quinta-feira, 8 de fevereiro de 2024

A Luz que Vem das Pedras

A luz que vem das pedras, do íntimo da pedra,
tu a colhes, mulher, a distribuis
tão generosa e à janela do mundo.
O sal do mar percorre a tua língua;
não são de mais em ti as coisas mais.
Melhor que tudo, o voo dos insectos,
o ritmo nocturno do girar dos bichos,
a chave do momento em que começa o canto
da ave ou da cigarra
 a mão que tal comanda no mesmo gesto fere
a corda do que em ti faz acordar
os olhos densos de cada dia um só.
Quem está salvando nesta respiração
boca a boca real com o universo?

Autor : Pedro Tamen
Imagem : David Tomek

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2024

A outra

 A outra
aquela
a tal
que desdobrou de mim a tua forma
que te tomou diferente
e tão igual
à gente informe
de todas as pessoas que eu conheço.
E que te fez vulgar.
Que te respira o ar
e se passeia impune no teu corpo,
não é minha inimiga
nem rival
é apenas e só
um peso morto.

Autora  Manuela Amaral
in "Minha Memória de Ti", 1992)
Imagem :Nicole Burton

terça-feira, 6 de fevereiro de 2024

Segunda Nota Explicativa

Se uma palavra toca noutra ou mesmo sem tocar
lhe queda próxima, põem-se as duas
a dedilhar lembranças na ária
da carne azada.

Passa-se isto
na poesia dos poetas e na linguagem
da rua. Os ganhos
são mútuos e ficam mal lembrados
ou julgados inconvenientes se
pouco prosados ultrapassam
a discreta função de fundo
musical na paisagem ambiente.

Ganham em sentidos o que perdem
em concisão. Para que servem os muros
que nos cercam senão para dar ganas
de os saldar?

Autor :Júlio Pomar

domingo, 4 de fevereiro de 2024

Questões

Onde procuro os sonhos que projectamos,
onde escrevo o sentimento que se concebeu saudade,
quem me seca as lágrimas e me devolve a serenidade?.
 
Autor : BeatriceM  2024-02-04
Imagem : Erica Hopper

sábado, 3 de fevereiro de 2024

quem colhe?

diz-me: quem colhe
o silêncio dos pássaros
depois do trovão?

Autor : João de Mancelos
In Coração de aluguer. Lisboa: Colibri, 2023. 94 pp. ISBN: 978-989-566-285-2.
imagem Martin Stranka

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2024

Etapas

omar ortiz

Não sei por que buscas palavras longas
para as coisas breves que nos assombram.

Não sei por que teces teias enormes
para as incertezas que nos envolvem.

Não sei por que insistes. Não sei porque insistes
em prender meus passos nesse limite.

Autor : Glória de Sant’Anna
in ‘Poemas do Tempo Agreste

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2024

Elegia

Nem os dias longos me separam da tua imagem. Abro-a no espelho de um céu monótono, ou deixo que a tarde a prolongue no tédio dos horizontes. O perfil cinzento da montanha, para norte, e a linha azul do mar, a sul, dão-lhe a moldura cujo centro se esvazia quando, ao dizer o teu nome, a realidade do som apaga a ilusão de um rosto. Então, desejo o silêncio para que dele possas renascer, sombra, e dessa presença possa abstrair a tua memória.

Autor: Nuno Judice
Foto:Kamyk75

quarta-feira, 31 de janeiro de 2024

Empresta-me



Empresta-me o teu olhar com pássaros
sem as sombras vazias da terra
Diz-me, diz o meu nome quando o teu corpo murmurar segredos às árvores
e o silêncio das palavras desaguar
nas transparências nuas do vento
Faz das tuas mãos um manto terno sem pressa
e deixa-me adormecer dentro delas,
longe das sombras vazias da terra
para que eu possa enfim adormecer

Autor : Maria João Saraiva
in Rio de Doze àguas(Coisas de Ler Ed., 2012)

terça-feira, 30 de janeiro de 2024

Irremediável

Quando eu continuar na minha marcha eterna,
direito no caixão, sereno e branco,
tu ficarás sozinha.
E talvez só entendas claramente
que, além de ti, eu era a única pessoa.
As mãos que se estenderem para ti
ser-te-ão irreais, como de fumo.
E todas as bocas serão gélidas e mortas,
e todas as palavras gélidas e mortas,
tudo gélido e morto para ti.
Terás os cabelos singelamente escorridos
e os olhos molhados
e as mãos abandonadas.
E só então (tão tarde) tu verás,
com a lucidez que vem depois das coisas consumadas,
a verdade total.
Tuas olheiras roxas
e os ombros caídos ao peso dos braços
serão a medida exata desta palavra: angústia.
Um manto de inutilidade e do vazio cairá sobre as coisas.
Ah mas então será tarde, imensamente tarde!
Porque eu estarei direito no caixão, sereno e branco,
sem poder repetir-me nunca mais.

Autor : Mário Dionísio
Imagem : Ben Zank

domingo, 28 de janeiro de 2024

A cifra


De tudo o que restou não lamento nada,
nada vezes nada, que circunscrevido é um nada,
majestoso ao mais alto expoente da memória activa.

Permanecemos nesse olhar tão cúmplice,
excedemos ondas de prazer,
esvoaçamos contra as adversidades do tempo.

Nos meus sentidos conservei tudo o que foi benigno,
só lamento o tempo que foi diminuto,
e esvaído em palavras que foram desvalorizadas.

Um dia voltarei para ti com todas as memórias,
inscritas num mapa em forma de hieroglíficos,
não necessitamos falar, tu compreenderás a cifra.

Autor : BeatriceM 2024-01-27
Imagem : Shelby Robinson

sábado, 27 de janeiro de 2024

Poema

Inteira
no sabor
de uma dor.
Verdadeira
na cor
de uma flor.
Exata em cada momento,
e no instante do movimento
mentida,
- Vida.

Autor : Vergílio Ferreira,
in Diário Inédit
Imagem : Lizzy Petereit

sexta-feira, 26 de janeiro de 2024

Depois de tanta vida

Depois de tanta vida
não mais ocorre outra vida.
É um ponto negro e final,
cheio de mágoas e atitudes,
palavras por dizer.
Tão tanto e tanto nada.
Relâmpagos e flores,
montes, rios e vazios.

Afinal, sim.
De quantas vidas se faz uma vida?
.
Autor : ©Paula Raposo
Imagem : Kiara Rose

quinta-feira, 25 de janeiro de 2024

mãe queremos ainda passear

 

mãe queremos ainda passear
e já não temos quem nos leve
perdeu-se o olhar que nos guiava
e explicava os caminhos
perdeu-se a mão dobrada pela
lâmina de tanto trabalhar que
nos amparava se as curvas
da estrada anoiteciam
mãe já não temos a camioneta
azul onde construímos casas
e vivemos tanta vida
mãe já não temos a carrinha
branca onde voltaste ao
que conhecias para conhecer
de novo onde ouvimos música
de piqueniques e risos de netas
mãe queremos ainda passear
e já não temos quem nos leve
esperamos uma madrugada
que nos apresse a entrar na
camioneta azul na carrinha branca
um conforto que chegue e nos leve
um conforto que não chega
que não chega nunca mãe

José Luis Peixoto
In “A Criança em Ruínas”
Imagem : Karyn Teno

quarta-feira, 24 de janeiro de 2024

Posta-Restante

 

No dia em que a tua carta chegar,
estarei sentada no sofá
provavelmente esquecida
que a espero.

No dia em que a tua carta chegar, ficarei surpreendida
como se algo inesperado
tivesse acontecido.

Algo profundamente diferente
do que agora imagino
acontecerá nesse dia.

Não terei de passar o poema a limpo,
não sentirei a tentação de emendá-lo
pois a carta não chegará e, por isso,
restará apenas o poema como prova.

Autor : Marta Chaves

domingo, 21 de janeiro de 2024

Triunfo

 

Descerrou a boca à sede inquieta e insaciável
o corpo à sequiosa fome___ imposta pelos caminhos áridos
resiliente, e segura realizou os sonhos guardados.

Autor : BeatriceM 2024-01-20
Imagem : Dorota Górecka

quinta-feira, 18 de janeiro de 2024

Disse-te um Dia

 

Disse-te um dia
... que havia de dar-te uma estrela
tão real como os sonhos
do rio Guadalquivir
e o perfume adolescente
do teu corpo
a ondular na aurora de Sevilha
Não foste comigo a Barcelona
ver as pesadas corolas e os mosaicos
de La Pedrera
mas espera-me no aeroporto
de nunca antes
o rumor febril dos teus olhos
onde aprendi
que o tempo não existe
Mas a vida pode ser
também mágoa escura
bem sabes. Por isso te prendo
as mãos sobre as ancas
para não fugirmos mais um do outro
e bebo todo o sol e afinal o tempo
nos teus lábios.

Autor : Urbano Tavares Rodrigues
 in Horas de Vidro
Imagem : Masha Raymers

quarta-feira, 17 de janeiro de 2024

O lado fatal - Poema 18

Morreu quem eu amava:
viver sem ele, como dói.
Um dia ele mandou fazer um par de alianças
de pesada prata, parecendo antigas;
gravou apenas nossos nomes, sem data e disse:
“Somos um só desde sempre.”

Ainda não acreditei em sua morte,
e talvez isso ainda me salve.
Levantar-me da cama cada dia é um ato heroico,
atender o telefone, tomar café.
Mas faço tudo isso: falo, ando, recebo visitas.
Compro móveis para a casa onde moro sem ele,
imaginando: será que ele vai gostar?

De algum secreto lugar me vem a força
para até sorrir se alguém me diz:
“Você hoje está com a cara ótima”.
Eu de castigo,
eu no escuro,
eu no nada.

Autor : Lya Luft

terça-feira, 16 de janeiro de 2024

Arte Poética


Nos bosques das
madrugadas do verão
colhes nevoeiros
É que o poema também
precisa disso
para que o verso
tenha dureza e elasticidade

Depois, retesas o arco
e o horizonte vibra em
suas etéreas arcadas
A liberdade é agora uma
antiga praça
Ao centro, um fontanário
e sorridentes crianças

Autor : Luís Costa 
Imagem : Rachel Baran

domingo, 14 de janeiro de 2024

arte de olvidar

 ordenou na estante com elevada abnegação
todos os livros que não voltaria a ler
bem atrás, para nem os ver.

não seduziam mais
significavam ausências
regressos e partidas.

lá no fundo não lhe fariam lembrar
mas a audácia para os doar
eram pálidas e sem coragem.

continuam ordenados
as capas desbotadas pelo tempo
 não mais os fui buscar

são todos do mesmo autor
do mesmo amor
do mesmo sonhar.

Autor : BeatriceM 2024-01-14
Imagem : Kelly Tan

sábado, 13 de janeiro de 2024

Se

 

Se não estivermos presos a uma pedra
que nos roube o sonhar...
mesmo sem vento na montanha
nós podemos voar!

Voar onde a vista não chega,
chegar onde a vista não sonha,
sonhar muito além de nós.

Alcançando o horizonte mais alto,
transpondo o mundo num salto
soltando mais o corpo que a voz...!

Autor : João Morgado 
In: Para Ti (Poesia)
Imagem Martin Stranka

sexta-feira, 12 de janeiro de 2024

Canta. Busca na vida o que é perfeito.

 
Canta. Busca na vida o que é perfeito.
Olha o sol e não queiras outro guia.
Sonha com a noite e absorve, aspira o dia,
tal uma flor que te florisse ao peito.

Da terra maternal, faz o teu leito.
Respira a terra e bebe o luar. Confia.
Faz de cada pena uma alegria
e um bem de cada mal insatisfeito.

Colhe todas as flores do jardim,
todos os frutos do pomar e enfim
colhe todos os sonhos do universo.

Procura eternizar cada momento,
Fecha os olhos a todo o sofrimento
E terás feito a carne do teu verso.

Autor : Fernanda de Castro
In “Daquém e Dalém Alma”
Imagem :Marta Bevacqua

quinta-feira, 11 de janeiro de 2024

Hegel

    leszek paradowski   

Minto para tecer palavras,
Inventar dialetos.
Minto como um livro édito
E sua tradução de cogumelos.
Minto como a noite insuspeita
No alvorecer dos instintos.

Autor : André Rosa

quarta-feira, 10 de janeiro de 2024

Pequenos crimes entre amigos


Se um dia me pedires,
juro que te empresto
o meu coração, tal como
guardei na boca o pequeno deus
que te trazia tão curioso.
A sério. Deixo-te tocar nele,
sentir-lhe o peso, atirá-lo
contra a parede para depois
o apanhares e retirares a pele
de pêssego demasiado maduro.

Podes até queimá-lo
– com cuidado, por favor –
quando estiver mais frio;
ou enterrares os restos debaixo
das estrelícias, de propósito
por saberes que não as suporto.

Em troca, promete-me apenas
que depois me deixas fugir
para saber como é isso de
passar o resto da vida desembaraçada
finalmente desse peso morto.

Autor : Inês Dias

terça-feira, 9 de janeiro de 2024

O Ladrão de Versos


Uma gargalhada do meu filho
rouba-me um verso. Era,
se não erro, um verso largo,
enxuto e musical. Era bom
e certeiro, acreditem, esse verso
arisco e difícil, que se soltara
dentro de mim. Mas meu filho
riu e o verso despenhou-se no cristal
ingénuo e fresco desse riso. Meu Deus,
troco todos os meus versos
mais perfeitos pelo riso antigo
e verdadeiro de meu filho.

Autor : Rui Knopfli
imagem:  David Freske

domingo, 7 de janeiro de 2024

Rotas

 

Escolheu os caminhos seguros
Deixou de parte os trilhos complicados
Perdeu-se nos caminhos salvaguardados

Autor : BeatriceM 2024-01-07
Imagem : Martin Stranka