sábado, 9 de outubro de 2021

Eu gosto das palavras

 


Eu gosto das palavras e do canto
E dos ecos que trazem à lembrança,
Dessas canções de frança e aragança
Que são só sons que cobrem, como um manto,

O que têm que cobrir, porque, entretanto,
Já há, profissional, uma ordenança
A recolher em fichas, sem parança,
O tom, o cheiro, o muco, do seu pranto.

Que cante, e dance, e viva, e morra, e vibre,
Que se desdobre em nervos e minutos,
E seja para sempre eterno e livre

O grito que se ergueu irresoluto
Desse sítio onde o corpo se coíbe
E súbito triunfa do seu luto.

Autor : Manuel Resende
Imagem : David Talley

sexta-feira, 8 de outubro de 2021

Orgulho


És orgulhoso altivo. Também eu.
Nem sei bem qual de nós o será mais,
as nossas forças são rivais:
se é grande o teu poder, maior é o meu.

Tão alto anda este orgulho! Toca o céu.
Nem eu quebro nem tu. Somos iguais.
Cremo-nos inimigos. Como tais
nenhum de nós ainda se rendeu.

Ontem, quando nos vimos frente a frente,
fingiste bem esse ar indiferente…
e eu, desdenhosa, ri, sem descorar…

Mas que lágrimas devo àquele riso!
E quanto, quanto esforço foi preciso
para, na tua frente, não chorar!

Autor : Virginia Vitorino

quinta-feira, 7 de outubro de 2021

Escada de Caracol

a memória é uma escada de caracol
onde tropeçam os nomes e as noites
de todas as raparigas que amei,
e esquecidas ficaram na espiral do tempo,
na curva ansiosa da minha mão,
no voo sem rasto de uma ave.
onde estarão, agora?
quem as beijou, em vez de mim,
em noites de fogo salgado?
ó tempo, deixa-me aguardar na escada
pelos passos, pela chave na fechadura,
pela porta ardente do amor.

Autor : João de Mancelos
In "Poemas". Mundos(s): Coletânea de poesia lusófona, n.º 14. Org. Ângelo Rodrigues. Lisboa: Colibri, 2021.
Imagem Jaroslaw Blamins

quarta-feira, 6 de outubro de 2021

chuva

Chuva nos vidros.
Nada, chuva nos vidros!
Espaçadas, casuais, agudas, oblíquas, agulhadas.
Chuva que se anuncia, que apenas se anuncia.
Pingas que vão secando. Se vão arredondando,
tornando imateriais e invisíveis.
Vagas coisas. Como quê?
Como as coisas da minha vida.
Nem já chuva nos vidros…
Já não de vêem os sinais.

Autor : Irene Lisboa

terça-feira, 5 de outubro de 2021

A morte não é nada

A morte não é nada.
Eu somente passei
para o outro lado do Caminho.

Eu sou eu, vocês são vocês.
O que eu era para vocês,
eu continuarei sendo.

Me dêem o nome
que vocês sempre me deram,
falem comigo
como vocês sempre fizeram.

Vocês continuam vivendo
no mundo das criaturas,
eu estou vivendo
no mundo do Criador.

Não utilizem um tom solene
ou triste, continuem a rir
daquilo que nos fazia rir juntos.

Rezem, sorriam, pensem em mim.
Rezem por mim.

Que meu nome seja pronunciado
como sempre foi,
sem ênfase de nenhum tipo.
Sem nenhum traço de sombra
ou tristeza.

A vida significa tudo
o que ela sempre significou,
o fio não foi cortado.
Porque eu estaria fora
de seus pensamentos,
agora que estou apenas fora
de suas vistas?

Eu não estou longe,
apenas estou
do outro lado do Caminho…

Você que aí ficou, siga em frente,
a vida continua, linda e bela
como sempre foi.”

Santo Agostinho

segunda-feira, 4 de outubro de 2021

Homenagem


Fernando Echevarría
Nome completo Fernando Echevarría Ferreira
Nascimento  26 de Fevereiro de 1929
 Cabezón de la Sal - Espanha
Morte 04 de Outubro de 2021 Porto


Há um vento imóvel que quase transfigura
Em si mesmos os bichos e os homens.
Vemos passar pela floresta a sua
Tepidez de covil. Perto da noite,
Um halo de sentidos sensíveis os circunda
E movem a cautela inaugural da fome.
Ou, se pisam a rua,
Quase que vão por onde
Quando eram reis de uma consciência obscura
A palpitar pelos confins da morte.
Há um vento imóvel. Uma paciência, a crua
Caça. E por onde a encantação dos nomes
Relampagueia, unificando a sua
Nomeação à astralidade do homem.

Fernando Echevarria
Paris, 2 jan. 86

Fernando Echevarría nasceu em 26 de fevereiro de 1929. Publicou seu livro de estreia em 1956, Entre dois anjos. Viveu em França, onde se aproximou dos círculos oposicionistas portugueses aí exilados; daí envolveu-se em vários movimentos de luta revolucionária contra o regime militar português. Só regressou a Portugal depois do 25 de abril. Escreveu ainda títulos como Tréguas para o amor (1958), Sobre as horas (1963) e Ritmo real (1971). Premiado reiteradas vezes, com galardões como o Prêmio Pen Clube, Grande Prêmio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores e Prêmio Nacional de Poesia António Ramos Rosa.

domingo, 3 de outubro de 2021

após

ardem-me os meus olhos
ao perscrutar
o fulgor da manhã
depois de mais uma noite
sem dormir
nem sonhar.

olho entristecida
e entre o medo
de encarar o dia
não sei qual o rumo a tomar
se a noite também me atormenta.

saio e não sei o que foi feito
de mim, entre estas ruas
que já não reconheço
que eram todas desiguais
mas que me eram tão minhas.

estive ausente, e ausente me sinto
entre as folhas que estão no chão
anunciando o outono
e me dilacerando a alma.

Autor : BeatriceM 2021-10-03
Imagem:Mariesol Fummy

sábado, 2 de outubro de 2021

canção para uma manhã diferente


somos andorinhas negras
à procura dum país
onde exista primavera
e o povo seja feliz

trazemos a guerra urgente
contra tudo o que é bonança
para acordar quem se fica
na morte de ter esperança

quebrem-se as pontes dos homens
falsas canções de ternura
gritemos o desespero
com a raiva da loucura

queimem-se as noites de lua
com o rubro de alvorada
que nós faremos o sol
da manhã nunca encontrada

Autor : vieira da silva (in Marginal)
Imagem : Christine Ellger

sexta-feira, 1 de outubro de 2021

Caligrafia


Já não enxergo as palavras
como antes,
sem que os olhos ardam
Mas nunca as tive tão íntimas,
agora cicatrizes,
confissões
de si mesmas.

Como em um rito,
o esquecimento
também se faz presente
com seus remorsos.

Vou ombro a ombro
com o futuro.
A ninguém revelo
meu nome.

Autor : Solange Firmino

quinta-feira, 30 de setembro de 2021

E eu sou Eu


Aqui estou eu
Mestiço de negro e branco
Severo e brando
Obstinado e ocioso
Modesto e orgulhoso
Obsessivo e sereno
Manso e prudente
Agradável e egocêntrico
Talvez a lei dos contrários
Impere em mim
Ou talvez haja apenas
Uma simbiose de antíteses
O que faz de mim indivíduo
Pois é…
Eu sou eu.

Autor : Delmar Maia Gonçalves

quarta-feira, 29 de setembro de 2021

NOSTALGHIA



Ouvia-te falar e sentia
as chamas retomarem
as paredes do teu coração
de igreja abandonada.
O céu, nessa tarde,
era um leque de lantejoulas
ao rés do teu sorriso
e dos meus olhos encadeados.
Doía-me esse excesso de luz
que te fazia toda sombra,
o crepitar morno da pele
antes do incêndio consumado.

Sempre que dizias o seu nome,
riscavas outro fósforo –
ele avançava dentro de ti,
nas mãos uma vela prestes a cair.
Amo demasiado o fogo
para a suster. Prefiro
redesenhar as nossas cicatrizes,
ser depois a memória da pedra
fria em pleno Verão.

Autor : Inês Dias
Imagem : Matthew Scherfenberg

terça-feira, 28 de setembro de 2021

Coisas que não há que há

 


Uma coisa que me põe triste
é que não exista o que não existe.
(Se é que não existe, e isto é que existe!)
Há tantas coisas bonitas que não há:
coisas que não há, gente que não há,
bichos que já houve e já não há,
livros por ler, coisas por ver,
feitos desfeitos, outros feitos por fazer,
pessoas tão boas ainda por nascer
e outras que morreram há tanto tempo!
Tantas lembranças de que não me lembro,
sítios que não sei, invenções que não invento,
gente de vidro e de vento, países por achar,
paisagens, plantas, jardins de ar,
tudo o que eu nem posso imaginar
porque se o imaginasse já existia
embora num sítio onde só eu ia...

Autor : Manuel António Pina

domingo, 26 de setembro de 2021

O Livro



O livro foi arrumado,para ser esquecido
na prateleira mais alta da estante,
da biblioteca.

Inacessível, assim ficou
olvidado à espera de ser lido,
e deslindado.

E assim ficou anos e anos,
à mercê,
das gerações que se sucederam.

Muito tempo depois,
recebi-o como herança,
e só hoje eu o descobri.

O livro é meu,
e foi escrito por mim,
há muitos, muitos anos, atrás.

BeatriceM 21-09-2014.
Imagem : Garry Gay

sábado, 25 de setembro de 2021

Os noticiários da manhã

Os noticiários da manhã abriram com essa imagem
fabulosa: dois poetas construíam um edifício.
Não era um edifício abstracto. Não
era o utópico edifício do coração das obras.
Era um edifício verdadeiro: alicerces,
paredes, telhado; pedra, tijolos,
cimento. Em vez do exercício habitual
de poetas procurando destruir os edifícios
todos da cidade, um a um, disparando canhões
de pólen, estes dois poetas erguiam
um edifício verdadeiro, concreto,
tangível. E isto é de uma humanidade
comovente. E isto chego a pensar
que quase merecia um poema.

Autor : José Carlos Barros
Imagem : Nathan Wright

sexta-feira, 24 de setembro de 2021

Neste dia Cinzento

 
Neste dia cinzento
procuro um verso
e não encontro
não tem importância

Autor : Adilia Lopes
Imagem : Sandy Wijaya

quinta-feira, 23 de setembro de 2021

das paixões



das paixões só conheci as mais pequenas
aquelas que nasciam na palma das mãos e desapareciam
com a água do mar. mas não eram paixões por barcos
ou pássaros ou cabelos teus: só uma fenda no céu
verde e azul e uma casa desabitada

das paixões só conheci as mais pequenas
como se no minuto imediato eu tivesse de esperar a morte
ou as aves no seu regresso do norte
de resto, implorei aos deuses uma morada branca
onde nenhum peixe chegasse antes do alvorocer
onde nenhum nome coubesse, onde nenhum olhar entrasse
implorei aos deuses o seu encantamento
não o seu dó. foi então que, das paixões, das mais pequenas
surgiram os teus olhos tão verdes e tão brancos
que só eu neles poderia poisar como um pescador
sem mar onde navegar ou lavar o rosto.

Autor : Francisco José Viegas
Imagem : Saúl Landell

quarta-feira, 22 de setembro de 2021

..

 

A melhor impressão que a poesia nos pode dar é esta: ficar de coração vagabundo, deixando a vareja estalar na janela as asas grossas, e não dar por isso, como um cão surdo.

Autor : Agustina Bessa-Luís
Imagem : Ruslan Bolgov

terça-feira, 21 de setembro de 2021

...

 hoje tive um sonho
que não era meu

(talvez seja teu).

que queres que faça com ele?

talvez deixá-lo
pousado no travesseiro
a adornar-te o rosto
num beijo como o primeiro.

Autor : LuísM Castanheira
https://barcaarmada.blogspot.com/
Imagem : Monika Luniak

domingo, 19 de setembro de 2021

Perseguição

Olhei-a
E estremeci
Ignorei-a

Mas ela segue-me
Dançando como uma bailarina
Que me enlaça cândida

Não a oiço
Mas intimidada
Paro e enfrento-a

Afinal não é nada, neste trilho
É noite cerrada e constato
É apenas a minha sombra na calçada

Autor : BeatriceM 19-09-2021
Imagem : Neil Kryszak

sábado, 18 de setembro de 2021

pensar é uma palavra


pensar é uma palavra
primogénita
onde o ardor decanta das insígnias
os íntimos sinais
e o olhar é um silêncio enorme
e rumoroso

o delicado musgo
da memória
é a matéria-prima
do teu rosto

Autor : Carlos Nogueira Fino
Imagem :Jenna Martin

sexta-feira, 17 de setembro de 2021

Epitáfio


Na véspera de minha morte
naufraguei nas
abissais ondas do Letes.

Subornei oráculos para saber meu fim,
mas os vates discretos
resistiram,
assediaram-me com seu séquito
de sacerdotisas sensuais.

Eles sabiam da minha fadiga
e trouxeram asas,
como as de Ícaro.

Foi assim que caí feliz
no abismo.

Autor : Solange Firmino(No livro “Geometria do abismo)
Imagem : Mariesol Fummy

quinta-feira, 16 de setembro de 2021

As manhãs


 

Das manhãs
apenas levarei a tua voz
Despovoada


Sem promessas
sem barcos
E sem casas

Não levarei o orvalho das ameias
Não levarei o pulso das ramadas

Da tua voz
levarei os sítios das mimosas
Apenas os sítios das mimosas

As pedras
As nuvens
O teu canto

Levarei manhãs
E madrugadas

Autor : Daniel Faria

quarta-feira, 15 de setembro de 2021

Olores

Os lábios da manhã trouxeram o teu beijo alvo,
Como alvas são as pétalas das rosas
Que caem sobre mim, todas as noites.
Levam-me a ti, no olor do silêncio
Onde escrevo das formas, o teu corpo
do toque, as tuas mãos.
Sou-te íntima, nestes cândidos recantos
Respiro-te nas rosas brancas que adornam o meu sonho
Visto-me do teu sorriso, nos lençóis vagos do tempo
Ilumino a minha nudez com o brilho dos teus olhos…

Autor : Cecília Vilas Boas
Imagem : Lara Zankoul

terça-feira, 14 de setembro de 2021

eu queria entender


eu queria entender essa sua dor, queria que fosse possível que você olhasse a si mesma com os mesmos olhos que os meus, para que só por alguns instantes percebesse o quão maravilhosa é a sua existência. mas eu não sabia ao certo o que dizer. gostaria de poder me sentar ao seu lado, então, a gente ficaria em silêncio. acho que por hoje o silêncio nos bastaria. pois realmente não sei o que dizer, é tudo mais complexo do que meus pensamentos conseguem imaginar. enfim, eu só queria que você percebesse que apesar de tudo, que apesar de todo o caos, eu estava ali, por/pra você.

@kaiobrunodias
Imagem : Lara Zankoul

domingo, 12 de setembro de 2021

Enigma

Não sei se és vulcão em erupção
ou um véu de lava
que escorre pela montanha
num aglomerado de contradição
onde se desatam todas as impurezas
que trazemos em nós.

Não sei, ou finjo que não sei
também não interessa
apenas fica, para sempre
a ilusão de ser uma fracção que
eu arquivo recatadamente em mim
e nas minhas memórias.

Autor : BeatriceM 2021-09-05
Imagem : Kyle Thompson