sábado, 7 de dezembro de 2019

...


Deixamos de saber quem somos sempre que nos dominam, sempre que temos de aceitar como bons valores estranhos. Aconteceu comigo
quando, acolhido por tanto mar, tão poderoso e diferente me aninhei adormecido nos seus braços. Saber do que fui é memória que não vai perdurar. Começo a ter tiques de mar e sinto, agora, a minha voz mais grossa.

Autor : EDGARDO XAVIR, 
in LOENGO (Modocromia, 2018)
[MEMÓRIAS DE UM RIO[excerto]
Imagem : Alexs Toddard

sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

Segredo

Não contes do meu
vestido
que tiro pela cabeça

nem que corro os
cortinados
para uma sombra mais espessa

Deixa que feche o
anel
em redor do teu pescoço

com as minhas longas
pernas
e a sombra do meu poço.

Não contes do meu
novelo
nem da roca de fiar

nem o que faço
com eles
a fim de te ouvir gritar

Autor : Maria Teresa Horta
Imagem : Marius Markowski

quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

Lunalva

e quiserem saber quem sou

- Não sei quem sou
Só sei que em mim
A sombra e a luz
São vultos
Que se buscam e se amam
Loucamente

Se quiserem saber do meu destino

- Não sei do meu destino
- Não sei do meu nome
Só sei daquela sede
Imensa sede
Que ainda não foi saciada

Se quiserem saber donde venho

- Não sei donde venho
Talvez venha do vento
Do deserto
Do mar
Ou do fundo das madrugadas

Não

Não me amem tão depressa
"Não me compreendam tão depressa"
Não me julguem tão fácil
Por favor
Não me julguem tão mesquinho
Tão cotidiano

O pão que trago comigo

- Não é pão
É fogo
O vinho que trago comigo
- Não é vinho
É sangue
E eu vos afirmo
- Todos hão de beber
Do Fogo e do Sangue

Autor :Carlos Nejar
imagem : Hossein Zare

quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

Punhados de Palavras


Tenho sempre medo que me faltem punhados de
palavras para te falar de amor, esse sentimento que
se demora no peito. E olho para ti, sei depois que o
silêncio onde se guardam as palavras é sempre a página

que lês nos meus olhos e fico-me – despida de tudo e o tudo
é agora a pele, a capa do livro que tu conheces de cor e afagas,
e folheias ao encontro de mim.

Autor-Carla Pais

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

....



Eu penso em ti, ainda mais do que te digo, e tu estás em tudo, mesmo quando não te penso, tu és a grande razão, o horizonte sem nome que constantemente se desenha na minha imaginação de mim.

Autor : António Mega Ferreira
Imagem : Hossein Zare

domingo, 1 de dezembro de 2019

Paixão

Sinto ainda o sol que me afogueou
o corpo, quando o teu olhar
me despiu.
E surpreendentemente,
todas as palavras,
foram dispensáveis.
Sinto ainda a detonação,
explodindo em estilhaços
de fogo, cores e paixao.
 .
Autor : BeatriceMar 01-12-2013
Imagem : Victor Bauer

sábado, 30 de novembro de 2019

Intimidade


No coração da mina mais secreta, 
No interior do fruto mais distante, 
Na vibração da nota mais discreta, 
No búzio mais convolto e ressoante, 

Na camada mais densa da pintura, 
Na veia que no corpo mais nos sonde, 
Na palavra que diga mais brandura, 
Na raiz que mais desce, mais esconde, 

No silêncio mais fundo desta pausa, 
Em que a vida se fez perenidade, 
Procuro a tua mão, decifro a causa 
De querer e não crer, final, intimidade. 

Autor : José Saramago
Imagem : Katharina Jung

sexta-feira, 29 de novembro de 2019

vejo brilhar uma estrela que,

vejo brilhar uma estrela que,
pelos vistos, já morreu – assim a
minha vida: luminosa e, porém,
assombrada pela escuridão. Sorte a 

daqueles que só conhecem a morte
pelas mãos frias – toda a vida fiz luto
por corpos ainda sãos. A felicidade 

faz-me, apesar de tudo, infeliz –
é sempre a ideia do fim que traz
a música certa para os meus versos. 

Autor : Maria do Rosário Pedreira
in “Poesia Reunida”, 2ª. edição, Quetzal Editores, Lisboa, 2013
Imagem : Joel Robison

quinta-feira, 28 de novembro de 2019

dedos e dedos


voa comigo nos ombros da noite
enlaçados como dedos e dedos
na ternura completa das mãos.

inventemos asas até que nos
tenham como irmãos os pássaros
e as crianças nos persigam
pelo areal - o voo que é delas também.

acredita que o nosso olhar tocará um dia
o horizonte com tal força que a nossa palavra
ficará redonda, redonda como os ombros
desta noite em que te convido a descobrires
comigo o amor enorme que a maré nos tem

quando nos cobre os pés e nos obriga a nascer.

Autor: Vasco Gato
Imagem : Istvan Sandorfi

quarta-feira, 27 de novembro de 2019

As madrugadas ainda guardam


As madrugadas ainda guardam
a primeira palavra que dizias
antes do café

e vai ser difícil despegar-me dela
porque nada deixaste de sílabas e sons
que não fosse o eco das tuas mãos
nas minhas pernas

vai levar muito tempo
antes que tudo volte a ter
a cor parda dos embrulhos
esquecidos nas cómodas

antes que os quartos deixem
de gritar na insónia das noites
como crianças abandonadas

Autor :Alice Vieira