domingo, 20 de outubro de 2019

Crepúsculo

Uma lágrima insolente
Teimou em cair
Soprei-a para longe
Cansada do seu  sabor a sal
.
Caiu desprotegida
E perdeu-se na suavidade
Da pele sem maquilhagem
.
Transformei-a num sorriso
E abraçei a saudade de ti
Na tarde incandescente de sangue
.
Autor : BeatriceM 2012-09-09 (reeditado)
Foto: anna o. photography

sábado, 19 de outubro de 2019

Domingo no campo


Aos domingos, quando os sinos tocam
de manhã, o que neles se toca é a manhã,
e todas as manhãs que nessa manhã
se juntam, com os dias da infância que
nunca mais acabavam, as casas da aldeia
de portas abertas para quem passava,
as ruas de terra batida onde as carroças
traziam as coisas do campo, os cães que
corriam atrás delas, uma crença no sol
que parecia ter expulso todas as nuvens
do céu, e a eternidade desses domingos
que ficaram na memória, com o ressoar
dos sinos pelos campos para que todos
soubessem que era domingo, e não havia
domingo sem os sinos tocarem a lembrar,
a cada badalada, que os domingos não
são eternos, e que é preciso viver cada
domingo como se fosse o primeiro, para
que o toque dos sinos não dobre por
quem não sabe que é domingo.

Autor : Nuno Júdice

sexta-feira, 18 de outubro de 2019

Chamamento


Da margem do sonho
e do outro lado do mar
alguém me estremece
sem me alcançar.

Um bafo de desejo
chega, vago, até mim.
Perfume delido
de impossivel jasmim.

É ele que me sonha?
Sou eu a sonhar?
Sabê-lo seria
desfazer, no vento,
tranças de luar.

Nuvens,
barcos,
espumas
desmancham-se na noite.

E a vida lateja, longe,
num outro lugar.

Autor : Luísa Dacosta
Imagem: Vladimir Volegov

quinta-feira, 17 de outubro de 2019

O que não escrevi,calou-me.

O que não escrevi, calou-me.
O que não fiz, partiu-me.
O que não senti, doeu-se.
O que não vivi, morreu-se.
O que adiei, adeu-se.

Autor : Affonso Romano de Sant'Anna
Imagem: Logan Zilmer

quarta-feira, 16 de outubro de 2019

Memória é Medo


                                                           memória é medo
que se entreva
entre as teias
do corpo
memória é osso
sem carne
que cobrimos
da melhor forma
possível
para que não
sangre

Autor : Vera Lúcia de Oliveira

terça-feira, 15 de outubro de 2019

Pedras

Eu canto estas pedras de fio,
Este areal de aves esquecidas.
Passo por ti sem ver as rosas, a flor que pelos olho esvoaça.

Eu canto como se aqui fosse uma praça,
Uma praça coberta de cadáveres
E o teu rasgado pelo ventre
Fosse um cadáver mais por entre os dedos.

Por isso é que esta dor não pode ser poema.
Por isso é que não pode ser uma palavra.

Autor : Mário Contumélias
In Sou deste mar Lisboa, Litexa, 1983
Imagem: Jaroslaw Datta

domingo, 13 de outubro de 2019

Esta dor


Não sei desenlaçar-me 
desta dor 
que se hospedou em mim 
e que aqui fez pousio 
e se demora. 

Eu sei 
esta dor é 
exclusivamente minha 
e só minha 
e se calhar para sempre. 

Autor : BeatriceM 2019-09-02
Imagem : Cristina Coral

sábado, 12 de outubro de 2019

Gosto quando me falas de ti...

Gosto quando me falas de ti... e vou te percorrendo
e vou descortinando a tua vida
na paisagem sem nuvens, cenário de meus desejos
[tranqüilos

Gosto quando me falas de ti... e então percebo
que antes mesmo de chegar, me adivinhavas,
que ninguém te tocou, senão o vento
que não deixa vestígios, e se vai
desfeito em carícias vãs...

Gosto quando me falas de ti... quando aos poucos a luz
vasculha todos os cantos de sombra, e eu só te encontro
e te reencontro em teus lábios, apenas pintados,
maduros,
mas nunca mordidos antes da minha audácia.

Gosto quando me falas de ti... e muito mais adiantas
em teus olhos descampados, sem emboscadas,
e acenas a tua alma, sem dobras, como um lençol
distendido,
e descortino o teu destino, como um caminho certo, cuja
primeira curva
foi o nosso encontro.

Gosto quando me falas de ti... porque percebo que te
[desnudas
como uma criança, sem maldade,
e que eu cheguei justamente para acordar tua vida
que se desenrola inútil como um novelo
que nos cai no chão..."

Autor : J. G. de Araújo Jorge
(Do livro "Quatro Damas" 1ª Edição, 1965)
Imagem  : rosie hardy

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

Os dedos de meu pai

os dedos de meu pai pulavam na guitarra
como crianças correndo no jardim...
Vinham os trinados de encontro a mim
cotovias... rouxinóis... uma cigarra?

Os dedos de meu pai longos, delgados,
dançavam na guitarra com leveza...
Era harmonia... música... beleza...
Baladas... canções... duetos... fados.

Ficava muda ouvindo as guitarradas,
com elas vinham duendes, magos, fadas
e na noite, bailados de luar...

Os dedos de meu pai eram sereias,
cometas, estrelados, luas cheias,
que corriam sobre mim, para me encantar...

Autor : Maria Helena Amaro  8/01/2014
Imagem : Tela de José Malhoa (O Fado)

quinta-feira, 10 de outubro de 2019

Em...


Em todos os momentos de minha vida há uma mulher que me leva pela mão nas trevas de uma realidade que as mulheres conhecem melhor que os homens e nas quais se orientam melhor com menos luzes.

Autor : Gabriel García Márquez
Imagem : Rosie Hardy