deixa que acompanhe teu voo,
que seja a outra asa,
a outra margem.
que te ampare o voo,
que te sare a feridas,
que te beije a face.
e depois, vai
que o teu voo é longo,
e é apenas teu.
e será sempre assim,
sempre,
até que mais nada reste.
senão um adeus,
aquele adeus,
que será para sempre.
só hoje...amanhã,
não sei,
se estaremos aqui.
Autor : BeatriceM 2017-08-27
Imagem : Brooke Shaden

4 comentários:
Por que não somos capazes de renunciar, sem dor, ao facto de alguém não querer estar de mão dada connosco?
Pergunto-lhe:
1. eu lírico retrata um amor altruísta? [amar é deixar ir, ele deseja ser a outra “asa” e “a outra margem”].
2. Retrata a dolorosa aceitação da finitude e do desapego? Implicitamente, o Eu oferece amparo e companhia durante a jornada do outro, mas reconhece que o voo é individual e que a despedida é inevitável, focando na urgência de viver o presente diante da incerteza do amanhã.
3. Forte é o apelo ao Memento Mori (Lembra-te de que vais morrer), a expressão latina indiretamente posta é um lembrete da finitude humana, da impermanência de todas as coisas e da inevitabilidade da morte ou do fim. No poema, o Memento Mori é uma realidade melancólica que organiza o destino de todos nós. Se observarmos cuidadosamente o poema, percebemos que ele caminha em direção ao fim. Ele começa com o desejo de união ("ser a outra asa") e vai se desfazendo até o esvaziamento completo.
4. Nos versos: "até que mais nada reste. / senão um adeus, / aquele adeus, / que será para sempre", o eu lírico tem plena consciência de que a separação é o destino final absoluto ("até que mais nada reste"). Essa certeza de que o tempo é escasso e que tudo termina (seja a vida ou o próprio relacionamento) é a base pura do Memento Mori.
5. Popularizada pelo poeta romano Horácio, a filosofia do Carpe Diem é um chamado para viver o momento presente intensamente, justamente porque o futuro é incerto. No poema, ela surge como uma consequência direta do Memento Mori: sabendo que tudo vai acabar, o agora ganha um valor incomensurável.
6. Nos versos: "só hoje...amanhã, / não sei, / se estaremos aqui." O "só hoje" é o ápice do Carpe Diem. O eu lírico aceita que não pode controlar o amanhã e que o voo do outro é individual ("é apenas teu"). Portanto, o único momento real para amar, beijar a face e curar as feridas é o presente. O amanhã é uma dúvida; o hoje é a única oportunidade de cumplicidade.
Acho que extrapolei. Um bom domingo, Beatrice!
talvez queira dar a mão...e não puder...
Eros
Grata pela análise assertiva e que adorei ler.
Apreciei e fico muito agradecida.
Boa semana.....
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