sal dos teus cabelos negros
ou louros ou cinzentos que se enrolam
neste dormir de brilhos azulados.

Conheço o sal que resta em minha mãos
como nas praias o perfume fica
quando a maré desceu e se retrai.

Conheço o sal da tua boca, o sal
da tua língua, o sal de teus mamilos,
e o da cintura se encurvando de ancas.

A todo o sal conheço que é só teu,
ou é de mim em ti, ou é de ti em mim,
um cristalino pó de amantes enlaçados.

Autor : Jorge de Sena