sábado, 21 de abril de 2018

Adoeço, peno e morro

omar ortiz

Adoeço, peno e morro
quando em ti.

Salteaste-me as defesas.
A sentinela abateste no seu posto.
Puseste fogo na tulha e nas adegas,
condenaste-me ao sono.
Derramaste por acinte
o azeite que restava na candeia.

Exiges
a minha face oculta atrás das mãos
perpetuamente.

Como se eu, digamos, fosse um cão
e como se abrir-te as portas da cidade
fosse um festim
de ossos sobre seda, que o cão
devesse agradecer.

Autor : A.M. Pires Cabral

sexta-feira, 20 de abril de 2018

Que este amor não me cegue nem me siga.


lukrecja czerwonajcio

Que este amor não me cegue nem me siga.
E de mim mesma nunca se aperceba.
Que me exclua do estar sendo perseguida
E do tormento
De só por ele me saber estar sendo.
Que o olhar não se perca nas tulipas
Pois formas tão perfeitas de beleza
Vêm do fulgor das trevas.
E o meu Senhor habita o rutilante escuro
De um suposto de heras em alto muro.

Que este amor só me faça descontente
E farta de fadigas. E de fragilidades tantas
Eu me faça pequena. E diminuta e tenra
Como só soem ser aranhas e formigas.

Que este amor só me veja de partida.

Autor : Hilda Hilst
in 'Cantares do Sem-Nome e de Partidas'

quinta-feira, 19 de abril de 2018

...

erik johansson

não discuto
com o destino
o que pintar
eu assino

Autor : Paulo Leminski

quarta-feira, 18 de abril de 2018

Dá-me a tua mão

omar ortiz

Dá-me a tua mão:
Vou agora te contar
como entrei no inexpressivo
que sempre foi a minha busca cega e secreta.
De como entrei
naquilo que existe entre o número um e o número dois,
de como vi a linha de mistério e fogo,
e que é linha sub-reptícia.
Entre duas notas de música existe uma nota,
entre dois fatos existe um fato,
entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam
existe um intervalo de espaço,
existe um sentir que é entre o sentir
- nos interstícios da matéria primordial
está a linha de mistério e fogo
que é a respiração do mundo,
e a respiração contínua do mundo
é aquilo que ouvimos
e chamamos de silêncio.

Autor : Clarice Lispector

terça-feira, 17 de abril de 2018

Aos Filhos


Ashraful Arefin

Já nada nos pertence,
nem a nossa miséria.
O que vos deixaremos
a vós o roubaremos.

Toda a vida estivemos
sentados sobre a morte,
sobre a nossa própria morte!
Agora como morreremos?

Estes são tempos de
que não ficará memória,
alguma glória teríamos
fôssemos ao menos infames.

Comprámos e não pagámos,
faltámos a encontros:
nem sequer quando errámos
fizemos grande coisa!

Autor : Manuel António Pina
in "Um Sítio onde Pousar a Cabeça"

domingo, 15 de abril de 2018

Cogitações

Ezgi Polat

é só e apenas mais um dia,
em que os sentimentos explodem dentro de mim,
porque, por fora a calma reina
num corpo ausente de afectos
mas dócil e perfeito,
pois as cicatrizes finas
ninguém as vê .

hoje, lembrei da passagem da ponte,
todos os dias, o ir e o vir
só que não sei se no outro dia,
quando vieste pela outra ponte,
foi engano,
ou tão somente para esticar
o tempo em nós.

não sei, e também nunca te irei perguntar…

Autor : BeatriceM 2017-04-07

sábado, 14 de abril de 2018

Cantiga do ódio

Ashraful Arefin

O amor de guardar ódios
agrada ao meu coração,
se o ódio guardar o amor
de servir a servidão.
Há-de sentir o meu ódio
quem o meu ódio mereça:
ó vida, cega-me os olhos
se não cumprir a promessa.
E venha a morte depois
fria como a luz dos astros:
que nos importa morrer
se não morrermos de rastros?

Autor : Carlos de Oliveira
in 'Mãe Pobre'

sexta-feira, 13 de abril de 2018

O que amamos está sempre longe de nós:

Cristina Fornarelli

O que amamos está sempre longe de nós:
e longe mesmo do que amamos - que não sabe
de onde vem, aonde vai nosso impulso de amor.

O que amamos está como a flor na semente,
entendido com medo e inquietude, talvez
só para em nossa morte estar durando sempre.

Como as ervas do chão, como as ondas do mar,
os acasos se vão cumprindo e vão cessando.
Mas, sem acaso, o amor límpido e exacto jaz.

Não necessita nada o que em si tudo ordena:
cuja tristeza unicamente pode ser
o equívoco do tempo, os jogos da cegueira

com setas negras na escuridão.

Autor : Cecília Meireles
in 'Solombra'

quinta-feira, 12 de abril de 2018

Poema para iludir a vida

Ashraful Arefin

Tudo na vida está em esquecer o dia que passa.
Não importa que hoje seja qualquer coisa triste,
um cedro, areias, raízes,
ou asa de anjo
caída num paul.

O navio que passou além da barra
já não lembra a barra.

Tu o olhas nas estranhas águas que ele há-de sulcar
e nas estranhas gentes que o esperam em estranhos
portos.

Hoje corre-te um rio dos olhos
e dos olhos arrancas limos e morcegos.
Ah, mas a tua vitória está em saber que não é hoje
o fim
e que há certezas, firmes e belas,
que nem os olhos vesgos
podem negar.

Hoje é o dia de amanhã.

Autor : Fernando Namora
in "Mar de Sargaços"

quarta-feira, 11 de abril de 2018

Reflexos

Ezgi Polat

Olho-te pelo reflexo
Do vidro
E o coração da noite

E o meu desejo de ti
São lágrimas por dentro,
Tão doídas e fundas
Que se não fosse:

o tempo de viver;
e a gente em social desencontrado;
e se tivesse a força;
e a janela ao meu lado
fosse alta e oportuna,

invadia de amor o teu reflexo
e em estilhaços de vidro
mergulhava em ti.

Autor  : Ana Luísa Amaral

terça-feira, 10 de abril de 2018

linhas cruzadas

laura makabresku

tomaste-me a mão
como quem toma o coração
e sobre a pele
desenhaste linhas de vida
numa linguagem
que aprendi a soletrar.

olhei-te nos olhos
e todas as palavras
até aqui usadas
foram por mim esquecidas.

Autor : LM_14.fev.2018
https://poesiaaremar.blogspot.pt/2018/02/linhas-cruzadas.html

domingo, 8 de abril de 2018

Um aroma

Barry Ross-Smith

Um aroma em tarde de chuva, entrou-me suave e delicado nas narinas e abraçou-me como quem enlaça a cidade.

Vinha de alguém, que nem me via e nem sabia de mim e da minha existência.

Mas enviou-me um sorriso anónimo, e seguiu debaixo da chuva, apressado e fugaz.

Talvez e só por isso, hoje, peguei nos pincéis e dissolvi aguarelas e vou fantasiar um sonho que é apenas um aroma que se infestou em mim e que me recordou outro aroma.
.
Autor : BeatriceMar 2013-04-06

sábado, 7 de abril de 2018

O Amor , Meu Amor

Karen Hollingworth

Nosso amor é impuro
como impura é a luz e a água
e tudo quanto nasce
e vive além do tempo.

Minhas pernas são água,
as tuas são luz
e dão a volta ao universo
quando se enlaçam
até se tornarem deserto e escuro.
E eu sofro de te abraçar
depois de te abraçar para não sofrer.

E toco-te
para deixares de ter corpo
e o meu corpo nasce
quando se extingue no teu.

E respiro em ti
para me sufocar
e espreito em tua claridade
para me cegar,
meu Sol vertido em Lua,
minha noite alvorecida.

Tu me bebes
e eu me converto na tua sede.
Meus lábios mordem,
meus dentes beijam,
minha pele te veste
e ficas ainda mais despida.

Pudesse eu ser tu
E em tua saudade ser a minha própria espera.

Mas eu deito-me em teu leito
Quando apenas queria dormir em ti.

E sonho-te
Quando ansiava ser um sonho teu.

E levito, voo de semente,
para em mim mesmo te plantar
menos que flor: simples perfume,
lembrança de pétala sem chão onde tombar.

Teus olhos inundando os meus
e a minha vida, já sem leito,
vai galgando margens
até tudo ser mar.
Esse mar que só há depois do mar.

Autr : Mia Couto
in "idades cidades divindades"

sexta-feira, 6 de abril de 2018

Retrato de minha mãe


Gustav Klimt

Minha mãe tem flores
nos olhos.
Sóis de estrelas
nas mãos, nos braços.
Luas brancas são
seus seios de seda.
E é grande como o Mundo
e eu chamo-lhe: Mãe!

Autor : Matilde Rosa Araújo
A Guitarra da Boneca, Livros Horizonte, 1983

quinta-feira, 5 de abril de 2018

Estação

Leonid Afremov

Esperar ou vir esperar querer ou vir querer-te
vou perdendo a noção desta subtileza.
Aqui chegado até eu venho ver se me apareço
e o fato com que virei preocupa-me, pois chove miudinho

Muita vez vim esperar-te e não houve chegada
De outras, esperei-me eu e não apareci
embora bem procurado entre os mais que passavam.
Se algum de nós vier hoje é já bastante
como comboio e como subtileza
Que dê o nome e espere. Talvez apareça

Autor : Mário Cesariny

quarta-feira, 4 de abril de 2018

Falavam-me de Amor


Quando um ramo de doze badaladas
se espalhava nos móveis e tu vinhas
solstício de mel pelas escadas
de um sentimento com nozes e com pinhas,

menino eras de lenha e crepitavas
porque do fogo o nome antigo tinhas
e em sua eternidade colocavas
o que a infância pedia às andorinhas.

Depois nas folhas secas te envolvias
de trezentos e muitos lerdos dias
e eras um sol na sombra flagelado.

O fel que por nós bebes te liberta
e no manso natal que te conserta
só tu ficaste a ti acostumado.

Autor : Natália Correia
in 'O Dilúvio e a Pomba'

terça-feira, 3 de abril de 2018

Extravio

karen hollingsworth

Onde começo, onde acabo,
se o que está fora está dentro
como num círculo cuja
periferia é o centro?

Estou disperso nas coisas,
nas pessoas, nas gavetas:
de repente encontro ali
partes de mim: risos, vértebras.

Estou desfeito nas nuvens:
vejo do alto a cidade
e em cada esquina um menino,
que sou eu mesmo, a chamar-me.

Extraviei-me no tempo.
Onde estarão meus pedaços?
Muito se foi com os amigos
que já não ouvem nem falam.

Estou disperso nos vivos,
em seu corpo, em seu olfato,
onde durmo feito aroma
ou voz que também não fala.

Ah, ser somente o presente:
esta manhã, esta sala.

Autor Ferreira Gullar
in: Muitas Vozes ed José Olympo 2013 11ª edição – pág 111

domingo, 1 de abril de 2018

Prece

mikael aldo

Estou acorrentada a uma imagem, que o espelho me traduz
E que não a sinto minha – EU
0lho-me
e atormentada vejo penumbras.
E presa nos gestos
que desprendo
Desenho uma estrela cheia de  luz
Um pedaço de céu
Um pouco de mar
E para lá do espelho
Peço aos Deuses um pouco de paz
E lucidez neste pedaço de Terra

BeatriceMar 2013-03-21

    sexta-feira, 30 de março de 2018

    Soneto do amor e da morte

    Omar Ortiz

    Quando eu morrer murmura esta canção
    que escrevo para ti. quando eu morrer
    fica junto de mim, não queiras ver
    as aves pardas do anoitecer
    a revoar na minha solidão.

    quando eu morrer segura a minha mão,
    põe os olhos nos meus se puder ser,
    se inda neles a luz esmorecer,
    e diz do nosso amor como se não

    tivesse de acabar,
    sempre a doer, sempre a doer de tanta perfeição
    que ao deixar de bater-me o coração
    fique por nós o teu inda a bater,
    quando eu morrer segura a minha mão.

    Autor : Vasco Graça Moura

    quarta-feira, 28 de março de 2018

    Assim eu vejo a vida

    Kris Lewis
    A vida tem duas faces:
    Positiva e negativa
    O passado foi duro
    mas deixou o seu legado
    Saber viver é a grande sabedoria
    Que eu possa dignificar
    Minha condição de mulher,
    Aceitar suas limitações
    E me fazer pedra de segurança
    dos valores que vão desmoronando.
    Nasci em tempos rudes
    Aceitei contradições
    lutas e pedras
    como lições de vida
    e delas me sirvo
    Aprendi a viver.

    Autor :  Cora Coralina

    domingo, 25 de março de 2018

    Tempo

    eduard gordeev

    Em plena primavera
    e em desesperado alvoroço
    a chuva molha-me o corpo
    na inquietude deste frio
    e deste vento.

    E eu nem sinto
    ainda anestesiada
    pelo calor do teu
    arreigado no meu
    e em mim.

    Nem sei, ainda se o arrepio que sinto
    a me percorrer as entranhas
    é do tempo
    se é da memória do teu corpo
    em mim.

    Em Lisboa o verão
    tarda em chegar.
    .
    Autor : BeatriceM 2014-03-30 (reeditado)

    sábado, 24 de março de 2018

    Saudades


    Sinto saudades de tudo que marcou a minha vida.
    Quando vejo retratos, quando sinto cheiros,
    quando escuto uma voz, quando me lembro do passado,
    eu sinto saudades…

    Sinto saudades de amigos que nunca mais vi,
    de pessoas com quem não mais falei ou cruzei…

    Sinto saudades da minha infância,
    do meu primeiro amor, do meu segundo, do terceiro,
    do penúltimo e daqueles que ainda vou ter, se Deus quiser…

    Sinto saudades do presente,
    que não aproveitei de todo,
    lembrando do passado
    e apostando no futuro…

    Sinto saudades do futuro,
    que se idealizado,
    provavelmente não será do jeito que eu penso que vai ser…

    Sinto saudades de quem me deixou e de quem eu deixei!
    De quem disse que viria
    e nem apareceu;
    de quem apareceu correndo,
    sem me conhecer direito,
    de quem nunca vou ter a oportunidade de conhecer.

    Sinto saudades dos que se foram e de quem não me despedi direito!

    Daqueles que não tiveram
    como me dizer adeus;
    de gente que passou na calçada contrária da minha vida
    e que só enxerguei de vislumbre!

    Sinto saudades de coisas que tive
    e de outras que não tive
    mas quis muito ter!

    Sinto saudades de coisas
    que nem sei se existiram.

    Sinto saudades de coisas sérias,
    de coisas hilariantes,
    de casos, de experiências…

    Sinto saudades do cachorrinho que eu tive um dia
    e que me amava fielmente, como só os cães são capazes de fazer!

    Sinto saudades dos livros que li e que me fizeram viajar!

    Sinto saudades dos discos que ouvi e que me fizeram sonhar,

    Sinto saudades das coisas que vivi
    e das que deixei passar,
    sem curtir na totalidade.

    Quantas vezes tenho vontade de encontrar não sei o que…
    não sei onde…
    para resgatar alguma coisa que nem sei o que é e nem onde perdi…

    Vejo o mundo girando e penso que poderia estar sentindo saudades
    Em japonês, em russo,
    em italiano, em inglês…
    mas que minha saudade,
    por eu ter nascido no Brasil,
    só fala português, embora, lá no fundo, possa ser poliglota.

    Aliás, dizem que costuma-se usar sempre a língua pátria,
    espontaneamente quando
    estamos desesperados…
    para contar dinheiro… fazer amor…
    declarar sentimentos fortes…
    seja lá em que lugar do mundo estejamos.

    Eu acredito que um simples
    “I miss you”
    ou seja lá
    como possamos traduzir saudade em outra língua,
    nunca terá a mesma força e significado da nossa palavrinha.

    Talvez não exprima corretamente
    a imensa falta
    que sentimos de coisas
    ou pessoas queridas.

    E é por isso que eu tenho mais saudades…
    Porque encontrei uma palavra
    para usar todas as vezes
    em que sinto este aperto no peito,
    meio nostálgico, meio gostoso,
    mas que funciona melhor
    do que um sinal vital
    quando se quer falar de vida
    e de sentimentos.

    Ela é a prova inequívoca
    de que somos sensíveis!
    De que amamos muito
    o que tivemos
    e lamentamos as coisas boas
    que perdemos ao longo da nossa existência…

    Autor  : Clarice Lispector

    sexta-feira, 23 de março de 2018

    ....

    Herberto Hélder Luís Bernardes de Oliveira 
    Funchal 1930 -11-23
    Cascais 2015-03-23

    um dia destes tenho o dia inteiro para morrer,
    espero que não me doa,
    um dia destes em todas as partes do corpo,
    onde por enquanto ninguém sabe de que maneira,
    um dia inteiro para morrer completamente,
    quando a fruta com seus muitos vagares amadura,
    o dom – que é um toque fundo na ferida da inteligência:
    oh será que um poema entre todos pode ser absoluto?
    :escrevê-lo, e ele ser a nossa morte na perfeição de poucas
    linhas

    Autor : Herberto Helder

    domingo, 18 de março de 2018

    Pai


    Saul Landell

    Era cedo, quando partiste
    Tão terrivelmente cedo
    Na hora e no tempo

    No teu e no meu tempo
    Eu era tao pequena, tão pequena
    Que  ainda te imagino gigante

    Num dia claro e frio
    Tão frio, já tão distante
    Partiste...

    Autor : BeatriceM

    sábado, 17 de março de 2018

    As palavras aproximam

    Natália Drepina

    As palavras aproximam:
    prendem-soltam
    são montanhas de espuma
    que se faz-desfaz
    na areia da fala

    Soltam freios
    abrem clareiras no medo
    fazem pausa na aflição

    Ou então não:
    matam
    afogam
    separam definitivamente

    Amando muito muito
    ficamos sem palavras

    Autor  : Ana Hatherly