quinta-feira, 30 de março de 2017

Pernoitas em mim

Frederico Erra

pernoitas em mim
e se por acaso te toco a memória... amas
ou finges morrer

pressinto o aroma luminoso dos fogos
escuto o rumor da terra molhada
a fala queimada das estrelas

é noite ainda
o corpo ausente instala-se vagarosamente
envelheço com a nómada solidão das aves

já não possuo a brancura oculta das palavras
e nenhum lume irrompe para beberes

Autor : Al Berto

quarta-feira, 29 de março de 2017

Predestinaçao

Steve Hanks

Longe no tempo
um homem lançou
no ventre
de uma mulher, uma semente
e eu nasci para ti.

Longo o caminho
Mais tempo que Jacob
servi Labão para cumprir a vida.
Da carne fiz chão pr'a caminhar
da vontade fiz ponte
para o sonho de ti
que trouxe da semente que me fez.

Chegou ao altar a oferenda
os deuses que cumpram a promessa.
Fechem-se todas as chagas
no abraço azul do teu amor.

Autor : Angela Leite

terça-feira, 28 de março de 2017

Amor

Marc Figueras

Um poema, dizes, em que
o amor se exprima, tudo
resumindo em palavras.

Mas o que fica
nas palavras
daquilo que se viveu?

Um pó de sílabas,
o ritmo pobre da
gramática, rimas sem nexo...

Autor : Nuno Júdice
De «Meditação sobre Ruínas» (1994)

domingo, 26 de março de 2017

e na outra margem existe o mar


e todos os dias atravessas a ponte,
que te conduz à cidade grande
e ainda, e sempre
é o rio que te confunde o olhar,
quando procuras novos detalhes.

e consegues sempre,
edificar,
uma infinidade de pequenas coisas,
que se confundem nas roupas garridas,
que usas e abusas.

Autor: BeatriceM

sábado, 25 de março de 2017

Sonho

Samantha French

Teria passado a vida
atormentado e sozinho
se os sonhos me não viessem
mostrar qual é o caminho

umas vezes são de noite
outras em pleno de sol
com relâmpagos saltados
ou vagar de caracol

quem os manda não sei eu
se o nada que é tudo à vida
ou se eu os finjo a mim mesmo
para ser sem que decida.

Autor : Agostinho da Silva
in 'Poemas'

sexta-feira, 24 de março de 2017

Apesar das Ruínas


Apesar das ruínas e da morte,
Onde sempre acabou cada ilusão,
A força dos meus sonhos é tão forte,
Que de tudo renasce a exaltação
E nunca as minhas mãos ficam vazias.

Autor:Sophia de Mello Breyner Andresen
in 'Antologia Poética'

quinta-feira, 23 de março de 2017

115




Fosse o rio
abraçaria o mar.
Fosse mar
abraçaria o ar.
Fosse ar
abraçaria o fogo.
Seria então
todo.

Autor : Fernando Paixão
In De Fogo dos Rios (1989)

quarta-feira, 22 de março de 2017

Título por haver

Anka Zhuravleva

No meu poema ficaste
de pernas para
o ar
(mas também eu
já estive tantas vezes)

Por entre versos vejo-te as mãos
no chão
do meu poema
e os pés tocando o título
(a haver quando eu
quiser)

Enquanto o meu desejo assim serás:
incómodo estatuto:
preciso de escrever-te
do avesso
para te amar em excesso

Autor : Ana Luísa Amaral

terça-feira, 21 de março de 2017

Pai




ionut caras

Pai. A tarde dissolve-se sobre a terra, sobre a nossa casa. O céu desfia um sopro quieto nos rostos. Acende-se a lua. Translúcida, adormece um sono cálido nos olhares. Anoitece devagar. Dizia nunca esquecerei, e lembro-me. Anoitecia devagar e, a esta hora, nesta altura do ano, desenrolavas a mangueira com todos os preceitos e, seguindo regras certas, regavas as árvores e as flores do quintal; e tudo isso me ensinavas, tudo isso me explicavas. Anda cá ver, rapaz. E mostravas-me. Pai. Deixaste-te ficar em tudo. Sobrepostos na mágoa indiferente deste mundo que finge continuar, os teus movimentos, o eclipse dos teus gestos. E tudo isto é agora pouco para te conter. Agora, és o rio e as margens e a nascente; és o dia, e a tarde dentro do dia, e o sol dentro da tarde; és o mundo todo por seres a sua pele. Pai. Nunca envelheceste, e eu queria ver-te velho, velhinho aqui no nosso quintal, a regar as árvores, a regar as flores. Sinto tanta falta das tuas palavras. Orienta-te, rapaz. Sim. Eu oriento-me, pai. E fico. Estou. O entardecer, em vagas de luz, espraia-se na terra que te acolheu e conserva. Chora chove brilho alvura sobre mim. E oiço o eco da tua voz, da tua voz que nunca mais poderei ouvir. A tua voz calada para sempre. E, como se adormecesses, vejo-te fechar as pálpebras sobre os olhos que nunca mais abrirás. Os teus olhos fechados para sempre. E, de uma vez, deixas de respirar. Para sempre. Para nunca mais. Pai. Tudo o que te sobreviveu me agride. Pai. Nunca esquecerei. 

Autor : José Luís Peixoto 
in 'Morreste-me' página 13/14

domingo, 19 de março de 2017

Pai

Mikael Aldo

A chuva parou, e a lágrima já não cai.
Secou, quando tive a certeza
que a tua partida inevitável
fazia parte do mistério da vida
ou, se calhar da morte.

Sim, é mais assertiva.

Comigo transporto o teu nome,
ou parte dele.

E é uma bênção.

Autor : BeatriceM 2017-03-19