domingo, 27 de maio de 2018

as mãos

Cristina Coral

as mãos ocupadas
ficam menos pesadas,

guardam simbolicamente 
tudo aquilo que meu pensamento 
nega
renega,

e no entanto
guarda tão ciosamente como os segredos mais bem quardados.

Autor: BeatriceM

sábado, 26 de maio de 2018

Pouco tempo para alinhavar

Sean Mundy


Pouco tenho para alinhavar.
Dizer-te que estou longe
não apaga esta ausência que,
inelutavelmente,
nos distanciou.

Cercam-nos muros de silêncio
opresso.
A própria hera não ousa
na despudorada nudez branca
de paredes que interditam

a fantasia ao forasteiro
voraz.
O gesto tolhido,
o pretexto adiado
e a memória a estiolar.

Autor : Eduardo Pitta

sexta-feira, 25 de maio de 2018

...

ashraful arefin
a
gaveta da alegria
já está cheia
de ficar vazia

Autor -Alice Ruiz.

quinta-feira, 24 de maio de 2018

Razão de Ser

ashraful arefin

Escrevo. E pronto.
Escrevo porque preciso,
preciso porque estou tonto.
Ninguém tem nada com isso.
Escrevo porque amanhece,
E as estrelas lá no céu
Lembram letras no papel,
Quando o poema me anoitece.
A aranha tece teias.
O peixe beija e morde o que vê.
Eu escrevo apenas.
Tem que ter por quê?

Autor  : Paulo Leminski

quarta-feira, 23 de maio de 2018

Desde sempre em mim

Shelby Robinson

Contente. Contente do instante
Da ressurreição, das insônias heroicas 

Contente da assombrada canção
Que no meu peito agora se entrelaça.
Sabes? O fogo iluminou a casa.
E sobre a claridade do capim
Um expandir-se de asa, um trinado
Uma garganta aguda, vitoriosa.
Desde sempre em mim. Desde
Sempre estiveste. Nas arcadas do Tempo
Nas ermas biografias, neste adro solar
No meu mudo momento
Desde sempre, amor, redescoberto em mim.

Autor  : Hilda Hilst

terça-feira, 22 de maio de 2018

Emergência


Sean Mundy

Quem faz um poema abre uma janela.
Respira, tu que estás numa cela
abafada,
esse ar que entra por ela.
Por isso é que os poemas têm ritmo —
para que possas profundamente respirar.
Quem faz um poema salva um afogado.

Autor : Mario Quintana

domingo, 20 de maio de 2018

meu amor

 Anna O. Photography

meu amor.    não te devia chamar assim.    talvez nos caminhos do sul as papoilas te façam lembrar de mim.  talvez.   porque não sei os caminhos que te levaram para longe, porque nem eu podia fazer parte desses caminhos.    a vida é fácil para quem ama e foi isso que eu nunca entendi.    aliás nem quis entender.   meu amor.    se nos caminhos do sul souberes um dia as cores das manhãs que existem – ainda – nos meus sonhos, então é que também ainda subsiste resquícios de mim em ti.     e só isso interessa.
Autor : BeatriceM 2012-05-20

sábado, 19 de maio de 2018

Meados de Maio

laura lee zanghetti

Chuvoso maio!

Deste lado oiço gotejar
sobre as pedras.
Som da cidade ...
Do outro via a chuva no ar.
Perpendicular, fina,
Tomava cor,
distinguia-se
contra o fundo das trepadeiras
do jardim.
No chão, quando caía,
abria círculos
nas pocinhas brilhantes,
já formadas?
Há lá coisa mais linda


que este bater de água
na outra água?
Um pingo cai
E forma uma rosa...
um movimento circular,
que se espraia.
Vem outro pingo
E nasce outra rosa...
e sempre assim!

Os nossos olhos desconsolados,
sem alegria nem tristeza,
tranquilamente
vão vendo formar-se as rosas,
brilhar
e mover-se a água...

Autor : Irene Lisboa

in 'Antologia Poética'

sexta-feira, 18 de maio de 2018

O teu riso

nishe photography

Tira-me o pão, se quiseres,
tira-me o ar, mas não
me tires o teu riso.

Não me tires a rosa,
a lança que desfolhas,
a água que de súbito
brota da tua alegria,
a repentina onda
de prata que em ti nasce.

A minha luta é dura e regresso
com os olhos cansados
às vezes por ver
que a terra não muda,
mas ao entrar teu riso
sobe ao céu a procurar-me
e abre-me todas
as portas da vida.

Meu amor, nos momentos
mais escuros solta
o teu riso e se de súbito
vires que o meu sangue mancha
as pedras da rua,
ri, porque o teu riso
será para as minhas mãos
como uma espada fresca.

À beira do mar, no outono,
teu riso deve erguer
sua cascata de espuma,
e na primavera, amor,
quero teu riso como
a flor que esperava,
a flor azul, a rosa
da minha pátria sonora.

Ri-te da noite,
do dia, da lua,
ri-te das ruas
tortas da ilha,
ri-te deste grosseiro
rapaz que te ama,
mas quando abro
os olhos e os fecho,
quando meus passos vão,
quando voltam meus passos,
nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas nunca o teu riso,
porque então morreria."

Autor : Pablo Neruda

domingo, 13 de maio de 2018

Há palavras

Cristina Coral

Talvez um dia eu ouça as palavras que eu imaginei e nunca me disseste, não é um exercício da minha mente nem tão pouco um desejo que mantenho.   Talvez seja apenas um segredo que guardei no silêncio, da partilha dos corpos e que nunca falamos.    Há palavras que não são ditas em voz altas.    Há palavras que se desenham no olhar.
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Autor:BeatriceM 2012-04-15