terça-feira, 21 de maio de 2024

Beijo


quando te beijo o beijo que tu me beijas
é que a flor envolve a terra que toca a flor

e é só a forma de os meus lábios dizerem que sim
e de os teus lábios dizerem que não
que não houve tempo antes de nós

Autor : Vasco Gato
in «Um Mover de Mão», pág. 24

domingo, 19 de maio de 2024

vem


vem comigo neste voo imprevisível,
que é a vida,
num baloiço de ilusão,
em que o vento embala os sonhos,
(nossos)
e,
então a aridez da vida,
transformar-se-á,
no canto dos pássaros,
na tarde menos sombria.

Autor : BeatriceM 2014-05-18
Imagem : Michal Maciack

sábado, 18 de maio de 2024

Infinita conversa com as nuvens


Antes de partir para as montanhas espalharei os
poemas pelo chão como quem abre um mapa pela
última vez. Como quem relembra o extenso areal dos
dias, a incansável rotina dos comboios, a infinita
conversa com as nuvens.

Quando partir para as montanhas deixarei os poemas
pelo chão como quem renega todos os mapas. Levarei
apenas o meu corpo para que ele me fale do teu.

Autor :  Rui Miguel Fragas
In O Nome das Árvores. Poética Edições, 2014.




quarta-feira, 15 de maio de 2024

Poema sem verbos

 


Manhã azul cinzenta, levemente baça,
de Primavera.
As mimosas suspensas – amarelos ausentes.
Flores tímidas, promessas de arco-íris.
Pássaros silenciosos, simples traços de carvão,
asas de papel.

Crianças. Muitas crianças. Sorrisos, claro.
Não sorrisos claros – nem sequer em fuga.
Sorrisos de estátua nos meus olhos. Só nos meus olhos.
Olhos sem vento sem sol sem sonhos sem beijos.

Poema sem verbos – morto.

Autor : Sandra Costa
Imagem : Ashraful Arefin

terça-feira, 14 de maio de 2024

Adeus


Chegar ao fim de maio com sal na camisa,
espelhos de água
quebrados junto aos pés;
tudo o que foi o mar, noites nos pátios,
velas, gerânios, cânticos
e barcos crepusculares navegando nos cabelos
de quem te ouvia como se fosses um príncipe.
Tudo fecha-se agora com pesadas chaves,
nos últimos botões da camisa.
Sobre as velhas telhas destas casas
onde os pombos nascem estrangeiros,
ouves a brisa, um frémito de pedra violada
pela irradiação solar.
O silêncio nasce
no momento em que fechas a janela
e o teu olhar se enrola
no último rumor das cortinas.

Autor :Eduardo Bettencourt Pinto
In :Cântico sobre uma gota de água
Imagem : Matt Cherubino

domingo, 12 de maio de 2024

O Domingo



Era ao domingo que nos perdíamos
A percorrer a manhã e apreciar o mar
Eu era a tua menina
E segurava a tua mão como se fosses o meu guardião

Hoje a minha mão já não segura a tua
Porque , já não existes mais
Nem sequer para me levar a ver o mar
Que era o nosso passeio ao domingo

Autor : BeatriceM 2024-05-11

sábado, 11 de maio de 2024

Noite Infinita

 


Quando eu enlouquecer
diz-lhes que saltei o muro
do silêncio na minha cabeça
e fui pelos quintais aos uivos.

Que façam de conta que morri
e que não me chateiem,
sobretudo que não me chateiem.

É esse o teu papel neste romance:
deixar que eu enlouqueça em paz
afastar a turba dos amigos.

Autor : Mário Contumélias
Imagem Martin Stranka

Mário Contumélias nasceu em Setúbal a 3 de Junho de 1948. Foi jornalista profissional antes de se dedicar à carreira universitária no Instituto Superior de Psicologia Aplicada (ISPA). Começou a publicar em jornais e revistas. É autor de livros infantis, obras de ficção e poesia. Estreou-se em 1983 com O Pastor de Vulcões.

sexta-feira, 10 de maio de 2024

De Longe

 

Não chores Mãe... Faz como eu, sorri!
Transforma as elegias de um momento
em cânticos de esperança e incitamento.
Tem fé nos dias que te prometi.

E podes crer, estou sempre ao pé de ti,
quando por noites de luar, o vento,
segreda aos coqueirais o seu lamento,
compondo versos que eu nunca escrevi...

Estou junto a ti nos dias de braseiro,
no mar...na velha ponte,... no Sombreiro,
em tudo quanto amei e quis p'ra mim...

Não chores, mãe!... A hora eh de avançadas!...
Nos caminhamos certos, de mãos dadas,
e havemos de atingir um dia, o fim...

Autor : Alda Lara
Imagem : Vivienne Bellini

quinta-feira, 9 de maio de 2024

Realidade

 

Olho para a realidade desprovida de silêncios.
As coisas são o que são. Porém, há que ter em conta
a gravidade que as prende à terra.

Os signos são os poucos recados que a vida pouca nos traz.
São o muito desta vida
onde árvores se perfilam nas avenidas, e nas avenidas

o frágil contraponto de domingo se passeia
atento à soalheira chegada de famílias-à-beira-Tejo
alheias à semana que aí vem, onde cada um por si,

e a desrazão por todos,
irá colher as incertezas do amanhã.
Dos sentidos todos o que resta são olhos fechados,

tacto de treva onde a realidade acaba
como um promontório sobre o Outono: onde começo
a contar as folhas, a memória da sua queda, a avisada música.

Autor : Luís Quintais
Imagem Janek Sedlar

quarta-feira, 8 de maio de 2024

Esses momentos já não cheguem

 

Esses momentos já não chegam,

já não completam,
anseio o teu corpo, e ser para os teus lábios,
anseio a tua voz, o teu cheiro,
como se no vazio ficasse uma dor,
já não sei!
tento fugir a esse sentimento,
porque lembro-me que há um tempo atrás,
senti o mesmo e sofri,
diz-em tu porque me fazes sentir assim!
diz-me tu!

Autor : Sónia Sultuane
Imagem : Alessio Albi

terça-feira, 7 de maio de 2024

Um poema de amor

 

Não sei onde estás, se falas
ou se apenas olhas o horizonte,
que pode ser apenas o de uma
parede de quarto. Mas sei que
uma sombra se demora contigo,
quando me pergunto onde estás:
uma inquietação que atravessa
o espaço entre mim e ti, e
te rouba as certezas de hoje,
como a mim me dá este poema.

Autor : Nuno Júdice
in O movimento do mundo (Quetzal, 1997)
Imagem Evan Atwood

domingo, 5 de maio de 2024

fragmentos

na teimosia que por vezes,
o corpo me implora,
catei na fundo das minhas lembranças,
ressonância de uma voz,
não sei que fiz,
mas apenas,
encontrei sons imperceptíveis,
e não eras tu,
era apenas um processo,
de mitigar as saudades que ficaram.

Autor : BeatriceM 2024-04-27
Imagem : Katharina Jung

sábado, 4 de maio de 2024

Os Leitores


Não creio que haja olhos tão evidentes
nem rostos mais tranquilos.
Ante o franzido do poema ou o torso
rebuscado de uma prosa,
também não existirá um tão devoluto
coração como o dos leitores. Se não os
amamos é porque os não conhecemos.
Ou serão eles talvez o inverso do amor
pelo conhecimento amargo dos livros.

Seres assim professam a bondade
de existirem lendo-nos sentados ao sol
para cá e para lá de chapéu na cabeça,
tão cedo ligados ao chão da escrita
como ao embalo do sono numa rede.

Autor : João de Melo
In Longos Versos Longos.
Imagem : Katharina Jung

sexta-feira, 3 de maio de 2024

Há rumor de tempo e vestígios de lodo

 

Há rumor de tempo e vestígios de lodo
na paisagem velha sob as telhas intactas.
Destaca-se a transparência da memória
no fundo antigo de um frasco de bocal
onde a cadência do vidro continua lenta
imutável como a poeira dos móveis
intacta como as telhas da paisagem
intocável como a planta de vidro
silábica como o riso da crença
nas tábuas do sótão
templo do medo.

Autor : Ana Margarida Falcão
Imagem : Gennadi Blokhin

quinta-feira, 2 de maio de 2024

Toda a Poesia é Luminosa

Toda a poesia é luminosa, até
a mais obscura.

O leitor é que tem às vezes,
em lugar de sol, nevoeiro dentro de si.

E o nevoeiro nunca deixa ver claro.

Se regressar
outra vez e outra vez
e outra vez
a essas sílabas acesas
ficará cego de tanta claridade.

Abençoado seja se lá chegar.

Autor : Eugénio de Andrade
Imagem : Aleah Michele