sábado, 1 de agosto de 2015

SÁBADO



Um sábado como qualquer outro. E único. Belo azul frio no céu--tecto do mundo e dos dias--saio da concha de mim e vejo o mar das ruas. Sei que estão diferentes, que alguma coisa se perdeu ou acrescentou, mas não distingo. Por essa nuvem de não saber, entra o chumbo liquefeito do tédio. Estarei com os meus companheiros que velam pela beleza do mundo. Encontrarei argumentos, debates, entoarei em voz... clara as vitórias que enaltecem e os perigos que estimulam; esforços onde o fogo se acalme e gaste e nada será suficiente, nada será absoluto. Sei que é um dia de fevereiras emergências. Os caminhos são estes, fui eu que os desenhei sem ao menos uma lição de pintura. Entra o gelo pelo coração acima, por vezes, as veias destravam, ignição desesperada na procura. O Nada sempre triunfa, até o velho jacarandá toma as dores de uma dignidade magoada, uma pose de madeiras gastas, mas de pé. Assume, vegetal, a transcendente banalidade do aprumo e da coragem. Contra ele o vento já nada pode e nada quer. Nada vence.

No meio de grandes decisões e rasgos, de alterosas fúrias, de afirmativos propósitos, escondido procuro a periferia de tudo, uma só hora que brilhe, encanto, inocência pristina, talvez um sorriso, um aceno de ternura ao longe com o sol posto rindo-se da ousadia, ou olhos impossíveis, na neblina do passado ou na pálida cinematografia de um sonho a cores. Nada é real, Nada fica.

Um sábado como nenhum mais.

Autor:Bernardino Guimarães

sexta-feira, 31 de julho de 2015

Janela Corporal


Zin Limit

Abro a janela do teu corpo
Afasto as vestes dos teus cabelos
Acaricio os degraus do teu seio
E digo-te…
Vem murmúrio doce
A manhã é eterna quando se ama!

Autor : José Luís Outono
in Mar de Sentidos (Ed. Vieira da Silva, 2012)

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Coisas Tuas


Levo coisas tuas
para poder estar contigo
na distância.
Para nunca te perder a companhia,
mesmo não estando.
Levo gravado o teu gesto,
o pranto, o riso, e,
(ora inocente, ora picante),
o teu sorriso,
que é a tua expressão,
o teu maior encanto.
E levo um objecto,
teu pertence,
como se o espaço tivesse autoridade
e o tempo nos afastasse.

Como se fosse preciso...

Autor: Margarida Faro
In 44 Poemas (Fonte da Palavra 2011)

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Quero o teu corpo

Nishe

Vejo o teu corpo
deitado no ar que respiro
humedecido de estrelas.

Sinto o teu corpo
de luar que me incendeia
no frio da insónia.

Ouço o teu corpo
Ao sol e à chuva, que afago baixinho
Com mãos de guitarra.

Cheiro o teu corpo
tépido e branco, que me inebria
com pérolas vivas.

Provo o teu corpo
oásis de mim, que ocupo sedento
cheio de água da paz.

Quero o teu corpo
da alma trajado, que anseio ditoso
e arrebatado.

Autor : Jaime Portela
http://riosemmargenspoesia.blogspot.pt/

domingo, 26 de julho de 2015

....



Dissolvi o tempo em pedaços de ilusões,
desdobrei-me em utopias.

E o dia pachorrento seguiu seu curso
Ignorando a minha sede de  aventura.

Deixem-me só, com os olhos cerrados
eu encontrarei o (meu) caminho.
.
BeatriceMar 2013-05-12
Reeditado
foto GNP


sábado, 25 de julho de 2015

...

julie de waroquier

entro pela primeira vez no quarto onde
fechaste a porta devagarinho e foste
morrer de mim como se morre
de doença que ninguém espera
e por momentos ainda acredito que
o nosso tempo é este que o relógio guarda
embora saiba que nunca
há relógios certos para o tempo
de quem nos abandona
e as sombras que as persianas desenham nas paredes

servem apenas para tentar salvar a vida de quem
vai regressar em teu lugar

e nem entende por que o chamaram

Autor : Alice Vieira
in OS Armários da Noite(Caminho 2014)

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Pecado Original


Corsino António Fortes 
 Mindelo, 14 de Fevereiro de 1933
Mindelo, 24 de Julho de 2015

Passo pelos dias
E deixo-os negros
Mais negros
Do que a noute brumosa.

Olho para as coisas
E torno-as velhas
Tão velhas
A cair de carunchos.

Só charcos imundos
Atestam no solo
As pegadas do meu pisar
E fica sempre rubro vermelho
Todo o rio por onde me lavo.

E não poder fugir
Não poder fugir nunca
A este destino
De dinamitar rochas
Dentro do peito...

Autor :Corsino Fortes
(Claridade, 1960

quarta-feira, 22 de julho de 2015

Pequeno Poema

Gustav Klimt
quando eu nasci
ficou tudo como estava.
Nem homens cortaram veias,
nem o Sol escureceu,
nem houve estrelas a mais...
Somente,
esquecida das dores,
a minha Mãe sorriu e agradeceu.
Quando eu nasci,
não houve nada de novo
senão eu.
As nuvens não se espantaram,
não enlouqueceu ninguém...
Pra que o dia fosse enorme,
bastava
toda a ternura que olhava
nos olhos de minha Mãe...


Autor: Sebastião da Gama
in Antologia Poética(edição póstuma)

sexta-feira, 17 de julho de 2015

MIra Nedyalkova

há qualquer coisa que me faz desejar-te,
ser qualquer coisa num qualquer lugar teu;
que me faz regressar de qualquer parte.

há qualquer coisa em ti que produz qualquer coisa em mim,
uma qualquer coisa que não encontra um simples fim;
qualquer coisa que simplesmente me ilumina o escuro,
me preenche de qualquer forma, em coisas de alheado,
e que me faz lembrar qualquer coisa sobre o futuro,
qualquer coisa como: ter um qualquer mais cuidado....

Autor: Henrique Caldeira dos Santos

quarta-feira, 15 de julho de 2015

Estamos tão sós


Laura Makabresku


O que nos afasta
uns dos outros
é o que nos aproxima
uns dos outros. Este
ser ao mesmo tempo
um e outro. Este ser
ao mesmo tempo
todo e parte desse
todo. Estamos tão
sós quando nos
bastaria apenas ser.

Autor : luís ene

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Perdi as mãos por tão pouco

lukrecja czerwon ajcio

Perdi as mãos por tão pouco.
Por uma gota da água dos teus olhos,
pelo rumor na tua boca,
pelo ciciar dos ventos nas muralhas.
perdi as mãos por tão pouco…
Ficou-me a fome na boca,
fome de quem nada deseja
para além da antemanhã.
Acho um a um os meus dedos
delgados, ventos nos cabelos,
as palmas das mãos tão sulcadas,
tão leito onde as águas se demoram.
Com as minhas mãos perdidas
encontro branca
a nudez das tuas.
Com elas brinca
a fragrância da madrugada.


Autor : Lília Tavares
in PARTO COM OS VENTOS (Kreamus, 2013)

quarta-feira, 8 de julho de 2015

por ti deitei o meu corpo ao mar

Elena Kalis
por ti deitei o meu corpo ao mar
sem cuidar que a maré me esquecesse
por ti aprendi como as coisas se tocam
como o trigo entende o vento e a terra
como amanhecem as crianças sobre as mães

por ti dormi no sobressalto dos vales
entre sossegos mudos e noites espessas
por ti toquei a gravidez das nuvens
toquei os filhos semeados no inverno
toquei a mulher que espanta o frio

e imaginei que me ouvisses na distância
que me lembrasses a meio do mês branco
quando nos campos as pétalas escrevem
o teu nome quando a mão anuncia a ternura
que é quando os meus olhos procuram os teus


Autor : Vasco Gato
in Um mover de mão, Assírio & Alvim, 2000

segunda-feira, 6 de julho de 2015

...




Percorro
o mesmo caminho
uma e outra vez


e o mesmo caminho
uma e outra vez
conduz-me


a diferentes

e estranhos
locais





Autor : luís ene

sexta-feira, 26 de junho de 2015

ESTAVA PRECISAMENTE A DIZER-TE

Jonni Avri

Estava precisamente a dizer-te
que o meu coração tem um sorriso ao qual não
me oponho porque esse sorriso tem a forma de
um barco que desliza sobre qualquer mar
de lágrimas. Fico satisfeito por teres perdoado
as minhas palavras. Cada uma delas quer ser melhor
que a outra. Sabes?, isto de ser poeta não é de facto
coisa que se recomende, e um verbo é como o vento.
Se alteras o tempo verbal, mudas a direcção do
vento, quero eu dizer, a direcção do pensamento. O que
canto não é o que cantei, e também decerto não será
o que cantarei um dia. Por isso estava a dizer-te
que o meu coração sorri. E não sorri
apenas. Adora andar por aí, a assobiar
o futuro. Fazendo justiça
a quem me lê.

Autor : Joaquim Pessoa
in O POETA ENAMORADO
Prefácio de Guilherme Antunes.

Editora Edições Esgotadas, 2015.

quinta-feira, 25 de junho de 2015

A Cor da Tua Alma



Enquanto eu te beijo, o seu rumor
nos dá a árvore, que se agita ao sol de ouro
que o sol lhe dá ao fugir, fugaz tesouro
da árvore que é a árvore de meu amor.

Não é fulgor, não é ardor, não é primor
o que me dá de ti o que te adoro,
com a luz que se afasta; é o ouro, o ouro,
é o ouro feito sombra: a tua cor.

A cor de tua alma; pois teus olhos
vão-se tornando nela, e à medida
que o sol troca por seus rubros seus ouros,
e tu te fazes pálida e fundida,
sai o ouro feito tu de teus dois olhos
que me são paz, fé, sol: a minha vida!


Autor : Juan Ramón Jiménez,

in "Ríos que se Van"
Tradução de José Bento

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Poema

Magdalena Mazd

Antes isto fosse
mãos e pés verdadeiros,
caminho verdadeiro
e machados,
arados,
mãos crescendo nas trevas.
Antes isto fosse
um canto de galos
além nos quintais,
e homens correndo
nas sombras da noite.
Ah, fossem isto ventos,
fossem isto ventos!
desabar de casas,
largada de navios
na madrugada
com acenos e gritos reais.
Fosse isto sangue
a ensopar-me a camisa,
fosse isto sangue!
quente e espesso
nas minhas mãos.


Autor : Papiniano Carlos

sexta-feira, 19 de junho de 2015

.

anka zhuravleva

Deixem-me voar...
Se me tirarem as asas
deixarei de ser quem sou
serei um outro qualquer
se me tirarem as asas
não saberei onde estou
nem o que hei-de fazer
só sei que com asas
voarei enquanto puder
mesmo que em contravento
e se me tirarem as asas
é certo que me levarão
também o pensamento!

Autor : José Alex Gandum (JAG)
  

domingo, 14 de junho de 2015

As tuas mãos

Vera von Nicest

As tuas mãos insurrectas
libertaram todos os pássaros
que viviam em mim
e que eu nem sabia.

Ainda hoje sinto que
os pássaros adejam sempre
para além de mim
e de nós.
.
Beatrice Mar 2914-05-02
reeditado



quinta-feira, 11 de junho de 2015

Poesia

fabrizia milia

A paixão é a moral da poesia: arrisquem a cabeça se querem entender; arrisquem o corpo, a sua medida, se pretendem descobrir o centro do corpo; e sim, arrisquem sobretudo o nome pessoal para ouvirem o nome de baptismo como o coroado nome da terra.

Autor - Herberto Helder
Jornal Público, 4 Dezembro 1990

segunda-feira, 8 de junho de 2015

4140



Amo-te antes do chá da manhã. Quando ele se aproxima. já o chá dos nossos corpos foi transformado no mais sedoso dos sabores.

Autor : Casimiro de Brito
FRAGMENTOS DO LIVRO DE EROS

domingo, 7 de junho de 2015

Adormeceste


    Roebrt


    Adormeceste, quando a luz débil,
    descaía sobre o teu corpo – nú
    contemplei-te,
    com o olhar narcotizado em ti.

    Deixei-te sossegado e quando enfrentei,
    o frio da madrugada,
    ainda levava o sabor do teu beijo,
    em minha boca.

    Por momentos, e ainda com a tua imagem,
    entranhada em meu olhar,
    em pensamentos, delineei uma tela.

    Que ainda ninguém ousou pintar
    .
    BeatriceMar 31/08/2014

    reeditado

    sábado, 6 de junho de 2015

    Mareantes do Vento


    Crescemos na nudez das rochas

    crescemos e desmaiamos
    conforme as marés

    Vertemo-nos líquidos
    em caudais de sons
    ardidos no sal
    no delírio da espuma
    por todo o corpo

    Crescemos na substância das pedras
    com asas muito leves

    Não somos barco de carregar velas
    somos mareantes do vento


    Autor : Eufrázio Filipe
    http://mararavel.blogspot.pt/

    quarta-feira, 3 de junho de 2015

    ...



    passo a noite, a escrever...
    sem falar o que penso
    sem sentir o que digo
    sem dizer o que escrevo.
    não apontei o que escrevi
    rasgo as palavras
    para não ler o que senti...


    Autor : Nuno Caetano

    terça-feira, 2 de junho de 2015

    Da música

    lilyenn

    A musica derrama-se
    no corpo terroso
    da palavra. Inclina-se
    no mundo em mutação
    do poema.
    A música traz na bagagem
    a memória do sangue; o caminho
    do sol: Lume e cume
    de palavras polidas.
    A música rompe um rio de lava
    por si mesmo criado. Lágrima
    endurecida
    onde cabem o mar
    e a morte.

    Autor : Casimiro de Brito

    Canto Adolescente

    segunda-feira, 1 de junho de 2015

    Dia da Criança

    Judith Urmes

    que todos os dias sejam dias das crianças...e de nós.