sexta-feira, 17 de julho de 2026

Sempre amei por palavras muito mais

Steve Hanks

Sempre amei por palavras muito mais
do que devia
são um perigo
as palavras
quando as soltamos já não há
regresso possível
ninguém pode não dizer o que já disse
apenas esquecer e o esquecimento acredita
é a mais lenta das feridas mortais
espalha-se insidiosamente pelo nosso corpo
e vai cortando a pele como se um barco
nos atravessasse de madrugada
e de repente acordamos um dia
desprevenidos e completamente
indefesos
um perigo
as palavras
mesmo agora
aparentemente tão tranquilas
neste claro momento em que as deixo em desalinho
sacudindo o pó dos velhos dias
sobre a cama em que te espero

Autor : Alice Vieira
in O QUE DOI AS AVES (Caminho, 2009)

4 comentários:

Daniel André disse...

Há palavras que não apenas dizem: permanecem. Este poema lembra que cada frase lançada ao mundo carrega um pedaço de quem a pronunciou, e talvez por isso o silêncio, às vezes, também fale. Alice Vieira transforma a delicadeza em profundidade, e você, Beatrice, mais uma vez nos presenteia com uma escolha que permanece ecoando muito depois da última linha. Que bela partilha.

Belo final de semana
Daniel

BeatriceMar disse...

Muito obrigada pela visita e preciosa análise ao poema da Alice Vieira. Retribuo os votos de bom fim-de-semana....

Cidália Ferreira disse...

Gostei bastante do poema! Obrigada :))
-
"DISTÂNCIAS"....
-
Beijos. Bom fim de semana!

BeatriceMar disse...

obrigada. Bom fim-de-semana! ...