sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Neste voo de escrever-te um poema


Neste voo de escrever-te um poema
um poema que falassedos rios ocultos
com cestas de astros e corais
que falasse das flautas de sol
polindo a tarde
e de picaretas de luz
que do peito à boca me ressoam


Um poema com peixes verde-prata
vindo à tona entre os juncos e as palavras
e onde os sapos surpreendidos em seus saltos
deixassem os gritos suspensos
nos cabelos das algas
com regatos de permeio


Um poema que tivesse também
um longuíssimo solo de violino
com todos os mundos que para ti inventei...
- Neste voo de escrever-te um poema
que não sei...

Autor:Victor Oliveira Mateus In "Movimento de Ninguém", Minerva, Lisboa, 1999, p 30.
Foto:Haim Zaslavsk http://plfoto.com/1967498/zdjecie.html

sábado, 12 de dezembro de 2009

...


As tuas palavras não sobem mais
os degraus da minha casa
...não as escuto
Os teus gestos fogem-me do corpo
...não mais os sinto
secam-se-me os olhos
...não te enxergo
Nas mãos conservo ainda o livro
da vida que vivemos
E me ofertaste
como despedida...
.

Autor:Helena Domingues http://orionix.blogspot.com/
Foto:mabar

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Algas

.Amar-te assim com a força da poesia
que sem querer
gravo em tudo o que faço e
souAmar-te assim ao clarear de mais um dia
em que descubro meu corpo
desnudado e
tranquilo.

Amar-te assim onde as mãos tacteiam
quais algas desavindas
perdidas nas profundezas
das águas

Amar-te...

Autor: © Piedade Araújo Sol
04/09/2005
http://olharemtonsdemaresia.blogspot.com/

Foto:glover barreto

sábado, 5 de dezembro de 2009

Há no corpo da mulher
as cordas dum violino adormecido;
Há no corpo do violino
os sonhos adormecidos duma mulher.
Quando o silêncio despe
a melancolia desafinada dos corpos,
as cordas tangem gemidos de desejo
despertando cinzas de sonos queimados
na espera de novas pautas
que escrevam melodias virgens
e despertem o repouso dos corpos.
.
Autor:PAS[Ç]SOS http://pacosdagua.blogspot.com/
Foto:Leszek

sábado, 28 de novembro de 2009

...

Deixo o rio correr,
(o som e a cor),a agua tenho-a na alma,tudo o resto é vento que rema sombras…
Não tenho fronteiras, só o universo me cabe,para lá dele
há o olhar que O inventa e O sente.

Autor:Almaro

sábado, 21 de novembro de 2009

Fatalidade


Brotam desejos em mim
Vibrantes, quentes, vistosos,
Como as papoilas vermelhas
Se recortam nos trigais!

Brotam e murcham depois,
Como a elas acontece,
Deixando indiferente o céu
Que viu seus gritos de cor
Como sangue a escorrer
Nas mãos de quem as colheu!

Também eu, mondo os desejos
Que nascem dentro de mim,
E sei que o céu indiferente
Os deixará reviver,
Garridos como as papoilas
Que alguém jamais semeou,
Mondadeiras vão colher,
E no trigo hão-de nascer!

autor:Maria José Rijo http://paula-travelho.blogs.sapo.pt/2008/03/
26 Maio 1956
Foto:Pa Wel

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

As coisas pelo nome

Eu não sou o meu nome. Eu sou o teu nome escrito do avesso. Eu sou o meu nome encostado à tua cabeça. O meu nome que foge de mim. O teu nome e o meu nome atados com cordas. O teu nome sou eu quando me debruço por cima do teu ombro. O meu nome a fazer uma pirueta. O meu nome a cair lentamente sobre a tua cama estreita de mulher. O teu nome dentro da minha boca. Sou eu a pedir-te que repitas o meu nome, sussurro a sussurro, letra a letra. Sou eu a dizer o teu nome que trago debaixo da língua. O teu nome no meu sexo estampado. O meu nome no teu sexo estrela. O meu nome é um sexo levantado. O meu nome é uma carícia que me fazes por cima da minha cicatriz. O meu nome é a cicatriz a meio do teu corpo. O meu nome plana por cima das planícies em busca do teu nome. O meu nome cai a pique junto ao teu nome. Nunca digas o meu nome. O meu nome não existe. Não vem em nenhuma página escrita. O meu nome é um cifra escrita a verde ultramarino. Verde ultramarino é a cor de que mais gostam os nossos nomes. O meu nome sobre o teu nome. O teu nome sobre o meu nome. Os nomes muito perto. Os nomes muitos. Os nomes exaltados. O meu nome em cadência lenta. O meu nome é forte como um bicho selvagem. Os nossos nomes percorrem as paisagens como cavalos endoidecidos. Quem diz o meu nome diz amor, qualquer coisa aflita. Quem diz o teu nome deseja ser atingido por um raio, elevado aos céus. O meu nome por dentro do teu nome. O teu nome a pedir perdão por tudo. O meu nome, o teu nome, agarrados por cordas, a cair num precipício. Os nossos nomes são coisas que se comem por dentro. As coisas pelos nossos nomes são aves sagradas. Nome a nome, coisa a coisa. O sol morre dentro do meu nome, na minha boca. O teu nome abriga numa mão fechada o que resta do meu nome. Nomes muito belos. Um nome sem nome. Um nome inefável, inomável. Um nome que ninguém conhece. Só o teu nome sabe o meu nome de cor. O meu nome a subir pelo teu. O teu nome repete o meu nome, nome a nome, sílaba a sílaba. As coisas pelos seus nomes. Os nomes pelas suas coisas. Cada coisa com seu nome, o nome sem fim. Cada nome com sua coisa. O nome do nome no umbigo do mundo.
.
Autor :Pedro Paixão
Foto:Bogustawsiemek

sábado, 14 de novembro de 2009

o caminho mais íngreme

o caminho mais íngreme
é melhor que se faça
sozinho.

evitemos sacrifícios
alheios

não vá a terra
despegar-se

e arrastar na avalanche
o nosso melhor amigo.


Autor: José Miguel de Oliveira
http://deliriospoeticos.blogspot.com/
Foto:Julka Toldi

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

há dias que me fitas

há dias que me fitas a partir do monitor,
e não sei se é a nudez dos teus olhos
ou dos teus ombros,ou se é um mero efeito de luz
sobre os cabelos, os lábios,
que me traz preso à tua presença
ausente, porque nunca partiste
nem chegaste, nem sei quem és,
imagem que apenas afloraste ao ecrã,
num desamparo teu e meu.

Autor:Vítor Oliveira Jorge
Foto: Moniks

terça-feira, 6 de outubro de 2009

As nossas madrugadas


As nossas madrugadas

Desperta-me de noite
o teu desejo
na vaga dos teus dedos
com que vergas
o sono em que me deito

pois suspeitas

que com ele me visto e me
defendo

É raiva
então ciume
a tua boca

é dor e não
queixume
a tua espada

é rede a tua língua
em sua teia

é vício as palavras
com que falas

E tomas-me de foça
não o sendo
e deixo que o meu ventre
se trespasse

E queres-me de amor
e dás-me o tempo

a trégua
a entrega
e o disfarce

E lembras os meus ombros
docemente
na dobra do lenços que desfazes
na pressa de teres o que só sentes
e possuires de mim o que não sabes

Despertas-me de noite
com o teu corpo

tiras-me do sono
onde resvalo

e eu pouco a pouco
vou repelindo a noite

e tu dentro de mim
vais descobrindo vales.


Autor:Maria Teresa Horta
Foto:Asieek

domingo, 20 de setembro de 2009

Temo o fim
Depois das fórmulas feitas
das palavras ditas
O que dizer?
O que pensar?

autor : Luis Rodrigues
foto:Mirco

sábado, 12 de setembro de 2009

Na solidão da mesma noite


Na solidão da mesma noite
e do mesmo monte
onde vasos
de luz ainda há pouco se entornavam.

Com a palma da mão
cobrindo os olhos, na retina
o fluxo de antigos silêncios,a ciência do poente perdida
na terra firme do quarto
onde há-de caber sempre

o rosto de uma figura romântica
cismando sobre um mar de nuvens.


Autor: Rui Lage
Foto:art-dg

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Rebeldia


Soltem-me
as algemas

Quero
a minha alma livre
meu corpo livre
meu pensamento livre

Esbofetear o mundo
e cuspir
na vida.


Autor:Manuela Amaral
Foto:NirVana

sábado, 22 de agosto de 2009

homem

homem levantado e caído
setenta vezes sete vezes por dia
que morte me quer para além
de deixar cair os braços?

Autor:Ruy Belo
Foto:Markhamian

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

"


" Sou um desastre humano. Ninguém mo disse. Sou eu que o digo. Vivo de incertezas. A única certeza que me resta é que tenho de voltar a tomar os medicamentos e marcar uma consulta com a minha médica. Mas não vou fazer nada disso. Eu minto-lhe e ela mente-me, dizendo-me que me vai livrar de todos os meus desordenados pensamentos. [...] Por isso nunca lhe digo que deixei de tomar os comprimidos. Se eles me impedem de pensar prefiro a minha doença. O meu único sossego encontro-o nos sonhos que não se convertem em pesadelos.

Fui de férias. Viajei para longe para me esquecer de mim. Não deu resultado. para onde quer que vá a minha cabeça é a mesma. Não consigo tirar férias de mim. Talvez fosse melhor ser uma pessoa normal, com rotinas, famílias e coisas dessas. O meu azar é ter fé em coisas utópicas, coisas que não existem. Em nada me sinto segura, ninguém me pode convencer, só eu posso convencer a mim própria. Há muito que me convenci que não tenho cura e os dias sem piedade.

Autor:Pedro Paixão
Foto:pazudard

domingo, 16 de agosto de 2009

...


«As pessoas deviam ter mais de uma vida ou, pelo menos, uma que pudesse também voltar atrás se necessário. Para corrigir o que saiu mal à primeira, aprender a saborear as poucas horas boas - tal como uma canção que quanto mais se ouve mais se gosta - e, sobretudo, para poder ir primeiro por um lado e depois por outro e depois, sim, seguir pelo caminho encontrado.»

Autor:Pedro Paixão
In:Viver todos os dias cansa

domingo, 9 de agosto de 2009

.
Quando mo vieram contar, senti o frio
de uma lâmina de aço nas entranhas;
apoiei-me no muro e um momento
perdi a consciência de onde estava.
A noite abateu-se em meu espírito;
em ira e piedade afogou-se-me a alma;
e então compreendi porque se chora,
e então compreendi porque se mata!
.
Passou a noite de sofrimento...a custo;
pude balbuciar breves palavras...
Quem me deu a notícia?...Um bom amigo...
Fazia-me um favor. Rendi-lhe graças.


Autor: Gustavo Adolf Bécquer

Foto:MartaPos

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Photografia

no escrever há um lugar supérfluo, uma
nitidez repetida do mundo, enganos
e ilusões que em qualquer lugar se perdem
de si mesmas, mas nisso a que chamas,
incessante real, algum nome
para as coisas ou o amor delas
está intacto o que a magia transforma.

Autor: Francisco José Viegas.

in Todas as Coisas

Foto:Wojcieclo Gepner

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Spleen de Lisboa

"Suave é o fumo do cigarro que entontece. Tenho passado estes dias na ocupação de os desfazer aos bocados. Tudo passa devagar como este fim de tarde em que o sol está quente e pachorrento e a minha alma anda por aí livre ao acaso. De resto não faço nada que valha a pena recordar. Quando muito escrevo uma carta que não mando, leio parágrafos vários de livros que folheio, escrevo coisas como esta em que não digo nada. Com sorte talvez beije uma rapariga, se for preciso ou a isso me obrigar. À parte isso não faço nada, sou como este fumo azulado que se dissipa sem vento".
.
Autor:Pedro Paixão, in "Histórias Verdadeiras"
Foto:Argothh

domingo, 26 de julho de 2009

enquanto o sol

enquanto o sol me parte o
volume aos olhos, digo tudo
da voz que arremesso à boca, ventre
das melodias que arremesso ao
vento, e escuto, armadilha
que me armo para me
entender

Autor:valter hugo mãe
Foto:Marcin Atraszkiewicz

sábado, 25 de julho de 2009

escultor de sombras

voo, no silencio dos ventos,
e não me sinto pássaro,
mas escultor de sombras e de memórias, a respirar serenidades...
varro silêncios,
como quem acaricia o tempo que nos habita o passado.

Autor:Almaro
Foto: DDiArte

quinta-feira, 23 de julho de 2009



- O barulho do mar e do vento. A montanha, a ideia da montanha impraticável. E depois a terra arenosa por ali fora. E a solidão. E sentir sobretudo que já não pode haver medo. Fecho as portas da casa, a porta de saída e as portas dos quartos entre si. E fico no quarto sem soalho e deito-me no chão. Ouço o mar e o vento à frente e atrás da montanha solitária e poderosa. Depois encosto a cara à terra profundíssima para escutar o seu húmido sussurro atravessando-a toda e passando por mim. E então poderei morrer."


Autor:Herberto Helder
excerto de Os Passos em Volta
IFoto:Szara Reneta

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Nunca se sabe

Nunca se sabe o que é para sempre, sobretudo nas coisas do amor. E era uma coisa do amor, isto tudo. São tão estranhas as coisas do amor que não se compreendem por inteiro. Tem de se estar sempre a fazer suposições. Nunca se sabe como e até que ponto a até quando. Esta obsessão chega para impedir a vida, o amor pode impedir o amor, amaldiçoá-lo como um espectro.


Autor:Pedro Paixão (Nos teus braços morreríamos)
Foto:kiki 123

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Formas


Há sempre uma madrugada
em que os candelabros de ouro enaltecem
as tuas formas,
a tua alquimia de pecado e volúpia,
há sempre,
no teu sorriso breve,
uma brisa que regressa do mar,
trazendo o lamento dos náufragos,
a sua sede irremediável.
Nestas horas de assassinada alegria
ergues os braços e uma súplica,
mas ninguém te ouve, ninguém te vê,
encerrada numa túnica de cores puras.


Autor:José Agostinho Baptista
Foto_ar-dj

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Hoje de manhã saí muito cedo,
Por ter acordado ainda mais cedo
E não ter nada que quisesse fazer...
.
Não sabia que caminho tomar
Mas o vento soprava forte, varria para um lado,
E segui o caminho para onde o vento me soprava nas costas.
.
Assim tem sido sempre a minha vida, e
Assim quero que possa ser sempre --
Vou onde o vento me leva e não me
Sinto pensar.
.

Autor:Alberto Caeiro (Fernando Pessoa)
Foto:ciwak